Mão de Ferro
A casa dos perdidos
34
EDIE FICOU IMÓVEL POR UM longo tempo. Após uma crise distante de soluços, a casa ficou quieta, mas não totalmente em silêncio. Do lado de fora da janela, a cidade amortecida pela neve continuava a ecoar o som de um realejo distante. Fora isso, os únicos ruídos que ela podia ouvir vinham de dentro da casa, e eram ruídos da própria casa: uma porta, cujas dobradiças precisavam de lubrificação, abria e fechava em algum lugar; um ruído deslizante e curto e então um baque súbito, ou talvez uma tranca pesada fechando; as tábuas do assoalho rangendo com algo se movendo sobre elas.
E então veio o silêncio. Um silêncio que Edie contribuiu não se mexendo.
Ela não se movia porque sabia que as tábuas empoeiradas abaixo dela rangeriam, e teve a nítida sensação de que o silêncio que estava ouvindo era exatamente do tipo que também ouvia de volta.
Parecia ser um silêncio que estava esperando pacientemente que ela fizesse o primeiro som.
Outra razão pela qual ela permaneceu imóvel foi o fato de estar no centro da sala, bem longe das paredes. Uma pessoa normal não teria notado, mas Edie era uma fagulha e as paredes brilhavam em sua presença, emitindo uma espécie de zumbido em baixa frequência, uma atração magnética horrenda, que a seduzia para tocá-las e assim liberar o trauma armazenado nos tijolos e no reboco. As paredes daquela casa emitiam a mesma intensidade de tristeza que Edie sentia quando passava por cemitérios, igrejas e hospitais antigos. Uma tristeza que implorava que ela a absorvesse das pedras.
Edie normalizou a respiração e calmamente começou a procurar, com o olhar, por alguma coisa que pusesse ajudá-la, tentando não pensar na angústia armazenada ao seu redor. A atração insistente fez com que ela mergulhasse as mãos nos bolsos, evitando que tocassem em algo sem a permissão de sua mente consciente.
Não havia muita coisa na sala: uma janela com grades, dois espelhos e uma grossa camada de poeira cobrindo tudo. E nada mais.
Após examinar o conteúdo da sala e manter suas orelhas em alerta para detectar o menor ruído, Edie voltou sua atenção para o chão.
Ela percebeu que a angústia reprimida que vinha das paredes também se propagava por baixo. Ela agradeceu por estar usando sapatos. Nunca tinha estado em um lugar que armazenava tanta maldade e tristeza a ponto de impregnar o ar. Ela sabia que o ar estava ruim da mesma forma que uma pessoa normal sabia que uma comida estaria saborosa só em sentir o cheiro. O ar estalava invisível ao seu redor, como se fosse eletricidade estática.
Ela nunca estivera ali, mas o ambiente lhe era estranhamente familiar.
Aquela não parecia ser uma casa calorosa, não como aquela cheia de alegria de sua infância, nem uma versão idealizada de um “lar” — um local seguro, onde tudo é sempre compreendido, sempre perdoado.
Uma pequena lágrima fez barulho ao cair no chão, e a visão de sua queda na poeira fez com que Edie saísse da paralisia em que estava e se lembrasse de respirar, de inalar uma profunda e desesperadamente necessária quantidade de ar. Ela passou as costas da mão sobre os olhos com raiva, garantindo que aquela lágrima traiçoeira não teria companhia.
Ela voltou sua atenção para o chão novamente: estava grosso de poeira, mas havia pegadas distintas que eram dela e dos pés descalços de Pequena Tragédia. Havia também marcas de patas. Pareciam patas de cachorro, mas maiores do que qualquer uma que Edie já tinha visto. Havia também um rastro serpeante vindo da porta. As pegadas do animal só iam até um certo ponto. Era como se alguém tivesse começado a varrer e depois desistido da ideia por causa da quantidade colossal de poeira.
Edie estava lá, tentando entender o que significava tudo aquilo, quando sentiu uma coceira no nariz.
