Mão de Ferro
O golpe doloroso
23
O Ú LTIMO CAVALEIRO movimentava-se na chuva com a lança apontada para o coração de George. Este recuou até sentir uma parede em suas costas, e então se abaixou e rolou para o lado.
Ele sabia que os cavaleiros invisíveis o tinham cercado, e tudo o levava à certeza de que seria extremamente difícil tentar forçar a passagem e escapar. Aquela plateia indesejada formara uma parede espessa e impenetrável de cavalos, escudos e homens armados. Mas ele também percebeu, quando os cavaleiros se tornaram visíveis no próximo flash ao toque do sino, que mais abaixo, sob as barrigas dos cavalos, havia muito espaço para escapar ao nível do solo.
Então foi nisso que ele se concentrou ao se abaixar e rolar em busca de segurança, esperando não encontrar um casco no caminho. Mas para o seu azar, um casco foi seu primeiro obstáculo; sentiu um golpe no ombro, mas apesar da dor, foi em frente. Quando ele rolou, o sino tocou e relampejou novamente. George viu a barriga do cavalo acima dele e então se pôs de pé. Em seguida, correu pelo pátio até um abrigo próximo de uma coluna baixa de tijolos.
Ouviu um rugido de desaprovação vindo dos cavaleiros. Alguém gritou de forma bem clara “COVARDE”. Ele virou a tempo de ver o Cavaleiro apressadamente levantar sua lança para o céu e tentar frear, inclinando-se ao puxar as rédeas. A cabeça do cavalo voltou-se para trás e suas ferraduras quase deslizaram, mas por fim, travaram. George conseguiu ver por que o Cavaleiro tinha levantado a lança: se não tivesse feito, acabaria por chocar-se contra um grande edifício de escritórios.
George abaixou-se de lado, apertando-se contra o interior de uma pilastra. Prendeu a respiração. Na frente dele havia uma parede composta por placas de vidro, pertencentes a uma cafeteria. O lugar estava fechado, mas uma moça empilhava as cadeiras e limpava o tampo das mesas. Ela olhou para cima e George teve certeza de que ela o vira. Tamanha foi sua convicção que esteve prestes a gritar por socorro quando ouviu a aproximação lenta de ferraduras de cavalo, e viu, no reflexo da janela, as luzes da túnica do Cavaleiro se aproximando.
George viu o Cavaleiro tentar abaixar a cabeça o suficiente para passar por debaixo de uma coluna, mas não havia espaço para tal.
Foi aí que ele se lembrou de que, se conseguia ver o Cavaleiro no reflexo da janela da cafeteria, então seu inimigo também conseguia vê-lo.
O Cavaleiro disse:
— Você tem que lutar. Você tem que sair daí e lutar, ou será tachado de escudeiro covarde.
Sua voz ecoou sinistramente no espaço sob o arco.
George disse:
— Estou lutando. Só que não tenho uma arma!
Uma dor aguda na cicatriz o forçou a olhar a mão. Lembrou-se de como ele tinha cortado os tentáculos da criatura que o agarrara na passagem subterrânea, no dia anterior. Lembrou-se de como o dragão do Temple Bar tinha olhado sua mão, os olhos brilhando, maravilhado. Lembrou-se de ter feito a bala que matou o Minotauro. Lembrou-se do olhar de espanto do Artilheiro quando lhe disse que era um fazedor.
George olhou para a lança do Cavaleiro, que estava a apertar-lhe a perna. De alguma forma, aquele aperto era por demais humilhante para suportar. O Cavaleiro o estava persuadindo a lutar, como se ele fosse uma criancinha que tinha que ser estimulada a sair de um esconderijo em uma casinha de brinquedo.
Ele pensou no poder de suas mãos. Pensou em como havia sido chamado de Mão de Ferro.
E então se mexeu. Mostrou a mão e agarrou a lança a cerca de uns trinta centímetros da ponta. Não havia alternativa. Tentou concentrar-se para dar o melhor de si. Iria tomar a lança e torná-la sua arma. Se conseguisse, obteria uma boa vantagem contra seu opositor, pois sabia que o escultor que fizera o Cavaleiro não o equipara com uma espada.
