Mão de Ferro
Papa-léguas
35
PELA PRIMEIRA VEZ EM muito tempo, George sentiu que estava correndo em direção a alguma coisa importante. E isso fez a diferença.
O medo estava sendo um ótimo aliado, fazendo-o correr como um papa-léguas.
Resolvera parar de se preocupar com um possível ataque de estigmas. Não porque não estivesse com medo deles, mas porque era inútil desperdiçar energia com coisas fora de seu controle. A energia que lhe restava servia para manter seus braços e pernas em movimento. Se um ataque acontecesse, ele teria que lidar com isso da melhor forma possível. Se. Sofrer por ansiedade era entregar-se com antecipação. Concentrou-se no que tinha de fazer. Havia uma chance de salvar o Artilheiro, e ele não iria deixar que nada o impedisse.
George entrou em uma espécie de transe que o anestesiava: sabia que algo estava doendo em algum lugar; e que já tinha sofrido vários machucados; e que sua respiração estava tão irregular, que teria soado como choro se alguém o escutasse, mas não se importou. Apenas correu, segurando o martelo com força.
E enquanto corria, percebeu que sua mente estava se livrando de todas as coisas que não entendia, deixando apenas o que tinha importância, apenas as coisas que podia resolver. Sua prioridade era conseguir mais um dia para o Artilheiro, se chegasse a tempo. Depois descobriria com Edie tudo o que o Frade Preto dissera, e ambos encontrariam uma maneira de trazer o Artilheiro de volta. Não havia espaço para dúvida em sua mente, nem para nada que pudesse atrasá-lo.
Ele entrou em um beco estreito e subitamente descobriu que não havia espaço suficiente para ele e o carro esportivo baixo que vinha em sua direção.
E mesmo com a buzina do carro tocando e os faróis piscando, George continuou correndo. Para sua sorte, o beco era tão estreito, que o veículo estava indo bem devagar para não raspar os espelhos laterais, e quando George não parou, o motorista teve tempo de pisar no freio sem derrapar ou atropelá-lo. O carro parou, bloqueando totalmente a pista.
George não hesitou. Simplesmente pulou para cima do capô do carro, e deste para o telhado. Depois desceu e seguiu para fora do beco, antes mesmo que o motorista entendesse o que estava acontecendo.
É claro que o motorista ficou uma fera quando percebeu que um rapaz tinha andado sobre o seu carro. George conseguiu ouvir vários gritos vindos de trás e uma série de explosões de raiva na buzina. Depois ouviu o som de alguém conseguindo engatar marcha ré só na terceira tentativa, e finalmente ouviu o estrondo de escapamentos à medida que o furioso motorista começava a se mover de novo.
George olhou para trás por um instante. Viu luzes se aproximando em alta velocidade enquanto o motorista lutava para se manter em linha reta no beco estreito, e ainda teve tempo de ver um dos espelhos laterais explodir em vários cacos contra um cano de esgoto. Em seguida, virou-se e continuou correndo, parando apenas para puxar uma lata de lixo para dentro do beco na tentativa de desencorajar o motorista de continuar a perseguição.
Atravessou a rua e retomou seu caminho. Ele podia ver as árvores do parque acenando ao final do trecho.
O parque o fez lembrar-se de Edie, da ocasião em que se conheceram, na garagem subterrânea sob a grama. Inicialmente, ela rebatera as gentilezas dele com agressividade, mas acabara se tornando uma aliada corajosa e cheia de recursos diante de todas as adversidades que enfrentaram juntos. Ele subitamente se perguntou se ela estava no pedestal do artilheiro. É claro que o Frade dissera a ela as mesmas coisas que a Máfia de Euston contara a ele. A possibilidade de ver Edie novamente deu mais energia a suas pernas.
George chegou a Park Lane com a energia renovada, atravessou o tráfego de fim de noite e entrou no parque.
Correr na grama, sob a trilha iluminada das árvores, era muito mais fácil.
George viu um relógio ao lado de um dos edifícios ali perto, e enquanto corria em paralelo com o alto e moderno hotel, seu coração disparou de medo.
Estava correndo contra o relógio. O tempo parecia deslizar muito mais rapidamente, como se estivesse contra ele.
“Edie, aguente firme. Estou quase chegando!”, George pensou.