Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 44 de 57

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Mão de Ferro

O laço partido

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O CHÃO TREMEU COM A BOMBA. George ficou caído sobre um dos joelhos. Devido ao barulho, os cavalos se mexiam nervosamente. O soldado parecido com seu pai corria pelo local atingido e dizia palavrões em direção ao céu. Irritado, pegou a metralhadora Lewis que estava em uma bancada próxima ao muro baixo e preparou a mira enquanto se ajoelhava e a apontava quase que completamente na vertical.

Assim que ele abriu fogo, George percebeu que tinha agarrado as rédeas dos cavalos e que estava puxando suas cabeças, os acariciando e acalmando. Tudo automático, claro. Mas sua iniciativa foi interrompida pelo som pesado das balas que saíam da metralhadora.

George olhou para cima e viu um biplano amarelo e preto voando tão baixo, que se podia ver claramente os óculos no rosto do observador que estava sentado atrás do piloto, à medida que ele se inclinava e jogava uma bomba com a mão.

Ele teve a sensação de que o mundo passou a girar devagar enquanto a pequena bomba vinha em sua direção; mas por mais lento que aquilo estivesse acontecendo, ele não teria tempo para correr.

Ele não correu, em vez disso, um impulso inconsciente tomou o controle de seu corpo. O instinto de artilheiro passou a dirigir seus movimentos, fazendo-o virar as costas para a explosão e proteger as cabeças dos cavalos com os braços estendidos.

A bomba caiu em algum lugar além dos muros da ruína, e mesmo com a queda de alguma coisa do outro lado do muro, que fez a poeira saltar para fora das fissuras entre os tijolos, George e os cavalos não se machucaram. A metralhadora Lewis ficou subitamente em silêncio.

George olhou e viu com alívio que o soldado ainda estava inteiro, apenas tentando carregar um novo tambor de munição.

O soldado xingou:

— Maldito avião de reconhecimento. Vamos ficar vulneráveis agora.

O homem olhou para o avião que já estava distante e balançou a cabeça em sinal de desgosto, bravo consigo mesmo por ter errado.

— Não entendo por que me deixam desperdiçar munição com esse treco.

Ele guardou a metralhadora e se virou para George com um sorriso triste.

George então percebeu que o soldado tinha razão.

Aquele homem tinha o rosto de seu pai. Sem dúvida, era o mesmo das fotografias antigas que ele vira, fotografias estas da época em que George ainda não tinha nascido.

O soldado viu algo no chão entre eles e se curvou para pegar. Era um livro fino de bolso com uma capa de couro vermelha, do qual diversas fotografias em preto e branco tinham caído e se espalhado pelo chão. George pegou as que estavam mais próximas dele antes que os cavalos inquietos prensassem os cascos sobre elas. Em uma delas havia uma menina de olhos brilhantes, usando um chapéu largo e sorrindo timidamente, mostrando um monte de dentes e pescoço e ombros, na frente de um vaso de plantas. Em outra, a mesma menina aparecia sentada em uma poltrona em frente a um fundo pintado de rosas. Ela segurava, um pouco sem jeito, um pacote embrulhado no colo e o inclinava. A câmera capturou o olhar arregalado do pequeno bebê.

O soldado perguntou:

— Você vê o cavalo na árvore?

George sinalizou que sim com a cabeça, não confiando em si mesmo para falar.

— É uma pena. Já vi muitas coisas, mas animais? Que absurdo. Não podemos deixar que eles vençam, certo?

George concordou com a cabeça, e então percebeu que o soldado estava com a mão levantada, esperando as fotografias que tinha recuperado.

— Desculpe-me — disse e entregou as fotos.

O soldado olhou para elas com tristeza.

— Minha esposa.

— Muito bonita. — George engoliu em seco.

O homem sorriu com orgulho.

— Ela precisa ser. É uma atriz.

— Legal.

George estava, de alguma forma, se limitando a palavras curtas.

— Ela é uma garota diferente, tem um pouco de cantora e um pouco de dançarina.

O rosto que se parecia com o do seu pai fazia caretas enquanto pensava, e George viu algo cru e vulnerável nele que não costumava ver.

— Alguns dos meus amigos acham que ela é um pouco inconstante, mas não a conhecem direito. Ela só... Gosta de atenção. Não há nada de errado nisso.

George percebeu que o soldado estava buscando apoio, e sentiu-se constrangido com a vergonha e vulnerabilidade mostradas naquele rosto. A imagem que tinha do pai era de alguém seguro, nem de longe vulnerável como aquele homem que tinha diante de si.

