1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 15 de 54

Páginas do PDF

1973: O Ano que Reinventou a MPB

Elis Mudou, Não o Disco

(ELIS − ELIS REGINA)

 

Danilo Casaletti

 

e oriente, rapaz. Pela constatação de que a aranha vive do que tece”.

"S Ou, com o Elis registrou em seu LP de 73, “de que a aranha duvido que

tece”. Um erro na letra que deixou Gilberto Gil, autor da canção “Oriente”, chateado.

Confusão à parte, pedido de desculpas a Gil, a canção que abre – não à toa − o álbum Elis anuncia o que a cantora queria para o disco e para a sua vida naquele m om ento. O próprio com positor de “Oriente” declarou, certa vez, que essa é a canção m ais autoreflexiva que j á escreveu. E a cantora tam bém estava em um a fase de reflexão. Era tem po de rever interpretações, rom per contratos com a televisão, deixar de lado a pose de estrela, buscar novos públicos, aparar arestas na com unicação com a im prensa e fãs e curtir um novo am or.

É im portante lem brar que o disco de 73 sucedeu um LP, tam bém de nom e Elis, que trouxe canções com o “Águas de m arço”, “Atrás da porta”, “Nada será com o antes”, “Mucuripe”, “Cais”, “Bala com bala” e “Casa no cam po”. Olhando-o agora, parece um a coletânea de sucessos. Elis estava com a faca, o queij o e o público na m ão. Era só pedir m ais um a nova para o Chico, outra para o Tom . Lançar as outras duas ou três que Fagner havia feito para ela gravar. Manter a m esm a sonoridade que o novo álbum seria, inevitavelm ente, um novo grande sucesso.

Só que essa não era a da Elis. Não m esm o. Em um a entrevista ao j ornalista Luiz Aguiar, da revista O Cruzeiro, em setem bro de 1973, ela disse que não tinha seus discos em casa. “Não tenho por um a questão sim ples: não quero ficar m exendo sem pre na m esm a panela. Acabei de gravar um , ouço para guardar os arranj os e saber com o é. Depois, chuto a bola e vou em frente, não ouço m ais (...). Agora, ficar ouvindo todo dia fica um esquem a de vaidade. O cara fica apaixonado por si m esm o e esse negócio m e cheira a coisa ruim ”, disse.

Diante desse pensam ento, que acom panhou a cantora durante toda a sua carreira − basta ouvir seus discos e saber de seus shows −, Elis partiu para outros assuntos. Para o novo disco, foi procurar a dupla João Bosco-Aldir Blanc – que ela j á havia apresentado no álbum anterior − para ver o que eles estavam fazendo. Buscou por Gil – àquela altura j á bem distante do universo da Tropicália e m ais próxim o do sam ba e de outros ritm os brasileiros. Escolheu quatro m úsicas do com positor baiano, autor que ela não gravava desde 1970. Outras quatro de Bosco-Aldir. Mais dois sam bas: um antigo, “É com esse que eu vou” e um novo, “Folhas secas”.

Os arranj os do disco ficaram a cargo do pianista César Cam argo Mariano, com quem Elis estava casada desde o ano anterior, depois de cinco tum ultuados anos de relação com o produtor e com positor Ronaldo Bôscoli. Elis conhecia César desde os tem pos do program a O Fino da Bossa, na TV Record, nos anos 1960. É dele o prim eiro arranj o de “Upa, neguinho” (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri), grande sucesso de Elis em 1966. O pianista tam bém j á havia feito os arranj os do LP de 1972. A produção era assinada por Roberto Menescal, que tam bém havia trabalho com Elis nos anos 60.

César m ontou um a banda base. Na verdade, um trio de craques. Ele no piano, Luisão Maia no baixo e Paulo Braga na bateria. Nada de cordas, por exem plo, bastante presente no disco anterior. Um som m ais lim po. O foco era a voz da Elis e as letras das canções, garim padas entre m ais de três dezenas de com posições inicialm ente separadas por Elis.

Conform e cada faixa pedia, reforços: a percussão de Chico Batera; o violão de Roberto Menescal; as guitarras de Toninho Horta ou Ary Piassarollo; o bandoneon de Ubiraj ara Silva; e o trom pete de Maurílio da Silva Santos. Todos, é preciso dizer, igualm ente craques. Elis e César só trabalhavam com os m elhores.

Por conta de um som bastante elaborado – o trabalho em estúdio durou três m eses − o disco foi classificado pela crítica com o “frio”, “contido” e “técnico dem ais”. O repertório tam bém foi, inj ustam ente, acusado de “m enor”. Elis, que sabia m uito bem se defender, m andou um recado em sua participação no program a MPB Especial, com andado pelo seu grande am igo Fernando Faro, gravado logo após o lançam ento do LP. “Eu m udei. Não foi m eu disco que m udou. (...) E, se se assustaram com isso, não sei o que vão pensar daqui para frente”, disse.

