Mão de Ferro
O sorridente com uma faca
4
EDIE OLHAVA PARA A CHUVARADA além do toldo. Era impossível dizer no que ela estava pensando enquanto abraçava a si mesma para se proteger do frio. George ainda estava absorvendo o que ela tinha acabado de dizer a ele.
— Você matou seu pai?
— Bem, sim… Não literalmente.
Ele olhou para ela, horrorizado.
— Edie! Não tem graça.
— Não. Quer dizer, ele não era meu pai de fato. Meu pai de verdade. Era meio que meu padrasto.
George ficou um pouco menos na defensiva e disse:
— Ah!
— Não, não se preocupe, eu o matei, sim.
George concordou devagar com a cabeça. Entender o que Edie falava às vezes era exaustivo e aquilo não estava sendo apenas exaustivo, mas também perturbador e confuso.
Certo.
Não. Foi super errado.
Uma corrente de água vinda de uma calha quebrada mudou de direção por causa do vento e espirrou neles. O toldo não dava muita cobertura. Na verdade, mais parecia canalizar a água na direção deles do que lhes oferecer abrigo. Ela puxou as roupas firmemente sobre si e abaixou-se.
George ainda estava tentando se acostumar ao fato de que tinha diante dele uma assassina. Durante esse devaneio de aceitação, alguns segundos se passaram até que percebesse que Edie não estava mais ali. Foi então que partiu no meio da chuva.
O beco estava vazio.
— Edie! — ele gritou, sentindo um pânico súbito. Não havia nada naquele beco sem saída além de um carro japonês batido e estacionado ao lado da soleira de um edifício.
— Edie!
Ele correu de encontro ao espaço estreito, dando uma olhada no carro ao passar por ele, procurando por um possível esconderijo. Não conseguia acreditar que aquilo estava começando de novo.
— Não deveria ter acontecido — disse uma voz baixa que vinha da altura do joelho dele.
Ele olhou para baixo. Edie estava agachada em uma área seca fornecida pela soleira e pelo toldo acima. Ela o fitou e afastou-se um pouco para dar espaço.
Ele suspirou de alívio e abaixou-se para se proteger da chuva ao lado dela. Mais uma vez não conseguia manter contato visual com a menina, pois ela parecia estar olhando para algo além da chuva, da rua, de qualquer coisa.
— Não faça isso de novo.
A reação dela às palavras dele foi continuar absorta em seus pensamentos.
— Só bati nele. Não havia outra forma de fazê-lo parar. Sabe, ele não parava de vir atrás de mim com uma faca. Foi em uma praia. Só bati nele. Não tinha intenção de matá-lo. Só bati nele!
— Você o matou batendo nele?
— Bem, eu tinha uma pedra bem grande na minha mão. Ele...
Edie levou as pernas ao queixo e o apoiou sobre os joelhos. George esperou que ela continuasse a falar.
— … Ele era um bêbado! Bebia o tempo todo! Quando os bares estavam fechados, ele ia pescar. Era isso o que dizia, mas ele só ia para a cabana da praia e bebia mais. Minha mãe sabia. Mais tarde, quando ela foi embora, quando levaram-na, restaram somente eu e ele, e ele me levou para a praia. Foi a primeira vez que eu vi a cabana. Era uma entre várias, ficavam uma ao lado da outra, mas não passavam de celas de concreto construídas sobre rochas. Quando ele abriu a dele e eu olhei pela porta, vi algo... então eu soube que estava no lugar errado e...
Ela apertou o queixo ainda mais sobre os joelhos, fechando a boca com força.
— O que você viu, Edie?
Ela balançou a cabeça e respirou.
— Não importa. De qualquer forma, não era algo que estava realmente lá. Era algo que tinha sido feito lá. Uma vez. Quando toquei a parede e vi, eu soube que jamais deveria ter ido àquela cabana. Então eu corri.
Ele pensou no dom que ela tinha ao tocar pedras ou metais e sentir as lembranças de eventos passados com alta carga emocional que tinham ficado gravadas nesses materiais.
— Você teve uma visão? Você viu o passado?
— Sim.
Ela não iria contar para ele o que vira. Tinha feito um pacto consigo mesma: de nunca mais falar a respeito daquele episódio.
Então, em vez de se virar, olhar para George e contar o restante da história em detalhes, bem como outras coisas que aconteceram, ela só explicou como tinha corrido e que, quando o padrasto tentou agarrá-la, perguntando o que estava errado ao mesmo tempo em que sorria, ela saiu correndo pela praia de pedregulhos.
Ela disse que ficara cansada ao correr sobre as pedras, e que o padrasto a seguiu calmamente, subindo pelos quebra-mares de madeira que dividiam a praia deserta, um atrás do outro, o sorriso no rosto dele totalmente em desacordo com o canivete aberto que segurava nas mãos.
Ela contou a George que tinha corrido até o último degrau de uma montanha de pedregulhos e encontrou o caminho bloqueado por um profundo abismo entre ela e a nova parede de madeira construída para conter as pedras durante tempestades fortes.
