1973: O Ano que Reinventou a MPB
O Início, o Fim e o Meio
KRIG -HA, BANDOLO!− RAUL SEIXAS
Sílvio Essinger
aul Seixas m orreu em 1989, ano em que o rock brasileiro padecia em um daqueles seus drásticos m om entos de
R entressafra. Havia confusão, indefinição e desinteresse. O que antes era um forte e bem delineado m ovim ento se desfazia, abrindo cam inho para outras propostas com erciais, outras filosofias, diferentes engaj am entos. Rock era palavra que não servia m ais para designar a m úsica da j uventude branca de classe m édia. Titãs, Paralam as, Legião, Engenheiros, cada um seguia cam inho distinto, enquanto no underground, onde o repúdio não repousava j am ais, um a im penetrável barulheira punk-noise-m etal vociferada em inglês reivindicava a sua vez. Ainda levaria um bom tem po até que os brasilienses dos Raim undos explodissem , em bom português, com o grito de “Eu quero é rock!” e tudo recom eçasse, m ais um a vez, com som e fúria.
Mas ali, em 1989, Raul Seixas m orria com o o obj eto não identificado que sem pre fora. Relíquia de um período rock pouco estudado, nada entendido. O eterno Maluco Beleza. Para um a geração m ais nova, o Plunct Plact Zum que um dia ainda seria em balado j unto com outros chicletes ploc. Raul era um m istério, peça que não se encaixava, um nó na linha evolutiva da m úsica popular brasileira. Morrera solitário, esquecido, quase em segredo. Poderia se dizer que tinha sido enterrado ainda em vida. No entanto, a notícia do fim de sua existência terrena provocou um a m obilização poucas vezes vista. Suas canções – e eram m uitas – rapidam ente voltaram à boca do povo, ávido por poesia que desse conta de inquietações atem porais, transcendentes.
Naquele m om ento, quem quisesse tentar decifrar a esfinge cham ada Raul Seixas teria à disposição várias coletâneas de sucessos, que nada trariam senão m ais confusão. A chave para a com preensão estava na audição, álbum a álbum , da vasta e dispersa obra do baiano, que vem de m uito tem po antes, com Raulzito, acom panhado ou não de seus Panteras. No entanto, por m ais que sej am os lam pej os de gênio dessa fase inicial, é em seu prim eiro LP assinado com o Raul Seixas, Krig-ha, Bandolo! que com eça m esm o a aventura. Não é m ais um disco de j uventude: bem adulto, depois de poucas e boas, o m úsico conquistou um a total visão do seu universo, um valoroso parceiro de letras (Paulo Coelho) e todo um arsenal de estúdio para concretizar ideias.
Apesar disso tudo, quem abria o disco não era o Raul adulto, pleno em sua filosofia, m as o Raul criança, inocente, puro e besta, num a gravação caseira de “Good rockin’ tonight”. No contrafluxo da ressaca tropicalista, de todo o proj eto intelectual de construção de um a identidade nacional para o pop, ele deixava o testem unhal da vontade “feladaputa” de ser am ericano, a identificação da sua raiz m usical, que não estava nos sam bas praieiros de Cay m m i, tam pouco na bossa nova de João. “This is Brazilian rock n’roll”, parecia dizer Raul, por interm édio da volta a um passado que j á com pletara m ais de década, m as continuava incom preendido no país da passeata contra as guitarras elétricas. Em seu claro m anifesto, logo na prim eira faixa de seu prim eiro álbum , aquele do grito do Tarzan, Raul Seixas deu as coordenadas, o leitmotiv, para gerações de roqueiros, de Made in Brazil a Barão Verm elho, de Raim undos a Pitty. A força e a liberdade estavam ali.
Mas o choque, puro e sim ples, não bastava, acabaria se dissipando facilm ente. Raul Seixas vinha para deixar a sua m arca, para incom odar. E que im agem m elhor para deixar isso claro que a da m osca? A m esm a que Walter Franco, naquele m esm o ano, por coincidência, sincronicidade, ou o que lá sej a, usou em seu disco de estreia. Ritm os da um banda, berim bau num cântico circular e um zum bido feito com sintetizador – radical união de prim itivism o e m odernidade – em olduram o anúncio daquele baiano nada típico: “Eu sou a m osca que pousou na sua sopa.” Num a segunda parte da canção, encaixada de form a abrupta (m as harm ônica), vem o rock, velho rock: “E não adianta vir m e dedetizar / pois nem o DDT pode assim m e exterm inar / porque cê m ata um a e vem outra em m eu lugar”. Arretado, autoestim a nas alturas, “eu-eu-eu”, provocador cheio de verdades, Raul Seixas não poderia fazer um a entrada m enos bom bástica no cenário.
