1973: O Ano que Reinventou a MPB
Assoviando Pelos Caminhos de Terra Batida Como um Passarinho
ASSOVIANDO PELOS CAMINHOS DE TERRA BATIDA COMO UM
PASSARINHO
TERRA − SÁ, RODRIX E GUARABYRA
Carlos Evandro Lordello
om ecei a gostar desse disco em 1972, m ais ou m enos um ano antes do seu lançam ento. Acho que foi quando cantei: “eu ‘tou
C doindin por um pianin, m ãe e pai, com caixa Leslie e am plificador” sob o m agnífico céu estrelado lá na “ponte” em Ibicuí, pequena cidade no litoral sul do então Estado da Guanabara, esprem ida entre a m ontanha, a linha férrea e a praia. Eu e grande parte da rapaziada de olhos vidrados no espaço sideral e ouvidos atentos ao som da viola do am igo Haroldo Cazes, m úsico, designer, filho de Marcel Cazes, com positor popular e irm ão de Beto e Henrique Cazes.
Acho que foi tam bém quando ouvi Elis “cam argom arianam ente” cantando em form a de m anifesto: “... eu quero um a casa no cam po.... onde eu possa plantar m eus am igos, m eus discos e livros. E nada m ais...” (“Casa no cam po”, de Tavito e Zé Rodrix). Só isso. Nada m ais, nem m enos. Só im portavam m esm o as canções, retratando nossos sentim entos e pensam entos. E o colo da m orena onde eu m e aconchegava apaixonadam ente. O m eu peito parecia que era feito m esm o só da em oção que as canções decodificavam e verbalizavam a 33 1/3 rotações por m inuto. Era o que vivia dentr’em m im : m eus am igos, m eus discos e livros e algum as poucas coisas m ais. Um a velha calça azul desbotada, m uitas risadas, cam inhadas m ata adentro, cachoeiras, vida sim ples, e com o na canção “Viagens antigas”, que fiz tem pos atrás: “pés descalços e m uitos abraços, quero um banho de chuva!”
Passado, Presente, Futuro, disco lançado em 1971, j á tinha apresentado a força de Sá, Rodrix e Guaraby ra.
O encontro inicial havia se dado no apartam ento 1 da Alberto de Cam pos, 111 onde surgia o som , do que viria a ser, um ano depois, um dos m elhores e m ais surpreendentes acontecim entos m usicais do ano. Desvendaram e desbravaram com talento novos cam inhos para a MPB, m isturando o urbano na figura do rock dos “Anos 60” com o rural “Pó da estrada”.
Terra é com posto de som ente nove canções que deixaram todos com um gosto de quero m ais, que só seria saciado, no form ato de trio SRG, quase trinta anos depois.
Lem bro da m inha alegria ao ver a capa do disco na loj a. Aquele desenho do violão enorm e ocupando por inteiro um outdoor de beira de estrada com as seis cordas da viola que viraram cabos, fios condutores de energia elétrica esticados por postes verticais que nasciam no próprio corpo do instrum ento. Ao longo do braço do violão, ao invés de trastes, m arcações viárias m ostrando traços descontínuos característicos de trechos com ultrapassagem perm itida. Em conform idade com a regulam entação rodoviária, sinalização horizontal, indicando a estrada, o cam inho até a pestana e as tarrachas do violão. O cam inho livre para o cam po. O rural recebendo a visita do m oderno, do contem porâneo, fundindo o rural e o urbano, apresentando o rock rural.
A rapaziada ia caindo (ou subindo) na estrada. E as viagens eram para lugares de nom es diferentes e encantados: “Cachoeira, Mam bucaba. Porto Novo, Água Fria. Andorinha, Guanabara, Sum idouro”. “Olho D’Água” que Ronaldo Bastos e Paulo Jobim dariam para Milton cantar no segundo Clube da Esquina, cinco anos depois. Novos velhos lugares. Um outro Brasil possível, longe da poluição urbana, da pobreza política, da solidão das capitais, dos avanços tecnológicos, das m odas, das rotas, das notas previsíveis dos j ornais e revistas. Estávam os a inventar um novo j eito de poder ser. Seguir nosso cam inho, traçar nosso itinerário: ...“chão, pó, poeira, pé na estrada. Sol na m oleira. Chuva danada”..., cantaria, Gonzaguinha, três anos depois.
Vem à m em ória o cam inho até chegar na m inha casa com o em brulho debaixo do braço, abrindo a porta da sala. Lem bro do cam inho até a vitrola, Telefunken, m óvel de estrutura de m adeira clara envernizada. De pés arroj adam ente inclinados, puxadores e detalhes dourados, ela ocupava um generoso espaço na sala com suas duas caixas de som acopladas com revestim ento em pano claro e trançado em linhas brancas, bege e douradas.
