1973: O Ano que Reinventou a MPB
…É João Donato
QUEM É QUEM − JOÃO DONATO
Antonio Carlos Miguel
om o tantos outros eventos no traj eto do personagem de Quem é Quem, esse disco, divisor de águas em sua obra e carreira,
C nasceu fruto do acaso. Em fins de 1972, após 13 anos fora do Brasil, João Donato veio atrás de um a paixão que não rolou. Meses depois, sem am or ou perspectiva de trabalho no Rio, ele se preparava para retornar aos EUA, onde, além de um a carreira com o pianista, com positor e arranj ador, deixara a filha, Jodel, e a ex-m ulher, a am ericana Patricia, quando um telefonem a de despedida para Marcos Valle m udou seus planos.
Parte dessa história é contada num texto na contracapa do LP lançado em 1973: “... Agora, voltou por um am or, que acabou não dando pé. Mas resolveu ficar. Encontrou-se com Marcos Valle e decidiu-se por fazer um disco novo de João Donato na Odeon. Aliás, é o segundo que ele faz para o Odeon, pois o prim eiro foi feito em m eados de 50, tocando acordeom , produzido pelo Tom . É Donato com m úsicas novas, tocando piano elétrico e até cantando, que foi um a ideia nascida num papo entre ele, Marcos e Agostinho dos Santos.”
Retom ando o fio, ao receber aquela cham ada, Marcos Valle, que nem sabia que Donato estava no Rio, pediu para o am igo aguardar m ais um pouco, enquanto sondava com a Odeon a possibilidade de um disco. A sugestão foi aceita pelo então diretor de produção da gravadora, Milton Miranda, e assim , cercado de velhos e novos am igos, ele gravou Quem é Quem … é João Donato. Disco que, além de (re)apresentar aos brasileiros um artista que era adm irado por poucos e bons conterrâneos – de Dorival Cay m m i a João Gilberto, de Tom Jobim a Johnny Alf –, foi o responsável por sua volta definitiva à cidade que o adotou em 1946, quando a fam ília de Donato trocou Rio Branco, no Acre, pelo Rio de Janeiro.
Antes do retorno em 1972, Donato estivera apenas um a vez no Brasil. Entre fins de 1963 e o início de 1964, após a quase lendária tem porada de quatro m eses em Viareggio, no litoral da Itália, de um “quarteto fantástico da Bossa Nova”: os Joãos Gilberto (violão e voz) e Donato (piano), m ais Tião Neto (baixo) e Milton Banana (bateria). E pensar que, pelo que se sabe, ninguém gravou um a noite sequer dessas apresentações! Eles foram atração fixa, entre j ulho e setem bro de 1963, no clube noturno Il Bussolotto, e tiveram que recusar convites para outros shows após João Gilberto travar a m ão (procurando um daqueles acordes im possíveis) e ir se tratar com um acupunturista em Paris.
Term inado esse com prom isso com seu xará, Donato passou na Califórnia, pegou Patricia e a filha Jodel, então com um ano, e chegou ao Rio no fim de 1963. Morou uns tem pos com a m ãe e depois num apartam ento em prestado por Jobim na Zona Sul, m as, sem m uitas perspectivas, e sofrendo com os apagões e a constante falta de água daquele período pré-golpe de 64, acabou voltando para os EUA. Felizm ente, as sessões que fez para a Philips (atual Universal Music) renderam dois discos instrum entais influentes para o sam ba-j azz que então se dissem inava no Brasil, Muito à Vontade e A Bossa Muito Moderna de João Donato e Seu Trio. O trio trazia dois dos com panheiros na tem porada italiana, Tião Neto e Milton Banana, m ais o percussionista Am aury Rodrigues.
Desde 1959 vivendo nos EUA – ele tinha em barcado no m esm o 24 de outubro em que m orreu Dolores Duran, sua nam orada oito anos antes, para um a tem porada de algum as sem anas num cassino em Lake Tahoe, Nevada, que acabou sendo prolongada indefinidam ente –, Donato voltava ao Brasil im pregnado por sua experiência na cena do nascente Latin Jazz, ou j azz afro-cubano. Período em que foi pianista da orquestra de Johnny Martinez e, por dois anos, do grupo do percussionista Mongo Santam aria, tam bém participando do álbum de estreia do pianista Eddie Palm ieri, e tendo com posições gravadas pelo vibrafonista Dave Pike (um disco inteiro com tem as de Donato, Bossa Nova Carnival, em 1962) e pelo percussionista e band leader Tito Puente.
Na virada dos anos 40 para os 50, quando Donato com eça a se profissionalizar, os ritm os cubanos estavam em alta e aconteciam as prim eiras fusões com o j azz, feitas por, entre outros, Charlie Parker, Dizzy Gilliespie e a orquestra da Stan Kenton, este, um dos ídolos do então j ovem acordeonista. Portanto, de algum a form a, ele se sentiu em casa quando teve que se virar para sobreviver nos EUA.