Nem tudo, porém , era tão sim ples naquele m undo paralelo, a sociedade alternativa, que ele criara no seu prim eiro álbum solo. Em seguida, num rock de tom m enor, com violão, sintetizador e corinho em prestado do “With a little help from m y friends” de Joe Cocker, o cantor instituía um novo m andam ento: onde houver a certeza, que eu leve a dúvida. (“Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes / eu prefiro ser essa m etam orfose am bulante / do que ter aquela velha opinião form ada sobre tudo”). Individualism o ainda m ais violento e ainda m ais subversivo porque feito no form ato canção de rádio – para que todos ouçam e cada cabeça entenda com o quiser. Da m esm a form a, o rock caipira “Dentadura postiça” sugeria m il significados, inofensivos, ao que poderia parecer, na sua aparência de piração hippie com banj o. Curioso dar-se conta de que a m úsica passou pelos censores m esm o com um “dentadura” m uito próxim o foneticam ente do nom e de um certo regim e político e com toques do tipo “vai cair”, “vai sair” e “o preço do horror”.
Prim eira parceria do disco com Paulo Coelho, “As m inas do Rei Salom ão”, é Raul brincando de Bob Dy lan, com letra “fluxo de consciência”, sons espaciais e voz tingida de efeitos sonoros. Já “A hora do trem passar”, outra com Paulo, é a canção filosófica/rom ântica/pungente que fecha o lado A do disco, ousando-se Beatle no hi-fi estéreo, um dos m elhores resultados dessa produção realizada com perícia pelo artista (que, àquela altura, sabia exatam ente o que estava fazendo), o produtor Marco Mazzola e os m elhores m úsicos que a gravadora Philips poderia contratar.
No lado B, o im pacto inicial ficou por conta de “Al Capone”, um rock anos 50 que se abre em pura hard-psicodelia, pau a pau com o que os Mutantes faziam naqueles tem pos. Parceria com Paulo Coelho, a canção enfileira, em sua letra coalhada de sarcasm o, anti-heróis (o célebre gângster de Chicago, Lam pião) e m ártires sagrados (Jim i Hendrix, Jesus) para concluir: “vocês precisam acreditar em m im , eu sou astrólogo / eu sou astrólogo e conheço a história do com eço ao fim .” As inclinações m ísticas, que m ais tarde fariam de Paulo o Mago, conviviam com as provocações filosóficas de Raul, prenunciando em tudo a viagem astral de “Eu nasci há dez m il anos atrás”.
De súbito, vem então um a m úsica em inglês, a bela balada “How could I know”, um relato daqueles tem pos estranhos, em que os cabelos cresciam , as guitarras faziam barulho e a revolução se aproxim ava – desencantada, triste m esm o, m as curta, com o um a vinheta m uito precisa num disco em que havia m uitas coisas a dizer. Até porque na sequência vinha o abusado “Rockixe”, de Raul e Paulo, rock com citação ao “Peter Gunn” de Henry Mancini, cordas afirm ativas e um canto em estilo de Luiz Gonzaga. Um a m istura que se im põe de m aneira absolutam ente natural, sem forçar qualquer barra. “O que eu quero eu vou conseguir”, vaticinava no refrão um Raul ainda m ais seguro de si, apóstolo da derrota do m edo num a época de trevas, m as sem dar m uita pinta do seu proj eto. Para todos os efeitos, era m elhor cifrar a m ensagem : “Eu vim de longe, vim dum a m etam orfose / num a nuvem de poeira que pintou pra lhe pegar.”
Outra balada violeira (até m eio Dy lan) do disco, “Cachorro-urubu” (parceria com Paulo) tam bém é pródiga em m istérios, que passariam batidos num a audição desatenta em rádio AM, dada a qualidade m elódica e sonora do resultado final, algo quase entorpecente. No entanto, apesar dos herm etism os da letra, de tudo que ainda há para ser um dia decifrado, é difícil ficar indiferente à beleza poética pura e sim ples da passagem “Todo j ornal que eu leio m e diz que a gente j á era / que j á não é m ais prim avera / Baby, oh, baby, a gente ainda nem com eçou!”
