1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 27 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Psicodelia Arretada uma Nova Era

PSICODELIA ARRETADA

UMA NOVA ERA

SATWA − LULA CÔRTES E LAILSON

MARCONI NOTARO NO SUB-REINO DOS METAZOÁRIOS − MARCONI

NOTARO

 

José Teles

 

SATWA - LULA CÔRTES E LAILSON

em origem em 1972 a m aioria dos grandes discos de 1973, ano em se que fechou um ciclo de um a década de revolução na

 

T m úsica popular, cuj o m arco zero é Please Please Me, o álbum de estreia dos Beatles. Um dos discos desta, convenham os, nova era, é Satwa, dos pernam bucanos Lailson e Lula Côrtes, lançado há 40 anos. O álbum foi gravado em j aneiro daquele ano, nos estúdios da Fábrica de Discos Rozenblit, no Recife. Provavelm ente, foi o prim eiro LP independente da m oderna m úsica brasileira.

Há controvérsias quanto à prim azia de Satwa com o disco feito às próprias custas, sem o am paro de um a gravadora estabelecida. Mas, sem dúvidas, Lailson e Lula se anteciparam em três anos ao Feito em Casa, de Antônio Adolfo, de 1977, citado em praticam ente todos os livros de história da MPB com o o pontapé inicial do disco feito por um artista sem vínculos contratuais com um a gravadora e produzido com dinheiro do próprio bolso. Na verdade, no final dos anos 40, a cantora Carm elia Alves estrearia sua discografia com um 78rpm bancado com dinheiro arrecadado entre parentes. Enquanto que nos anos 60, inconform ados com as barreiras im postas na Rozenblit, um grupo de autores e cantores de frevo criou um selo, o Capibaribe, para lançar as m úsicas que com puseram para o carnaval.

Lailson de Holanda Cavalcanti foi contam inado pelo m icróbio do rock num a tem porada que passou nos Estados Unidos no início dos anos 70. O talento de desenhista aflorou e ele passou a trabalhar com ilustração, tendo até entrado num a agência de publicidade (poucos anos m ais tarde seria um dos cartunistas m ais prem iados do país). Foi com o dinheiro recebido de um a indenização que ele bancou Satwa, trabalho que vinha sendo ferm entado desde que conheceu Lula Côrtes, espécie de guru da cena udigrudi pernam bucana.

Com a então m ulher, a hoj e cineasta, Kátia Mesel, Côrtes orientava o m ovim ento e organizava a carnavalização da conservadora capital de Pernam buco, dando continuidade, m as sem ligação direta, com a vertente tropicalista que irrom peu no final dos anos 60 no Recife e em Olinda, prom ovendo ações e provocando reações. A casa em que m oravam , em Casa Forte (bairro hom enageado por Edu Lobo, em m úsica hom ônim a) foi onde Lula e Lailson com eçaram a, com o se dizia então, “tirar um som ”.

De Casa Forte para Afogados, onde se localizava a Fábrica de Discos Rozenblit. A em presa dos irm ãos Rozenblit com eçara a derrocada que a levaria a fechar as portas dez anos m ais tarde. Os estúdios j á eram obsoletos, com equipam entos danificados pelas constantes inundações do rio Capibaribe: “As condições m uuuuito básicas! Se fizéssem os o overdub m uito distante da m esa, dava delay! Sério! Mas era bem espaçoso e era m uito legal. Era a prim eira vez que eu entrava em um estúdio de verdade, só conhecia estúdio de televisão”, conta Lailson.

Ele e Lula chegaram com tem as pré-gravados, m as a m úsica de Satwa foi criada ad lib, com im provisos em cim a de um tem a. Nada de letras. Nem Lailson, nem Lula tinham intenções, nem paciência, de dar explicações à Polícia Federal, aos quais seriam obrigados a subm eter às letras, para aprovação ou não. Isso foi o que facilitou a liberação do LP.

Mesm o sem letra, as m úsicas tinham títulos com prom etedores, com eçando pelo nom e do disco. Satwa ou Sattva, um a das três trigunas no hinduísm o, base da criação do universo (as outras são Raj a e Tam a), não por acaso, soa igual a sativa (de cannabis): “Coincidência sonora, claro! Só porque tem um a m úsica fazendo a transcendente questão ‘Can I be Satwa?’ surgem essas especulações. Nunca que tal associação de ideias passaria pela cabeça de dois artistas com pletam ente norm ais com o Lailson & Lula Côrtes em 1973”, ironiza Lailson.

