Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 17 de 57

Páginas do PDF

Mão de Ferro

Paternoster

15

 

AO MESMO TEMPO EM QUE Edie estava correndo na direção sul para o rio, George tinha acabado de cruzá-lo seguindo para o norte. A Bica o segurava com firmeza ao redor do peito enquanto batia as asas dirigindo-se à grande cúpula da catedral de São Paulo. O caminho pelo ar era bem agitado, pois a gárgula batia e flexionava os músculos em cada movimento, fazendo-o tão sofregamente, que voar era mais uma questão de vontade do que de aerodinâmica para aquela gigantesca criatura de pedra. George tinha a forte sensação de que iria cair a qualquer momento. O único ponto positivo é que não estava mais sendo carregado de ponta-cabeça, então não sentia mais o sangue latejando.

O flash de uma câmera atingiu os olhos dele enquanto sobrevoavam um grupo de turistas fotografando à luz crepuscular da catedral. Ele gritou “Socorro!” mais pela necessidade de gritar do que por esperança real, tentando lançar um gancho verbal de volta a uma realidade da qual mal se lembrava.

Como ele já esperava, nenhum turista olhou para cima. Eles não conseguiam vê-lo naquela camada de Londres. A parte inconsciente e instintiva de seus cérebros dava um passo à frente e apagava a imagem absurda, protegendo suas consciências do choque ao ver o impossível: um garoto sendo levado no céu da cidade por uma gárgula, como um rato pego por uma coruja.

Por ter desistido de esperar que alguém o notasse, George não percebeu o olhar estranho de um homem sentado em uma soleira. Ele usava um terno sujo e desalinhado, seus dentes estavam quebrados. George não o viu colocar de lado a garrafa de cidra e apertar os olhos para o céu. Ele não viu o rosto do bêbado ruborizando-se. E também não viu os olhos negros nem uma voz sem vida dizer:

— Garoto no céu. Carregado por gárgula. Voando para a catedral de São Paulo, direção noroeste.

A Bica subitamente ficou sob uma asa só e virou de forma abrupta e desequilibrada num ângulo à direita no céu, mergulhando baixo na lateral da cúpula, de frente para um raio de sol desenhado na superfície da praça Paternoster.

Agora George tinha certeza de que a gárgula não iria matá-lo imediatamente. Havia então um tempo para o medo e para a raiva: ele precisava resgatar o Artilheiro, mas como ia realizar essa proeza na situação que estava? Vulnerável. Sendo levado pelos ares para onde quer que a gárgula tivesse vontade.

Pensou no Artilheiro, e como ficara aliviado quando este saltara do pedestal em seu auxílio. George sabia que se ele não libertasse o Artilheiro de onde quer que ele estivesse, levando-o de volta ao seu pedestal até a meia-noite, o bom cuspido já era.

George olhou para baixo e ficou a observar uma praça moderna que se estendia lá embaixo. De repente, ouviu um barulho que lhe chamou atenção, fazendo-o olhar para o local de onde ele vinha: era o som de um carneiro balindo queixosamente no meio da praça de pedra tomada pelo vento.

Era um som pacífico de grama, montanhas e verão, e por mais que estivesse longe, penetrava no cérebro superaquecido de George como água fria depois de um longo período de seca.

Por uma razão inexplicável, o som do inocente animal no meio de toda aquela confusão o deixou leve por dentro.

Em seguida, percebeu que a gárgula iniciara uma subida para o alto de um prédio comercial. Um voo rápido demais para ter certeza, mas devagar o suficiente para George quase se convencer de ter ouvido uma voz no meio do balido dizer a ele:

— Segure firme, meu filho!

Ele se contorceu e sacudiu-se nas garras da Bica, desesperadamente tentando ver o carneiro ou o homem cuja voz ele tinha a dolorosa certeza de já ter ouvido antes, mas a gárgula sobrevoou os topos dos telhados, e a praça foi perdida de vista.

Tinha sido apenas um diminuto som, mas passou por ele como uma corrente de adrenalina. Sentiu-se revigorado, como se tivesse tido uma noite de sono. Não sentiu menos medo ou confusão pelo que estava acontecendo com ele. O que o acometeu foi uma estranha coragem.

A cicatriz em zigue-zague de sua mão doeu de forma aguda, mas não era uma dor insuportável a ponto de fazer sua onda de bem-estar se dissipar. Olhou para as três linhas interligadas no punho. A menos que estivesse enganado, elas tinham caminhado mais, uma delas chegara mesmo a atravessar seu braço, iniciando uma fissura curva no antebraço.

— Gorvo — resmungou a Bica de súbito, e deu mais uma guinada para baixo, fazendo o mundo se inclinar de forma alarmante.