— Não — George deu de ombros, tentando fugir do assunto. O soldado olhou para a foto com o bebê e passou o polegar sobre sua pequena face. Então olhou para o céu.

— Talvez um aperto seja o suficiente. Talvez diminua um pouco.

— Talvez não.

As palavras saíram da boca de George antes que pudesse detê-las. Soaram secas e grosseiras.

— Pois bem. Se não der certo, pouco importa. Pelo menos tentamos, certo?

Ele acenou com a foto do bebê, e então deslizou as fotos de volta para as páginas impressas do livro.

George concordou. Olhos parecidos com os do seu pai o encararam.

— Você tem um alicate, camarada?

A pergunta pegou George de surpresa.

— Claro que não...

— Peguei você de surpresa, não foi? — Ele balançou o pequenino romance antes de guardá-lo no bolso, e agachou-se para pegar a chaleira que estava fervendo. Depois continuou falando sem olhar para os lados: — É como um livro, não é? Em um minuto você é o herói de sua própria história, no outro, sua garota produz esse pequeno átomo e, apesar de ser tão pequeno, ele faz algo acontecer e você vê que estava tudo errado, que você não é, nem nunca foi, o herói da história. E aquele lugar que você achava ser o centro do seu próprio equilíbrio é apenas a extremidade de um lugar muito maior, que estava lá o tempo todo, só você que não via...

Sua voz tornou-se pensamento e, por um tempo, tudo o que George ouviu foi o som metálico dos copos, da chaleira e das panelas de estanho. Então o homem se virou e sorriu, obviamente tentando não assustar George com uma cara de desgosto.

— Mas tudo bem. Tudo fica mais fácil assim. E também mais difícil, com a preocupação e a responsabilidade. Só que no fundo você se sente feliz porque mesmo que um maldito tiro lhe derrube, você participou de algo importante, certo?

Ele ofereceu um copo fumegante para George, que o pegou e agradeceu. Tomou um gole e engasgou quando o líquido queimou sua boca. O outro soldado pareceu não notar.

— Na verdade, nunca vi o moleque, nunca o peguei no colo, mas se eu morrer e nunca voltar a Blighty, minha esposa vai contar para ele tudo sobre mim. Tenho certeza. E aí ele vai saber que eu... Você sabe, o que eu...

Não terminou a frase porque uma marreta gigante acertou a terra com um impacto que os derrubou, e a onda de choque fez com que os ouvidos de George ficassem temporariamente surdos. A única coisa que podia sentir era o pânico súbito do sangue pulsando na cabeça.

Suas mãos apalparam o corpo, e ele ficou chocado ao encontrar umidade sobre ele. Esperou pela dor da ferida que jorrava, mas tudo o que aconteceu foi sua audição começar a voltar lentamente, e viu o rosto de seu pai pairando sobre ele em um capacete de estanho.

— Desperdício de um bom chá, camarada — ele sorriu e estendeu a mão para baixo. George se deixou ser puxado. Então olhou para baixo e descobriu que não havia nenhum ferimento desfigurando seu tronco e pernas, apenas o conteúdo pingando de sua caneca de estanho.

Outra pancada no chão, dessa vez vindo de mais longe, do outro lado dos escombros. O soldado fez uma careta. Foi uma expressão tão dolorosamente familiar, que George não conseguiu deixar de acreditar que aquele era o seu pai. Não era apenas uma mera semelhança, era a carne reconhecendo a si mesma.

— Tiros localizados. Os malditos alemães descobriram nossa posição. As coisas vão piorar bastante antes que melhorem.

De forma surpreendente, agora que estavam em ação, George viu que a vulnerabilidade e as dúvidas tinham desaparecido dos olhos do pai. Ele estava confiante novamente, mais parecido com o homem corajoso e admirado por seu filho.

E então George voltou a ser um soldado — não um menino preso em um sonho bom prestes a virar um pesadelo — e ficou ocupado cuidando dos cavalos quando uma nova série de explosões começou.

— São os nossos inimigos atacando novamente. Vamos tentar revidar, talvez consigamos acertá-los antes que nos mandem para os ares! — seu pai gritou, abaixando-se à medida que algo passou zumbindo próximo à cabeça dele. — Faremos duelos de artilharia, da mesma forma que cavalheiros ofendidos costumavam resolver suas diferenças no passado. Mas vou dizer uma coisa, não há nada de cavalheirismo aqui: é matar ou ser morto. Devemos lembrar que o diabo sempre leva aquele que não aguenta a pressão.

BOOM. Uma bomba caiu sobre os destroços do muro, fazendo com que os dois desviassem, no reflexo, de uma chuva de juncos secos e pó de gesso.

