Mão de Ferro
O acordo do frade
20
— ONDE ESTÁ O GAROTO? — perguntou o Frade Preto, olhando para Edie com raiva.
— Desapareceu.
— Desapareceu? Desapareceu como? Desapareceu para onde?
Algo na forma acusadora com que ele perguntou fez Edie ter a forte impressão de que o que quer que tivesse acontecido seria considerado sua culpa.
— Simplesmente sumiu. Não sei como, não sei onde.
O queixo dele projetou-se para frente quando ela se recusou a parar de encará-lo.
— Você não sabe por que, você não sabe onde. E agora... Você está aqui.
— Sim.
Ele respirou fundo, do grande nariz saiu um assobio longo e barulhento como o da tampa de uma panela de pressão.
— Bem. Isso é bom, sem dúvida. Até mesmo primordial. E eu suponho que você...
— Achei que você fosse saber o porquê.
O Frade não parecia ser alguém acostumado a ter pessoas interrompendo sua fala de forma tão direta. Pigarreou e disse:
— Você achou que eu pudesse saber por que você está aqui?
— Não, esperava que você soubesse por que George desapareceu.
A tampa da panela de pressão voou pelos ares com a explosão de raiva do Frade:
— Por que ele desapareceu? Você acha que eu sei porque o garoto desapareceu? Macacos me mordam, garota! Asseguro-lhe que não tem nada a ver comigo! Ora, o simples pensamento de...
— Achei que você pudesse saber se tem algo a ver com o Caminho Tortuoso.
A explosão cessou. O Frade correu a mão pela careca, desceu pelo rosto e coçou o queixo. Era como se estivesse limpando o olhar de choque e indignação, substituindo-o por um de genuína perplexidade.
— O Caminho Tortuoso?
— Você disse que se ele não colocasse a cabeça do dragão na Pedra, apenas o Caminho Tortuoso estaria garantido a ele. Eu queria saber se o desaparecimento súbito poderia ser parte disso.
O Frade deu um passo para trás. Parecia menos ameaçador, e coçou a cabeça.
— Você está dizendo que ele não colocou a cabeça na pedra?
— Sim.
— Não houve tempo o suficiente? Você me surpreende. De fato, me surpreende. Eu vi a marca que ele carrega, pude notar o poder dentro dela. Eu estava convencido de que ele seria bem-sucedido.
O monge parecia genuinamente confuso. Continuou:
— Bem, pelas barbas do profeta... Teria apostado que ele encontraria a Pedra do Coração, apostaria mesmo. Esperava mais do garoto.
Edie teve um flashback repentino de George, o rosto firme e determinado ao segurar a pistola de forma estável, mirando diretamente no olho do Minotauro. Ela se lembrou como ele nem pestanejou, nem mesmo com a detonação barulhenta do gatilho puxado.
— Ele teve tempo. Ele encontrou a Pedra do Coração. Era a Pedra de Londres. Ele decifrou e seguiu o mapa de palavras que você deu a ele. Fez outras coisas também. George foi impressionante e não vacilou em momento algum. Apenas decidiu não deixar a cabeça do dragão lá. Ele escolheu o Caminho Tortuoso. E quero saber se é por isso que ele desapareceu.
— Ele escolheu o Caminho Tortuoso? Você está me dizendo que ele realmente ESCOLHEU o Caminho Tortuoso? Mas que deus nos acuda é esse? Por que ele faria isso? A menos que...
O Frade olhou para Pequena Tragédia. Depois para Edie. Em seguida deu três passos para trás até o bar. Esticou a mão e pegou uma garrafa de Coca. Abriu a tampa de metal com todo cuidado por entre os dentes, e ofereceu a Edie.
— Beba um pouco, se é que essa água gasosa do diabo pode ser chamada de bebida, depois me conte tudo — não deixe nada de fora. E então veremos o que pode ser feito.
Edie pegou a garrafa e se sentou em um banquinho. Subitamente sentiu-se muito consciente de que a cabeça de dragão quebrada, que estava no bolso do casaco de George, se encontrava a somente poucos centímetros do cotovelo do Frade. Mudou seu foco de pensamento e começou a falar.
Edie contou tudo o que tinha acontecido desde que eles deixaram aquela mesma sala na noite anterior, terminando o relato com o Artilheiro sendo sugado para dentro dos espelhos pelo Caminhante.
— E é por isso que quero saber sobre os espelhos e o Caminho Tortuoso. Tenho que encontrar George e ajudar o Artilheiro.
— E por quê?
— Porque é a coisa certa a ser feita — ela respondeu sem pensar. E quando ouviu a si mesma dizer aquilo percebeu que era exatamente porque, para ela, não havia jeito de se convencer de outra coisa a fazer. Ela estava decidida.
E então, somente então, é que ela bebeu da intocada garrafa de Coca. O gás subiu dentro dela, que arrotou e olhou de forma desafiadora para o gigantesco cuspido. Ele indagou em resposta:
— Você me contou tudo o que aconteceu?
— Sim — ela disse, cruzando os dedos. — Contei tudo.
O que não deixava de ser verdade. O único fato ocultado era que quando o trio saíra dali da última vez, eles fingiram ir buscar a cabeça do dragão, sem contar ao Frade que ela já estava com eles no momento, no bolso de George. Esse pensamento levou os olhos dela para o mesmo casaco e o mesmo bolso pesado sobre o balcão do bar, ao lado do cotovelo do Frade. Ela desviou o olhar e esperou que ele não tivesse notado uma saliência na vestimenta quando ela a empurrou para pegar a Coca.
— Não perguntei se isso foi tudo o que você viu. Perguntei se foi tudo o que aconteceu.