Se fosse possível tropeçar no céu, cem metros acima do chão, aquela devia ser a sensação. George concentrou-se em manter o que quer que estava em seu estômago dentro dele, e então, assim que conseguiu devolver o conteúdo ao seu lugar, olhou para cima a fim de saber o que estava perturbando a gárgula.

O mundo se agitou como uma montanha-russa, e uma vez mais o estômago de George embrulhou horrivelmente. Ele percebeu que a Bica estava hesitando, mergulhando entre dois arranha-céus para ficar abaixo do nível do topo do edifício, como que tentando colocar-se entre ele e algo mais no céu noturno. George se esticou e seguiu a direção dos olhos da gárgula, mas não viu nada além da cidade conforme as luzes vinham e as cores se despediam do dia. O céu estava vazio, exceto por uma outra ave qualquer voando ao longe na direção norte. Não havia nada obviamente ameaçador. George não conseguia entender porque a Bica estava agindo de forma tão estranha.

— Gorvo! — disse a gárgula ofegante, dessa vez de forma mais intencional.

E então o céu do começo da noite desapareceu e eles se lançaram para o topo de um edifício alto e velho que parecia pegar um quarteirão inteiro da cidade. Olhou de relance para a fachada da Bolsa de Valores Real, esta sustentada por pilares, e percebeu que deviam estar voando diretamente sobre o Banco da Inglaterra, na rua Threadneedle.

Olhou para baixo e viu o pátio central do edifício, em seguida, ouviu um canto.

Era apenas uma canção ao longe, mas cortava toda a agitação ruidosa da cidade e vinha de forma tão limpa quanto o som do carneiro na praça Paternoster. Era a voz doce de uma garota. A canção falava de brilho do sol e brisas leves da primavera. Era o som feliz de alguém cantando somente para seu próprio prazer, terminando com vigor a rima a cada final de verso com uma alegria que tinha algo inegavelmente puro e elementar.

“Onde a abelha suga, lá estou eu

Quando as corujas choram, lá me recosto

Onde está a prímula, lá estou eu

Nas costas do morcego para voar, encosto.”

O canto vinha de uma pequena cúpula abobadada, localizada no alto de um edifício ao norte. A cantora era um brilhante respingo de dourado contra o cinza do prédio e das sombras escuras na rua lá embaixo. Ela parecia uma bailarina, equilibrada na ponta de um dos pés enquanto a outra perna esticava-se para trás, executando uma delicada dança árabe. Um tecido dourado brilhava, cobrindo suas pernas e dorso. O cabelo loiro ondulava como se tocado por uma brisa invisível, enquanto a garganta vez ou outra arqueava-se para trás e seu rosto ficava frente a frente com o céu e a lua.

Por um instante, ela era uma visão de postura, graça e felicidade. E então, assim que George a viu, ela o viu também. Apesar de sua boca continuar aberta, ela parou de cantar e o encarou demonstrando surpresa legítima quando a Bica passou voando perto dela.

George viu o rosto da garota iluminar-se. O brilho dos olhos dela encheu George de esperança, embora ele não soubesse por quê.

— Um garoto? — ela indagou numa voz clara como um riacho da montanha. — Olá, garoto.

Mas a Bica continuou voando para longe, e o sorriso da doce menina se transformou numa careta triste. Ela acenou de leve com uma das mãos.

— Adeus, garoto.

— Socorro! — ele gritou desajeitadamente.

A Bica resmungou, desaprovando.

— Não, é verdade! — ele gritou com mais convicção. — SOCORRO!

Eles sobrevoaram o edifício seguinte e ele a perdeu de vista. A Bica olhou para trás e viu algo que não a agradou, pois subitamente urrou mais alto, deixou um dos ombros cair e curvou-se para baixo, agitando-se de forma abrupta como um esquiador ao realizar um desvio perigoso.

Esticou a garra e prendeu-se ao parapeito de um outro edifício, aplanando contra um teto inclinado de telhas verde-acinzentadas. Suas asas estavam abertas como se fossem um guarda-chuva, e George ficou preso entre elas e o ângulo do telhado.

Por um longo minuto ele ficou ali, sem se mover. Os únicos sons eram a Bica ofegando e o coração de George batendo forte. Ele olhou para baixo e viu que seus pés estavam apoiados sobre uma calha escorregadia. Cair dali era morte certa.

Um arrepio de medo começava a percorrer seu corpo no momento em que a Bica fez algo aterrorizante.

Ela soltou George.

Ele tentou segurar-se com as mãos e então percebeu que a única maneira de não cair seria apoiando-se no ângulo do teto, esperando que a calha não cedesse.