— E um feliz Natal para você também, Fritz. — Seu pai sorriu, uma luz ardente emanava dos olhos dele.

Os cavalos estavam resistindo e puxando o arreio em terror. Então se ouviu um estalo e um bang. Algo passou raspando sobre a cabeça de George, e outra coisa resvalou com força no protetor de couro em sua perna. Ele teve que se segurar no arreio de um dos cavalos para manter-se de pé e, em seguida, o cavalo começou a relinchar e tremer, tentando se soltar; e quando George olhou para baixo, viu fumaça saindo da perna do animal.

A visão do sangue, o trovão crescente do bombardeio e a proximidade das bombas começavam a aterrorizá-lo. Uma voz dentro de sua cabeça se insinuou, lembrando-o de que ele poderia sair daquele inferno, bastava que pisasse fora do pedestal.

Era uma tentação muito forte, uma passagem instantânea para casa.

Ele sentiu o vibrar assustado do nariz do cavalo, macio debaixo de sua mão. Sem pensar duas vezes, agachou-se, tateando um dos sacos pendurados em seu cinto à procura de um curativo.

Ele gritou:

— Aqui, preciso de ajuda! Segure a cabeça dele!

E o soldado com o rosto de seu pai agarrou a cabeça do cavalo e começou a tentar acalmá-lo. George se viu agachar para remover o fragmento vermelho e quente de metal da perna do cavalo, sem qualquer hesitação. Sentiu os dedos queimando à medida que puxava o metal do músculo trêmulo, e assim que o sangue começou a jorrar do ferimento, ele imediatamente colocou um grosso curativo e o pressionou para estancar o sangue. Com a outra mão, soltou a atadura e a passou em volta da perna, ajustando sua pressão aos poucos.

Ignorando o fato de o chão estar cedendo ao seu redor, George pressionou o curativo com mais força, passando o rolo em ambos os lados da perna até o fim. Então se inclinou, rasgou a ponta final da atadura com os dentes e torceu as pontas que tinha feito, amarrando-as em seguida.

A perna do cavalo continuava tremendo, mas ele parecia contente ao ver que o sangue não vazava pela gaze.

O soldado disse:

— Bom trabalho.

George percebeu que ele estava sorrindo satisfeito, enquanto segurava um pouco abaixo das narinas dilatadas do cavalo.

George se levantou e colocou o braço em volta do pescoço do cavalo, acariciando-o para acalmá-lo.

Subitamente, ouviu-se um estrondo, e eles ficaram esperando imóveis, um de cada lado do pescoço do cavalo. George viu o olho do animal com extraordinária clareza, e pensou que nunca tinha visto um castanho tão profundo e bonito. Em seguida, seu olho foi distraído por algo vermelho, e seu foco mudou para uma joaninha que caminhava calmamente pelo couro do freio, indo em direção à mão de seu pai que descansava entre as orelhas do cavalo. George olhou para o céu e percebeu que este não estava opaco, como tinha pensado inicialmente, mas colorido com um azul sutil, acompanhado por um tom verde requintado. Era como se o momento de silêncio e o fato de que a morte poderia vir implacável pelo céu a qualquer momento fizessem com que George vivenciasse tudo com mais intensidade.

De repente, George soube, em uma espécie de extensão de sua conscientização, que aquele era um momento extraordinariamente precioso, que tinha de ser aproveitado antes que fosse eviscerado pelo próximo bombardeiro. Tinha algo a dizer ao soldado que era e não era seu pai. Era mais do que uma oportunidade: uma chance única de falar o que estava entalado na garganta havia anos.

Ele se virou e olhou nos olhos do pai, sua boca abrindo para dizer o que queria, mas o pescoço do cavalo obscurecia o rosto do soldado e tudo o que podia ver era o topete desarrumado e enrolando dele, para cima e para fora da cabeça; e assim que se moveu para ver melhor, ouviu-se uma nova explosão, não muito perto, mas o suficiente para que ambos abaixassem as cabeças. Em seguida, bombas começaram a cair por todos os lados.

O dia se dividiu em inúmeros estrondos que tremeram a terra e sugaram o ar dos seus pulmões. Eles puxaram os pescoços dos cavalos para baixo, tentando desviar dos estilhaços, da terra e das pedras que passavam voando.

Não havia mais silêncio, apenas o barulho incessante e incansável das bombas que faziam a terra dura sob seus pés tremer e inclinar como o convés de um navio em alto-mar.