Por ter sido feito de bronze, o olho dele era desconcertantemente duro.
— Foi isso que aconteceu.
— Ainda não é o que eu perguntei, mas está bem perto para uma fagulha, talvez.
Ela ouviu Pequena Tragédia tentar abafar um pequeno riso de escárnio. A tentativa foi frustrada, e o som deixou Edie mais irritada do que ela esperava. Levantou a cabeça e lançou um olhar brilhante e desafiador.
— Não tenho nada a esconder.
O Frade a observou por um momento e depois seus ombros começaram a se contrair, logo a contração se transformou numa agitação e a agitação virou uma gargalhada, e logo a sala toda estava reverberando com o profundo ruído da gigantesca figura no bar. Ele pegou o pano atoalhado do bar e limpou as lágrimas que corriam de seus olhos enquanto ria e gargalhava, com visível dificuldade de se controlar.
Ver uma estátua de bronze de uma tonelada rindo dela daquele jeito fez Edie sentir-se profundamente irritada.
— Pode parar! — ela disse, tentando controlar a situação. — Qual é a graça?
— Desculpe — disse o Frade ofegante, tentando se recompor. — Perdoe minha grosseria intolerável, vergonha eterna, grande falta de hospi... Hospitalidade. Mas, em relação a você... Uma fagulha. Uma FAGULHA não tendo nada a esconder? Como? Que piada! Uma fagulha não passa de um depósito de segredos, cheio até o topo de coisas escondidas. Esconder e escondido são dois lados da mesma moeda, como você sabe no fundo do seu ser, quer você admita ou não. Uma fagulha absorve os fatos escondidos do mundo e precisa continuar escondendo-os para sobreviver no mundo. Ora, se isso não estivesse tão próximo de uma simetria, poderia ser um paradoxo!
E ele cresceu em um novo espasmo de riso, erguendo os ombros e chacoalhando o queixo.
Edie não fazia ideia do que aquela avalanche de palavras significava. Era como se ele estivesse usando sua voz estrondosa para ameaçá-la. Ela sabia o que era paradoxo, e era um paradoxo que aquela figura risonha que parecia hospitaleira e bem-humorada outrora fosse, de fato, especialmente assustadora. Era como se ele tivesse encontrado um caminho para usar a alegria como arma. O Frade estava a um milhão e meio de quilômetros de distância de outro sorridente, aquele com a faca que perseguiu Edie em uma praia naquele passado que agora soava como uma vida diferente. Apesar da distância de tempo e espaço, havia algo naquele sorriso gordo que parecia sugerir ou uma faca escondida ou alguma outra coisa que podia ser tão fatal como uma lâmina.
Todo aquele riso e bom humor tinham o efeito de dificultar o pensamento de Edie, e pensar era sua principal arma para lidar com as coisas.
— Ei — ela disse.
Ele continuou rindo.
Sem raciocinar por que estava fazendo aquilo, ela pegou a tampa da garrafa que estava na mesa à sua frente, segurou-a entre o polegar e o indicador e a jogou no Frade. O metal atingiu o metal quando a tampa bateu bem na testa dele, fazendo um distinto “tilintar” que interrompeu o riso como se fosse um machado. A tampa da garrafa bateu e caiu da cabeça inclinada, atingindo o chão. A mão esquerda do Frade estalou, abriu e fechou numa reação surpreendentemente rápida para um homem tão grandalhão e gordo. Ele pegou a tampa e a esmagou com um movimento só. Depois, a mão se abriu delicadamente e ele depositou o disco destruído na mesa à frente dela.
— Oh, oh! — disse Pequena Tragédia.
— Silêncio! — esbravejou o Frade. E depois ele encheu o peito de ar, levantou a barra do manto, e sentou-se no banquinho perto de Edie. A tampa esmagada da garrafa ainda estava rodopiando na pequena mesa circular entre eles. Edie decidiu sentir-se intimidada mais tarde. Naquele momento ela precisava de respostas.
— Os espelhos — ela exigiu.— Já contei a você tudo o que aconteceu. Agora conte-me sobre os espelhos, e depois sobre o Caminho Tortuoso.
O Frade coçou o queixo com uma das mãos e com a outra batia de leve na mesa. Depois, parou de batucar os dedos e olhou de lado para os espelhos.
— Farei um acordo com você — ele disse de forma direta.
— Um acordo?
— Um acordo. Uma coisa para você, uma coisa para mim.
— Que tipo de coisa? — ela perguntou, tentando não olhar para o casaco sobre o balcão com seu bolso suspeito.
— Quero a sua palavra. Prometa a mim que se o garoto viver e você o encontrá-lo, o trará para mim.
— Você quer o George?
— Quero falar com ele. Quero que ele fale comigo.
— Só isso?
— Só isso.
Ela não precisou pensar.
— Fechado.
O Frade olhou para ela de forma tão intencional, que Edie sentiu-se desconfortável. Ele então bateu na própria mão e a estendeu para ela, que sentiu-se incerta sobre o que fazer. Pequena Tragédia pigarreou das sombras atrás dela.
— Cuspa na mão e a estenda para ele.
A boca de Edie estava seca demais para produzir qualquer cuspe extra. Ela se esforçou, tentando conseguir um pouco de umidade.
— É mais uma aparência do que um cuspe em si, minha cara — disse o monge.
Então, ela cuspiu em seco na mão e deixou o punho de bronze se fechar sobre ela. Ficou surpresa em sentir como o metal era macio, quente e suave.
O Frade sentou-se sorrindo.
E por um instante ela se perguntou se tinha inconscientemente traído George de alguma forma.