Mão de Ferro
A pedra do coração
51
— ELA ESTÁ MORTA — disse o Artilheiro enquanto a Rainha puxava as rédeas para parar os cavalos bem na frente do Memorial da Artilharia Real. A Rainha caiu de joelhos junto ao local onde ele batia no peito da menina com a palma da mão, na esperança de reanimá-la.
— Por que você ainda está fazendo isso? — ela perguntou enquanto se arrastava até a cabeça de Edie.
Ele respondeu:
— Porque não sei mais o que fazer.
A Rainha olhou para ele e viu as lágrimas em seus olhos e rosto.
Ela debruçou-se sobre a boca aberta de Edie, inclinou a cabeça para trás e tapou o nariz. E então tomou fôlego e soprou para os pulmões cheios de água da menina, repetindo o procedimento em seguida.
Depois tentou ouvir. Mas como não havia respiração alguma, fez tudo novamente. E durante certo tempo os dois tentaram reanimar o pequeno corpo, recusando-se a aceitar que Edie estivesse morta.
Finalmente, o Artilheiro olhou para a Rainha. Seus olhos pareciam desertos feitos do mais seco desespero.
— Por que a senhora está fazendo isso?
A Rainha limpou os olhos e o Artilheiro sentiu o queixo da menina morta vir teimosamente para frente debaixo de suas mãos.
— Porque eu também não sei mais o que fazer. Exceto continuar lutando.
— Tudo bem.
Ele bateu novamente no peito de Edie e disse:
— Foi exatamente isso que ela fez. Continuou lutando.
Frustrado e triste, ele deu um soco bem no meio do peito da menina, e Edie lançou uma golfada grande da água, contorcendo-se toda, tossindo muito.
Os olhos dela se abriram, e depois se fecharam novamente, pois acabou desmaiando. O Artilheiro ouviu seu coração, que batia bem fraquinho. E olhou para ela sem esperança. Depois olhou para a Rainha. Ele nunca a tinha visto sorrir antes, mas agora seu rosto estava radiante.
A Rainha disse:
— Na verdade, ela continua lutando.
Eles sorriram de alegria.
— Se a senhora não fosse uma Rainha de verdade, ah, eu lhe tascaria um beijo!
— E se eu não fosse uma Rainha de verdade, eu permitiria.
Então seu rosto reassumiu o comportamento sério esperado de uma monarca de tão alto escalão.
— Mas ela ainda não está fora de perigo. Ainda pode morrer de frio. Precisamos fazer uma fogueira.
— Mas como?
A Rainha estava desabotoando seu manto.
— Pegue um casaco ou algo parecido. Precisamos aquecê-la.
Ele segurou o pulso de Edie.
— O pulso está fraco.
— Mexa-se então! — ela ordenou e começou a tirar as roupas molhadas do corpo de Edie.
O Artilheiro correu para o monumento, onde viu o sobretudo e o capacete do Oficial ao lado do pacote molhado contendo as pedras do coração que ele havia trazido do tanque subterrâneo. Ao pegar o sobretudo, notou que o pacote estava liberando vapor.
A Rainha gritou:
— Depressa! Temos que envolvê-la em algo quente. A vida dela está por um fio.
— Segure as pontas! — ele retrucou, jogando o casaco no ombro. Depois abriu o pacote, e olhou para as luzes que reluziam das pedras. Rapidamente olhou em volta para ver se o Caminhante ou algum estigma se aproximava. Ao voltar os olhos para o pacote, percebeu algo sobre as luzes. Quando ele as reunira, elas tinham as mais diversas cores, mas agora brilhavam com a mesma tonalidade quente, como o laranja no centro de uma fogueira bem grande.
A Rainha gritou:
— Artilheiro! Nós a estamos perdendo!
Ela olhou surpresa quando o Artilheiro jogou as pedras do coração ao seu lado.
— Pedras do coração. O bandido do Caminhante as mantinha como troféus de todas as fagulhas que ele abateu.
Assim como o Artilheiro, a Rainha olhou em volta, vendo se havia algum perigo.
— Não! — ele exclamou e começou a colocar as pedras em volta de Edie. — Elas não estão brilhando para nós. Mas acho que conseguem sentir Edie. Acho que é a centelha de todas as meninas mortas queimando uma última vez. Acho que estão rindo do Caminhante uma última vez.
Inicialmente a Rainha o observou colocar cuidadosamente uma pedra sobre o coração de Edie, e então cravou suas mãos na pilha de pedras que reluziam e o ajudou a cercá-la com o calor. Em seguida, envolveu o corpo da menina com o seu manto e o sobretudo do Oficial.
Ao final, não foram apenas o Artilheiro e a Rainha que não a deixaram morrer. Foi como o Artilheiro tinha imaginado: o calor que aquecia Edie vinha das meninas perdidas e solitárias, de todas as mulheres incomuns que um dia pensaram ser um pouco loucas porque não entendiam que seu brilho pudesse ser um dom, e não uma maldição; foram todas elas que cercaram aquela última garota perdida e solitária, que lhe deram as últimas fagulhas que suas vidas tinham armazenado em suas pedras, para que ela pudesse prosseguir e viver por elas.
E como a Rainha também sabia que essa era a história, ela chorou quando viu a cor voltar ao rosto de Edie e seus olhos se abrirem e piscarem novamente.
Sua mão pequena se contraiu na palma grande da mão de bronze do Artilheiro. Ele suavemente fechou sua mão sobre a dela. E então, os olhos da menina se voltaram para ele, e quando ela o reconheceu, agarrou-se a ele com força. Novamente ele via o raro e pequeno milagre do sorriso iluminar o rosto de Edie, como se fosse o próprio sol.
Ele disse com a voz rouca:
— Está tudo bem. Você está comigo agora. Você provou ser uma guerreira. O Caminhante não conseguiu matar você. E o rio também não conseguiu. Você está segura.
Edie assentiu com a cabeça, tossiu forte e perguntou:
— Onde está George?