Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 32 de 57

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Mão de Ferro

Um tobogã para a morte

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DO TELHADO DE SAINT PANCRAS, George conseguia ouvi-las. Olhou por cima da beirada do lugar elevado e precário onde estava, e viu que muitas coisas feitas de pedra estavam rastejando sobre os azulejos verdes e as chaminés abaixo.

George lembrou-se do que o Artilheiro contara sobre as gárgulas: que elas podiam sair por aí a brigar e destruir inimigos, porém não podiam fugir de seu ofício principal, que era o de atuarem como bicas decorativas em caso de chuva.

Isso significava que quando chovia, elas tinham que voltar para seus lugares no telhado de onde tinham saído, para canalizar a água.

Decorativas.

George tentou entender por que a Bica tinha sido capaz de voar em liberdade no meio da tempestade quando o perseguira. Aquilo devia ter conexão com o que ele tinha feito quando enfrentou a Bica pela primeira vez: ele removera a bica metálica com violência, deixando a gárgula impedida de falar, por fim ainda lhe deu um nome.

Mas isso não era um assunto para que se preocupasse no momento.

Para ele, o problema era o que fazer com aquelas coisas rastejantes, deslizantes e saltitantes, agora que a chuva havia parado. Todas as gárgulas do antro de Saint Pancras tinham adquirido vida e convergiam até ele, vindas de todos os lados. Esse era o som que tinha ouvido — asas de pedra e garras raspando implacavelmente, aproximando-se das telhas molhadas e das chaminés.

Elas se moviam com lentidão, por esse motivo, George podia vê-las em todos os seus detalhes animalescos. Eram de diferentes formas e tamanhos, mas todas estavam ofegantes e as mandíbulas mostravam seus dentes rangendo de um modo escancarado. Algumas estavam gastas pelas mudanças climáticas, a tal ponto que suas feições originais tinham começado a se transformar em máscaras quase abstratas de hostilidade e ameaça. Algumas obviamente tinham sido esculpidas com menos refinamento do que outras, e várias pareciam ter passado por recente restauração, porque pareciam mais novas, com traços mais primorosamente entalhados.

As maiores arrastavam suas asas como se fossem capas grandes, enquanto as menores pulavam desajeitadamente, ultrapassando umas às outras conforme se deslocavam no ar.

George se perguntou se aquilo era o que a Bica pretendia, se aquele era o seu fim: ser rasgado em pedaços por um bando de estigmas cruéis, bem acima da cidade indiferente. A Bica, no entanto, virou-se para ele e estendeu uma garra.

— Gung — disse ela.

George tremia como um cão que fareja perigo. Não entendia por que a chegada das outras gárgulas estava perturbando tanto a Bica.

— Gung orelha — disse a Bica em um assobio, sinalizando com sua garra enquanto mantinha um olho nas criaturas que se aproximavam. George só teve tempo de imaginar se ela estava tentando dizer “Venha aqui”, com uma boca de gato não projetada para uma conversa normal. De repente, algo caiu do céu sobre eles e enterrou seus dentes no ombro da Bica. O impulso foi tão forte que derrubou a Bica no chão. O olhar de George encontrou o dela por um segundo de consternação. A Bica e a gárgula menor, que havia mergulhado em espiral em sua direção, caíram da beira do telhado e ficaram fora do alcance de visão.

George mexeu os lábios e olhou a tempo de ver a Bica e seu agressor se esborracharem no telhado plano abaixo. Nesse momento, outra gárgula aterrissou e também entrou na briga. As gárgulas no telhado recuaram. Num instante estavam as três criaturas formando algo semelhante a uma bola de rosnados e assobios, rolando para trás e para a frente no espaço estreito que servia como ringue. Em determinado ponto, parecia que estavam prestes a mergulhar no pátio abaixo, mas a Bica enganchou uma garra grande em uma calha saliente e levantou-se, levando os dois monstros grudados nela de volta para o meio do telhado.

A Bica atirou-se com força em um cano de chaminé, esmagando a pequena gárgula sobre seus ombros. Ela caiu no chão, e a Bica, com brutalidade, levou-a pelo calcanhar até a beira do ringue improvisado. A gárgula presa tentou revidar e colocar seus dentes caninos na garganta de sua agressora, porém, desequilibrada, bateu muito rápido e enterrou seus caninos na cabeça da outra gárgula, que vinha por trás da Bica.

