1973: O Ano que Reinventou a MPB
O Popular e o Erudito: A Orquestra em Pessoa
FRANCIS HIME − FRANCIS HIME
Luiz Felipe Carneiro
m a historinha boba que parece ter sido tirada de algum livro infantil define a carreira do carioca Francis Victor Walter
U Him e. Filho da pintora Dália Antonina, Francis, nascido no últim o dia de agosto de 1939, com eçou a estudar piano clássico aos seis anos de idade. Logo que a professora ia em bora, Francis perm anecia sentado em frente ao im enso e assustador instrum ento. A lição de casa era volum osa: um a batelada de exercícios e escalas ao piano. Sua m ãe, a pintora Dália Antonina, perm anecia ao seu lado durante algum tem po. Mas logo que ela se levantava, Francis se em balava em m archinhas de carnaval. Não de um m odo convencional, diga-se. O m enino im berbe encharcava as clássicas com posições de Lam artine Babo, Braguinha e Ary Barroso de notas dissonantes, criando novas harm onias, e as deixando praticam ente irreconhecíveis.
Enquanto dona Dália não sabia se sorria ou brigava com o m enino, surgia o “piano cheio” de Francis Him e, um a m istura transbordante do popular com o erudito, m arca de sua obra, especialm ente a partir de seu álbum de estreia, Francis Hime, lançado em 1973, até hoj e.
O escritor Ruy Castro, no livro Música Popular Brasileira Hoje, organizado por Arthur Nestrovski, definiu Francis da m elhor m aneira possível: “Tom Jobim é um piano, Cay m m i, um violão, Vinicius, um a caneta, Noel, um terno branco. Por analogia, Francis Him e é um a orquestra. E um a orquestra sinfônica. Não um a sinfônica convencional, apoiada exclusivam ente nas cordas, m adeiras e gravatas, m as um a form ação enriquecida por m etais de gafieira, cavaquinhos de chorões e tam borins de escolas de sam ba.”
Mas m uita água rolou entre essa época em que Francis “enganava” dona Dália até a sua “transform ação” em orquestra sinfônica. Talvez ele j á tenha até nascido com positor, cantor, pianista, arranj ador e m aestro. Contudo, Francis nunca deixou de aperfeiçoar o seu talento m usical, certam ente herdado de seu avô paterno, tam bém pianista.
Após as lições básicas da professora Carm en Manhães, Francis ingressou no Conservatório Brasileiro de Música. Aos 16 anos, arrum ou as m alas. Destino: Lausanne. Foi na cidade suíça que Francis assistiu a todos os concertos que pôde, e entrou em contato com as obras de com positores clássicos, de Tchaikovsky a Brahm s, de Beethoven a Rachm aninoff. Em 1958, j á em Rom a, Francis se entusiasm ou ao sintonizar um a em issora de rádio que tocava algo diferente. Era “A felicidade”, da dupla Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, interpretada pelo cantor Agostinho dos Santos. (Curiosam ente, Francis tinha conhecido o poeta, am igo de sua m ãe, havia pouco tem po, quando tocou no piano, para deleite de Vinicius, a “Valsa de Eurídice”.) O sinal estava dado. No ano seguinte, Francis colocou tudo de volta na m ala e retornou para o Rio de Janeiro.
No entanto, o j ovem com positor estava indeciso. No final dos anos 50, a profissão de m úsico não era exatam ente o que as m ães m ais desej avam para seus filhos. Francis pensou bastante. De repente, a m úsica poderia ser um hobby eterno. Mas um a profissão? E assim , Francis passou a fazer o longo traj eto diário da Zona Sul do Rio até a Universidade Federal na Ilha do Fundão.
Mas, no fundo, a engenharia continuava em segundo plano. Sob as lições da pianista Vilm a Graça, Francis continuou se aperfeiçoando. E j á em 1963, teve a sua prim eira com posição letrada por ninguém m enos que aquele senhor com quem ele tinha trocado um aperto de m ãos em 1958.
“Sem m ais adeus” foi escrita de rom pante em um guardanapo na m esa de um bar por Vinicius de Moraes − nos próxim os seis anos, a dupla com poria cerca de 20 canções. Presente no álbum solo de estreia de Francis, de 1973 (e gravada pela prim eira vez por Wanda Sá, em 1963), “Sem m ais adeus” é um a singela valsinha, que desagua em um arranj o bossa-nova delicioso. A letra? Bem , não poderia ser m ais Vinicius de Moraes: “Nem a poesia, am or/ Na sua ausência quis m e receber.”