Com o se sabe, entre as fontes para a batida bossa-nova do violão de João Gilberto está o estilo de Donato no acordeom . Juntem os aos dois outro xará, Johnny Alf, o com positor que prim eiro entortou tudo, e tem os m ais um quarteto fantástico da Bossa Nova, esse o dos inventores, encabeçados por Antônio Carlos Jobim , aquele que m elhor reuniu e organizou todos os ingredientes desse estilo preciso e precioso. Mas, em 1959, quando, viu que a saída para sua independência m usical passava pelo Galeão, Donato não pensou duas vezes e carim bou o passaporte.
Entre a breve passagem de 1963/64 e a volta acidental m as definitiva em 1972, Donato viveu m uitos outros encontros e experiências m usicais, gravando com Bud Shank, Cal Tj ader, Chet Baker, Sergio Mendes e Bossa Rio… Foi o arranj ador e pianista de Astrud Gilberto, trabalhou com Tom Jobim nos EUA; gravou solo, do disco com arranj os de Claus Ogerm an (The New Sound of Brazil) à pioneira fusion de A Bad Donato… Em 1972, resolveu viaj ar para o Brasil, m as antes, a pedido de Dom Um Rom ão, passou por Nova York, participando do disco que o baterista e percussionista fez para a Muse Records. O pessoal da Muse gostou e, convidado pelo produtor Joe Fields, Donato iniciou um disco próprio. Mas, depois, com viagem m arcada para o Brasil, deixou seus tem as nas m ãos de Eum ir Deodato, que cuidou dos arranj os e da escalação de um dream team, do qual faziam parte Airto Moreira, Ray Barretto, Randy Brecker, Mauricio Einhorn e Bob Rose. Lançado com o Donato/Deodato - featuring João Donato, Arranged and Conducted by Deodato (Muse, 1973), nas edições seguintes teve apenas o nom e João Donato e, até hoj e, é assunto tabu entre Deodato e Donato.
Foi com esse histórico e transbordando de m usicalidade e novidades para a MPB da época que Donato fez Quem é Quem. É quando entra em cena outro personagem im portante para a concretização desse disco, o cantor Agostinho de Santos, que, na época, vinha insistindo para que os tem as instrum entais de Donato ganhassem letras. Infelizm ente, um acidente de avião, em Paris, em j ulho de 1973, tirou de cena esse intérprete de voz privilegiada, que, certam ente, teria passeado com autoridade e prazer pelo repertório que Donato e seus novos parceiros produziram então.
Obedecendo a sequência do álbum , as letras ficaram com Paulo César Pinheiro, então j á consagrado com o letrista de Baden Powell, que divide as duas prim eiras, “Chorou, chorou” e Terrem eto, e volta na sexta faixa, “Ahiê”; o poeta João Carlos Pádua está na quarta, “Fim de sonho”; outro então j ovem poeta, Geraldo Carneiro, que j á tinha parcerias com Eduardo Souto Neto (e depois m anteria um traj eto paralelo com o letrista para artistas com o Egberto Gism onti, A Barca do Sol, Francis Him e e até um a parceria com Astor Piazzolla), é autor da oitava “Nanã das águas” (e ainda é creditado com o coautor da seguinte, a instrum ental “Me deixa”); o irm ão Ly sias Ênio escreveu as letras de duas, que estão até hoj e entre os m aiores sucessos de Donato, “Até quem sabe” e “Mentiras” (essa, na voz de Nana Cay m m i, com quem João iniciava um nam oro). “Até quem sabe” (logo em seguida regravada por Gal Costa no álbum Cantar, lançado em 1974) tinha sido gravada com o um tem a instrum ental, “You can go”, no tal polêm ico disco de Donato e Eum ir Deodato. Antes de ganhar o nom e e a letra definitivos, teve um a versão com o “As quatro estações do am or”, m as Marcos Valle im plicou, dizendo: “Tem m uitas palavras para poucas notas.” Ali m esm o no estúdio, Ly sias teria reescrito “Até quem sabe”, canção para qual Donato pedira letras a três outros, incluindo Dorival Cay m m i. O próprio Cay m m i disse que a m elhor era a letra de Ly sias e ainda por cim a, fato raríssim o, entregou a Donato um a canção inédita, “Cala boca m enino” (faixa 7 no CD, m as que abria o lado B do LP original), cantada por Nana e com baixo de Novelli.
Outro tem a instrum ental gravado antes no disco Donato/Deodato, “Where’s J.D?” virou “Cadê Jodel?” na letra copidescada por Marcos Valle, j á que a derradeira canção de Quem é Quem trata de questão pessoal de Donato, lam entando a distância da filha, então com 10 anos, que ficara com a m ãe na Califórnia.
O disco tem , além da j á citada “Me deixa”, dois outros tem as instrum entais que tam bém estão entre os seus m aiores clássicos e depois ganharam letras, “Am azonas” (faixa 3) e “A rã” (faixa 5).
