Mão de Ferro
A morte das fagulhas
5
ALGO ESTAVA MUITO ERRADO. O Artilheiro conseguia sentir um tipo de calor gélido preenchendo todo o espaço vazio do submundo.
— As fagulhas, Caminhante! Que diabos você está fazendo com elas?
A voz dele ecoou pela câmara cheia de água. Em seguida, o único som que se ouviu foi o cascalho triturado debaixo dos pés do Caminhante conforme ele andava por metade da circunferência da pequena praia. Sua barba espessa, dividida de forma assimétrica, revelava um sorriso cruel.
— Ah, fiz muito mais do que você pode começar a entender. E quando o garoto estiver em meu poder, devo fazer ainda mais.
— Não estou falando do garoto — resmungou o Artilheiro, afastando George da sua cabeça a fim de se concentrar. Naquele momento, os pedaços brilhantes de vidro do mar que marcavam as paredes era o que chamavam sua atenção.
— As fagulhas! Mulheres sábias, mulheres fortes! Você as tem caçado por todos esses séculos. E nós achávamos que elas estavam entrando em extinção naturalmente, quando na verdade era você! Destruindo uma a uma... Era você o tempo todo!
O absurdo da situação roubou-lhe as palavras por um momento. Era como se um enorme quebra-cabeça tivesse revelado ser uma das coisas mais simples, como se um tolo tivesse entendido tudo. O horror ao constatar a realidade fez com que o tom de voz do Artilheiro fosse direto ao indagar:
— É isso, não é? De que outra forma você poderia pegar todas essas pedras do coração?
O Artilheiro mostrou o vidro em sua mão, em sinal de acusação. Os ombros surrados do Caminhante elevaram-se e caíram, sua expressão era de desdém.
— Pedras do coração? Bah! Quinquilharia. Quando um homem está condenado a caminhar pelo mundo por um tempo além do percurso natural dos seres, ele precisa de um... Hobby. O meu é colecionar algumas belezas e relíquias que me dão prazer.
A pausa que o Caminhante fez enquanto escolhia as palavras que descreveriam suas ações foi o que confirmou os medos do Artilheiro, despertando nele uma explosão de fúria.
— Você tem matado as fagulhas e roubado suas pedras de aviso por um maldito hobby?
O Caminhante abanou a mão para ele, mostrando estar entediado e disse:
— Você exagera. Não mato todas elas. Matá-las é supérfluo, afinal de contas. Posso matar algumas, mas isso está longe de ser um hábito. Sem suas pedras do coração elas ficam perdidas... a girar ao sabor do vento, de qualquer forma. Suas mentes ficam projetando imagens, mas não conseguem fazer muita coisa além de tagarelar e saltitar como macacos irracionais, sentando sobre a própria sujeira e babando em xícaras. Chega a ser cômico, acredite.
O Artilheiro balançou a cabeça e disse:
— Por que, Caminhante? Por que você está fazendo isso? Por que a Pedra iria querer isso?
O Caminhante quase cuspiu a resposta:
— Eu quero isso. A Pedra me amaldiçoou e me escravizou, então devo obedecê-la, mas nem tudo que faço significa ordem ou pedido dela. Fui um grande homem, séculos antes de você ser qualquer coisa — quando você estava apenas no fundo de uma mina que ainda nem tinha sido cavada — e eu serei um homem poderoso novamente!
A saliva manchou a barba do Caminhante conforme o tom de voz se elevou e a luz que brilhava dos mosaicos de vidro do mar refletia seus olhos selvagens.
O Artilheiro superou a crescente onda de desespero que o invadia e contorceu o rosto num sorriso de desprezo.
— Homem de Poder uma ova! Já vi caras neuróticos de guerra e tagarelas falarem coisas com mais sentido que você. A única razão de você estar por aqui é porque ficou do lado errado da Pedra e agora é um de seus servos.
Os olhos do Caminhante brilharam de raiva.
— E você é o quê? Não passa de um pedaço de bronze em formato de homem que quebrou a palavra e agora está fadado a morrer sozinho no escuro.
Apontou para as formas grudadas na parede.
