1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 14 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

O Solo Sagrado da “Missa” de Edu

O SOLO SAGRADO DA

“MISSA” DE EDU

EDU LOBO − EDU LOBO

 

Regina Zappa

 

um dia de sol em Recife, terra de seus pais, que visitou frequentem ente durante a infância e a j uventude, Edu Lobo

 

N ouviu no rádio a canção que foi ponto de partida para a carreira de m uitos m úsicos brasileiros. Era “Chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, na voz dissonante de João Gilberto. O im pacto foi grande para o garoto de 16 anos criado em Copacabana, no Rio, e alim entado pelo frevo e o m aracatu do Pernam buco das férias. Mais tarde, fascinado pela Bossa Nova daquele m om ento de revelações sonoras, Edu foi buscar a síntese da sua com posição no caldo m usical que ingeriu. Entre os sons do acordeão da adolescência e os ritm os pernam bucanos, passando, claro, pelas harm onias da Bossa Nova, ele foi traçando seu cam inho. A paixão pela m úsica ganhou força quando entrou em sua vida a m úsica de Tom Jobim e Villa-Lobos. Foi essa m esm a paixão que levou Edu Lobo a produzir alguns dos m ais im portantes discos da m úsica brasileira, entre eles o pouco conhecido Missa breve, lançado em 1973, e que, segundo o próprio Edu, o fez sentir-se “um m úsico de verdade”. Na verdade, o nom e oficial do LP é Edu Lobo, m as ficou conhecido com o o disco de “Missa breve”.

O sucesso para Edu chegou a galope. Foi quase um susto quando o público acolheu com enorm e entusiasm o “Arrastão”, dele e de Vinicius de Moraes, interpretado pelo furacão Elis Regina no festival da TV Excelsior, em 1965. “Arrastão” caiu no gosto popular e pulou para os prim eiros lugares nas paradas de sucesso e nas listas de vendas. Edu era, então, nos anos 1960, um j ovem talentoso e um prom issor m úsico de 22 anos.

Dois anos depois, veio outro estrondoso sucesso. “Ponteio”, canção que fez com Capinan e que venceu o Festival da Record de 1967, foi consagrada pelo público presente no teatro e por todo o Brasil. A televisão proj etou para a fam a aquele belo rapaz de boa voz e m úsica sofisticada. Edu virou popstar da noite para o dia. Mas aquilo o incom odava. Seu desej o não era viver se apresentando de palco em palco. A paixão pela m úsica o inquietava. Queria saber m ais, aprender m ais. Foi, então, que um acontecim ento nefasto no país o aj udou a decidir-se: o governo m ilitar instituiu a censura e a repressão ao assinar o Ato Institucional 5, em 1969. Foi o em purrão que faltava para Edu sair do país e ir-se em bora para Los Angeles estudar orquestração. Assim , ele afastava-se, sem arrependim entos, do turbilhão dos festivais de m úsica e da notoriedade que havia conquistado. “Eu queria ir cantor e voltar com positor”, disse.

Dito e feito. Estudou orquestração com Albert Harris e m úsica de cinem a com Lalo Schiffrin e voltou, dois anos depois, um m úsico com sólido conhecim ento de orquestração, com a experiência anterior de ter gravado discos com Paul Desm ond (From the Hot Afternoon, 1969) e Sergio Mendes (Sergio Mendes Presents Lobo, 1970). Na volta, só pensava em com por porque os estudos em Los Angeles haviam consum ido todo seu tem po e a com posição ficou de lado. “Eu tinha acabado de chegar dos Estados Unidos, onde estudei m uito, m uito m esm o. Cheguei seco para escrever.” Edu j á havia lançado vários LPs, entre eles o prim eiro, gravado com o Tam ba Trio, Edu Lobo por Edu Lobo, e outros tais com o Edu Canta Zumbi, Edu e Maria Bethânia, Edu e Cantiga de Roda.

Já no Rio e m ovido pela enorm e vontade de com por, Edu assinou contrato com a gravadora Odeon para produzir um disco e acabou fazendo aquele considerado por m uitos um dos m ais im portantes da sua carreira: o Missa Breve. A ideia surgiu de um a conversa com Carlos Ly ra e Gianfrancesco Guarnieri, seu parceiro em “Zum bi”, que pretendiam escrever um conj unto de canções de protesto no form ato de um a m issa agrária. Com eçaram , m as não concluíram . E Edu ficou com essa ideia na cabeça.

“Foi a época em que com ecei a ouvir m úsica clássica para valer, acom panhando a partitura. Faço isso com o se estivesse vendo um film e. Não é estudo, é prazer. E m eu prazer de ouvir m úsica está altam ente relacionado com a partitura que está na m inha frente. Se ouço sem a partitura não ouço tanto, perco coisas, m e distraio. Às vezes descubro algum a coisa fantástica, paro vou para o piano e reproduzo aquele acorde.”

