1973: O Ano que Reinventou a MPB
Ou Não? Sim!
OU NÃO − WALTER FRANCO
Ayrton Mugnaini Jr.
ua cabeça vai explodir...”
"S
1973 não prim ou pelo conforto nem pela assepsia, e até ficou às m oscas no m elhor sentido, j á que foi o ano da “Mosca na sopa”, do prim eiro álbum solo de Raul Seixas, e de Ou Não, idem de Walter Franco. A m osca de Raul tentou e conseguiu pousar em toda parte, fazendo grande sucesso, e a de Walter tam bém atingiu seu intento, bem diferente do de Raul: ser ouvido pelas poucas pessoas abertas a experiências sonoras radicais, um fracasso com ercial im ediato m as de interesse atem poral. Vam os, pois, lem brar o nascim ento, vida e eternidade do álbum Ou Não (inclusive com aj uda do próprio Walter, a quem entrevistei especialm ente para este texto, visando resolver várias dúvidas, boatos ou inverdades sobre o disco).
“ – Sua cabeça vai explodir...
– Meu saco!”
Tal é o diálogo de um cartum de Jaguar para O Pasquim onde um cara ouve pela TV Walter Franco defendendo “Cabeça” no FIC, e resum e bem o m om ento. Com o m uitas canções de sucesso, “Cabeça” em placou não só por agradar a m uitas pessoas, m as tam bém desagradar a outras; não era todo dia que um a canção – ou m elhor, anticanção, sem m elodia ou ritm o bem definido – aparecia num grande festival. “Cabeça” foi inclusive a preferida dos j urados m ais revolucionários do FIC, e quando o j úri nacional do Festival foi dem itido m uita gente pensou que tivesse sido por causa dessa preferência tão radical, m as na verdade foi devido a Nara Leão, presidente do j úri nacional, ter criticado os m ilitares pela im prensa em plena fase de m aior repressão.
Enfim , “Cabeça” foi um dos m aiores sucessos – certam ente um dos m ais com entados – do FIC, e um a prova de sua popularidade foi ter sido citada em “Tá todo m undo louco”, prim eiro grande sucesso de Silvio Brito com o cantor e com positor (“é a cabeça, irm ão / é a cabeça, irm ão”). Tudo isso cham ou a atenção da gravadora Continental, que estava com eçando a investir no novo rock brasileiro – na pessoa de Walter Silva (1933-2009), j ornalista, então diretor artístico da gravadora, e que tam bém havia sido j urado do FIC, tornando-se entusiasta de “Cabeça” e de seu xará com positor.
Antes de fazer “Cabeça”, Walter Franco j á tinha algum nom e com o autor de trilhas de novela (O Hospital, da TV Tupi – cuj o “Tem a do Hospital” logo voltará à nossa conversa) e canções para espetáculos teatrais com o O Comprador de Fazendas, em parceria com Hervê Cordovil (e cuj o elenco incluiu Dulcina de Moraes, Salom é Parísio – “a m ais antiga vedete do Brasil”, falecida em 2013 aos 92 anos e em plena atividade com o cantora – e Canarinho), e Os Olhos Vazados (estrelando Lélia Abram o e com direção de Em ílio di Biasi). Era habitué de festivais, sem falar em sua carreira nos anos 1960 com o radialista. Assim , Franco foi contratado pela Continental com cacife não só para dois com pactos – “Cabeça” (que ocupou os dois lados do prim eiro) e as m ais próxim as do norm al “Por um triz” e “Me deixe m udo” (os lados A e B do segundo) – m as, em seguida, para um LP, e com a m áxim a liberdade de criação e liberação de verba.
Walter Silva percebeu que seu xará renderia m ais com um produtor de m ais conhecim ento m usical, e encam inhou a m issão a Rogério Duprat (1935-2009). (Aproveito a ocasião para m e penitenciar por ter afirm ado outrora que este não era produtor e “apenas” m aestro e arranj ador dos m elhores do m undo; e ele ainda colaborou na m ixagem , feita a seis m ãos com Marcos Vinicius e o próprio Walter Franco). O custo da gravação de Ou Não foi cerca de quatro vezes m ais que o norm al de um LP naquele tem po. O álbum foi gravado em 16 canais (no Estúdio Eldorado, com o saudoso Marcos Vinicius na engenharia de som ), o m áxim o na época (com parem com os ainda desconhecidos Secos & Molhados, que gravaram seu prim eiro álbum na m esm a época e gravadora m as com bem m enos verba, em apenas quatro canais – ninguém poderia im aginar que ele se tornaria o m ais vendido LP de rock brasileiro até os anos 1980...)
“Muita calma lava o rosto e a alma...”
