1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 43 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Cala a Boca, Moço

PIRI, FRED, CÁSSIO, FRANKLIN E PAULINHO DE CAMAFEU COM

SÉRG IO RICARDO − SÉRGIO RICARDO

 

Luiz Américo Lisboa Júnior

 

im agem m idiática m ais forte que se tem do m últiplo artista Sérgio Ricardo é de sua participação no III Festival da Canção

 

A Popular de 1967 (TV Record) interpretando “Beto bom de bola”. Não pela m úsica em si, pois ninguém a ouvia diante da reação da plateia que vaiava de m aneira ensurdecedora. Mas pela m aneira contundente que Sérgio quebra seu violão na frente de todos, num a atitude acim a de tudo política, e solenem ente o j oga sobre a plateia. O ato ganhou notoriedade até na im prensa internacional.

E é exatam ente um trecho dessa cena que estam pa a parte superior da capa de seu disco de 1973 que tem com o título Piri, Fred, Cássio, Franklin e Paulinho de Camafeu com Sérgio Ricardo. No lugar da boca de Sérgio, um a tarj a branca sim bolizando a censura a que fora subm etido na ocasião. A boca em si é carregada pelo sím bolo da censura, um pequeno hom em criado pelo cartunista Caulos. No interior da capa dupla o tal hom em /sím bolo está sentado num banquinho na posição de um atento ouvinte de frente para a boca que abre as letras das m úsicas em leque.

Devido a essa provocação Caulos e Sérgio foram intim ados a depor no DOPS (Departam ento de Ordem Política e Social) e prestar esclarecim entos. O pessoal do DOPS queria saber o porquê daquela capa com a boca cortada. Eles tam bém queriam saber o que Sérgio queria dizer com o refrão “cala a boca, m oço” de sua m úsica “Calabouço”.

Vale sublinhar que os nom es que aparecem na capa na verdade pertence os grupo de m úsicos que com ele criaram o disco: Piri Reis, Cassio Tucunduva, Fred Martins, Franklin da Flauta e Paulinho de Cam afeu.

A m aioria das canções do disco são dos anos sessenta, e algum as estavam vetadas pela censura, m as eram exaustivam ente cantadas por Sérgio Ricardo em seus shows. Dentre elas, destaca-se “Calabouço” feita em 1968 no calor dos acontecim entos que resultaram na m orte do estudante Edson Luiz no restaurante universitário cuj o nom e é o m esm o do título da m úsica. Na letra Sérgio Ricardo provocava e fazia um j ogo de palavras sutil, m as dem olidor: “Olho aberto, ouvido atento e a cabeça no lugar, cala boca m oço, cala boca m oço, do canto da boca escorre m etade do m eu cantar, cala a boca m oço, cala a boca m oço, eis o lixo do m eu canto que é perm itido escutar, cala a boca m oço, fala! Olha o vazio nas alm as, olha um violeiro de alm a vazia (...) cala o peito, cala o beiço, calabouço, calabouço.”

“Sina de Lam pião” retrata as ilusões perdidas, a tragédia da em igração do povo nordestino, sofrido por conta da seca, hum ilhado, sem perspectivas, e ainda cita a questão agrária e a exploração do hom em do cam po, tem a recorrente das canções de protesto social dos anos 1960: “Da m inha terra nem sequer sobrou sem ente / foi-se em bora toda gente / uns na terra outros a pé, dos que se foram uns ganharam a cidade, outros estão na saudade enraizada pelo chão.”

“Antonio das Mortes”, em parceria com Glauber Rocha, fez parte da trilha sonora do film e Deus e o Diabo na Terra do Sol; “Canto am ericano” reflete a esperança de um a Am érica Latina livre. Num a época em que o continente estava m ergulhando em sangrentas ditaduras, a canção é um canto de liberdade e segue um a trilha sonora libertária, aspiração tam bém com partilhada por outros com positores com o Violeta Parra e Victor Jara.

“Vou renovar” é um a em bolada crítica bem hum orada cuj a letra sem pre era m odificada por Sérgio Ricardo a depender da ocasião, no disco ela nos rem ete a um a idealização de um a sociedade sem distinção de classes e faz referência à insegurança a que estavam subm etidos os com batentes da ditadura correndo o risco de prisão e torturas. A letra sofreu vetos da censura tendo que substituir a palavra com unista por colunista, e o título é um a m ensagem sublim inar da vontade do artista em ver m udado/renovado o atual quadro político da nação: “Canto para classe A, canto para a classe B, cantoria popular, que não é nem A nem B, cuj a fonte está no povo, onde eu vou buscar o novo e aprender m eu bê-a-bá. (...) Mas m e diga onde é que está a classe do A sem B e a classe do B sem A, não m e diga que ela é C, porque C é com unista e vai dar m uito na vista, e os hom ens vão te apanhar.”