Pode-se dizer que Vinicius foi um a espécie de padrinho da carreira de Francis. Em 1962, ele se viu pela prim eira vez em um a festa na residência do poeta e de sua então esposa Lucinha Proença, em Petrópolis. E foi na casa m odernista assinada por Oscar Niem ey er, um a cópia do Catetinho, prim eiro palácio que o presidente Juscelino Kubitschek ocupou em Brasília, que Francis conheceu Olívia, ex-nam orada de Edu Lobo, e que se transform ou na paixão de sua vida. Foi lá tam bém que Francis, pela prim eira vez, se enturm ou com pessoas que dividiam os m esm os interesses pela boa m úsica, com o Carlos Ly ra, Baden Powell, Edu Lobo, Dori Cay m m i e Marcos Valle, artistas de um a nova leva da Bossa Nova, surgida a partir dos anos 60.
Na prim eira m etade dessa década, a Bossa Nova fervilhava. Os grupos instrum entais eram um a febre. Fazer parte de um era garantia de diversão e m ulheres prontas para um a corrida de subm arino nas areias da praia de Copacabana. Era o tem po do Bossa 3, d’Os Cobras, de Eum ir Deodato e Os Catedráticos... E Francis Him e seguiu o m esm o cam inho, form ando Os Seis Em Ponto, sexteto no qual, além de tocar piano, era arranj ador. Entre os m úsicos, um tal de Nelsinho Motta.
O álbum conta com 12 faixas, incluindo com posições de Vinicius de Moraes, Carlos Ly ra, Tom Jobim , Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, além das prim eiras m úsicas escritas pelo próprio Francis, com o “Se você pensar” e “Mar azul”. No texto do encarte, Tom Jobim sintetizou a obra: “Eis aqui um disquinho feito com am or. (...) O repertório foi bem escolhido. Os arranj os são sim ples e dizem m uito, o que quer dizer que devem ter dado m uito trabalho a Francis Him e. São variados e suas estruturas fogem ao banal, ao standard. As introduções são bem feitas, as m elodias enunciadas claram ente e os im provisos gostosos.”
O passo seguinte não poderia ser outro: o Beco das Garrafas, em Copacabana, o point carioca onde a rapaziada bonita e bronzeada se encontrava para beber, paquerar e ouvir boa m úsica. E foi em 1965, no palco do Bottle’s, um a das boates do Beco, que Francis estreou ao vivo, ao lado do am igo Dori Cay m m i.
Entretanto, Francis tinha que provar que a m úsica poderia garantir o seu sustento. Na era dos grandes festivais, ele não desperdiçou m unição. Já no I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior inscreveu “Por um am or m aior”, parceria com Ruy Guerra, interpretada por Elis Regina. No ano seguinte, no I FIC da TV Rio, ressurgiu com “Maria”, escrita a quatro m ãos com Vinicius de Moraes, e defendida por Wilson Sim onal (o cantor foi expressam ente recom endado pelos com positores a não inventar absolutam ente nada em sua interpretação, m as apenas cantá-la). Outras canções vieram a reboque dos festivais, com o “Sam ba de Maria”, “Tem po da flor”, “Eu te am o, am or” (todas com Vinicius), “A grande ausente” e “Anunciação” (as duas com Paulo César Pinheiro). Ao m esm o tem po, Francis conheceu Chico Buarque, e se arriscou em outras searas, dirigindo e escrevendo os arranj os para o show Pois É, estrelado por Vinicius, Gilberto Gil e Maria Bethânia, e colaborando na direção m usical da peça teatral Dura Lex Sed Lex, no Cabelo Só Gumex, de Oduvaldo Vianna Filho, bem com o para a trilha do film e O Homem que Comprou o Mundo, de Eduardo Coutinho.
Até então, a carreira de Francis Him e se delineava nos lim ites da Bossa Nova. Mas, poucos m eses antes da chegada de 1970, Francis, j á casado com Olívia e finalm ente form ado em engenharia, arrum ou as m alas. Novo destino: Los Angeles. Durante quatro anos, Francis se aprofundou nos estudos m usicais, tendo aulas de orquestração, com posição, regência e com posição.
A cabeça de Francis não tinha com o não m udar. A partir desse m om ento, o então m elodista bossa-nova conheceu de perto o funcionam ento das obras m usicais feitas em outros países (do im pressionism o francês ao j azz norte-am ericano), iniciando incursões pelo erudito, m as sem deixar de lado o passado e o presente da m úsica popular brasileira; algo bem parecido com o que ele fazia com aquelas m archinhas de carnaval nos tem pos em que ainda andava de calças curtas...
Na Califórnia ainda investiu na com posição de peças de câm ara. A lição parecia estar (bem ) aprendida. Hora de voltar ao Brasil. Hora de, finalm ente, gravar o seu prim eiro álbum solo. “Ao voltar em 1973, assum i definitivam ente m inha carreira artística, com dez anos de atraso, m as de certa form a m ais am adurecido”, disse Francis em 1980.
São apenas 27 m inutos. E quem disse que precisava de m ais? Nesse espaço de tem po, Francis j untou todos os anos de experiência acum ulada, levando ao ouvinte um a explosão sonora, das raízes da nossa m úsica ao universo erudito.