As criaturas próximas rosnavam furiosas. Elas vaiaram quando a Bica sacudiu a gárgula menor para frente e para trás em suas mandíbulas. O círculo de gárgulas fechou-se em torno da Bica, e ela cuspiu a criatura sem vida nos azulejos. Imediatamente agarrou o primeiro novo agressor que correu em sua direção, pisando ligeiramente de lado e usando seu impulso para lançar a criatura de encontro à chaminé feita de tijolos maciços atrás dela. Em seguida, a Bica o agarrou por uma asa e o girou como se ele fosse um cassetete, e usou a outra asa como se fosse um machado, literalmente cortando caminho entre a multidão de gárgulas próximas, que recuavam para que não fossem atingidas pela gárgula agonizante. George percebeu que a Bica estava lutando para conseguir voltar ao suporte na sua torre.

E então a asa da criatura que a Bica estava usando como se fosse um machado quebrou-se com um som parecido ao de um tiro de espingarda; nisso, o corpo e a outra asa saíram girando pela noite.

As gárgulas pelaram-se de medo. A Bica olhou para o fragmento de asa em sua garra e fez um gesto de indiferença. Levantou o cassetete improvisado, como se dissesse: “Quem é a próxima?”.

Em seguida, três gárgulas grandes, duas do tamanho da Bica e uma ainda maior, precipitaram-se em sua direção, vindas de outros pontos. Ela chutou a primeira, que se colocou em seu caminho, mas as duas outras a agarraram. O impacto derrubou o fragmento de asa de sua garra e fez com que todas enveredassem para o ar mais escuro sobre o galpão de trens... E sumiram.

Metade das gárgulas correu para ver o que tinha acontecido com as lutadoras, mas a outra metade virou-se para observar algo mais interessante.

George.

Ele também as observava, e imaginava o que faria quando uma gárgula o pegasse de surpresa, rastejando até o telhado e agarrando-o de lado.

Não demorou, e lá estava ele, novamente transportado pelo ar, ainda que este fosse apenas um voo rápido e baixo, pois a gárgula que o tinha agarrado era de tamanho médio, com asas curtas e grossas, não feitas para voos dignos. Era evidente que ela não tinha a força de sustentação necessária para se manter no ar, ainda mais levando uma presa humana.

Rapidamente ela pousou em um cume estreito logo abaixo. Aconteceu devagar o suficiente para não machucar muito, mas foi de forma desajeitada, e George caiu deitado sobre o braço da criatura.

A gárgula se moveu, tentando fazer com que ele saísse de cima. Nesse momento, George bateu com a cabeça em outro pedaço de pedra — o fragmento de asa quebrada que a Bica tinha usado como um machado.

Antes que ele pensasse muito sobre o que iria fazer, agarrou a asa quebrada e usou-a como uma foice para cortar o rosto da gárgula. Ele poderia até dizer que a estava triturando devido ao barulho que ouviu. A gárgula olhou para ele, grogue e confusa. Ela balançou a cabeça para limpar-se e rosnou.

A reação de George foi a de acertá-la novamente, com o mesmo golpe, e depois mais uma vez, porém com mais força. A cabeça da gárgula foi esmagada lateralmente em um arco de noventa graus com o primeiro golpe, mas ela voltou rosnando furiosa — bem a tempo de receber o segundo golpe, que a enviou 180 graus para o lado oposto de seu pescoço. Desta vez, o golpe provocou um barulho seco, pois era a cabeça dela a cair, separada do corpo.

Não foi apenas George que ficou chocado com o resultado de seu ataque desesperado. As gárgulas no telhado ficaram bem quietas, pareciam espantadas. Ele se aproveitou disso para, com os pés, pegar um tijolo de uma chaminé atrás de si. Calculou que se elas estavam vindo em sua direção, melhor seria se elas só pudessem vir pela frente. Ele tinha visto a que distância a batalha de 360 graus da Bica a tinha levado.

As gárgulas começaram a assobiar, inicialmente baixinho, e depois cada vez mais alto.

— Certo — ele mentiu, acenando com a asa quebrada na sua frente. — Posso fazer isso a noite toda. Quem é a próxima?

Sua ousadia não produziu o efeito esperado, pois elas começaram lentamente a se aproximar.