Sua form ação m usical não foi erudita, não passou pela m úsica clássica, que só com eçou a ouvir sistem aticam ente a partir de 1969, quando seu perfil m usical estava delineado e j á havia com posto m úsicas com o “Upa neguinho”, “Marta Saré”, “Arrastão”, “Canto triste”, “Pra dizer adeus” e “Ponteio”. Então, apaixonou-se pela m úsica m oderna de Stravinsky, depois Debussy, voltando no tem po até Mozart.

“O ear training e a leitura de partituras de outros m úsicos são o alicerce do novo disco”, diria, em m arço de 1973, o crítico Tárik de Souza. Em bora sem pre tenha afastado qualquer intenção de classificá-lo com o com positor de aspirações eruditas, Edu tem gavetas lotadas de partituras, que coleciona desde essa época.

Era 1972. Edu decidiu levar o proj eto da m issa adiante e com eçou a com por. Pela prim eira vez teria total liberdade para escrever, gravar, arranj ar e orquestrar. Com eçou a com por as canções para o lado A. Já a prim eira m úsica foi um im pacto. Os baixos do piano de Tenório Júnior e os m etais em “Vento bravo”, feita em parceria com Paulo César Pinheiro e hoj e um a de suas m úsicas m ais conhecidas, j á eram um prenúncio das novidades que vinham por ali. Foi fazendo, m as seu interesse principal era a “Missa”, que com poria para o Lado B do disco. Nela, conj ugaria o form ato popular com um clim a litúrgico, com algum as letras em latim .

Edu lem bra-se: “Eu estava com pletam ente fascinado e o que eu queria na vida era escrever para orquestra. Prestei m uito m ais atenção no lado da “Missa”. O outro era com plem entar e, apesar do prazer em com por aquelas canções [do Lado A], naquele m om ento achava m enor. Quando se tem pouca idade se entra em parafusos.”

Para o Lado A foram com postas ainda “Viola fora de m oda”, com Capinan, “Porto do sol”, com Ronaldo Bastos, “Zanga zangada”, tam bém em parceria com Ronaldo Bastos, e “Dois coelhos”, com Ruy Guerra, com quem j á tinha feito as vigorosas “Reza” e “Aleluia”, entre outras. Apesar das belas canções do Lado A, a grande surpresa estava reservada para a “Missa”. Foi para Edu um a experiência de total liberdade e de realização profissional. Tanto que hoj e, quando relem bra a produção do disco, tem quase certeza de que o Lado A era o da “Missa” e só se convence quando pega o disco e verifica que a “Missa” entrou no Lado B, provavelm ente porque era considerada m ais “difícil”. Mas se dependesse de Edu, a “Missa” entraria no lado “vip” do disco: “Para m im aquele era o filé m ignon. Lem bro da alegria que m e deu quando o disco ficou pronto. Fiquei m uito contente com essa história da ‘Missa’. Sem m enosprezar o outro lado (o A), a ‘Missa’ para m im era com o se eu estivesse m udando a m inha vida. Tinha um peso excepcional. Fez com que eu m e sentisse um m úsico de verdade.”

No disco, Edu teria, pela prim eira vez, a oportunidade de ser o arranj ador de suas m úsicas e de com andar a grande orquestra que m ontou para a gravação. Eram m uitos m úsicos e m uitos instrum entos, feito que hoj e em dia seria quase im possível de realizar por causa dos altos custos. Edu acrescentou, na época: “O lado um tem possibilidades de ser bastante tocado. Mas o forte para m im , é o lado dois, que tem a ‘Missa Breve’.”

A batida do violão de Edu – que se destaca sobretudo em “Viola fora de m oda”, com posição com Capinan, que ainda tem a flauta pontual de Danilo Cay m m i – acom panhou quase todas as m úsicas. Em “Vento bravo”, Edu contou com a precisão do trom pete de Maurício, o sax de Paulo Moura, o trom bone de Edm undo Maciel e o sax barítono de Aurino Ferreira de Oliveira. A guitarra de Nelson Ângelo acom panhou “Porto do sol”, de Edu e Ronaldo Bastos, assim com o o piano elétrico de Tenório Júnior. De novo, o violão de Edu em “Zanga zangada”, e o sax de Paulo Moura. Os arranj os de “Porto do sol” criam um clim a im pressionista, “algo parecido com a atm osfera de ‘Marta Saré’”, diz Edu. Todas as faixas do Lado A foram acom panhadas pela bateria de Rubinho Moreira, que participou depois da prim eira gravação do Clube da Esquina e trabalhou cinco anos com Edu. A suave e densa “Dois coelhos”, que tem letra de Ruy Guerra, finaliza o lado A e prepara o ouvinte para a “Missa breve”, do lado B.

Com os títulos “Ky rie”, “Glória”, “Incelensa”, “Orem us” e “Libera-nos”, a “Missa”, considerada na época bastante herm ética para os padrões da MPB, surpreendeu pelo requinte dos arranj os e pela estrutura harm ônica das m elodias. “O trabalho brilhante de Edu Lobo com o arranj ador deu às cinco faixas um resultado final de ótim o nível”, afirm ou Aram is Millarch, em artigo escrito para o j ornal Estado do Paraná, em 1973, assim que saiu o disco.