Foi um ato de desespero, mas, de alguma forma, George sabia que a dor terrível na cicatriz da mão permitiria que ele executasse seu plano.
Sua mão se fechou em torno do eixo da lança e ele colocou nela toda a sua força e vontade. No mínimo, iria dobrar a coisa e torná-la inútil.
Era tudo o que podia fazer, então se empenhou completamente. Colocou tanta força ao apertar e puxar a lança que, mesmo a arma não cedendo, ele permaneceu apertando-a por muito tempo. O Cavaleiro foi arrastado de seu cavalo, mas continuou agarrado à lança como um cão que se recusava a soltar o osso.
George teve uma visão horrível de como sua mão ficaria se a lança deslizasse e a lâmina dela abrisse sua mão.
Sem pensar mais, recuou.
Ele recuou porque se deixou dominar pelo medo. Ao fazer isso, o Cavaleiro puxou a lança para si com rapidez.
George pôs-se de pé e olhou para todos os lados em busca de um lugar que lhe oferecesse abrigo.
O sino tocou e ele viu a multidão de cavaleiros avançar atrás dele, formando uma parede sólida e ameaçadora de armaduras e crueldade generalizada.
O Cavaleiro berrou:
— Você deve resistir. Não pode correr. Deve lutar. Recuse-se a lutar e você perde.
George gritou:
— Estou lutando. Você tem um maldito cavalo e uma arma. Tudo o que me resta é correr!
Por estar em um beco sem saída, sua única ação fora recuar. Não havia para onde correr, e dialogar não funcionara. Contudo, quando o Cavaleiro incitou o cavalo para frente e aprontou a lança, George fez a única coisa que seu oponente não esperava: ele correu em sua direção.
Não fora planejado, o ímpeto lhe ocorreu quando já estava para dar no pé. Lembrou do pai no parque, uma bola de rúgbi, tardes frias de inverno. E as palavras:
— O truque é fácil: vá por ali quando todos esperam que você venha por aqui.
A paradinha. O segredo para enganar o defensor do outro time. Seu pai tinha passado horas tentando ajudá-lo a entender o truque.
— Surpreenda o adversário, e mesmo que ele seja troncudo e esteja correndo em sua direção a toda velocidade, não terá espaço suficiente ou mobilidade para mudar de direção para pegar você. É a tática perfeita!
George conseguia lembrar-se dos cinco segredos para correr bem, mas o problema é que ele nunca havia sido bom no rúgbi, e era particularmente um caso perdido na paradinha. Com frequência, tropeçava e se enroscava em si mesmo.
Ele apagou o pensamento e focou no círculo pequeno da extremidade da lança, uma vez que esta vinha rápida em sua direção. Quando ela estava a dois passos de distância, ele ameaçou ir para a esquerda — mas foi para a direita. A ponta da lança passou rente à sua orelha.
George correu e alcançou a segurança de outra coluna. O bando de cavaleiros inimigos vinha atrás dele. George viu que saíam faíscas dos cascos dos cavalos.
Ele não esperou para cumprimentá-los. O sino tocou e ele viu, com a claridade do flash, que os cavaleiros estavam se reorganizando em outra fila comprida, de forma a bloquear todas as suas possíveis rotas de fuga. Porém, seus olhos bateram em outra coisa: portarias em estilo de guaritas sobre as quais ele tinha voado em companhia da menina dourada. E para além das portarias, o trânsito e as luzes da cidade acenavam.
Ele não pensou duas vezes, apenas cerrou os punhos, abaixou a cabeça e correu o mais rápido que pôde. Tinha que chegar lá antes que algum cavaleiro se posicionasse no final da linha. Assim, trabalhou no que ele tinha certeza de ser sua última chance de escapar.
Ele corria tão rápido que seu coração saltava de forma assustadora na caixa torácica.