A coceira era resultado da poeira que ela mesma tinha levantado ao chegar e discutir com Pequena Tragédia. Não era uma coisa ruim, mas no nariz iria causar um espirro. E um espirro também não é uma coisa ruim. Certa vez, Edie passara uma tarde de verão olhando para o Sol, porque isso a fazia espirrar, e os espirros, naquele dia, faziam com que ela se sentisse bem.
Mas ali era diferente. Naquele lugar espirros não fariam bem, porque ela sabia que estaria espirrando em direção a um silêncio que aguardava ansioso para ser quebrado.
Naquela noite, Edie sabia que um espirro poderia ser fatal.
Antes que pudesse pensar em como conter o espirro, ele começou a escapar. Ela agarrou e apertou o nariz, e depois enrolou a jaqueta de George no rosto para abafar o som — mas o barulho do ar abrindo caminho acabou redirecionado para a boca, causando uma explosão aguda.
Ela não se moveu. Continuou curvada sobre as mãos, com as orelhas atentas a uma possível reação causada pelo barulho que tinha feito. Por um momento, pensou que tinha se safado — mas então ouviu as tábuas do assoalho rangerem. O som mudou de tom e de ritmo e tornou-se o barulho inconfundível de passos subindo escadas. Ela também conseguiu ouvir o som murmurante de algo se arrastando ao lado desses passos.
Escutou um ruído especialmente acentuado em uma das tábuas do assoalho, parecia ter sido causado pelos passos da coisa ou pessoa que se aproximava da porta. Edie teve tempo de ver um feixe dourado de luz pela fresta da porta, como se a figura que se aproximava estivesse segurando uma lanterna.
E depois os sons dos passos cessaram de repente.
Edie fez uma careta e muito calmamente deslizou os braços para dentro do casaco de George novamente. O que quer que fosse acontecer, não faria mal ter algo que lhe desse proteção e calor.
Em seguida, ouviu o barulho de algo farejando.
O feixe dourado de luz deu lugar a duas sombras escuras, e com elas vieram respirações famintas, como que tentando inalar o interior da sala com longas sucções de ar nasal.
Edie olhou para baixo e viu sua pedra de aviso emitir um raio de luz de dentro do bolso do casaco. Fechou as mãos em volta dela, extraindo um pouco de força e calor de suas extremidades circulares.
A porta se abriu.
Era uma mulher alta, usando um vestido cinza antiquado que a cobria do pescoço ao chão e se arrastava em volta dela.
Ela também vestia um cinto largo e apertado em torno da cintura, e suas mãos estavam cobertas por luvas grossas, feitas de camurça legítima, que chegavam até os cotovelos como luvas de soldador.
Edie não conseguia ver seu rosto, porque a mulher segurava uma vela enorme bem na frente dela. Tudo o que conseguia enxergar era uma testa alta e cabelos escuros puxados, formando um enorme coque atrás da cabeça.
— Qual é o seu nome? — a mulher perguntou com um tom de voz assustadoramente baixo.
— Qual é o seu? — replicou Edie, com um tom desafiador.
Houve uma pausa quando Edie viu a mulher balançar a cabeça como se estivesse assimilando o que acabara de ouvir. Quando voltou a falar novamente foi quase um sussurro, tão leve e escuro como a pena de um Corvo, mas não tão silencioso a ponto de impedir que Edie percebesse o tom de surpresa em sua voz.
— Você é uma menina?
Edie olhou para si mesma.
— Er... Sim... E você? Não enxerga?
A mulher foi baixando a vela e respondeu:
— Sim. Eu enxergo muito bem, menina. Apenas escolhi não ver.
Foi a palavra “escolher” que tornou o que Edie viu assustador.
O rosto da mulher era magro e quase eterno em sua complexidade, mas o mais impressionante eram os olhos.
Estavam costurados.
Quatro pontos perfeitos fechavam cada um dos pares de pálpebras com uma linha grossa e preta de sapateiro. A única coisa que tornou a visão pior para Edie foi a sensação de que a própria mulher tinha feito aquilo.
Edie perguntou:
— Por que você fez isso? Por que você deixou alguém fazer isso?
A mulher suspirou como se a resposta fosse tão óbvia que seria um desperdício precioso de energia respondê-la.