George não via as bombas caindo. Cada vez que acontecia uma explosão, sua cabeça estava abaixada, e quando abria os olhos, conseguia apenas ver o ar cheio de sujeira. Tudo o que podia fazer era enterrar o rosto no pescoço dos cavalos, com ambas as mãos ritmicamente acariciando os dois animais, e dizer:

— Calma, calma.

O bombardeio não estava abalando apenas a terra em que pisava. Estava mexendo também com a percepção de George. Toda vez que ouvia uma explosão, estremecia e sabia que a próxima poderia matá-lo.

A memória distante de um pedestal, o fato de que seria necessário apenas um passo para libertá-lo daquele inferno, tentou-se fazer ouvir no fundo de sua mente à medida que o horror tomava conta de suas pernas, mas ele tapou os ouvidos e resistiu.

George percebeu que era o braço do outro soldado que segurava o seu por sobre o pescoço ferido do cavalo e que mantinha seu corpo em pé. Ele tentou cravar as botas e firmar as pernas, mas era como tentar empilhar geleia. Rangeu os dentes e, em seguida, ouviu a voz de seu pai, dizendo:

— Bom menino, bom menino, você vai ficar bem.

E embora o soldado tenha dito isso para acalmar o cavalo, o coração de George se abriu novamente. E apesar de o mundo parecer ter chegado ao fim a seu redor, ele encontrou forças na alma e fez suas pernas trêmulas se firmarem.

Quando olhou para baixo, percebeu uma coisa: as botas de seu pai eram iguais às suas. A única diferença era que ele tinha partido um laço e amarrado às suas extremidades.

George já sabia o que ia acontecer, e enquanto se segurava nas mangas de seu pai, gritou:

— Não! Papai! Ouça, por favor, eu não...

Os olhos do soldado buscaram os dele sobre o pescoço do cavalo. Um sorriso estampava seu rosto.

— Está tudo bem...

Subitamente, o muro veio abaixo como se um gigante o tivesse derrubado com um chute. Os cavalos ficaram agitados, e George sentiu a mão que o segurava amolecer. Foi a sua vez de segurar todo o peso do homem que estava do outro lado. Em seguida, os dois cavalos tombaram por causa de uma bola de fogo que rolou sobre eles.

George não soltou o braço do pai, nem mesmo quando foram envoltos por uma nuvem de poeira e fumaça que impedia sua visão. Ele ouviu os cascos dos cavalos batendo em pânico e seus fortes relinchos. Com a mão livre, encontrou as amarras e as soltou, e os cavalos foram embora. Depois colocou o corpo inerte e pesado do pai sobre os ombros e cambaleou para longe dos destroços que queimavam.

Ele gritou por socorro, mas o socorro não veio. Cambaleou para a frente, em direção ao morro, sentindo o peso em suas costas a cada passo. Ouviu a si mesmo soluçar, enquanto o vento soprava a fumaça para longe e o bombardeio terminava.

Quando alcançou o morro, ele caiu sobre um dos joelhos diante do horror revelado.

O lugar estava destruído. No lugar dos canhões, havia somente uma cratera, com a equipe de tiro espalhada como pétalas ao redor. Corpos tinham sido lançados sobre o arame farpado, e alguns não se moviam. Algo tentava rastejar para fora de um buraco.

Seu pedido de ajuda se transformou em pergunta, e ouviu a palavra “Por quê?” convulsionar repetidamente em sua garganta. O tempo todo se manteve agarrado ao braço inerte do pai, sentindo o peso do corpo dele entortar suas pernas e começar a levá-lo para o chão.

E então algo caiu a seus pés: era uma maca. Olhou para cima e viu o Oficial e o Bombardeiro olhando para ele com infinita tristeza, e ouviu o Oficial dizer:

— Coloque o soldado na maca, Artilheiro.

Ele balançou a cabeça e tentou endireitar as pernas, apesar da força sobre os ombros que o puxava para baixo.

— Não conseguirá carregá-lo para sempre. Coloque-o na maca.

Novamente, George sacudiu a cabeça em negativa e segurou o braço do soldado com mais força.

Ouviu-se dizer:

— É o meu pai.

Uma de suas mãos entrelaçou os dedos nos dedos da mão do pai, e ele segurou com toda sua força, mas não houve qualquer resposta de vida. Já ia retirar a mão quando sentiu os dedos do pai se moverem lentamente.

De repente ouviu o rápido uáuá de um carro de polícia passando, o barulho do tráfego de Londres voltava ao normal com a noite chegando. Os joelhos de George cederam, e ao cair do pedestal, ele foi apanhado por dois braços de bronze.

Ficou pendurado, olhando para as botas do Oficial, e então a luz continuou diminuindo até dar lugar à noite.