Dissem os que Walter para gravar este seu prim eiro álbum teve a m áxim a liberdade de criação. Sim , m as suj eita a em bates com a censura oficial. Antes da fam osa capa da m osca, Ou Não teve um a edição com outra capa que m uito pouca gente viu, com Walter num a pose lem brando Jesus Cristo. Várias palavras de baixo calão tiveram de ser ocultadas ou substituídas, e a prudência aconselhou que o verso “eu quero que esse feto saia” da faixa de abertura, “Mixturação”, ganhasse um a letra, “que esse afeto saia”. Bem , pelo m enos em m inha opinião ficou m elhor.
Além do m elhor estúdio e um dos m elhores m aestros e produtores, Walter gravou Ou Não com alguns dos m elhores m úsicos – e por pouco não foi um a das m elhores bandas da época. Ou m elhor, O Bando, que havia feito furor em 1969 em outra edição do FIC e com um único (e excelente) LP. Infelizm ente eles debandaram em 1972, logo após gravar um com pacto com Luhli e Lucina (então Luli e Lucinha); Walter gravou Ou Não assum indo ele próprio o violão e três integrantes do Bando: o saudoso Am érico Issa nos violões de seis e doze cordas, Rodolpho Grani no contrabaixo e Diógenes Burani na bateria e percussão, além de um sanfoneiro (“não lem bro o nom e”, diz Walter – m as com certeza não é o “Am érico” creditado no encarte da reedição deste LP na série de CDs Dois Momentos, enquanto Rodolpho aparece com o executante de contrabaixo e quase todos os violões, na única grande falha desta bem intencionada e esforçada reedição).
Sim , a instrum entação do disco é m inim alista, com poucos m úsicos e cada um dando o m áxim o de si, m as sem virtuosism os inúteis. (Com o diz Walter, “falar dem ais é bobagem ”, e sobre tocar dem ais podem os dizer o m esm o. Ou Não prova tam bém que canções de três ou quatro acordes perfeitos tam bém podem ser vanguarda.) Sim , Ou Não é praticam ente acústico, só o contrabaixo é elétrico. (E sim , “Sim ” é um a com posição de Walter desse tem po, cantada em alguns shows porém não gravada.)
Walter lem bra tam bém que foi tudo gravado de um a vez só; estavam todos tão criativos e entrosados que as prim eiras passagens de som foram aprovadas com o produto final.
“A canção/no asfalto/no alto-falante”
Das dez com posições de Ou Não, quatro j á eram conhecidas, um as m ais, outras m enos: “Cabeça”, “Me deixe m udo”, “Pátio dos loucos” e “No fundo do poço”.
Com o sabem os, “Cabeça” e “Me deixe m udo” haviam sido lançadas em com pactos no ano anterior, em gravações e arranj os diferentes do LP. “Me deixe m udo” ganhou vestim enta m ais lenta, intim ista e “doida” e m enos im ediata. Por sinal, “Me deixe m udo” é um a das m uitas canções clássicas do pop brasileiro ou da MPB a terem nascido com o lado-B; outras incluem “Prim avera (Vai chuva)” e “A nam orada que sonhei”; e em 1975 esta nova gravação de “Me deixe m udo” tam bém foi lançada em com pacto (j unto a “Muito tudo”) – e tam bém com o lado-B.
“Pátio dos loucos” havia concorrido no Festival Universitário da TV Tupi de 1970 (j unto com “Anim ais sentim entais”, que entraria no álbum Revolver). E “No fundo do poço” deve ter soado fam iliar para pessoas noveleiras: é o m esm o “Tem a do Hospital” lançado em 1971, com outro título e num arranj o bem m enos pop, em andam ento duas vezes m ais lento. (Curiosam ente, a letra desta canção – assim com o a de “Cabeça” – não foi incluída no segundo dos dois encartes do disco. Dois encartes? Logo falarem os sobre isso.)
“Mixturação” deve ser um a das m elhores faixas de abertura de todos os tem pos (e deu título a um program a de TV com andado por Walter Silva, incluindo Walter Franco, Secos & Molhados e a ainda novata Sim one). “Água e sal” é um a brevíssim a canção m inim alista (que m ereceu ser escolhida para a coleção Nova História da MPB da Editora Abril); “Flexa” destaca a voz e violão de Walter. Além de m uito rock e da inclassificável “Cabeça”, Ou Não inclui três incursões por ritm os tipicam ente brasileiros. “Xaxados e perdidos” (“se tá xaxado/ num tá perdido”) faz supor com o seria Captain Beefheart tocando m úsica nordestina (incluindo um interlúdio de percussão que, ao m enos para m im , lem bra o de “Randy scouse git” dos m onkees).