Francis Hime, lançado pela gravadora Odeon, produzido por Milton Miranda, com direção m usical do m aestro Gay a e com um assistente de produção atendendo pelo nom e de Aloy sio de Oliveira, é um apanhado de nove pérolas buriladas por Francis Him e. A orquestra é um a das m aiores concedidas em um a estreia de um artista brasileiro, com 57 instrum entistas. A seção rítim ica que participou das gravações tam bém era de causar invej a, com craques com o os violonistas Dori Cay m m i e Geraldo Vespar, o baixista Sergio Barroso e os percussionistas Wilson das Neves e Chico Batera.
O álbum tem início com a m úsica que talvez, até hoj e, sej a o cartão de visitas de Francis. “Atrás da porta”, parceria com Chico Buarque, abre com um arranj o delicado de sopros e cordas adornando a voz de Francis. A prim eira parceria da dupla nasceu na casa dos pais de Olívia. Francis cantarolou a m úsica ao piano e Chico com pôs a letra da prim eira parte da canção, pela prim eira e única vez em sua carreira, na frente de outras pessoas. A segunda parte dem orou. E só saiu porque Roberto Menescal, produtor do álbum que Elis Regina gravava nos Estados Unidos, im plorou pelo restante da letra. E Francis, na ânsia de ver a sua m úsica gravada pela cantora gaúcha, entrou em ação. Com binou com o produtor para que ele enviasse a gravação a Chico, fazendo com que o parceiro ficasse sem saída. Nem a Censura, que m eteu a tesoura nos versos “E m e agarrei nos teus cabelos / Nos teus pelos”, atrapalhou. Eles acabaram substituídos por “E m e agarrei nos teus cabelos / No teu peito”. Ficou bonito do m esm o j eito. A gravação de Elis im pulsionou a carreira de Francis e foi um a das principais m otivadoras para que ele retornasse ao Brasil. Tam bém em parceria com Chico, Francis registrou “Valsa rancho”, um a “fusão provocadora de m archa-rancho de rua com a valsa dos salões”, nas palavras do crítico Tárik de Souza.
Mas, nesse disco, o cam peão de parcerias com Francis foi Ruy Guerra. Com o cineasta e com positor m oçam bicano, Francis registrou “À m eia luz”, na qual o seu piano flutua sobre um delicado arranj o cam erístico, calcado nas cordas e nos sopros. Já em “Ave Maria”, as cordas choram acom panhadas pela singela voz de Francis. “Últim o canto” é pura Bossa Nova, com a bateria de Wilson das Neves pontuando o arranj o. “Requiém ” possui um a das m ais acachapantes letras de Ruy Guerra: “Te im ploro / Fica longe de onde eu estiver / Nesta batalha com as flores / Que de m im riem / Enfeitando a m inha m orte / Agora m oradia / Tão silenciosa e fria/ Com o um a catedral”. O sucesso “Minha” arrebata com o seu grandioso arranj o de cordas. A canção ganhou regravações de gente com o Elis Regina, Tony Bennett e Bill Evans.
A instrum ental “Olívia”, única faixa com posta exclusivam ente por Francis Him e, possui um denso e solar arranj o de cordas, envolto no piano do com positor, que com anda a catarse. Tal faixa pode funcionar com o um a chave de leitura de Francis Hime, um álbum cuj as canções têm em com um “o am or pela longa m elodia, geralm ente concebida em tom m enor, explorando com riqueza as possibilidades do crom atism o e das am biguidades harm ônicas. Os largos arcos descritos por essas expansivas linhas m elódicas estão entre os m ais sutis concebidos dentro do espírito outrora inaugurado pela Bossa Nova”, nas palavras do crítico J. Jota de Moraes.
Para entender Francis Him e, é necessário m uito m ais do que ouvir com atenção esse seu prim eiro álbum solo. Mas pode ter certeza que j á é um bom início.
Francis Hime (Odeon − SMOFB 3816)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Aloy sio de Oliveira
Orquestrador e regente: Francis Him e
Diretor Técnico: Z.J. Merky
Técnico de gravação: Nivaldo Duarte, Toninho, Darcy
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Jorge Teixeira
Lay out: Cafi e Ronaldo Bastos
Foto: Cafi
Lado A
1. Atrás da Porta (Chico Buarque e Francis Him e)
2. A Meia-luz (Francis Him e e Ruy Guerra)
3. Olívia (Francis Him e)
4. Sem Mais Adeus (Francis Him e e Vinicius de Moraes)
5. Ave-Maria (Francis Him e e Ruy Guerra)
Lado B
1. Valsa Rancho (Chico Buarque e Francis Him e)
2. Minha (Francis Him e e Ruy Guerra)
3. Último Canto (Francis Him e e Ruy Guerra)
4. Réquiem (Francis Him e e Ruy Guerra)