De fato, quem procurar a Elis de “Arrastão” e “O fino da bossa” no disco de 73 vai se decepcionar. Aliás, ela j á não existia m ais no disco de 72. Elis havia apurado sua técnica, suas divisões e suas respirações. Os agudos desafiadores. Os graves certeiros. O bate-bola com os arranj os. Nada estava fora do lugar.

Mas o disco de 1973 é puram ente técnico? A discussão sobre Elis ser m ais técnica ou em oção é antiga e interm inável. Caetano Veloso costum a dizer que sem pre ficava tranquilo ao ver Elis no palco, pois sabia que nada ali daria errado. Gal Costa afirm a ser o equilíbrio entre Elis e Maria Bethânia. A prim eira, de acordo com a baiana, m ais técnica. A segunda, pura em oção.

Porém , é im possível fechar os ouvidos para as em oções trazidas pelo disco. O próprio repertório escolhido por Elis não perm ite que se dê as costas para o subtexto das canções ou as intenções rítm icas propostas em cada faixa.

Em “Doente, m orena”, por exem plo, com posta com Gilberto Gil em parceria com Duda Machado, a angústia na voz de Elis revela toda a solidão retratada pela letra que fala da personagem que deita sobre os trilhos e vê o tem po (e a vida) passar.

A força e tensão colocadas em “Agnus sei”, um a das prim eiras parcerias de João Bosco e Aldir Blanc, aj udam a dar vazão à história criada pelos autores para denunciar a hegem onia que o Ocidente sem pre tentou im por ao Oriente. A paz na ponta dos aríetes. O tom da voz de Elis não deixa dúvida sobre a m ensagem .

“O caçador de esm eraldas”, um a parceria de Bosco e Blanc com Claudio Tolom ei, com positor que alim entava a vontade de se tornar cineasta e, por isso, pensava suas letras com o se fossem roteiros, conta a saga de Fernão Dias, bandeirante paulista obcecado pela perda esverdeada, m isturada a um prosaico am asso de um casal dentro de um fusca no Recreio dos Bandeirantes, bairro do Rio de Janeiro. Im possível não notar a doçura na voz da cantora.

Ainda da dupla Bosco e Aldir, Elis esfum aça o tom em “Cabaré”, tango que transporta para o am biente noturno e sedutor as am arguras im postas pela ditadura m ilitar que vigorava no país na época. Para dar um respiro, a sensualidade de “Com adre”, com provando que os autores não pensavam apenas em política.

O sam ba “Folhas secas”, de Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito, traz um a Elis resignada diante dos versos que falam do poeta e da inadiável passagem do tem po. A cantora não se deixa abalar diante da nostalgia dos com positores. Canta com doçura, sem desespero.

É preciso tam bém destacar a história bastante interessante que envolve “Folhas secas”. César trabalhava nos arranj os do novo disco que a cantora Beth Carvalho lançaria naquele ano. Em casa, m ostrou, ao piano, a faixa para Elis. Foi paixão à prim eira ouvida. A cantora correu para Nelson, que, m esm o j á tendo prom etido a faixa para Beth, foi incapaz de dizer não ao pedido de Elis.

Contra Beth, o fato de Elis ser contratada de um a grande gravadora à época, a Philips, atualm ente Universal Music. A sam bista, que lançaria seu segundo LP de carreira pela pequena Tapecar, acabou ficando para trás. “Folhas secas”, a bela e inédita canção de Nelson, com eçou a tocar nas estações de rádios na voz de Elis. Beth não engole a história até hoj e e prefere classificá-la com o “roubo”.

Mas, sim , há faixas no Elis de 73 nas quais a técnica parece prevalecer. Pudera. Os sam bas “Meio de cam po” e “Ladeira da preguiça”, am bos feitos por Gil, são verdadeiros desafios rítm icos. Diante das “arm adilhas” de am bos, as interpretações não poderiam ser diferentes. E é perceptível com o Elis se divertia com esse tipo de com posição.

O sam ba de carnaval “É com esse que eu vou”, escrito por Pedro Caetano, com positor de destaque na Era do Rádio, em 1947, tam bém entra na lista das “técnicas”. Mostra tanto o apuro e conhecim ento de Elis, quanto o de César. A partir de um a ideia de Roberto Menescal − conform e inform a o interessante encarte do disco − César m udou a harm onia da canção, transform ando-a em um sam ba-j azz. Elis costum ava dizer – para quem afirm ava que o repertório do disco era m uito “intelectualizado” − que a coisa m ais intelectualizada do disco era j ustam ente o trabalho feito por César na faixa em questão.

