1973: O Ano que Reinventou a MPB

Célio Albuquerque · Capítulo 36 de 54

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1973: O Ano que Reinventou a MPB

Jogando por Música

NOVOS BAIANOS F. C. − NOVOS BAIANOS

 

Ricardo Pugialli

 

ovos Baianos é um cara que não adm itiu deixar de ser m enino. É um

"N

cara que tem que saber pelo m enos ser um a coisa, duas pelo m enos.

Mas saber m esm o um a coisa. Assim com o um a coisa que seria, por exem plo, carregar um tronco de árvore enorm e por um quilôm etro ou dois. Um negócio assim com o j ogar futebol e fazer m úsica, cantar, tocar, fazer com o m úsico m esm o. É isso aí, Novos Baianos é um cara alegre e que acredita que a vida está com eçando”. (Galvão, 1973)

“Imagine um pré-adolescente, 14 anos incompletos, início de 1974, vivendo Beatles, descobrindo o Glam e Hard Inglês que, de repente, ouve este disco. Como era possível tocar samba com instrumentos de rock? Como ele não conhecia aquilo? Ou um ou outro. Samba era na discoteca do irmão mais velho. Rock na sua. Agora tudo ali, num só disco, cativante e apaixonante. Obrigado Novos Baianos, vocês foram a minha maioridade musical”. (Ricardo Pugialli, 2013)

Misture a m ais pura brasilidade, traduzida pelo am or ao futebol, ao sam ba, ao chorinho, com o autêntico rock eletrificado de Jim i Hendrix e afins. Um grupo de j ovens baianos, acrescidos de um a niteroiense, trouxe todas as suas influências para o Rio de Janeiro. Na bagagem , três com pactos e um LP. E um som ainda indefinido, pesado m as sem lirism o. Leve, m as sem profundidade.

Aloj ados em sua cobertura no bairro de Botafogo, com a adição de um baixista carioca, recebem um a visita que m udaria para sem pre o som e a com posição do grupo: João Gilberto. Suas constantes aparições na “praça” do apartam ento, na verdade a sala, foram o com bustível para o LP Acabou Chorare, de 1972. A m aturidade m usical do j ovem Pepeu (então com 20 anos) chegou nestas jams com o m estre da Bossa Nova. Nota curiosa: partidas de futebol aconteciam na sala do apartam ento e isso com certeza apressou a saída do grupo para novos ares.

A panela que iria m isturar os novos ingredientes seria um sítio em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, m ais exatam ente na “Boca do Mato”. Lá, num perfeita com unidade “hippie porém com regras de cuidados não só m usicais, m as pessoais, sugeridas por João Gilberto”, aloj aram -se os “Novos Baianos”. Um m isto de grupo m usical e tim e de futebol am ador. Com m ais dois com pactos e o segundo LP na bagagem , suas m udanças m usicais com eçaram pela gravadora. Saíram da Som Livre e m igraram para a Continental, onde seu estilo “livre” era aceito.

O prim eiro produto na gravadora foi um com pacto com duas m úsicas de carnaval, pois a trupe tinha ideia de fazer o seu Trio Elétrico. Assim registraram “A m inha profundidade” e “O prato a m esa” (Continental − CS 50.461), a prim eira tendo Paulinho com o coautor j unto a Moraes e Galvão. Guitarras baianas, percussão e a anim ação típica das ladeiras de Salvador. Paulinho Boca de Cantor assum e os vocais nas duas m úsicas, sendo o “puxador do trio”. Os Novos Baianos aj udaram a difundir o carnaval eletrificado da Bahia, j á que os LPs do Trio Elétrico de Dodô & Osm ar só sairiam a partir de 1975.

Mas este ainda não era o m aterial que o grupo queria m ostrar em seu novo LP. Queriam seguir adiante, “depois da barca atracar”, num a alusão à “Preta pretinha”. Eles atingiram sua m aturidade com o disco Novos Baianos Futebol Clube.