Entre 20 e 31 de j aneiro de 1973, Lula Côrtes e Lailson cuidaram da elucubração de Satwa, com Robertinho botando guitarra no “Blue (sem o “s”) do cachorro m uito louco” (que precisou ser repetido várias vezes, pelas deficiências técnicas do estúdio). “O Cachorro m uito louco” vale lem brar era personagem do cartunista Fortuna no j ornal O Pasquim (Madam e seu Cachorro m uito Louco), Paulinho Klein, e Hercílio “Dos Milagres” Bastos (pelos vários m ilagres que obrou durante as sessões de gravação). A capa é tão viaj ada quanto a m úsica. Um a foto de um a borboleta sobre um galho de árvore, que passou por um a filtragem de cores e im agens, um a viagem psicodélica, expressão que, no Brasil da época, encaixava-se em tudo que se extraviasse dos padrões.

Anos m ais tarde, Satwa, quando foi descoberto pelo selo am ericano Tim -Lag, seria enquadrado no rótulo psychedelic folk. Psicodélico, certam ente, pelos aditivos em pregados na criação dos tem as, títulos das faixas: “Allegro piradíssim o” e “A valsa dos cogum elos”. Folk, nem tanto. Os tem as com ungavam com a folk music apenas na instrum entação desplugada (com exceção, obviam ente, da guitarra de Robertinho).

Satwa teve pouca divulgação, até porque o inquieto Lula Côrtes m al term inava um proj eto partia para outro. Ele não se dispôs a fazer shows, nem a trabalhar o disco no rádio. O álbum tocou em algum as em issoras recifenses e na Rádio Universitária. Passou anos com o um a lenda da discografia pernam bucana, ignorado no resto do país. Teve seu pioneirism o reconhecido fora do estado a partir da publicação, em dezem bro de 2000, do livro Do Frevo ao Manguebeat, do autor que assina este texto.

UDIGRUDI PERNAMBUCANO

 

MARCONI NOTARO NO SUB-REINO DOS METAZOÁRIOS − MARCONI

NOTARO

Difícil entender com o um m ovim ento tão im portante quanto o Udigrudi Pernam bucano continuava tão solenem ente ignorado fora do estado. Afinal nem m esm o no Rio ou em São Paulo se produziram tantos discos independentes e tão experim entais, m alucos,e totalm ente descom prom issados com o m ercado. Foi exatam ente isso o que aconteceu no Recife entre 1973 e 1980.

Satwa, Marconi Notaro no Sub-reino dos Metazoários (1973), de Marconi Notaro, Paêbirú – o Caminho da Montanha do Sol, de Lula Côrtes e Zé Ram alho (1975), Flaviola e o Bando do Sol (1976), Aratanha Azul (1977, com pacto duplo), Caruá, Zé da Flauta e Paulo Rafael (1980), e Rosa de Sangue, Lula Côrtes (1980). Todos estes discos são citados num dos capítulos de Do Frevo ao Manguebeat (Editora 34, São Paulo). Acrescente-se a estes o único LP do Ave Sangria, banda do Udigrudi Pernam bucano, contratada pela Continental, pela qual lançou um único disco, proibido pela censura quando com eçava a tocar no rádio.

Logo depois de Satwa, Marconi Notaro, poeta e m úsico, no batente desde os anos 60, quando fez m úsica para teatro no Teatro Popular do Nordeste. Com eçou a gravar no estúdio da Rozenblit o que seria Marconi Notaro no Sub-reino dos Metazoários (parte foi feita no estúdio da Rádio Universitária). No disco, por sinal, ele reverencia Lailson e Lula Côrtes na faixa “Ode a Satwa”.

Marconi Notaro foi m ais um dos frequentadores da lendária casa de Kátia Mesel e Lula Côrtes em Casa Forte. Foi ele que trouxe o paraibano Zé Ram alho até lá, onde No Sub-reino dos Metazoários foi tam bém esboçado. O garanhuense Marconi Notaro, um pouco m ais velho do que Lula e Lailson, trazia consigo um a bagagem de MPB dos festivais dos anos 60.