Silêncio. Estou só. O LP surge por trás do papel que o em brulhava que ora j az no chão. Adm iro m ais um a vez a capa e a contracapa, abro o pôster, retiro o vinil de dentro. Ele sai ainda com um a outra proteção, m eio transparente com o um a lingerie. Retiro essa últim a roupa que m e separa do corpo negro reluzente cheio de sulcos. Busco o buraco no centro, no m eio do seu corpo, e abro m inha m ão direita de form a que m eu dedo polegar apoie a sua aba possibilitando ao m eu dedo m édio tocar delicadam ente seu orifício central. Aí então posiciono a bolacha, faço-a deslizar no fino cilindro, eixo central ereto do prato. Aciono a alavanca e dou a partida no m otor que passa a girar a um a precisa velocidade de 33 e 1/3 rotações a cada m inuto. O braço onde se encontra a fina agulha leitora dos estreitos sulcos pousa suavem ente ... e ... – “ao vivo no seu Cine Paroquial: Sá, Rodrix e Guaraby ra!”, anunciava a “loucutora” voz do Zé Rodrix que eu j á conhecia da Feira Moderna do Som Im aginário. De cara o ágil pianinho anunciando o ritm o quente e novam ente a voz singular cantando ... “há m uito tem po que eu não ia no clube m as as pessoas perm anecem as m esm as... parecem personagens saídas de um a balada de Neil Sedaka do com eço ‘dos anos 60’”. Fiquei estatelado com o quem sofre um nocaute no ringue. Veio logo a lem brança do m eu prim eiro porre de cuba libre há uns anos atrás na festa de 15 anos da m inha irm ã. E eu ainda estava lá na festa da m ana quando a segunda canção com eça... “Vou te escutar nas finas antenas de m etal. Vou ver teus ‘Desenhos no j ornal’. Um rosto distante se apagando no m eio da m ultidão”... que m e trouxe outras lem branças ali naquele sofá, naquela sala, quando ouvi pela prim eira vez Sgt Pepper’s Lonely Heart Club Band. A atm osfera, o arranj o, a superposição das vozes no final era com o se fosse um bônus track do provocantem ente, belo e conceitual álbum do fam oso quarteto aclam ado m undo afora.
Um instigante e vigoroso piano abre a terceira faixa. Apresentando a alucinada história de “Mestre Jonas” que resolve se refugiar por vontade própria dentro da baleia dizendo que assinou papel que vai m antê-lo preso ali até o fim da vida. Essa versão difere da história bíblica em que o profeta Jonas é engolido pelo cetáceo por não ter cum prido sua m issão tendo que perm anecer por três dias e três noites nas entranhas do m aior m am ífero até ser devolvido a sua terra para cum prir a ordem divina. A canção ganhou um arranj o eletrizante. O piano e o órgão vão conduzindo com plem entando-se no apoio à voz do Zé que faz um solo nessa tam bém .
Depois dessa canção, vem outra história no clim a dos anos 60, “no tem po da lam breta sem saia no Blue Riviera a gente j á era”, com um com petente acom panham ento de piano, baixo, bateria, guitarra. Recuerdos dos prim órdios do rock em Terra Brasilis.
Fechando o lado A, tem os aquela que se tornou a m inha favorita: “Eu ando bem norm al com o se deve andar pois eu tenho que ir ‘Adiante’...”. Um a canção que parecia querer m e em purrar para a estrada, apontando um j eito m ais leve de levar a vida “o m eu coração quer rever as pessoas distantes. Ele quer. Ele quer. Ele tem que seguir adiante”. Foi aí que levantei do sofá e cam inhei seguindo ritm o envolvente da canção. Abri a j anela, aum entei ainda m ais o volum e, andei até a cozinha, peguei um copo, enchi de água e bebi. Fui pra varanda ainda escutando a harm ônica j unto com o vocal m arcante do trio encerrando o prim eiro ato.
Novam ente peguei o disco nas m ãos com carinho e cuidado, segurando com a palm a de cada um a das m inha m ãos o long play, dei um giro de 180º e o pousei no prato. Acionei o m otor, o braço desceu suavem ente até que a ponta da agulha tocou no corpo produzindo um ruído característico e m isterioso.
Sentei para escutar o lado B, a parte “estradeira” do disco e do trio.