Lançado o LP, Elis decidiu continuar, conform e j á descrito no com eço desse texto, com o plano de m udar de público e postura artística. Com aj uda do em presário Marcos Lázaro, saiu para apresentar seu show em um Circuito Universitário. Com seus m úsicos, dois pequenos cam inhões e um ônibus, ela percorreu, em quarenta dias, diversas cidades do interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. A trupe se apresentava em teatros, cinem as e diretórios acadêm icos, sobretudo para um público de estudantes. A opção por fazer um disco m ais enxuto foi providencial para que ela pudesse percorrer lugares por onde grandes artistas não costum avam passar norm alm ente.

“Eu m orria de vontade de fazer (o Circuito Universitário), só que, evidentem ente, nunca m e passou pela a cabeça que pudesse fazer um circuito desses porque eu estava tão rotulada de estrela e tão m etida num determ inado tipo de trabalho que nem sequer pensei que os estudantes quisessem m e ouvir”, disse Elis, em entrevista à revista O Cruzeiro, em 1973.

Duas observações finais se fazem necessárias. A prim eira é sobre o im portante trabalho que Elis lançou logo em seguida, no ano de 1974. Todo esse apuro técnico conquistado por ela, César e seus m úsicos – é im possível e inj usto querer separá-los – foi fundam ental na feitura do LP Elis & Tom, no qual César teve grande influência e participação nos arranj os deste que é considerado um dos m elhores discos de m úsica brasileira da história.

A segunda tange o fato da discussão técnica versus em oção ter tido relevância nesse texto. Teve, prim eiram ente, porque foi o que prevaleceu quando do lançam ento do disco. Elis não é m ais a m esm a? Muitos se perguntaram .

A resposta, porém , não poderia ter sido dada naquele m om ento, de supetão. Certam ente não se deu nessa resenha. E não virá tão cedo. Isso porque, a obra de um grande artista não se esgota. Elis 73 é daqueles discos que revela novas possibilidades a cada vez que é ouvido.

Para dar o veredicto final sobre o assunto, um a análise precisa do j ornalista e escritor Artur da Távola, pouco depois da m orte de Elis, em j aneiro de 1982. Escreveu Távola em um j ornal, sobre as m ensagens que Elis deixou registrada em suas canções: “elas virão lentam ente, ensinando-nos a com preender o que em vida é sem pre im possível: qual foi o m istério daquele ser; de que m ensagens (extracanto) era portador.”

 

Elis (Philips − 6349 076)

Direção de produção: Mazola

Coordenação de produção: Roberto Menescal

Arranj os: César Mariano

Técnicos de gravação: Ary Carvalhaes e Luigi

Estúdio: Phonogram

Corte: Joaquim Figueira

Capa: Aldo Luiz

Fotos: Jacques Avadis

 

Lado A

1. Oriente (Gilberto Gil)

César: Piano e órgão Ham m ond

Luisão: Baixo e fuzy

Paulinho: Bateria e gongo

Chico Batera: Tím panos e percussão

Arranj o: César, Luizão e Paulinho

2. O Caçador de Esmeraldas (João Bosco, Aldir Blanc e Claudio

Tolom ei)

César: Piano e phase-shifter

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Toninho Horta: Guitarra

Chico Batera: Percussão

Ideia: Elis

Arranj o: César

3. Doente, Morena (Gilberto Gil e Duda Machado)

César: Phase-shifter

Luisão: Baixo

Ari: Guitarra

Ideia: Elis

Arranj o: César

4. Agnus Sei (João Bosco e Aldir Blanc)

César: Piano, órgão Ham m ond e phase-shifter

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria e tím panos

Chico Batera: Percussão

Ideia: Elis e César

Arranj o: Paulinho e César

5. Meio de Campo (Gilberto Gil)

César: Piano

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Ari: Guitarra

Chico Batera: Percussão

Ideia: Elis e César

Arranj o: César, Luizão e Paulinho

Lado B

1. Cabaré (João Bosco e Aldir Blanc)

César: Piano

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Ubiraj ara Silva: Bandoneon

Chico Batera: Percussão

Ideia: Elis e César

Arranj o: César

2. Ladeira da Preguiça (Gilberto Gil)

César: Piano

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Ari: Guitarra

Chico Batera: Percussão

Arranj o: César, Luisão e Paulinho

3. Folhas Secas (Nelson Cavaquinho e Guilherm e de Brito)

César: Piano, órgão Ham m ond e phase-shifter Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Roberto Menescal: Violão

Chico Batera: Percussão

Arranj o e ideia: César

4. Comadre (João Bosco e Aldir Blanc)

César: Piano e órgão Ham m ond

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Maurílio: Trom pete

Chico Batera: Percussão

Ideia: Elis e César

Arranj o: César

5. É Com Esse Q ue Eu Vou (Pedro Caetano)

César: Piano e phase-shifter

Luisão: Baixo

Paulinho: Bateria

Toninho Horta: Guitarra

Chico Batera: Percussão

Ideia: Menescal

Arranj o: César