— Oito pontos curtos? Isso não é nada, menina; não se você deseja parar de enxergar...
— Mas por quê? — indignada, Edie não conseguia parar de se perguntar.
— Você sabe o motivo. Você sabe o que acontece quando fazemos o que nós fazemos. Você sabe que força de vontade não é o suficiente para manter nossos olhos fechados. Você sabe que por mais que tentemos impedir, os olhos sempre abrem para ver o que está armazenado nas pedras. E você sabe que os fragmentos de passado armazenados nas pedras são raramente felizes, quase sempre terríveis.
A verdade de tudo o que a mulher estava dizendo surpreendeu Edie como um soco na boca do estômago.
— Você disse “nós”... Ou seja, você é uma fagulha?
— Eu era. E é o meu destino viver nesta casa. Você pode sentir o poder que ela emana?
Edie sinalizou com a cabeça, sua boca seca demais para responder. Foi então que percebeu que a mulher não podia vê-la, e antes que pudesse dizer alguma coisa, a mulher falou novamente:
— É claro que você pode. Você teria feito a mesma coisa, menina: fechado os olhos, vestido luvas grossas e botas resistentes para evitar qualquer contato com a textura de um edifício cujo toque provoca uma agonia cem vezes pior do que o mais horrível dos pesadelos...
E então seu pé saiu debaixo da saia e golpeou o chão com força, fazendo a poeira voar. No entanto, sua voz permaneceu inalterada:
— Agora. Chega de conversa. Você deve vir comigo.
Edie sentiu que provavelmente seria levada para algum lugar tão perigoso quanto aquele. Ela queria continuar próxima aos espelhos e à porta que poderiam levá-la de volta para o seu mundo e tempo.
A mulher disse:
— Esqueça. Não há outra saída. Você tem que me obedecer, menina. Você não pode se recusar.
— Claro que posso.
Ouviu-se um leve rosnado. Por um momento, Edie pensou que vinha da Mulher Cega. Só depois percebeu que vinha de trás dela. Era um rosnado baixo que podia ser sentido pelas solas dos pés.
— Não, não pode. Não estou acostumada a ser desobedecida... — disse a Mulher Cega com um tom de voz tão profundo e delicado como besouros se movendo por uma cortina de seda preta.
Edie sabia que se cedesse ao medo, seus nervos ficariam em frangalhos, e isso seria seu fim. Então, levantou o queixo e cravou os calcanhares no chão.
— Bem, você terá que se acostumar com isso. Eu...
Edie nem sequer chegou a dizer o “não”. O rosnado recomeçou novamente, fazendo-a parar. A saia da Mulher Cega se abriu, revelando dois cães listrados da raça mastim, do tamanho de pequenos pôneis — cabeças apontadas para o chão, orelhas achatadas, dentes arreganhados, coleiras pontiagudas duplas, brilhando forte sob a luz da lua — prontos para atacar.
— Você pode vir agora, ou implorar para vir mais tarde.
A voz da Mulher Cega denotava indiferença enquanto os cães avançavam lentamente — suas cabeças grandes a um palmo acima do assoalho empoeirado — com os olhos fixos em Edie. Suas salivas deixavam um rastro na poeira.
Edie permaneceu imóvel até sentir o hálito quente dos cães em suas mãos. Então juntou-as e lançou-as para cima, em uma tentativa inconsciente, mas inútil, de mantê-las fora de perigo.
Ela disse:
— Espere...
Os cães saltaram em sua direção, dentes rangendo, latidos altos e furiosos. Um pouco de saliva espirrou nos olhos dela enquanto suas mãos protegiam o rosto das presas afiadas que passavam a milímetros de distância.
E então, de forma instintiva, seu mecanismo de sobrevivência foi acionado. Ela foi lançada para trás pelos sons do ladrar furioso e dos dentes dos cães que a encurralavam. Sua mão tocou na parede e ela sentiu um choque.
Edie ficou petrificada. A poeira espalhou-se ao seu redor como uma pequena onda.
E um flash de passado a invadiu.
A sala no verão. A luz do sol entrava pela janela, trazendo feixes de luz diagonais que atravessavam a poeira suspensa no ar.