Ele parou de se segurar e fez pressão para frente. A Bica manteve os olhos nele e balançou a cabeça positivamente, devagar. Apontou uma das garras, num sinal de aviso e depois subiu, rastejando devagar até a ponta do teto acima. Os ouvidos dela estavam presos à parede. George percebia os ossos da espinha dorsal da Bica tremerem, como pelos das costas de um cachorro amedrontado. Ele tentou imaginar o que poderia estar assustando a gárgula, o que o deixou com uma ponta de esperança: talvez houvesse alguém ali olhando por ele. Talvez o Artilheiro tivesse conseguido fugir e viera resgatá-lo.

Sua esperança diminuiu ao lembrar que as únicas estátuas capazes de voar eram estigmas, não cuspidos. Viu a Bica indo de encontro ao topo do edifício, escorregando devagar na metade do caminho. Parou naquela posição, apenas uma das pernas e a ponta de uma das asas ainda visíveis para George. A criatura estava pronta para se esconder novamente se a busca do céu acabasse revelando algo alarmante.

George concentrou-se em manter-se preso ao teto horrivelmente inclinado. Achou que tudo ficaria bem se ele não fizesse nenhum movimento súbito. Tinha certeza de que conseguiria ficar parado, especialmente porque, se não o fizesse, iria cair rapidamente lá embaixo e nunca mais poderia mexer-se novamente. Segurou-se firme.

Sentiu as mãos deslocando-se pela ardósia. Viu as manchas esverdeadas na superfície cinza em frente ao seu nariz. Sentiu a pedra sob as pontas dos dedos. Talvez por estar se concentrando tanto em manter-se preso àquela rocha salvadora, por um momento teve a certeza de que podia sentir a estrutura de cada um de seus grãos, estes dispostos em camadas, finas telhas. Ele até mesmo sentiu um formigamento estranho ao estar em contato com a pedra, como se as manchas verdes contidas nela fossem, na verdade, feitas de ferro e estivessem sendo atraídas até ele por alguma força magnética.

Ele ficou tão tomado pela intensidade do que estava sentindo debaixo da mão, que se esqueceu de ficar com medo.

Então, algo bateu em seu tornozelo.

Ele chacoalhou o pé em reflexo e quase caiu. Segurou ainda mais firme, tentando tornar-se parte do telhado, esperando que cada pedacinho dele pressionado contra a superfície pudesse prendê-lo ali. Até mesmo seu rosto era esmagado contra a ardósia fria.

— Por um acaso você está tentando se segurar com o nariz? — disse uma voz fininha atrás dele.

Ele virou o rosto e viu a garota dourada olhando para ele. Ela estava com os dois cotovelos apoiados na calha, segurando o queixo com as duas mãos, indiferente, como se estivesse apoiada em uma barra — como se abaixo dos pés dela não houvesse só espaço vazio.

Os olhos dele automaticamente viraram-se para cima, a fim de saber se a Bica tinha ouvido a garota. Tudo o que pôde ver foi uma garra no topo e um pedaço de asa. A Bica ainda espreitava.

A garota ergueu-se da calha e segurou-se com as mãos, os braços estavam totalmente esticados, ainda olhando para ele.

— Venha — ela disse simplesmente, e estendeu uma das mãos.

— Quem é você? — sussurrou George, tentando adiar o momento em que teria que acabar se distanciando do conforto dos azulejos molhados para descobrir se a habilidade dela para se manter no ar incluía ser capaz de carregá-lo também.

— Sou a sacerdotisa do seu destino — ela disse com um sorriso de partir o coração. Ele retribuiu o gesto. Parecia ser a coisa educada a ser feita, mesmo não tendo ideia do que ela estava falando.

Ela tirou o calcanhar de George da calha.

Ele nem mesmo teve tempo de gritar ou de se segurar em algo. Apenas sentiu que caía...

... E aí ela o pegou.

— O que foi isso?

— Shhh — ela sussurrou com a boca próxima à orelha dele. Apontou um dedo para as costas da Bica que se escondia no alto do prédio. Ele se calou e concordou com a cabeça.

— Segure-se, garoto — ela disse. As mãos dele prenderam-se ao braço da menina, que não era duro e metálico, mas quente e macio como a respiração dela.

— O que faremos agora? — ele perguntou baixinho, sem tirar os olhos das costas da Bica.

Deu para perceber que ela sorria ao responder:

— Vamos voar!

Ela se soltou do edifício e iniciou um mergulho em direção ao chão. Tinha a graça de um mergulhador olímpico, rodopiando com os pés enquanto a cabeça descrevia um arco perfeito de 180 graus. George foi com ela, e sua posição passou de ereta para ponta-cabeça.

Ele ia gritar, mas a mão dela que estava livre tapou sua boca e abafou o grito, então tudo que ele conseguiu ver passar correndo por seus olhos saltados foram pedras de granito.