Gravada em sua versão instrum ental original, “Am azonas” aparece nos créditos de Quem é Quem com um subtítulo em inglês, “Keep talking”. Foi assim que, com letra de Cry stal tam bém em inglês, em 1966 o tem a de Donato rodou o m undo pop na voz de Chris Montez. Na verdade, a m úsica tinha sido gravada um ano antes, abrindo o álbum Piano of João Donato: The New Sound of Brazil, que o com positor e pianista fez em Nova York, em 1965, com arranj os e regências de Claus Ogerm an (o m aestro alem ão dos prim eiros discos de Jobim no EUA, que continuaria trabalhando com Tom e tam bém João Gilberto). Provavelm ente foi Ogem an quem apresentou “Am azon” aos produtores do álbum Time After Time de Montez, entre eles, Herb Alpert (o “A” e um dos fundadores do selo A& M) e Tom m y LiPum a. Nascido em Los Angeles m as de raízes m exicanas, Chris Montez foi um dos prim eiros astros da A& M Records. Realizou um a versão suave (bossa-novista) do pop para standards e sucessos da época que iam de “Yesterday ” (Lennon & McCartney ) a “The Girl from Ipanem a” (Jobim e Vinicius na versão de Ray Gilbert). Posteriorm ente, “Am azonas” ganhou duas letras em português, a prim eira e m ais conhecida nos anos 80, assinada por Ly sias Ênio, enquanto “Am azonas 2”, no fim dos anos 90, realizada por Arnaldo Antunes e Péricles Cavalcanti.
Já “A rã” tinha sido lançada por Sergio Mendes & Brasil ’66, no disco Look Around (1967), então atendendo pelo nom e “The frog”. Três anos depois, João Gilberto a regravou com o “O sapo” no LP En Mexico. Em am bas gravações ouvim os o vocalise com a “letra” original de Donato, que ele m antém em Quem é Quem: “Gorogondom , gorogondom , gondom , gazainguê, gazainguê, inguê…”. Segundo o próprio, esses são sons de sapos e rãs dos rios na Am azônia, e são bem m ais sim ples de cantar do que a posterior genial e “trava-línguas” letra que Caetano fez para Gal no disco Cantar, em 1974.
Com esse repertório que passava por sam bas, rum bas, boleros e baladas, João Donato abriu um novo horizonte para a m úsica popular brasileira da época. O repertório que teve acom panham ento à altura. A pedido de Donato, Bebeto Castilho, am igo e parceiro em grupos da j uventude nos anos 1950, j untou-se a ele nas sessões de Quem é Quem. O grupo de base ainda tinha Hélio Delm iro na guitarra e Lula Nascim ento na bateria. “Mentiras”, com participação de Nana Cay m m i, é gravada sem que o tem po da m úsica fosse determ inado, o cham ado “rubatto”, sendo que sem um m aestro determ inando a entrada de cada instrum ento: “Hélio Delm iro foi quem nos conduziu, ao perceber um a deixa após o canto de Nana”, relem brou Bebeto em conversa com esse escriba. “O m inim alism o de Donato é de surpreender. Com três notas ele resolve tudo”, com pleta Bebeto. “E, no piano, é fantástico com o ele faz aquelas inversões de m ão. Quando está lendo, fica com um a m ão só e vira a página e a gente nem percebe.”
Minim alista e grandioso na sua essência e m usicalidade, Quem é Quem é puro João Donato.
Q uem é Q uem (Odeon − SMOFB 3785)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Marcos Valle
Diretor técnico: Z. J. Merky
Técnicos de gravação: Dacy e Toninho
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Nivaldo Duarte
Lay out: Joel Cocchiararo
Foto: Alexandre Souza Lim a
Orquestradores e regentes:
Ian Guest, Laércio de Freitas, Dory Cay m m i e João Donato
Músicos:
João Donato: piano e teclados
Hélio Delm iro: violão e guitarra
Lula Nascim ento: bateria
Bebeto de Freitas: baixo
Novelli: baixo e voz
Nana Cay m m i: voz em “Mentiras”
Lado A
1. Chorou Chorou (João Donato e Paulo César Pinheiro)
2. Terremoto (João Donato e Paulo César Pinheiro)
3. Amazonas (João Donato)
4. Fim de Sonho (João Donato e João Carlos Pádua)
5. The Frog (João Donato)
6. Ahiê (João Donato e Paulo César Pinheiro)
Lado B
1. Cala Boca Menino (Dorival Cay m m i)
2. Nãna das Águas (João Donato e Geraldo Carneiro)
3. Me Deixa (João Donato e Geraldo Carneiro)
4. Até Q uem Sabe (João Donato e Ly sias Ênio)
5. Mentiras (João Donato e Ly sias Ênio)
6. Cadê Jodel (João Donato e Marcos Valle)