Em “Sem ente” e “Beira do cais” tem os duas canções com um discurso lírico, sensual e resistente; “Juliana do am or perdido”, a única peça instrum ental do LP, traz influências arm oriais nordestinas, barrocas e bem brasileiras.

“Deus de barro” nos rem ete a um tem po e lugar m ístico ou real onde esperança e descrença se fazem presentes no brado dos viventes, sendo que a últim a acaba vencendo representada pelo silêncio da voz do profeta.

O disco se encerra com “Tocaia” onde o discurso m etafórico e panfletário se insinua em tom rom anesco em frases com o: “Não era noite nem dia, era um tem po sem cor nem hora, tocaia, tocaia, tocaia, tocaia (...) e na m arca a traição, cravado por m il centelhas, era o m edo m atando um hom em , não m ata, não m ata, é am ado.”

Ao ouvirm os este trabalho de Sérgio Ricardo verificam os que a história do Brasil pode tam bém ser entendida e contextualizada através de belas canções, e que a briga por um país cada vez m ais livre e dem ocrático e com m enos desigualdades sociais representa aspirações perm anentes, não im porta o tem po de luta, pois são atem porais e eternas.

A MPB NA ERA DE AQUÁRIOS – CHUMBO E AMOR

Houve um tem po neste país em que a m úsica popular trazia um sentim ento ideologizado de conotação social cuj o resultado foi a form ação e m aturação de um grande núm ero de com positores que aliados à intrepidez de seus intérpretes form aram a consciência da nação ou a falta dela. Essa m istura de conceitos e ideias prós e contra ao estado de vivência histórica nacional se deu de m odo m ais puj ante no início da década de 1960, época em que cabeludos cantavam e com punham versões de m úsicas pop internacionais, e outros considerados xenófobos e intelectuais da vanguarda esquerdista, oriundos do intelectualism o ideológico da guerra fria, viam o país sob o prism a das transform ações sociais resultantes das reform as de base propostas pelo governo João Goulart. Foi um período em que o rock de Celly Cam pello, Tony Cam pelo, Rony Cord e Sérgio Murilo se fundiram com a bossa nova de João Gilberto e Antônio Carlos Jobim e a MPB dos novos criadores que viriam a seguir, com o Edu Lobo, Chico Buarque e Geraldo Vandré, além do deboche irreverente e sério de Juca Chaves com o um contraponto à seriedade intelectual do CPC da UNE e o frescor descom prom issado dos j ovens fãs de Elvis Presley e, posteriorm ente, de Beatles e Rolling Stones.

Este país j á não era o m esm o da era do rádio. A Nacional e a Tupi j á estavam em processo de decadência, os novos tem pos viam na televisão a possibilidade de a ascendente classe m édia não som ente ouvir, m as ver seus novos ídolos e com eles vibrar em ressonância com os rum os que a nação estava vivendo. Assim essa nova vanguarda foi ao teatro, cinem a e apostou tudo tam bém na TV. Os sím bolos m aiores dessa fase seriam os festivais de m úsica popular, produtos criados para alavancar a audiência das em issoras e ao m esm o tem po divulgar a canção que se fazia em seus m últiplos e variados segm entos.

A nação fervilhava, o m undo seguia seu rum o de liberdades e lutas por um a sociedade m ais hum ana, fraterna e sem preconceitos. Os j ovens eram os protagonistas do que se cham ou Era de Aquário, m as se esqueceram que por trás de sua transgressão revolucionária estava o estigm a do conservadorism o. Com a luta ideológica de duas gerações, a dos filhos da segunda guerra com os filhos da contracultura revolucionária e utópica, estava, portanto, criado o cam po para o conflito e ele não tardou a surgir, pois os filhos da guerra não estavam adequadam ente engaj ados e conscientes dessas m udanças e o m undo do pós-guerra j á não respirava os ares do triunfo da liberdade ganha com “sangue, suor e lágrim as”. O inim igo agora era outro, vinha do leste europeu e instalara um a base no Caribe, precisam ente em Cuba. O cham ado perigo verm elho crescia num a velocidade estonteante em confronto ao perigo do capital, resultando num “big bang” ideológico que traria consequências im previsíveis, m as cuj as principais vítim as seriam os países da periferia, do cham ado terceiro m undo, e aí, nessa leva explosiva, nossa perspectiva de liberdade com crescim ento foi literalm ente para o espaço.

Contudo, se a alegria estam pada pela euforia da classe m édia conservadora foi prem iada com a vitória de um golpe em 31 de m arço de 1964, essa m esm a classe m édia e seus j ovens talentos surgidos para o estrelato seriam os porta-vozes da liberdade em suas m ais variadas nuances, sej a cantando “She loves y ou” ou entoando a “Marcha da quarta feira de cinzas”. Sinalizando para o fim do carnaval, das canções e reverberando a tristeza de um tem po com expectativa som bria, assim se fez um país contraditório e plural que m esm o com a palm atória com o instrum ento de coação, tam bém sorriu, cantou, gritou e chorou quando foi preciso.