E então ela explicou a pior parte: como ele a alcançara no topo daquela ribanceira. Mas Edie não contou o que seu padrasto disse, ou como havia um brilho nada natural no sorriso dele. Ela só falou sobre a faca, e sobre como sentiu que a superfície dura da pedra em sua mão era lisa. Só contou que ele havia se escondido para pegá-la quando ela o atingiu com a pedra.
Ele caiu como uma árvore, batendo no fundo sombrio do abismo, provocando uma avalanche de pedras que caíram atrás dele. Quando as coisas pararam de se mover, Edie viu que ele tinha ficado soterrado. Ela não sabia o que fazer. Olhou para a pedra pesada em sua mão e viu algo molhado brilhando nela.
Após isso, caminhou de volta à cidade e pegou o trem para Londres.
George concordou com a cabeça lentamente. Ele entendia o que ela estava dizendo e, percebia que jamais iria perguntar a ela sobre as coisas que ela não estava lhe contando. A parte oculta da história.
— Então foi um acidente? — ele perguntou devagar.
— Não — ela disse secamente. Ele viu as portas se fechando nos olhos dela, trancando todo o fardo pesado que havia ali dentro.
— Olha só, Edie... — ele começou a dizer.
— Você já pensou aonde a gente vai? — ela jogou a pergunta na frente dele como se fosse um obstáculo na estrada. Ele precisou de um momento para, mentalmente, pisar no freio e mudar a marcha.
— Pensei que tínhamos parado por causa disso — ela continuou a dizer —, para que você pudesse pensar.
George estava ciente de que ela o olhava. Quando a encarou de volta, ela virou o rosto rapidamente, disfarçando. Ele percebeu. Ela abriu a boca e disse:
— Então, qual é o plano?
— Ficarmos vivos e resgatar o Artilheiro.
— Como?
— Não faço ideia. Pedir ajuda parece ser um bom primeiro passo.
Ela pensou nas coisas que a haviam ajudado antes, coisas e pessoas que não tinham lhe dado respostas diretas, de fato, somente enigmas e pistas obscuras. Mesmo assim ele estava certo. As ajudas tinham sido úteis, de uma forma ou de outra. Só havia um problema...
— Não podemos ir até as Esfinges ou ao Dicionário, por causa dos Dragões da Cidade. Estamos do lado errado da fronteira, não estamos? Eles ainda a estão protegendo, procurando por você.
— Podemos ir ao Frade Preto.
Ela o encarou e indagou:
— O Frade Preto? Você está louco? Você disse que não confiava nele!
— Não confio. Não inteiramente. Não, de fato. Mas ele nos mostrou o caminho para a Pedra, não mostrou? Quer dizer, ele enfeitou e floreou, mas a informação foi boa. Ele somente...
— Ele só sorriu demais e demonstrou muita vontade de pôr as mãos na sua cabeça de dragão quebrada, certo?
Ele sentiu o formato familiar da cabeça do dragão em seu bolso. Ela continuou falando:
— E o Caminhante, ele também estava terrivelmente a fim de colocar as mãos nela.
Ele fez que sim com a cabeça, depois a balançou negativamente. Ela estava certa, mas também estava errada. Ela tinha que estar errada, senão não haveria um lugar para começar.
— Acho que ele pode ser astuto, mas não acho que seja do mal. Não como o Caminhante. Acho que ele só se expõe um pouco mais que o Artilheiro ou o Dicionário, sabe? Acho que estaria aberto para um acordo.
— Um acordo? O que você tem para fazer um acordo?
Ele pegou a cabeça quebrada do dragão e olhou para ela. Apesar de ter certeza de que era a cabeça de um dragão, quando olhava mais perto, parecia ter um bico maior, dando à figura um aspecto estranho.
— Era isso que ele queria. Não dei a ele, pois queria eu mesmo resolver isso ao colocá-la de volta à pedra, mas no final decidi não fazê-lo, não foi? Então, talvez possamos dar a ele em troca de ajuda. O que você acha?
Na ausência de um plano, e na presença do medo e do perigo, às vezes tudo o que se precisa é seguir em frente. Edie não podia argumentar contra aquela lógica. Então, concordou com a cabeça.
— O Frade Preto, então.
Ele percebeu que ela ainda tremia. Tirou a jaqueta e entregou a ela.
— Pode usar. Estou bem aquecido.
— Estou bem — ela disse, tentando devolver a jaqueta para ele.
— Edie, você está tremendo. Coloque o casaco e vamos lá. Não vamos salvar o Artilheiro sentados aqui e tremendo.
Depois de muito pensar, ela cedeu e colocou a jaqueta sobre os ombros.
De súbito, ela parou e apontou, dizendo:
— George. Sua mão.
— Está tudo bem.
Os olhos dele seguiram os dela. E ele sentiu-se mal.
— Tá — disse, engolindo em seco. — Não está tudo bem.