Em plena ditadura m ilitar eles desafiavam as convenções vigentes, pois viviam “em com unidade”, vários casais e solteiros, crianças, com unhão total dos bens, pois o dinheiro ficava em um a sacola e cada um pegava o que precisava e colocava o troco de volta. Sem recibos, sem cobranças, sem desconfianças. Alto Astral sem pre.

Mas quase que o disco perde seu principal alicerce: Galvão e suas letras. No final de 1972, com m uitas letras j á prontas e sendo m usicadas por Moraes e Pepeu, Galvão saiu de carro, um JK (JK 2000, um sedã da Alfa Rom eo fabricado pela FNM), j unto com seu am igo Felipe. Voltando de Copacabana para o sítio, foram parados num a blitz. Haviam esquecido os docum entos do carro e Galvão nem tinha m ais os seus pessoais. Para “m elhorar”, encontram “um a m utuca de fum o de 300 Cruzeiros” na cintura de Felipe. Foram algem ados e colocados na traseira de um carro da polícia (o “cam burão”, ou a futura “veraneio vascaína”). Galvão foi encarcerado j unto com presos políticos, depois com falsificadores e agiotas, poucas vezes foi colocado j unto com presos com uns. Safou-se de várias situações até o dia de seu j ulgam ento, onde foi absolvido da posse e consum o de drogas, “por ser poeta desde m enino”.

O vinil trouxe este novo som eclético da banda, brasileiríssim o, saindo de instrum entos nacionais, com o violões Di Giorgio, guitarra Gianini Supersonic, bateria Gope, cavaquinhos, bandolins, tudo am plificado pelos possantes valvulados “Trem endão”, da Gianini. Isso sem falar em várias peças de percussão tipicam ente brasileiras. O único instrum ento “estrangeiro” era o baixo Fender de Dadi.

As vozes estão firm es, m elodiosas, explorando a capacidade de cada um dos três vocalistas da banda. As letras são de lirism o im pressionante, cam inhando lado a lado com os grandes clássicos.

A produção do “VIP” Marcio Antonucci conseguiu “dom esticar” os im provisos que a banda fazia nas canções, trazendo um a am ostra palatável do que os Novos Baianos faziam ao vivo. A qualidade das gravações estava acim a da m édia da época, com todos os tim bre e nuances dos diferentes instrum entos m uito bem preservados pelos canais da m esa.

O disco trouxe a alegria das peladas disputadas no sítio e nos j ogos contra tim es de am igos do Rio. A energia da boleia do cam inhão levando a trupe até o cam pinho adversário. Ganhar não era o obj etivo. Aquela com unhão sim . Fazer m úsica e j ogar bola.

O disco abre com “Sorrir e cantar com o Bahia”, um original cuj a letra Galvão escreveu quando estava na cadeia, no finalzinho de 1972. Com belos violões, cavaquinhos, bandolins, percussão, tudo bem brasileiro, apresentava o Regional dos novos baianos, bem tradicional.

A segunda original é “Só se não for brasileiro nesta hora”, onde a técnica de dedilhado de Moraes som ada às precisas palhetadas de Pepeu, Jorginho e Dadi fazem j ustiça às belas letra e m elodia. O vocal de Moraes é outro destaque, sendo brilhantem ente dobrado no final. Outra gravação do Regional.

Em seguida vem “Cosm os e Dam ião”, m ais um a canção que Galvão escreveu na cadeia e m andou para Moraes m usicar. Aqui o Regional dá lugar à Cor do Som , eletrificada, na parte final da canção. A perfeita fusão entre o Brasil e o Mundo.

Falou Brasil, falou Bahia, e de lá vem a única versão que o grupo rendeu neste disco, um clássico de Dorival Cay m m i, “O sam ba da m inha terra”, que foi revisitado brilhantem ente. O violão e voz de Moraes estão irrepreensíveis. Quando tudo leva a crer que o sam ba será levado apenas pelo Regional, entra a Cor do Som e transform a m ais um clássico em um belo rock suingado. Apenas Jorginho fica no cavaquinho, com Baixinho na bateria. Sim , Jim i Hendrix toca sam ba e atende pelo nom e de Pepeu.