Por fim , o golpe de gênio, o golpe de m isericórdia de Raul: “Ouro de tolo”. Mais do que um dos seus grandes sucessos – o prim eiro deles, o que lhe deu fam a e grana – essa é um a das m aiores canções da história da m úsica brasileira. Um feito colossal, em vários sentidos. Com o expressar o m al-estar de um a época terrível, sem em barcar na caravana dos que se esprem iam em m etáforas cada vez m ais óbvias? Raul partiu para a solução de um a espertíssim a crítica de costum es, retratando a estupefação da classe m édia diante do engodo que foi o m ilagre econôm ico, de um a form a que se apresentava enganosam ente hippie, com disco voador e tudo, m as que encapsulava inquietações filosóficas bem m ais profundas que as de um a canção qualquer.
“Ouro de tolo” é um j orro verbal dy lanesco, com o se tudo estivesse ali preso na garganta, proferido por um personagem encafifado com as coisas do m undo, m as cheio de si (“eu tenho um a porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aqui parado”) e pleno de sarcasm o (“eu devia estar feliz pelo Senhor ter m e concedido o dom ingo pra ir com a fam ília no j ardim zoológico dar pipoca aos m acacos”). Isso tudo, sobre um a base m usical soft, que em m ais de um a m aneira em ulava as m úsicas de Roberto Carlos, roqueiro da m esm a geração de Raul, que pegara o trem do pop rom ântico – às vezes triste, com algum fundo religioso – e que com ele se sagraria, nos anos 70, com o o m aior vendedor de discos do país do sam ba.
Mas deixem os Roberto de lado. Porque o que Raul Seixas queria, ele conseguiu. Poucos discos da MPB resistiram tão bravam ente ao tem po quanto Krig-ha, Bandolo! – aquele LP em que o artista se apresenta na capa, de braços abertos e peito nu, m eio com o um Jesus Cristo, e que fecha seu lado B com um a gravação em que diz “Deus é aquilo que m e falta para com preender o que eu não com preendo”. Não houve questionam ento da sua época (e de outras tantas, desde a Antiguidade) que Raul não tivesse conseguido desenvolver e resolver dentro do exíguo espaço da canção. O tem po era o playground desse erudito-popular, que conciliava um rock j á então nostálgico com as m odernidades do pop, num todo que cabia m uito bem no rádio, m as que poderia ser ouvido para m uito além das frequências m oduladas desse planeta. Raul era o início, o fim e o m eio.
Krig-ha, Bandolo! (Philips − 6349 078)
Coordenação: Roberto Menescal
Direção m usical e produção artística: Mazola e Raul
Técnicos: Ary e Luigi
Auxiliares técnicos: Paulo Sérgio e Luis Cláudio
Corte: Joaquim Figueira
Capa e contra-capa: Raul, Paulo, Edith, Aldo e Adalgisa Rios
Foto da capa: Cláudio Fontana
Encarte: Adalgisa Rios
Músicos de base:
Baixo: Paulo César Barros e Alexandre
Bateria: Pedrinho, Bill French e Mam ão
Guitarra: Raul Seixas e Jay Vaquer
Piano: Miguel Cidras e José Roberto
Teclados: Luis Paulo e Miguel Cidras Rivas
Berim bau: Paulinho Batera
Banj o: José Menezes
Pandeiro: Mazola
Lado A
1. G ood Rockin’ Tonight (Roy Brown)
2. Mosca na Sopa (Raul Seixas)
3. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
4. Dentadura Postiça (Raul Seixas)
5. As Minas do Rei Salomão (Raul Seixas e Paulo Coelho)
6. A Hora Do Trem Passar (Raul Seixas e Paulo Coelho)
Lado B
1. Al Capone (Raul Seixas e Paulo Coelho)
2. How Could I Know (Raul Seixas)
3. Rockixe (Raul Seixas e Paulo Coelho)
4. Cachorro Urubu (Raul Seixas e Paulo Coelho)
5. Ouro de Tolo (Raul Seixas)
6. Meu Nome é Raul Santos Seixas (Raul Seixas)