Alguns segundos de pura adrenalina e ele viu que tinha conseguido.
Nenhum cavaleiro da Associação seria mais capaz de bloquear sua saída. Ele não diminuiu a velocidade. Não ia diminuir até que houvesse uma distância segura entre ele e o Cavaleiro. Ou até que ele vomitasse, ou tivesse um ataque cardíaco, ou algo semelhante. Sentiu uma ponta de entusiasmo ao avistar o portão, sua salvação. Dois passos depois, ele se permitiu olhar para trás. Já estava a poucos metros da saída quando viu um lampejo de ouro além das barras negras do portão.
Não dava para acreditar.
— Ariel?
O braço fino da menina passou pelas grades e ela tocou o braço de George, apertando-o com carinho.
— Você não pode correr. Você não pode recusar o duelo.
Ele balançou a cabeça em descrença, tentando ver-se livre de algumas manchas escuras que enevoavam sua visão, resultado da exaustão em que se encontrava. Ele esbravejou:
— Você fechou o portão? Você...?
Ela apertou o braço de George novamente. Dado o fato de que ele viu, no próximo flash, que o Cavaleiro estava agora mirando-o de onde estava, o gesto de Ariel não lhe deu o conforto que ele gostaria.
— Abra o portão!
Com tristeza, ela balançou sua bela cabeleira dourada. George estava certo de que ouviu um pesar sincero na voz dela, o que tornou o que aconteceu depois quase pior.
— Eu não posso, garotinho.
O Cavaleiro abaixou a lança pela terceira vez e chutou o cavalo. Os cascos dançaram nas poças d’água, fazendo com que ela se espalhasse para todos os lados.
— Tudo bem — disse ele em desespero. — Solte o meu braço e pulo o portão.
— Também não posso fazer isso.
E a mão da menina apertou o braço de George como uma algema, prendendo-o ao portão.
— Mas por quê? — ele gritou, com o coração congelado ao ver o cavaleiro que chegava.
— Porque eu sou a sacerdotisa do destino...
E a nova nota em sua voz era tão dura como diamante e tão fria como gelo.
— ... E ninguém, absolutamente ninguém, engana o destino, garotinho.
Ela cuspiu aquela última palavra, “garotinho”, como se estivesse realmente soltando algo nojento da boca. Por mais que ele lutasse, não conseguia se libertar da mão forte da menina. Ela o imobilizava ao portão metálico sem dar-lhe qualquer chance de movimento.
O sino tocou sua nota final e, devido à claridade do flash, George viu a caminhada da Associação, com os cavaleiros em seus estribos, agitando suas lanças no céu em comemoração à sua morte, e a ponta da lança fatal em direção ao seu coração — três metros, dois metros, um metro...
Fim de jogo.
Tudo o que fez foi sacudir a cabeça e esperar as asas da Morte o envolverem. Ele fechou os olhos e sentiu um impacto tremendo. Ouviu seu próprio grito de dor e agonia. Estava deixando a Terra de forma repentina e selvagem. A cabeça parecia explodir enquanto seu espírito era levado para cima.
Ele abriu os olhos sem mesmo ter certeza se ainda os tinha.
Mas eles estavam lá e viram a Bica olhando de volta, com seus implacáveis olhos de pedra, ao bater suas asas para o céu da noite.
— Gack? — a gárgula perguntou secamente, apertando a garra contra o peito de George e, em seguida, balançando-se para o outro lado com suas asas, parecia estar firmando-se em uma direção.
George olhou para baixo, ainda esperançoso de que aquela fosse uma experiência extracorpórea, ainda imaginando que ia olhar para baixo e ver seu corpo atravessado por uma lança.
E o que viu, em vez disso, foi o Cavaleiro, o cavalo e a lança empurrarem o portão por completo. Viu, também, que a figura contorcendo-se na ponta da arma era a fonte dos gritos, e não ele.
A forma dourada foi a última coisa que George viu antes que seus olhos se fechassem e a inconsciência vencesse e o anestesiasse.