“Doido de fazê dó” (“sô-cego / só-m udo / só quero / sossego”) pode ser definida com o um “frevo hardcore” de m eio m inuto. “Vão da boca” (“nem tudo/ que se com e/ se digere/ quem com / ferro fere/ se consom e”) enfatiza percussão, efeitos eletrônicos e canto quase falado, lem brando o galope nordestino, com o, por exem plo, Alceu Valença faria em “Vou danado pra Catende”.
Um parênteses: Isto m e faz lem brar que Chuck Berry e Elvis Presley com eçaram a fazer rock por cam inhos opostos: Elvis era um caipira que cantava blues e Berry um bluesman que cantava country. Do m esm o m odo, Walter Franco revelou-se um paulista experim entando com m úsica nordestina, enquanto Tom Zé fixou-se com o “o m ais paulista” dos baianos tropicalistas, com pondo m odas caipiras e sam bas e m archas na linha de Adoniran, Boldrin e outros grandes artistas do Estado bandeirante.
“Não me procure e não se esconda”
O cuidado e capricho da produção de Ou Não foram além das gravações e se estenderam à em balagem . Além de a capa, com o dissem os, ser dupla, ela (criada por ninguém m enos que Décio Pignatari) incluiu na prim eira tiragem um envelope com um encarte datilografado (“num a Rem ington”) pelo próprio Walter Franco, com a ficha técnica do disco, as letras e um texto trazendo um a “classificação dos anim ais de acordo com um a certa enciclopédia chinesa”. Prensagens seguintes do disco, ainda em 1973 e 1976, substituíram este encarte por outro, trazendo de um lado um a foto de Walter e do outro quase todas as letras do disco – por algum m otivo, faltaram as de “Cabeça” e “No fundo do poço” (Walter diz não saber o que houve, pois não teve controle sobre esta etapa da produção e só percebeu este detalhe depois de pronto o disco.)
“Maldito” porém bem -hum orado, Walter faz um “esclarecim ento” sobre a m osca da capa da segunda (e bem m ais conhecida) edição: “Nós a fotografam os num lixão de São Paulo e esquecem os de anotar o endereço para com unicar a ela quando saísse o disco...” Ah, sim : afinal, por que a m osca na capa? É que a tal “enciclopédia chinesa” fala de anim ais “que de longe parecem m oscas”. Mas Walter diz que essa é apenas um a das explicações possíveis. “Eu gosto de trabalhar com a sugestão, e cada um que tire suas próprias conclusões.”
“Conversando é que a gente se enteeeeende...”
Além de possivelm ente o m ais anticom ercial prim eiro álbum de um artista popular brasileiro em grande gravadora, Ou Não consegue ser ainda m ais anticom ercial que seu irm ão Araçá Azul, gravado na m esm a época (e no m esm o estúdio) e lançado no m esm o m ês de fevereiro, em bora cerca de duas sem anas antes – m as j á adm itindo influência de Walter inclusive em público (um a das obras deste disco, “Cabeça”, j á era notória desde sua polêm ica participação no sétim o e derradeiro Festival Internacional da Canção e seu lançam ento em com pacto no ano anterior); o citado Walter Silva, em sua coluna na Folha de S. Paulo, resum iu os dois álbuns com o “dois dos m ais arroj ados discos dos próxim os dez anos”.
Araçá Azul, além de um a “im itação” caetanesca de “Cabeça” (“De conversa”), tem faixas im ediatam ente palatáveis com o “Júlia/Moreno”, “Gilberto m isterioso” e a versão heavy m etal de “Quero essa m ulher assim m esm o” de Monsueto. Já Ou Não é para se ouvir num quarto fechado com fones de ouvido, sendo tão pouco im ediatam ente acessível que só perdeu para Araçá Azul na façanha de atrair para as loj as um núm ero recorde de ouvintes – que vieram devolver o disco.
Talvez a proxim idade de datas e intenções de Araçá Azul e Ou Não sej a a culpada por m uita gente boa pensar hoj e em dia que o título do álbum de Walter (e tam bém um verso de “Cabeça”) sej a um bordão típico de Caetano, o que este não perde oportunidade para desm entir: “Mesm o que tenha sido um a confusão nascida da ignorância de alguns hum oristas, é um a honra para m im ter herdado o bordão ‘ou não’ de Walter Franco.” (Talvez um precedente a Walter ou Caetano sej a a estrofe “a cultura / a civilização / elas que se danem / ou não” de Gilberto Gil, m as sem dúvida Walter levou a ideia m uito adiante. Caetano sem pre diz tam bém que Ou Não e alguns álbuns solo de Arnaldo Antunes realizaram m uito m elhor o que ele pretendeu com Araçá Azul em term os de poesia concreta m usicada, m inim alism o e experim entalism os com rock e MPB).
“Well, well, well...”
