1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 24 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Uma Estreia em Transição

JOÃO BOSCO − JOÃO BOSCO

 

Luiz Fernando Vianna

 

oão Bosco é caso raro de um disco de estreia que tam bém é um disco de

J

transição. O aparente paradoxo tem duas explicações.

Foi em 1972 que João se m udou de Minas para o Rio, apenas um ano antes, portanto, de seu prim eiro LP. Nascido em Ponte Nova, form ou-se em engenharia em Ouro Preto, aprim orando sua m úsica em m eio às igrej as e a toda atm osfera barroca da cidade histórica. O encontro com o letrista Aldir Blanc, carioca do Estácio e de Vila Isabel, inundaria de Rio suas m elodias, m as isto ainda estava em curso em 1973.

O outro m otivo é que, pouco conhecido aos 27 anos, João foi contratado pela gravadora RCA (m ais tarde BMG e posteriorm ente Sony ) com o entusiasm ada aposta, m as não tinha cacife para bancar de que form a seria o disco. Ficou a reboque de decisões alheias e não conseguiu im prim ir o estilo que o firm aria, logo em seguida, com o um dos m ais originais violonistas e com positores brasileiros.

Diante das duas ressalvas acim a, cabe perguntar por que o LP é um dos m arcos fonográficos de 1973, j á que, tam bém no quesito vendagem , ele não teve um resultado significativo? Exatam ente porque João Bosco representa esse rito de passagem do artista em form ação para o artista m aduro, que, ao m ergulhar no sam ba e no subúrbio do Rio, em ergiria nacional e definitivam ente.

Foi um am igo com um , Pedro Lourenço Gom es, que viu João tocar num bar em Ouro Preto em 1969 e disse que o letrista para aquelas m elodias m orava no Rio e se cham ava Aldir Blanc. Este era conhecido som ente no circuito de festivais universitários, no qual explodiria em 1970 com “Am igo é pra essas coisas”, parceria com Sílvio da Silva Jr.

João era um am ador de Ouro Preto com dois adm iradores ilustres: o artista plástico Carlos Scliar (autor do retrato do cantor usado na capa do LP) e o poeta Vinicius de Moraes, que, num a passagem pela cidade m ineira, fez “Sam ba do pouso” com o j ovem violonista – e depois faria outras.

Ao ouvir João tocando, Aldir ficou chocado: “Para um letrista, era um deslum bram ento ser apresentado àquela m onstruosidade: 30 m úsicas daquele peso.”

Algum as ficaram inéditas, m as outras estão entre as onze que form am o repertório de João Bosco. Dentre essas pioneiras está, por exem plo, “Angra”, nom e de litoral carioca revestido da dram aticidade do barroco m ineiro. Outra é “Quilom bo”, peça de um universo recorrente da dupla (herança africana e da escravidão; exaltação da cultura negra e das lutas populares), nesta prim eira versão com um a pegada m ais rural, interiorana. Am bas as canções seriam retom adas por João na década de 1980.

Era o “choque entre o citadino e o cara que gritava para as igrej as de Ouro Preto”, disse Aldir, sobre o encontro artístico com João, no docum entário Aldir Blanc – Dois pra Lá, Dois pra Cá (2003), de André Sam paio, Zé Roberto de Morais e Alexandre Octavio Carvalho. Ele recorda o im pacto da “m elodia entre a congada e a procissão para um cara que vive entre o bloco da Maia Lacerda (rua do Estácio) e o Salgueiro. E isto se funde”.

O choque entre Minas e Rio foi explosivo em “Agnus sei”, a canção anticlerical (“Mas ovelha negra m e desgarrei / O m eu pastor não sabe que eu sei / Da arm a oculta na sua m ão”) que lançou a voz de João no prim eiro disco de bolso do Pasquim, o m ais im portante j ornal alternativo em circulação durante a ditadura m ilitar. No com pacto sim ples (apenas duas m úsicas) de 1972, era o lado B de nada m enos do que “Águas de m arço”, que Tom Jobim estava lançando – o m esm o Tom que escreveria o texto da contracapa de João Bosco (“João, hein!?, tua m úsica j á atravessou o riacho”, afirm ou o m aestro). Por causa da boa repercussão do disquinho, “Agnus sei” ficou de fora do LP de estreia do cantor e com positor. Acreditou-se que a inclusão seria repetitiva, m as a m úsica ficaria m uito bem acom panhada das outras e, por j á ser conhecida, possivelm ente ilum inaria as dem ais.

Mas “Bala com bala” não ficou de fora. Tinha feito sucesso tam bém em 1972 na voz de Elis Regina, portanto ainda cabia um a versão de autor e foi o que João fez. A rigor, é o único sam ba do disco, tanto na m elodia quanto no arranj o. “Fatalidade (Balconista teve m orte instantânea)” é um a letra totalm ente blanquiana, contando a tragédia de um a m ulher anônim a do subúrbio carioca. Mas não ficou com o j eitão de sam ba que até poderia ter se João e Aldir estivessem dando as cartas no estúdio.

Aconteceu que o entusiasm o do produtor Rildo Hora e da RCA foi tam anho pelo talento de João que resolveram lhe dar um tratam ento de astro. O LP levou seis m eses para ser realizado nos estúdios da gravadora em São Paulo, as orquestrações foram entregues a dois dos m aiores arranj adores brasileiros daquela e de todas as épocas (Luiz Eça e Rogério Duprat), m úsicos feras foram cham ados para tocar (Bebeto Castilho, Hélcio Milito, Chico Batera e outros) e não faltou um bom naipe de cordas. Faltou sim um resultado que tivesse a cara que o artista firm aria nos anos seguintes – aliás, com aj uda decisiva de Rildo, que produziu discos históricos de João com o Galos de Briga (1976).