Um belo chorinho, “Vagabundo não é fácil”, vem sem seguida, com um a letra bem -hum orada e poética, na qual Moraes dá lugar a Paulinho Boca de Cantor na ponte, j á um sam ba.

Bom hum or im pera em “Com qualquer dois m il réis”, m ais um sam ba anim adíssim o, onde o Regional não faz feio a nenhum dos atuais m edalhões do gênero. Destaque para os vocais de Paulinho e os arranj os m usicais, creditados a Moraes e Pepeu.

Eletricidade, assim pode ser classificada a prim eira m úsica que Baby Consuelo canta, “Os ‘pingo’ da chuva”, onde apenas a Cor do Som faz presença. Pepeu novam ente é creditado com o autor pelos arranj os, j unto a Moraes.

Moraes reassum e os vocais em “Quando você chegar”, m ais um a am ostra da versatilidade do grupo em suas letras e principalm ente nos arranj os do Regional. Difícil crer que um grupo de “bichos-grilos”, barbudos e cabeludos, possa tocar com tanta propriedade sam bas de própria autoria.

O lado instrum ental m arca presença em “Alim ente”, com posição de Jorginho e Pepeu, onde duelam cavaquinho e bandolim , bem acom panhados por baixo, violão, triângulo, afoxé e surdo. Dadi fez um belo trabalho para acom panhar os “duelos dos irm ãos Gom es”.

Fecham o disco com “Dagm ar”, um quase baião, onde toda a trupe participa, trazendo todos os seus elem entos e inovações à “nova m úsica j ovem ”.

O LP gerou um com pacto com “possível sucesso radiofônico”, que tinha “Com qualquer dois m il réis”, e “O sam ba da m inha terra” no lado B (Continental − CS. 50.516). Mas não teve a repercussão do ano anterior.

Apesar de Futebol Clube não ter sucessos de peso presentes em seu antecessor, Acabou Chorare, com o “Brasil pandeiro”, “Preta pretinha”, “Besta é tu”, trazia um grupo de com positores, m úsicos, arranj adores e cantores m aduro e coeso. Moraes e Galvão traziam poesias líricas e cotidianas, que foram m agistralm ente m usicadas por Moraes e Pepeu, um j ovem gênio da guitarra, que trazia sua rebeldia roqueira para dentro da m úsica brasileira. Seu irm ão Jorginho revelou-se, além de grande baterista, um exím io artista do cavaquinho, sendo notável neste disco. Moraes, além da bela voz, era (e ainda é), um violonista de m ão cheia, dentro da tradição dos grandes nom es brasileiros. Dedilhados e m arcações perfeitos, belos acordes e harm onias. Dadi trouxe um a enorm e contribuição com seu j eito de tocar baixo, aliado ao violão de 5 cordas, navegando com tranquilidade entre o peso d’A Cor do Som e a brasilidade do Regional. Baixinho não era apenas um percussionista, pois revezava-se na bateria com Jorginho e não fazia feio. Bolaxa trazia o m olho e o suingue baiano com seus bongôs. E os outros vocalistas / percussionistas, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo eram parte vital desta energia do grupo. Com sua “m alandragem na voz”, Paulinho dava vida a m uitos dos “poem as m usicados” de Galvão. Já Baby “eletrificava” a trupe com sua voz e alegria, sorriso sincero e raízes nas grandes cantoras de nossa m úsica.