Com eça com um a canção “diário de bordo”. Um a viagem cham ada “Pendurado no vapor”. De Bom Jesus da Lapa (interior da Bahia) até Pirapora (interior de Minas Gerais), descendo/subindo pelo Velho Chico, carinhoso apelido dado ao form oso e fam oso Rio São Francisco cantado em prosa e verso. Rio que nasce em terras m ineiras, atravessando seis estados brasileiros e quinhentos e três m unicípios até “bater no m eio do m ar” com o cantaram Gonzagão e Zé Dantas em “Riacho do navio”. O arranj o com eça despoj ado com um a flautinha dando um tom doce à canção que logo ganha a com panhia das vozes, piano, bateria e violas desem bocando num instrum ental com um batuque envolvente, novam ente com um solo da flauta, quebrado pelo piano que cham a de volta a canção e o vocal do grupo. E, na “chegança”, na foz da prim eira faixa chega a segunda que “gruda no m eu rosto”. Canção de estrada, m ochila nas costas que trago na m em ória das m inhas loucas viagens Brasil adentro. Assoviando pelos cam inhos de terra batida, m e sentia m esm o um passarinho. O arranj o com eça com um solinho de flauta acom panhado de um a guitarra, grudando nos m eus ouvidos tal qual o “Pó da estrada”. Em seguida m ais um papo de viaj ante daqueles anos 70. Revisitando as coisas sim ples e rurais: m ato do j ardim , bichos da noite, “levanto cedo pra sentir o que eu perdia”, nascer do sol, “Brilho das pedras / Paulo Afonso”. Vocais m aravilhosos fazem -m e recordar de cantorias nos acam pam entos na beira de rio, sob a lua cheia. E no final da canção a frase intrigante, cantada com vocal do trio e acom panham ento orquestral: “Vapor do São Francisco, quem não te deixa ver o m ar?” Mais um a vez lem bro o clim a Beatle, em Abbey Road/lado B.
E aí vem a derradeira canção que fecha o disco com o um adeus, um até breve, um a despedida do que de bom ficou pra trás, saudade: “teto sem forro, telha de barro, casa de abelha no m orro, cam a de palha, trilha de areia (...) gente m orena e vivida. Até m ais ver, sertão.”
TERRA VISTA POR DENTRO (depoim ento de Luiz Carlos Sá)
Este ano fazem exatos 40 anos que Sá, Rodrix e Guaraby ra gravaram e lançaram o Terra, segundo LP do trio. A pressão sobre nós era grande: o prim eiro disco, Passado, Presente, Futuro, fora um estrondoso sucesso de público e crítica e todos aguardavam ansiosos o que deveria ser nossa próxim a overdose de novidades. Acontece, porém , que j á chegávam os ao estúdio desgastados por um a série de acontecidos em nossas vidas particulares e artísticas. Nossa prim eira “caída na estrada” fora um a sucessão de trapalhadas das produções locais, o que ocasionara um racha entre nós sobre continuar ou não com a firm a que então nos em presariava. Estávam os ainda de m udança para São Paulo, a convite do m aestro Rogério Duprat, onde trabalharíam os com publicidade, coisa que por si só m e horrorizava. Apesar da vontade de estar por perto de Rogério, m eu ídolo m usical desde sem pre, eu não conseguia m e im aginar longe do Rio. Mas aceitei dem ocraticam ente o m ando da m aioria e estava quase conseguindo m e convencer de que a m udança seria positiva. Entre um disco e outro, Guaraby ra m e levara a conhecer o São Francisco. A “descoberta” desse outro Brasil e a exposição à rica tradição cultural do povo do rio m arcaram profundam ente m eus rum os de vida e m úsica. Essa era um a viagem que deveríam os ter feito a três, m as – não m e lem bro o porquê – Zé acabou não indo, e isso nos desgarrou ainda m ais: chegam os cheios de sertões e cerrados diante de um Rodrix j á paulicéia pura...
Mal entram os no estúdio e j á tínham os graves divergências sobre o repertório. A diversidade de cam inhos era gritante. Resolvem os parcialm ente a coisa com binando que todas as m úsicas seriam assinadas pelo trio, num a tréplica a Lennon-McCartney e Roberto-Erasm o. Se dava certo com eles, porque não com a gente?
Mas tocam os em frente e a coisa com eçou a ficar divertida... Conseguim os viaj ar pelo m enos na m etade da m aionese que viaj áram os no prim eiro disco, usando e abusando da liberdade plena que a Odeon e nosso produtor – de novo Mariozinho Rocha – nos davam .