Uma mulher de cabelos curtos, usando um vestido azul-claro com uma margarida estampada, estava agachada no centro da sala. Ela olhava à sua volta, confusa. Seus pés pareciam indefesos dentro de um par de sandálias brancas.
O tempo pulou de repente, e a mulher apareceu gritando “Não!” junto à porta — a intensidade era tanta, que os tendões do pescoço estavam proeminentes como cordéis de chicote.
Outro pulo, e Edie viu as mãos dela protegendo algo que estava pendurado em uma corrente em volta do pescoço. Ela segurava o objeto com tamanha força, que quase escondia a luz que emanava de suas extremidades circulares.
Era um pedaço de vidro castanho do mar — uma pedra do coração.
Edie observou a mulher de cabelo curto ficar imóvel. Percebeu quando ela apertou a mandíbula — e sentiu como se tivesse feito o mesmo.
Então viu duas grandes formas listradas surgirem latindo furiosamente, e depois ouviu um grito.
Em seguida, o tempo pulou, e agora no chão, onde a mulher tinha estado, não havia mais nada, exceto o disco de vidro do mar e a sandália branca, de cabeça para baixo na poeira.
Edie puxou a mão para longe da parede e todo o brilho sumiu de repente.
Ela viu a Mulher Cega mexendo a boca como se estivesse sufocando em uma onda crescente de náuseas. Os cães haviam retrocedido meio passo para trás.
A mulher sussurrou:
— O que você viu não foi nada, menina. Vai ser pior ainda quando acontecer com você.
Os cães rosnaram.
Edie pensou em George. E também no Artilheiro. Lembrou-se de seus sorrisos. Sabia que se cedesse estaria traindo ambos, bem como a si mesma.
Ela sentiu a respiração dos cães em suas mãos. Quente e úmida.
E então decidiu não se entregar. Iria viver para lutar outro dia.
Ela disse:
— Tudo bem. Tudo bem.
Colocou uma das mãos no bolso e envolveu sua pedra do coração antes de tentar passar pelos cães e se aproximar da Mulher Cega. Os cães acompanharam seus movimentos, rosnando um pouco mais baixo agora.
— Se você tentar correr, se você não me obedecer, eles vão atacar — a Mulher Cega murmurou tão suavemente quanto uma brisa. — Agora, venha até aqui.
Edie obedeceu, vigiada de perto pelos cães. Parou e olhou fixamente para as pálpebras costuradas da mulher.
E então gritou:
— Feliz agora?
A Mulher Cega não se moveu. Era como se os seus olhos cegos estivessem vendo Edie de alguma forma. Ela lentamente tirou uma das luvas, e sua mão suave fez o contorno do rosto de Edie, encontrando e traçando o caminho molhado de suas lágrimas.
— Espirituosa — disse, e depois colocou a luva novamente. — Já fui espirituosa um dia.
— O que você quer de mim — perguntou Edie, sentindo um gosto amargo na garganta.
— Não quero nada que seja seu. Quero a minha pedra de aviso — disse a Mulher Cega de forma simples. — Ele a roubou.
Edie perguntou:
— O Caminhante?
A Mulher Cega suspirou:
— Quem mais rouba pedras do coração? Venha comigo.
— Não. Espere! — disse Edie, tentando desesperadamente entender o que tinha acabado de ouvir. — Por que ele quer nossas pedras do coração?
— Ele quer o poder que elas possuem, o poder que as faz reluzir, o poder que nos dá força suficiente para lidar com os flashes do passado — ela deixou escapar um riso amargo. — Mesmo sendo uma pequena energia, é tudo para nós. E a única maneira de se usar as pedras para atingir um objetivo maior é reunir todos os seus pequenos poderes.
A Mulher Cega começou a caminhar em direção à porta.
— Por que ele precisa desse poder? — perguntou Edie, com a boca seca, medindo a distância até a porta.
A Mulher Cega virou-se e olhou para ela, parando na porta por um instante. E com seus olhos costurados, ficava difícil ver se o sorriso que ela estampava era de pena ou mera tristeza ao dizer:
— Pergunte a ele. Ele está chegando...