1973: O Ano que Reinventou a MPB
Amanhecer Total
TERÇO − O TERÇO
Luiz Antonio Mello
m 1973 o m undo estava m uito esquisito. Richard Nixon enfrentava o auge da crise de Watergate, que o levaria a
E renúncia no ano seguinte. Para piorar as coisas, achando que iria obter algum apoio popular, ele intensificou ainda m ais o envio de tropas para a guerra do Vietnã, que os Estados Unidos acabariam perdendo em 1975.
No Brasil, ditadura absoluta. Final do governo Médici, o
cham ado general da m orte. Muita gente presa, torturada, desaparecida. A m úsica brasileira se m ostrava disform e e sem opinião porque quem falava “dem ais” ia parar nos porões dos verdugos. Os m ais radicais (eu diria reacionários) diziam que o rock progressivo tom ou conta de parte de nosso país porque pregava um a “alienação lisérgica”. Naquela época, o que não era m anifesto político era autom aticam ente cham ado de “delírio burguês” ou coisa parecida. Era perm itido proibir em todas as frentes. Por outro lado, foi o ano de lançam ento de dois petardos da história do rock: o álbum duplo Quadrophenia, segunda ópera-rock (na m inha opinião) do The Who e do antológico The Dark Side of the Moon do tam bém inglês, m as progressivo, Pink Floy d.
Entre os grupos que se destacavam no cenário de 1973 estavam Os Mutantes (a essa altura totalm ente progressivo, radicalm ente influenciado pelo inglês Yes), Vím ana, Veludo Elétrico e O Terço. Nesse ano eu trabalhava com o estagiário (passando depois a program ador) na prim eira rádio exclusivam ente de rock do Brasil, a Federal AM. A em issora pertencia ao grupo Manchete, era dirigida por Carlos Siegelm an e produzida por duas feras de grosso calibre: Marcos Kilzer e Jorge Davidson. Conheci Sérgio Hinds e Cezar da Marcês (que com Vinícius Cantuária form avam o trio) na rádio. Foram lá divulgar o álbum Amanhecer Total.
Im pressionante a criatividade desses brasileiros que conseguiram vencer as m ais bizarras e lim itadíssim as condições técnicas produzindo um álbum que entrou para a história com o exem plo do que o país fez de “progressivo m ais puro” nos anos 70. Lançado pela gravadora Continental, Amanhecer Total foi cultuado por j ovens da classe m édia e desprezado pelo cham ado povão porque, logicam ente, j am ais, em tem po algum , foi tocado nas rádios. Com exceção da Federal que j ogava os dois lados do disco no ar, para orgasm o da audiência que colocou a em issora com m íseros um quarto de quilowatts de potência (a Mundial tinha 100 m il watts) em quinto lugar na Zona Sul do Rio. Mais: entre os ouvintes m ais apaixonados estava, nada m ais nada m enos do que Big Boy que, inspirado na Federal (ele diria posteriorm ente), criou a bom bástica Eldo Pop FM em 1971 e que tam bém tocou m uito Amanhecer Total. Depois de sua m orte em m arço de 1977, acabaram com a rádio em setem bro de 1978.
A m úsica-título “Am anhecer total” ocupa todo o lado B do disco e, com o “Close to the edge” do Yes que reúne “Close to the Edge: The solid tim e of change/ Total m ass retain/ I get up” num a levada só. Com o nos discos do Yes, O Terço com partim entou a canção em suítes, um a m udança de sonoridade que havia com eçado no ano anterior, 1972, quando lançou um com pacto m ais pesado com as m úsicas “Ilusão de ótica” e “Tem po é vento”. Amanhecer Total m ostra a vocação clara de O Terço, que cultuava e com punha hard rock e progressivo. A m istura dos dois gêneros é a fórm ula m ágica do sucesso do álbum que teve com o m aior oponente no ringue das gravações as lim itações técnicas. Com certeza o proj eto do disco era m uito m aior e m uito m ais sofisticado do que um a m esa de oito canais de gravação. Mesm o assim o grupo venceu. E com louvor.
A longa suíte cham ada “Am anhecer total” (com seis tem as) foi com posta pelos três integrantes (Sérgio Hinds, Vinícius Cantuária e Cezar das Mercês) e conta com a participação de Luiz Paulo Sim as nos teclados sintetizadores (ele era do Módulo 1000), Patrícia do Valle com a voz na introdução do tem a “Cores”, Chico Batera na percussão e Maran Schagen encerrando o tem a “Cores finais” no piano. O m úsico Paulo Moura tam bém participou do disco, tocando saxofone alto na m úsica “Você aí”.