George não tinha um plano. Estava sozinho e sem opções. Tentou raciocinar um pouco e, ao varrer o lugar com os olhos, percebeu um raio de luz que irradiava diretamente do telhado, a cerca de vinte metros de distância. Tratava-se de uma claraboia. Embora saltar de encontro ao desconhecido não fosse uma ideia muito agradável, naquele momento era a única saída que lhe restava. O telhado estava dominado, não havia chance para ele ali. Talvez a claraboia o conduzisse a corredores, salas e lugares onde poderia se esconder. Se conseguisse correr a toda velocidade dentre a nuvem crescente de assassinas de pedra, batesse no vidro com os pés, e depois rolasse como um paraquedista ao aterrissar, ele poderia ter uma chance. É claro que seu sucesso dependia de dois fatores cruciais: não se machucar muito ao quebrar o vidro, e a claraboia oferecer caminho para uma sala no andar de baixo. Torceu para que o facho de luz não percorresse toda a altura do edifício.

— Eu consigo fazer isso — disse ele, tentando ignorar a outra voz que vinha da parte de trás de sua cabeça, que afirmava ser impossível o que ele pretendia.

George agarrou com força o pedaço de asa e correu.

Quando ele se pôs em movimento, veio-lhe à mente que era a segunda vez que tentava sair de um local apertado correndo para a frente, em vez de correr para o sentido contrário. O pensamento deu-lhe força para lembrar como a estratégia tinha funcionado com o Cavaleiro.

Uma primeira gárgula o agarrou, mas com um golpe rápido, se desvencilhou dela. Outra se aproximou rosnando. Ela não esperava uma reação tão ofensiva de George, que saltou na direção dela, acertando-lhe um grande chute no peito, fazendo-a cair num estrondo. George saltou sobre o corpo dela e continuou a corrida até a claraboia que estava um pouco mais adiante. Alguns metros o separavam do vidro salvador quando uma gárgula pequena pulou em seu rosto. Ele não pensou duas vezes: desferiu uma pancada violenta com a asa de pedra que tinha na mão. A gárgula foi ao chão.

Não havia mais nada entre ele e a claraboia retangular, exceto quatro passos de telhado. Uma gárgula grande tinha se lançado ao ar do outro lado do vidro, mas não conseguiria alcançá-lo a tempo de impedir seu salto desesperado pelo vidro.

George observou, com alívio, que abaixo da claraboia havia um chão pouco distante. Pelos seus cálculos, ele cairia sobre uma pilha de caixas velhas.

Ele concentrou toda a sua força nos pés e rezou para que a sorte o ajudasse.

Pobre George. Se houvesse tempo ele teria amaldiçoado o ramo de construções de Londres. Esse pessoal segue regras bem rígidas a respeito dos materiais a serem utilizados em seus projetos. Uma das regras sobre claraboias é que elas devem ser feitas com o chamado vidro de segurança. E caso a claraboia vá ser instalada em um telhado logo abaixo de uma torre alta, esta contendo elementos decorativos de pedra, então o vidro de segurança deve ser do tipo mais resistente possível, para manter a integridade da peça em caso de granizo, ventos fortes ou pedaços de gárgulas.

Seus calcanhares bateram no vidro, mas não quebraram nada.

A água da chuva acumulada sobre a superfície e o impulso despendido por George transformaram o retângulo da claraboia em um rinque de patinação.

Os pés de George praticamente voaram. Ele acabou por bater no vidro escorregadio com o cóccix, conseguindo apenas baixar o queixo para junto do peito, a tempo de evitar machucar a cabeça ao cair para trás.

Foi aí que o azar começou.

Ele deslizou por baixo de uma gárgula que havia saltado na direção dele vinda do outro lado da claraboia.

O problema é que George não tinha como frear.

Começou a descer em alta velocidade, como se estivesse em um tobogã, dirigindo-se para a beira de um telhado muito íngreme. Aquela descida desenfreada iria culminar com uma queda sobre o galpão dos trens. Ele lutava e se apertava, tentando desesperadamente conseguir alguma fricção, qualquer coisa que o ajudasse a reduzir a velocidade ou, melhor ainda, pará-lo.

Houve um sopro de esperança quando uma nova gárgula apareceu sobre a borda do telhado que rapidamente se aproximava. Ele posicionou os pés, esperando conseguir diminuir a velocidade na colisão com ela. Entretanto, a gárgula, que era um simples bloco de pedra, foi muito mais esperta, para o desespero dele. Quando a batida estava próxima, a gárgula simplesmente abaixou-se, saindo do caminho de George.

E assim ele passou voando por sobre a cabeça do monstrinho, caindo do telhado para o vazio.