Neste contexto histórico, cuj os suj eitos éram os todos nós, quer no conforto dos lares ou nos inconform ism os das ruas e das universidades, é que se produziu a nossa trilha sonora, o som de um tem po que de nublado tornou-se tem pestuoso tentando ofuscar o brilho de corações e m entes, m as im possibilitado de calar a nossa voz e oprim ir nosso talento, que se revigorava a cada m edida ou ato de arbítrio. Foram -se em bora as ilusões e entrou em cam po a luta, o cam po para um a guerra agora de ideias, suor e lágrim as, m as que acabou trunfando na esteira da paz e do am or, e assim foi feito a partir de m aio na Europa, e no dezem bro de trevas do Brasil de 1968, quando as lutas pelo restabelecim ento das liberdades dem ocráticas em nosso país se acirraram a partir da decretação do Ato Institucional Nº 5 em 13 de dezem bro daquele ano. Até esta data havia um crescente inconform ism o diante da inflexibilidade dos governos m ilitares em propor um a volta ao estado de direito. Sob a guarda da censura, j ornais, revistas, artistas, m úsicos e intelectuais de todos os gêneros e opiniões tinham suas vozes perm anentem ente ceifadas ou proibidas, sob o argum ento vil de que conspiravam contra a ordem vigente. Eram , portanto, elem entos nocivos ao regim e e tachados de subversivos ou com unistas.

Vivíam os um a realidade m uito difícil, pois tornava-se insuportável conviver com um controle paranoico de ideias onde qualquer cidadão era suspeito pelo sim ples fato de expor seus pensam entos, principalm ente se eles fossem contra o então quadro político. Nesse aspecto surgiu no Brasil um grupo de hom ens livres que se entregaram num a cruzada de resistência ideológica e fizeram disso um a bandeira de luta, m esm o sabendo dos riscos que corriam . Porém valia a pena o enfrentam ento, até porque lutar pela liberdade é um ato de heroísm o cívico, além é claro, de ser um dos princípios fundam entais da hum anidade.

No cam po especifico da m úsica popular é do conhecim ento de todos as perseguições enfrentadas por com positores com o Chico Buarque, Geraldo Vandré, Taiguara e m uitos outros que lutavam contra o arbítrio que im perava no Departam ento Nacional de Censura, órgão oficial do governo com autonom ia para m onitorar a produção intelectual do país. Apesar de todas as dificuldades era necessário não se deixar esm orecer e fraquej ar. Naquele m om ento isso seria desastroso, um ato de covardia diante da pátria e do que ela significava para cada um de nós.

Em m eio a este caos, além dos j á citados, um nom e se fez vibrante, inconform ado, realista e determ inado, era o paulista Sérgio Ricardo. Construindo sua carreira de cantor, com positor e cineasta desde os anos 1950, foi um dos m ais duros e com petentes com batentes da ditadura durante a década de 1960. Nunca se deixou levar por ilusões, sabia e percebia perfeitam ente o que se preparava para o país a partir de m arço de 1964. Desde cedo pode verificar a virulência dos conspiradores e sua intenção de instaurar no Brasil um regim e de força, no qual liberdade era um a palavra inexistente no vocabulário dos novos donos do poder.

Perseguido im placavelm ente, Sérgio Ricardo foi seguindo seu cam inho, e suas canções dem onstravam a sua capacidade de resistência, além de criarem um a parte significativa da trilha sonora dos anos de chum bo. Um exem plo dessa síntese de lutas m usicais e poéticas esta bem delineado no seu m elhor trabalho lançado em 1973, um LP que traz em seu repertório as m ais engaj adas canções de sua autoria e que são um m arco representativo do pensam ento radical de um artista que denunciava um dos períodos m ais desastrosos e contraditórios da vida brasileira.

 

Piri, Fred, Cássio, Franklin e Paulinho de Camafeu com Sérgio Ricardo (Continental − SLP 10.093)

Produção: Sérgio Ricardo

Mixagem : Luigi Hoffer

Gravação: Som il

Capa: Caulos

Foto de Sergio Ricardo – Teatro Record 1967

Fotos da contra capa: Sergio Bernardo

Sérgio Ricardo: voz, viola, violão e piano

Piri: viola, violão, rabeca e bandolim

Cássio: baixo elétrico e viola

Franklim : flauta doce e flauta em dó transversa

Paulinho Cam afeu: percussão

Lado A

1. Calabouço (Sérgio Ricardo)

2. Deus de Barro (Sérgio Ricardo)

3. Semente (Sérgio Ricardo)

4. Sina de Lampião (Sérgio Ricardo)

5. Juliana do Amor Perdido (Sérgio Ricardo)

Lado B

1. Beira do Cais (Sérgio Ricardo)

2. Antônio das Mortes (Sérgio Ricardo e Glauber Rocha)

3. Canto Americano (Sérgio Ricardo)

4. Vou Renovar (Sérgio Ricardo)

5. Tocaia (Sérgio Ricardo)