O disco saiu pela Continental sob o m ítico código de fabricação SLP 10107, que alguns fãs im prim iram em cam isetas enigm áticas. Mas, os fãs radicais de O Terço quando viam a cam iseta sabiam que se tratava do núm ero da certidão de nascim ento de Amanhecer Total. Eu tive um a dessas cam isetas e, toda hora, alguém perguntava o que significava, especialm ente na sapataria do Souza, em Copacabana, onde eu com prava a prestação botas parecidas com as de m eu herói Pete Townshend, pai e m ãe do The Who.
Quando peguei o disco na loj a, fui direto no set list. Estavam lá:
1- Deus (Cézar de Mercês, Vinícius Cantuária e Sérgio Hinds); 2- Você aí (Cézar de Mercês); 3- Estrada vazia; (Ezequiel e Vinícius Cantuária); 4- Lagoa das Lontras (Vinícius Cantuária e Sérgio Hinds); 5- Rock do Elvis; (Ezequiel e Vinícius Cantuária); 6- Am anhecer total: Parte I – Despertar pro sonho (Cézar de Mercês); Parte II - Sons flutuantes (Cézar de Mercês, Sérgio Hinds); Parte III – Respiração vegetal; (Cézar de Mercês, Vinícius Cantuária); Parte IV – Prim eiras luzes no final da estrada; (Cézar de Mercês, Sérgio Hinds); Parte V – Cores (Cézar de Mercês, Sérgio Hinds).
O rock progressivo no Brasil tem m uito m ais preconceitos do que conceitos. Repito: em 1973 o país vivia um a fase de radicalização tanto da ditadura com o dos m ovim entos de libertação. Para os radicais, falar de “sons flutuantes” e “m úsica viaj ante” naqueles tem pos era a m esm a coisa do que encher a cara de LSD para se alienar e não encarar o país com seriedade. Mais tarde, m uita gente de esquerda acabou concordando que não só radicalizou dem ais com o patrulhou, e m uito, o rock progressivo porque os m úsicos dessa linha não “questionavam o sistem a”. Mas hoj e, com o Brasil dem ocrático, bandas com o o Bacam arte e Violeta de Outono tocam em todo o país sendo aplaudidas de pé. Claro, fundam ental m encionar a volta dos Mutantes e até de O Terço nessa década de avanços e revivals. O que os integrantes de O Terço e Spin XXI (grupaço, nascido em Niterói em 1975) queriam explicar é que acim a dos preconceitos o progressivo tinha um conceito. E que conceito!
Apesar da ira da esquerda e dos verdugos da direita, Amanhecer Total não só fez história com o foi m orar lá. Um disco fabuloso, ousado, com petente e eterno.
Terço (Continental − SLP 10.107)
Direção de produção: Ram alho Neto
Produção artística: Carlos Alberto Sion Coordenação de produção: Júlio Nagib
Técnico de gravação: Walter (Blue Night)
Arte: Ado e Toni Cid
Fotografia: Cláudio Marques
O Terço:
Sérgio Hinds: guitarra
Cezar de Mercês: baixo
Vinicius Cantuária: bateria
Participações:
Maran Schagen de Oliveira: órgão (1, 2, 5 e 6)
Paulo Chacal: tum bas e percussão (2)
Chico Batera: tim pales e percussão (2 e 6)
Paulo Moura: sax alto (2 e 5)
Mauro Senise: sax alto (2 e 5)
Zé Bodega: sax tenor (2 e 5)
Patrícia Valle: voz (6)
Luiz Paulo Sim as: sintetizador e órgão (6)
Lado A
1. Deus (César de Mercês, Sérgio Hinds e Vinícius Cantuária)
2. Você Aí (César de Mercês)
3. Estrada Vazia (Vinícius Cantuária e Ezequiel Neves)
4. Lagoa das Lontras (Vinícius Cantuária e Sérgio Hinds)
5. Rock do Elvis (Vinícius Cantuária e Ezequiel Neves)
Lado B
Amanhecer Total:
Parte I-Cores (César de Mercês e Sérgio Hinds)
Parte II-Despertar Pro Sonho (César de Mercês)
Parte III-Sons Flutuantes (César de Mercês e Sérgio Hinds)
Parte IV-Respiração Vegetal (César de Mercês e Vinícius Cantuária
Parte V- Primeiras Luzes no Final da Estrada (César de Mercês e Sérgio Hinds)
Parte VI-Cores Finais (César de Mercês e Sérgio Hinds)