— Esses vidros de aviso se iluminam quando estou aqui porque é isso que fazem quando um servo da Pedra ou estigma está por perto. Quando eu me for...
Abanou a mão como um mágico e disse:
— Abracadabra, as luzes se vão!
— Espere — quase gritou o Artilheiro, assustado pelo desespero que ouviu em meio às suas palavras. — Aquelas crianças... Não...
— Ah, as crianças? O garoto que me contrariou? Não se preocupe com ele. Irei fazer com que colabore comigo.
— Isso não vai acontecer! Ele escolheu o Caminho Tortuoso. É um garoto que tem coragem, mais do que você imagina.
O Caminhante resmungou, irritado:
— Ele é teimoso, Artilheiro, isso sim. Ele está cheio da impetuosidade estúpida da juventude.
— É coragem — insistiu o Artilheiro. — Ele pode não ter sabido exatamente no que estava se metendo, mas sabia que seria difícil. E ele fez isso pela garota. Ele jamais a abandonaria!
O humor negro dançava nos olhos do Caminhante.
— Sim, bom para ele por proteger a garota, por se importar, e mais importante, por me mostrar que ele se importa. Quando você descobre as coisas com as quais um homem se importa, você pode ameaçá-lo com isso. Uma alavanca posicionada no lugar certo e é possível mover o mundo. E eu vou mover o mundo. Vou mudar tudo.
— Deixe as crianças em paz, Caminhante. Não se meta com elas!
— Desculpe-me. Você não pode me forçar. Tenho um emprego para o garoto se ele for o fazedor que parece ser. Uma vez, há muitos anos, eu tive os dois espelhos de pedra pretos, mais escuros que a escuridão em que você será deixado para morrer quando eu for embora.
Ele levou a mão ao bolso, desencaixou um pequeno espelho circular prata do outro espelho idêntico e segurou um em cada mão.
— Comparados aos espelhos de pedra, estes aqui de vidro são como brinquedos de criança. Um ladrão trapaceiro roubou um dos meus espelhos pretos por medo do poder que eles me dariam quando eu os usasse juntos. Um espelho de pedra, feito da pedra certa, é algo que lhe dá poder, imagine então dois...
Seus olhos brilharam com uma intensidade similar às pedras do coração na parede.
— Os dois juntos podem abrir portais. Os vastos poderes deles fazem com que o poder da Pedra fique pálido de tão insignificante. E é desse poder que devo me armar para me libertar. O garoto fará isso por mim, a garota irá escolher a pedra que ele irá moldar.
— Não, Caminhante, o garoto e a fagulha são apenas...
O Caminhante o impediu de continuar a falar com um aceno.
— O fazedor petulante e a fagulhinha corajosa? Pobres queridos. Pobres, pobres queridos... Estranha palavra, “querido”. Em inglês é dear. Dizê-la com “a” denota algo que você ama, pronunciá-la com “e”, deer, significa cervo, chifre e a emoção da caçada. Adoro caçar, mas sabe de uma coisa, Artilheiro? Sabe qual é a parte da qual eu realmente gosto?
Seu sorriso vermelho e molhado expandiu-se.
— Da matança — disse o Artilheiro, indiferente.
— Não só da matança... — sorriu o Caminhante. — O que mais me agrada é o momento que a antecede, quando você sabe que pode escolher entre matar ou não, e a presa sabe disso também. Essa é a melhor parte. Quando a vida e a morte estão nas suas mãos. Pois é lá que está o verdadeiro poder.
O Caminhante ergueu o pé e, entortando o olhar, pisou gentilmente em um dos espelhos que estava segurando.
Então desapareceu.
As luzes das paredes foram diminuindo em meio ao crepúsculo que se formou antes da escuridão tomar conta. Os dois espelhos pairavam no ar, um de frente para o outro, e o último som que o Artilheiro ouviu foi a voz do Caminhante, diminuindo ao longe. Ele ainda pôde ouvir:
— Não importa quem esteja marcado para ser caçado. Eu sei onde a presa está.
Uma nova onda de desespero dominou o Artilheiro quando ele deu-se conta de quem eram as
presas.