Além de Caetano, outra com paração que salta (ou voa, j á que há um a m osca em questão) à vista é com os Beatles. A capa de Ou Não, quase toda branca (inclusive dupla) com apenas um a m osca na frente e o título do disco nas costas, rem ete im ediatam ente ao “Álbum Branco” do grupo inglês. Sem dúvida, Walter nunca escondeu ser fã dos Beatles, especialm ente John Lennon, de quem im itou a pose na capa do álbum Revolver, e “Feito gente” talvez sej a a m elhor gravação da “Plastic ono band” em português. (Sem falar nos versos “existe John / existe João” de “Muito tudo”). Além disso, num prim eiro instante Ou Não pode até lem brar aquelas “viagens” e porralouquices que Lennon gravou quando com eçou a trocar os Beatles por Yoko Ono, m as com resultado m uito m elhor, para ser ouvido não apenas com devoção de fã. Enfim , im agine (ainda citando Lennon) se o prim eiro disco do Beatles tivesse sido o “Álbum Branco” e as prim eiras faixas fossem “Revolution 9”, “Wild honey pie” e “What’s the news Mary j ane”... Walter Franco havia guardado suas concepções sonoras m ais acessíveis e bonitinhas para seus discos anteriores e posteriores.
“Dos pés ao pescoço”
Ou Não vendeu pouco, m as o sucesso de crítica e sua redescoberta pelo público fã de vanguarda m otivou m uitas reedições, duas em vinil (em 1976 e nos anos 1980) e duas em CD (1994 e 2000, esta últim a a da série Dois Momentos em dupla com Revolver); todas as edições têm m uita procura. (A edição Dois Momentos inclui com o bônus a faixa de com pacto “Por um triz”; faltaram apenas “Cabeça” e “Me deixe m udo”, cuj as versões dos disquinhos são bem outras. Mas Charles Gavin e a Continental, agora Warner, m erecem aplausos e respeito por m ostrarem bem m ais esforço e cuidado que outros produtores e gravadoras).
Dos anos 1970 para cá “Me deixe m udo” tem sido reinterpretada por artistas os m ais diversos, com o Chico Buarque, Leno, Arnaldo Antunes, Selm m a Carvalho, Gal Costa e Oswaldo Montenegro. E Ou Não tornou-se o tipo de disco cuj a raridade lhe dá boa fam a e um a audição basta para confirm á-la.
Pessoalm ente, gosto de Ou Não m as prefiro Revolver, onde a rebeldia e criatividade estão canalizadas em pérolas pop com erciais m as sem apelos óbvios e fáceis. Se o álbum Imagine de Lennon foi considerado “m ais bonito e m ais fraco” que o anterior, Plastic Ono Band, então Revolver, com parado com Ou Não, soa para m im “m ais bonito e m ais forte”. Mas Ou Não continua forte o suficiente para ser ouvido com prazer.
“Se eu tô cum ele, ele tá cumigo”
Com o eu disse, consegui boa parte das inform ações deste texto que estás acabando de ler em entrevistas com o próprio Walter Franco. Eu o conheci pessoalm ente em 1985, quando ele deu um a canj a num show do Língua de Trapo, do qual fui integrante com o com positor; um a boa lem brança desse dia está em m eu com pacto de “Me deixe m udo” de 1972, agora autografado por ele. (Até com eçam os um a canção em parceria, um dia finalizarem os).
Em 2006 escrevi para a revista Mundo Estranho um a m atéria sobre “as dez canções m ais m alucas de todos os tem pos”, com gravações de todas as partes do m undo, dos anos 1920 ao presente, sendo do Brasil – e da Am érica do Sul – um a só: j ustam ente “Cabeça”. Ou Não – sem dúvida um dos m elhores discos da cham ada “m úsica brasileira progressiva” – continua entre os discos m ais arroj ados não só dez, m as quarenta anos depois. E seu criador, então com 28 anos, continua, aos 68, um j ovem criativo que ainda faz cabeças explodirem .
Ou Não (Continental − SLP 10.095)
Direção artística: Walter Silva
Produção: Rogério Duprat
Capa: Décio Pignatari
Técnico de gravação: Marcos Vinicius
Mixagem : Rogério Duprat, Marcos Vinicius e Walter Franco
Estúdio: Eldorado (16 canais)
São Paulo, SP
Músicos:
Walter Franco: voz e violão
Am érico Issa: violões de 6 e 12 cordas
Rodolpho Grani: contrabaixo
Diógenes Burani: bateria
Lado A
1. Mixturação (Walter Franco)
2. Água e Sal (Walter Franco)
3. No Fundo do Poço (Walter Franco)
4. Pátio dos Loucos (Walter Franco)
5. Flexa (Walter Franco)
Lado B
1. Me Deixe Mudo (Walter Franco)
2. Xaxados e Perdidos (Walter Franco)
3. Doido de Fazer Dó (Walter Franco)
4. Vão da Boca (Walter Franco)
5. Cabeça (Walter Franco)