Assim com o outro João, o Gilberto, João Bosco é voz-e-violão, tudo j unto, raram ente funcionando 100% quando se separam essas duas partes de seu corpo – pois é com o se o violão fizesse parte dele. Mas no prim eiro disco ele gravou sem pre separadam ente voz e violão, sendo que o instrum ento ficou, em algum as faixas, abafado pelos outros. Em sum a, não era o João Bosco que se tornaria inconfundível j á dois anos depois, quando lançou o disco Caça à Raposa.

É possível identificar a assinatura de Duprat nas cordas da faixa de abertura, “Tristeza de um a em bolada”; nas vozes e na guitarra um tanto tropicalistas de “Nada a desculpar”; nos m etais da angustiante “Bernardo, o erem ita”; na grandiosidade da roupagem de “Quem será?”, galope que passa por Saci, São João e outras festas e m azelas do interior profundo.

Luiz Eça se m ostrou m arcante ao vestir de cordas fortes “Boi”, tem a m ineiro com trej eitos de sam ba; tam bém nas cordas de “Alferes”, tem a absolutam ente m ineiro, m as com o violão de João m ais à frente do que na m aioria das faixas; e em “Am on Rá e o cavalo de Troia”, outro galope, m as sem Aldir na letra, e sim seu irm ão de fé Paulo Em ílio – aliás, coautor dos versos de “Quem será?”, assim com o Claudio Tolom ei foi coautor de “Bernardo, o erem ita”.

Com o se percebe, Minas Gerais e, m ais precisam ente, Ouro Preto predom inaram nas m elodias, enquanto o Rio ia m arcando presença aqui e ali nas letras. A im aginação sem lim ites de Aldir, sua capacidade de j untar as situações m ais chãs com as elucubrações m ais delirantes, despontava nos versos, m as as criações m ais significativas ainda estavam por vir.

Com a chegada de João ao Rio, ele e Aldir se entrosariam em definitivo, com o poucas outras parcerias da m úsica brasileira conseguiriam . E sairia daí um punhado de com posições m ais cariocas, por vezes m ais divertidas, por outras, tam bém extrem am ente contundentes: “De frente pro crim e”, “Kid Cavaquinho”, “O m estre-sala dos m ares”, “Dois pra lá, dois pra cá”, “Incom patibilidade de gênios”, “Gol anulado” etc, etc...

Fizeram j untos cerca de 120 m úsicas (20 delas registradas por Elis Regina, a principal intérprete deles), um a estrada que teve em João Bosco o prim eiro passo, ainda m eio torto, sem total controle, m as com indícios da força que se estabeleceria logo. Daí a im portância histórica desse disco, que por m uito tem po foi tachado de “estranho” – o que não deixa de ser verdade –, e que atualm ente é caçado em sebos e cultuado. Ganhou lançam ento em CD em 2001, m as logo voltou a ser um ponto relativam ente obscuro da carreira de João. É com preensível que assim sej a, pois o que veio depois se im pôs com o superior. Mas se não pode perder de vista ou audição o quanto de beleza j á estava assinalado naquele álbum de 1973.

 

João Bosco (RCA-Victor − 103.0062)

Coordenação geral: Gil Beltran

Coordenação e direção de estúdio: Rildo Hora

Técnicos: Paulo Frazão, João Alem ão

Estúdio: RCA (16 canais) – São Paulo, SP

Capa: Carlos Sciliar

Arranj os de Luiz Eça (2) e Rogério Duprat (1)

Músicos:

João Bosco: violão

Luiz Eça: piano e órgão

Bebeto: baixo, flauta e ritm o

Hélcio: tam ba e ritm o

Chico Batera: bateria e ritm o

Everaldo: bateria e ritm o

Guilherm e: surdo e ritm o

Dirceu: bateria

Cláudio: baixo

Rubão: tum ba

Guilherm e: efeitos de percussão

Aristeu: guitarra

Instrum entos usados na percussão: kalim ba, orrente, guiro, bam bu, tum badora, tam borim , pandeiro, coco chinês, aquafone, folha m etálica, agogô, pedrinhas de sal, queixada, chocalho de arroz, triangulo, reco-reco, tabla, tam ba, flexaton.

 

Lado A

1. Tristeza de Uma Embolada (João Bosco e Aldir Blanc) (1)

2. Nada a Desculpar (João Bosco e Aldir Blanc) (1)

3. Boi (João Bosco e Aldir Blanc) (2)

4. Angra (João Bosco e Aldir Blanc) (2)

5. Q uilombo (João Bosco e Aldir Blanc) (1)

6. Bala Com Bala (João Bosco e Aldir Blanc) (2)

 

Lado B

1. Bernardo, o Eremita (João Bosco, Aldir Blanc e Cláudio

Tolom ei) (1)

2. Q uem Será (João Bosco - Aldir Blanc e Paulo Em ílio) (1)

3. Fatalidade (Balconista Teve Morte Instantânea) (João Bosco

e Aldir Blanc) (1)

4. Alferes (João Bosco e Aldir Blanc) (2)

5. Amon Rá e o Cavalo de Tróia (João Bosco e Paulo Em ílio) (2)