Para a capa reconvocam os nossos am igos Waltercio Caldas Jr. no design e Miguel Rio Branco nas fotos, que fizeram um a verdadeira obra gráfica de capa dupla, fora o encarte genial. Não sem razão eles são hoj e figuras de ponta em suas especialidades.
No estúdio, nossos fiéis escudeiros e com panheiros de estrada, Sérgio Magrão no baixo e Luiz Moreno na bateria. Zé fez lindos arranj os de cordas e m etais. Com esse sim ples quinteto fizem os o disco inteiro, adicionando em apenas um a faixa o solo de harm ônica de Cezinha de Mercês.
Foram dois rápidos e frenéticos m eses de estúdio. Mesm o com preciosidades pontuais, o Terra está longe de ser um dos m eus trabalhos preferidos. Certo, ele tem “Mestre Jonas”, “O pó da estrada”, “Blue riviera” e “Brilho das pedras”, m úsicas em blem áticas em nossa carreira. Tem um a capa poderosam ente criativa e um encarte que eu gostaria de estam par num cobertor, para poder dorm ir com ele todas as noites da m inha vida. Mas é tam bém um sím bolo de separação, de esgarçam ento do sonho de três rapazes, um tubo escuro e fundo que nos atirou no rum o da vida real, do show business, do jingle, das coisas que j ulgávam os distantes, m as que acabaram por revelar-se perigosam ente próxim as.
Você tem o álbum ao seu lado? Pegue pois é bonito de ver.
Na capa, um outdoor com um violão que tem em seu braço as cordas sustentadas por postes, com o nas estradas. As cores são duras, a im pressão, precária, afinal estam os em 73, lem bra? Prestando atenção, você verá que aparecem os a m eio-corpo abaixo do outdoor. Aí, você abre a capa dupla e surgem fotos que nos revelam em nossa vida carioca, ora no apê de Guaraby ra em Ipanem a (para os curiosos detalhistas, era na Barão entre a Teixeira e a Farm e), ora no tugúrio do Zé no então novinho condom ínio do Tam bá... Nós na j anela, Gut j ogando sinuca, eu afinando, Magrão pensando a bordo do baixo, Morenão fum ando na bateria forrada de colchas pra não aporrinhar os vizinhos, os três na escada para o segundo andar, a linda escadaria anos 40 de m árm ore salpicado de pedriscos captada pelo olho im placável do Miguel que faz de tudo, espantos e surpresas. De repente você descobre que existe um encarte, um a coisa louca bolada pelo Waltercio, aquele cam inhão de m udança içado aos ares por um a nuvem , deixando descuidadam ente cair três violões que certam ente vão se estatelar ao chão... E aí você chega finalm ente na contracapa e dá de cara com nós três, cada um com seu figurino bem particular, o Guaraby ra, largado; eu, despoj ado e o Zé m ais “hipiem ente” arrum ado. Éram os assim , isso m esm o, estam os ali, calças boca-de-sino sem cintos, pés no m ato que cresce atrás daquele outdoor que não m e lem bro m ais onde era.
Menos de seis m eses depois dessa foto não éram os m ais nós, em bora ainda parecêssem os ser. Fom os cada um para o seu lado, gravando discos solo e am argando um a separação que não sabíam os de onde viera, visto que estava tudo dando tão certo.
Acabou que eu e Guaraby ra seguim os j untos e Zé fez sua carreira solo. Vinte e seis anos depois disso nos reencontram os e com em os doze anos de estrada em trio até a inesperada partida de Zé Rodrix, que não pôde se dar ao luxo de um a despedida, tão de repente que foi.
E agora, estou eu aqui, escrevendo isso e escutando o Terra e pensando até hoj e se ele é bom ou ruim . Sei lá. Problem a seu!
Mas aqui entre nós, eu gosto.
Terra (Odeon − SMOFB 3761)
Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor m usical: Maestro Gay a
Assistente de produção: Mariozinho Rocha
Regentes: Gay a e Mário Tavares
Diretor técnico: Z. J. Merky Técnicos de gravação: Nivaldo Duarte, Toninho e Dacy
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de rem ixagem : Jorge Teixeira
Fotos: Miguel do Rio Branco
Design: Waltercio Caldas Junior
Lado A
1. Os Anos 60 (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
2. Desenhos no Jornal (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
3. Mestre Jonas (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
4. Blue Riviera (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
5. Adiante (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
Lado B
1. Pindurado no Vapor (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
2. O Pó da Estrada (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
3. Medley: a) O Brilho das Pedras (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix
e Guaraby ra)
b) Paulo Afonso (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)
4. Até Mais Ver (Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guaraby ra)