Seu álbum com eça inclusive com um sam ba, “Desm antelado”, da época do TPN, em 1968. Ele arregim entou vários m úsicos da cena que se form ava na cidade para as gravações. Robertinho do Recife, claro, estava entre estes. Com o guitarrista, ele foi para o Recife o que Pepeu Gom es foi para Salvador nos anos 60. Ou até m ais. Robertinho era um guitar hero local, tê-lo num disco ou show dava status. Adolescente, tocava nas festas tropicalistas, e no grupo Laboratório de Sons Estranhos, a banda liderada por Aristides Guim arães, Eduardo Maia e Jom ard Muniz de Britto.

Robertinho está em várias faixas do LP de Marconi Notaro, num a delas “Made in PB”, no disco creditada a Marconi e Zé Ram alho, regravada pelo paraibano, em 1984, no álbum Para Não Dizer que Não Falei de Rock ou Por Aquelas que Foram Bem Amadas. Produzido nos estúdios da Rozenblit, e da Rádio Universitária, com selo da Abracadabra, criado por Lula Côrtes e Kátia Mesel, Marconi Notaro no Sub-reino dos Metazoários teve ainda m enos divulgação e quase nenhum a distribuição. Até o com eço dos anos 80, era com um encontrá-lo a preço de banana nos sebos de discos usados.

Satwa e Marconi Notaro no Sub-reino dos Metazoários foram um a espécie de preparatório para o panis et circensis do Udigrudi Pernam bucano, Paêbiru, que seria gravado em 1975, com a participação de todos os m alucos que faziam a cena alternativa da cidade (à época dom inada pelo m ovim ento arm orial), entre eles Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

Desdenhado por gravadoras brasileiras, a discografia do Udigrudi Pernam bucano foi quase toda relançada na Europa e EUA. A Jet-Lag, am ericana, e a Mr.Bongo, inglesa, fizeram bem cuidadas edições em CD e vinil de Satwa e Marconi Notaro no Sub-reino dos metazoários.

Post-scriptum – Marconi Notaro só gravou este disco. Lançou alguns livros de poesia, produziu festivais e faleceu em 2000. Lula Côrtes, falecido em 2010, continuou inquieto até o final da vida. Lançou livros, gravou discos, incorporou-se à turm a do m anguebeat e deixou parceria inéditas com o paulista Daniel Belezza.

Satwa (Discos KIF − LPP-005)

 

Produzido por Lailson, Lula e Kátia para Discos KIF, divisão da Abracadabra.

Curtido nos estúdios da Rozem blit de 20 a 21 de j aneiro de 1973.

Lula: solo de citara popular

Lailson: viola de 12 cordas e voz

Todos os sons ouvidos são produtos m ágicos das m entes e dedos de Lailson e Lula.

Participação especial de Robertinho do Recife e sua Led Guitar no “Blue do Cachorro Muito Louco”.

Lado A

1. Satwa (Lula Côrtes e Lailson)

2. Can I Be Satwa (Lula Côrtes e Lailson)

3. Allegro Piradíssimo (Lula Côrtes e Lailson)

4. Lia, a Rainha da Noite (Lula Côrtes e Lailson)

5. Apacidonata (Lula Côrtes e Lailson)

Lado B

1. Amigo (Lula Côrtes e Lailson)

2. Atom (Lula Côrtes e Lailson)

3. Blue do Cachorro Muito Louco (Lula Côrtes e Lailson)

4. Valsa dos Cogumelos (Lula Côrtes e Lailson)

5. Alegria do Povo (Lula Côrtes e Lailson)

***

Marconi Notaro no Sub-reino dos Metazoários (Independente - LCP-009)

Capa: Lula Cortes

Gravado nos estúdios Rozenblit e da TV Universitária.

Recife, PE – 1973

Músicos participantes:

Marconi Notaro: voz, violão e percussão

Lula Cortes: voz

Zé Ram alho: violão

Robertinho: guitarra

Geraldo: baixo

Icinho: bateria e percussão

 

Lado A

1. Desmantelado (Marconi Notaro)

2. Ah Vida Ávida (Marconi Notaro)

3. Fidelidade (Marconi Notaro)

4. Maracatú (Marconi Notaro)

5. Made In PB (Marconi Notaro e Zé Ram alho)

6. Antropológica N. 1 (Marconi Notaro)

Lado B

1. Antropológica N. 2 (Marconi Notaro)

2. Sinfonia Em Ré (Marconi Notaro)

3. Não Tenho Imaginação Pra Mudar de Mulher (Marconi

Notaro)

4. Ode a Satwa (Marconi Notaro)