Fato curioso sobre o LP em vinil era a sua capa. Até hoj e lem bro de ter visto o disco em um a loj a, m eio de longe, m as o nom e Novos Baianos cham ava atenção. O que causou espanto foi achar que era um disco usado, com as bordas da capa presas com fita colorida. Na verdade fazia parte do proj eto gráfico destacar as cores do “tim e de futebol”. Ao abrir o disco, o requinte gráfico cham ava atenção: poucos artistas brasileiros, incluindo os do “prim eiro escalão da MPB”, tinham um a em balagem com o aquela. Capa dupla, com todas as inform ações técnicas na contracapa. As capas internas m ostravam o grupo com suas fam ílias, o tim e de futebol em foto “oficial”, fotos ao vivo e as letras das canções. Mas não para aí. Havia um encarte gram peado na capa, com o um livreto, repleto de fotos dos artistas j ogando, um longo texto de Galvão (o “Joãozinho Trepidação”) tendo com o fundo um a bela foto do tim e no cam po com as m ontanhas de Jacarepaguá ao fundo ao entardecer, m ais fotos ao vivo e no dia-a-dia do sítio, tudo em harm onia com as fotos das capas internas, com o um grande m ural do grupo e sua filosofia de vida. Tudo ali, para todos desfrutarem e, quem sabe, adotarem em seus cotidianos. Não era apenas um disco, era um a experiência visual, tátil e auditiva.

Tal era a im portância do grupo que, ainda em 1973, o produtor Solano Ribeiro, que por m uitos anos dirigiu os Festivais de Música Brasileira, teve a ideia de fazer um film e sobre a “com unidade Novos Baianos”. Principalm ente depois do sucesso do disco Acabou Chorare. Durante dez dias ele e um a equipe alem ã ficaram no sítio e registraram o “cotidiano neosocialista e libertário da com unidade”. Mas não pareceu tão fácil assim , com o relem bra o próprio Solano

em entrevista ao blog Vitrola (http://vitrola.blogspot.com .br), de Ronaldo Evangelista:

“Quando fiz a prim eira proposta de produção eu achei que não ia ter film e. Os Novos Baianos eram inadm inistráveis. Mas eu falei pra eles, ‘Vam os fazer um a coisa? Vocês fiquem aqui e eu venho todo dia com a equipe alem ã, a gente se instala e vam os docum entando a vida de vocês’. Foi a única m aneira que encontrei de conseguir fazer o film e: registrar tudo naturalm ente.”

Novos Baianos F.C é um disco indispensável em qualquer discoteca de m úsica brasileira e obrigatório para quem quer conhecer um a parte do rock brasileiro da década de 1970.

 

Novos Baianos F.C. (Continental − SLP 10.101) Direção e Produção: Ram alho Neto

Produção Musical: Marcio Antonucci

Capa e Fotos: Pedro de Moraes, Sim one Cavalcante e Galvão

Cantores:

Moraes Moreira (Antônio Carlos Moreira Pires)

Paulinho Boca de Cantor (Paulo Roberto Figueiredo de Oliveira)

Baby Consuelo (Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade)

Letras:

Galvão (Luiz Dias Galvão) e Moraes

Arranjos:

Moraes e Pepeu

A Cor do Som

Pepeu (Pedro Anibal de Oliveira Gom es): guitarra

Jorginho (Jorge Eduardo de Oliveira Gom es): bateria e bongô

Dadi (Eduardo Magalhães de Carvalho): baixo

Baixinho (José Roberto Martins Macedo): bateria e bongô

Regional

Moraes Moreira: violão base e ukulele

Pepeu: violão solo, craviola e bandolim

Jorginho: cavaquinho e uquelele

Baixinho: bum bo

Dadi: baixo e violão

Paulinho Boca de Cantor: pandeiro

Baby Consuelo: afoxé, triângulo e m aracas

Bolacha (Carlos Alberto Oliveira): bongô

 

Lado A

1. Sorrir e Cantar Como Bahia (Moraes Moreira e Galvão)

2. Só Se Não For Brasileiro Nessa Hora (Moraes Moreira e

Galvão)

3. Cosmos e Damião (Moraes Moreira e Galvão)

4. Samba da Minha Terra (Dorival Cay m m i)

5. Vagabundo Não É Fácil (Moraes Moreira e Galvão)

Lado B

1. Com Q ualquer Dois Mil Réis (Moraes Moreira, Pepeu Gom es

e Galvão)

2. Os “Pingo’’ da Chuva (Moraes Moreira, Pepeu Gom es e

Galvão)

3. Q uando Você Chegar (Moraes Moreira e Galvão)

4. Alimente (Jorginho Gom es e Pepeu Gom es)

5. Dagmar (Moraes Moreira)