Mão de Ferro
Imensidão de espelhos
22
EDIE PENSOU POR UM MOMENTO que poderia estar traindo George. Foi um pensamento breve, mas intenso.
O Frade Preto começou a falar, e ao ouvir as revelações dele, Edie conseguiu empurrar suas desconfianças para um lugar escondido de sua mente, onde poderia buscá-las mais tarde caso fosse necessário.
O Frade falou:
— Existem espelhos que funcionam como passagens, são artefatos mágicos, raros. Eles são criados em paralelo com um outro. Espelhos-gêmeos. Funcionam assim: ao pisar em um deles, você pode mover-se de onde está para outro lugar dentro da cidade, desde que lá esteja posicionado o espelho paralelo ao que você pisou.
Edie disse:
— Isso é espantoso.
— Oh, sim, eu lhe garanto. É muito mais do que um mero “transporte”. É algo extremamente poderoso e perigoso...
— Por quê?
Ele se levantou, a rapidez de seus movimentos fez com que ela se encolhesse. Mas ele estava apenas gesticulando para que ela se dirigisse ao lugar onde indicava.
— Fique ali. Entre os espelhos. Não toque neles, porque agora você sabe o que podem fazer, eles podem estar abertos. Apenas olhe.
Ela obedeceu e aproximou-se dos espelhos, vendo várias Edies neles.
O Frade falou:
— Você acredita que está olhando para seus próprios reflexos. Mas não está. Na verdade, o que você está vendo são momentos no tempo. Mesmo um simples reflexo no espelho nunca significa você no presente, porque demora um microssegundo para que a luz que carrega sua imagem chegue até o espelho e volte para os seus olhos. Um rosto no espelho é sempre um rosto no passado, preso nessa fração minúscula de tempo. É por esse motivo que nunca vemos a nós mesmos como somos, apenas como éramos...
Ele sorriu para ela.
— Veja as réplicas de seu rosto, repetindo-se infinitamente nos espelhos. Todas parecem iguais, mas isso é só porque as imagens que você pode ver claramente são aquelas em que as diferenças são tão mínimas que não podem ser detectadas. Ao avançarmos por camadas profundas, viajamos para o passado distante.
Ela olhou para os espelhos, tentando ver onde as diferenças começavam. Mas não conseguiu. Sentiu-se desconfortável. Era como se os espelhos também estivessem olhando para ela de alguma forma.
— Como isso funciona? — perguntou, desviando o olhar.
— Isso não importa. É apenas algo que “é” assim, da mesma forma que o céu é azul. Sempre foi e sempre será. Londres é um lugar de poder. Já era assim no passado, antes que as pessoas construíssem o primeiro abrigo. Já era um lugar de poder antes que as pessoas construíssem casas, cercas ou cabanas; antes mesmo que o homem pensasse em construir templos. Já era um lugar de poder quando o próprio arco do céu servia como templo para todos os homens.
“Olhe ao longo do rio, veja a Torre de Londres. Antiga, certo? Na verdade, não. Antes dela, havia uma igreja cristã; e antes disso, um templo romano; e antes disso, o santuário de um deus celta; e antes disso, o santuário de um deus com chifres; e antes disso, apenas o Corvo se lembra. Todos os passados continuam lá, em camadas.”
Seus olhos estavam brilhando. Ele abaixou-se ao lado dela e ela virou-se, desconfortável com o pensamento de não poder vê-lo.
Edie disse:
— Então quer dizer que os espelhos não só transportam uma pessoa pelo espaço, mas também pelo tempo, para Londres passadas.
— Você é astuta, menina.
— Eu não sou uma menina. Sou uma fagulha. Sei tudo sobre o passado.
— E, é claro, você não tem medo dele.
Edie revirou os olhos e bufou impaciente.
— O passado está carregado de terror. Não seja burro! O passado não é um lugar agradável. Só estou dizendo que entendo sobre a capacidade de ir para o passado, porque é o tipo de coisa que eu faço.