Na época, Edu declarou: “Este não podia ser apenas ‘um disco a m ais’. Tinha de ser algum a coisa diferente. Mas estou m uito satisfeito com o que foi realizado e posso afirm ar que este tem tudo para ser o m eu m elhor disco. Diria até m ais: sem nada de falsa m odéstia, este é o m eu ‘prim eiro’ disco. O prim eiro onde consigo fazer tudo o que realm ente quero, sem m úsicas que não m e satisfaçam plenam ente, sem concessões.” E até hoj e ele diz: “Sem pre fui m uito livre na m inha m úsica.”

Na “Missa”, o tem a da segunda faixa, “Glória”, foi considerado, na época, um a das peças m ais inspiradas de toda a discografia de Edu Lobo, a síntese do espírito da “Missa breve”. Assim com o “Ky rie”, é cantada em latim pelo coro, presente em quase toda a “Missa Breve” e com posto por vozes com o a do próprio Edu (em “Ky rie”), Danilo Cay m m i, Cy nara, Cy va e Dorinha Tapaj ós (do Quarteto em Cy ), Ruy (do MPB4), Fernando Leporace e Sônia Burnier.

O órgão de Dom Salvador aparece em “Ky rie” e o m esm o instrum ento, desta vez tocado por Dori Cay m m i, surge em “Glória”. “Incelensa”, que tem letra de Ruy Guerra, é cantada por Edu e tem flauta de Danilo Cay m m i e guitarra de Nelson Ângelo. Milton Nascim ento em presta a extraordinária voz à instrum ental e litúrgica “Orem us”, um verdadeiro passeio em solo sagrado.

A quantidade de instrum entos exigida pela orquestração e o zelo perfeccionista de Edu com sua m úsica contribuíram para que “Missa” fosse um de seus discos m ais elaborados. Foram vários m eses de intensa pesquisa e cada m úsica levou cerca de um a sem ana para ser gravada por Edu e sua “orquestra”, com total autonom ia.

Com o diz Edu, a “Missa” não teve “esses carinhos todos” por parte da crítica na época e nunca foi apresentada ao público ao vivo. No m esm o ano, Edu fez as orquestração das m úsicas de Calabar, o Elogio da Traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra, que às vésperas da estreia, foi proibida pela censura do governo m ilitar. Anos depois ele com pôs com Chico Buarque um de seus m aiores sucessos, O Grande Circo Místico.

Mas, a partir da “Missa”, considerada um m arco em sua carreira, Edu foi aperfeiçoando a j á notável estrutura harm ônica de sua m úsica e sedim entando seu sólido percurso m elódico.

 

Edu Lobo (Odeon − SMOFB 3748)

Diretor de produção: Milton Miranda

Diretor m usical: Maestro Gay a

Assistente de Produção: Dori Cay m m i

Orquestrador: Edu Lobo

Regente: Mário Tavares

Diretor Técnico: Z.J. Merky

Técnico de gravação: Nivaldo Duarte, Toninho, Zilm ar Araúj o

Técnico de laboratório: Willy Paiva Moreira

Técnico de rem ixagem : Jorge Teixeira

Lay out: Cafi

Arranjos:

Edu Lobo: violão (2, 3, 4, 5, 7 e 8), percussão (3), coro (6)

Novelli: contrabaixo (1, 2, 3 e 4)

Paulo Moura: alto sax (1 e 4)

Rubinho Moreira: bateria (1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 10), tum badora (1), percussão (6)

Tenório Júnior: piano (1, 6 e 10), piano elétrico (3), órgão (9)

Edm undo Maciel: trom bone (1)

Maurício: trom pete (1)

Danilo Cay m m i: flauta (2 e 8), percussão (3 e 8), voz (1, 2, 6, 7, 8 e 10)

Nelson Ângelo: violão (3), violão de 12 cordas (7 e 8), voz (7), percussão (8)

Dom Salvador: órgão (6)

Fernando Leporace: baixo elétrico (6, 7, 8 e 10), voz (1, 2, 6, 7, 8 e 10)

Dori Cay m m i: órgão (7), voz (1)

Aurino Ferreira de Oliveira: sax barítono (1)

Cy nara: voz (6, 7 e 10)

Cy va: voz (6, 7 e 10)

Dorinha Tapaj ós: voz (6, 7 e 10)

Ruy (MPB4): voz (6, 7 e10)

Sônia Burnier: voz (6, 7 e10)

 

Lado A

1. Vento Bravo (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro)

2. Viola Fora de Moda (Capinan e Edu Lobo)

3. Porto do Sol (Edu Lobo e Ronaldo Bastos)

4. Zanga, Zangada (Edu Lobo e Ronaldo Bastos)

5. Dois Coelhos (Ruy Guerra e Edu Lobo)

Lado B

1. Missa Breve: Kyrie (Edu Lobo)

2. Missa Breve: G lória (Edu Lobo)

3. Missa Breve: Incelensa (Edu Lobo e Ruy Guerra)

4. Missa Breve: Oremus (Edu Lobo)

5. Missa Breve: Libera-nos (Edu Lobo)