O rosto do Frade abriu-se com um sorriso, seus olhos faiscavam teatralmente. Parecia surpreso. Ela encolheu os ombros.
— Você não parece impressionada, menina.
— Na verdade, não. Já estou com bastante dificuldade em lidar com o presente. Não preciso de outros pedaços de tempo.
— Você não precisa de outros?
Quanto mais ele demonstrava indignação pela falta de reação de Edie, menos ela queria parecer impressionada pelo leque de possibilidades que ele havia apresentado.
— Não. Sinto Muito. Eu realmente não posso atravessar as camadas do passado de Londres. Entendo o que você está dizendo, mas tudo isso é... Uma grande bobagem.
Ela não tinha a intenção de dizer uma grande bobagem. Queria ter dito estranho. Ou talvez assustador. Mas a boca tinha tomado o controle antes que o cérebro pudesse impedir. O Frade parecia chocado.
— Uma grande... Bobagem?
— Sim — ela respondeu. Não iria voltar atrás. Se tinha dito aquilo devia ser porque no fundo era o que sentia.
— Você acha que realidades diferentes, camadas de passados, são simplesmente bobagens?
— Sim. Acho! — ela não permitiria que fosse intimidada. — Não quero ofender ninguém, mas isso é o tipo de coisa que pessoas patéticas dizem quando bebem demais ou estão ficando malucas. Toda aquela magia barata que eles acham fazer sentido em suas cabeças perturbadas, coisas como todas as moléculas em suas unhas serem galáxias com pequenos mundos girando em volta delas...
Como alguém que passara a maior parte da vida tentando não ver coisas estranhas e assustadoras cada vez que acidentalmente tocava em algo, Edie tinha opiniões firmes a respeito de pessoas que, voluntariamente, se desligavam da realidade para experimentar dimensões irreais. Ela não via sentido nesse tipo de fuga, pois vira muitos casos em que o ‘desligado’ simplesmente não retornava de seu mundo de delírios.
O Frade levantou-se a uma altura em que pareceu ter meio metro a mais do que o normal.
— Pessoas patéticas? Você acha que isso é coisa de pessoas patéticas?
Ele cuspiu a palavra, prolongando o S final com desgosto. Mais uma vez, ela decidiu não mostrar que estava intimidada por ele.
— É o que eu penso. É como eu vejo e entendo essas coisas: não passam de bobagens.
— O modo como as coisas soam para você é algo que está fora do meu controle, jovem fagulha...
Ele levantou as mãos acima da cabeça e fez um gesto para o mosaico circular e xadrez localizado no teto. Parecia que estava movendo dois anéis em direções diferentes.
— Mas posso lhe mostrar algo.
Houve um estalo, e de alguma forma o mundo estremeceu um pouco e ficou subitamente mais escuro e sério. O Frade parecia menos um monge e mais um demônio à medida que sombras passaram a dançar em seu rosto. A principal razão pela qual ele parecia um demônio era uma luz vermelha e cintilante que lançava essas sombras sinistras em seu rosto — como se o local estivesse em chamas. Edie virou-se, mas antes que pudesse ver de onde vinha o fogo, sentiu uma grande explosão de calor ao lado do rosto; e então seus olhos pararam ao passarem pelo espelho à direita que tinha anteriormente mostrado seus reflexos infinitamente repetidos, mas que agora continha a visão da fornalha do inferno e de paredes caindo e pessoas gritando.
O choque fez com que Edie saltasse para trás — e por um instante sentiu o vidro frio do outro espelho atrás dela. Ela ouviu o Frade gritar:
— NÃO! FIQUE LONGE DO ESPELHO!
Mas já era tarde. O vidro frio e duro cedeu tão suavemente como uma bolha de sabão — e o mundo moveu-se quando ela começou a cair por uma tempestade uivante. Um vento chicoteou seu rosto e algo agarrou seu pé...
Foi aí que as coisas realmente começaram a dar errado.