Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 42 de 57

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Mão de Ferro

As badaladas da meia-noite

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GEORGE APERTOU O CHICOTE na mão e apoiou as costas contra a enorme pedra de calcário que servia de pedestal para o canhão. Havia milhares de perguntas que gostaria de fazer ao Oficial, mas antes que pudesse escolher quais delas faria, ouviu o som familiar e alto de um sino a iniciar as badaladas da meia-noite.

Era o famoso Big Ben, marcando a virada do dia do alto de seus quase cem metros de altura. E embora estivesse acostumado a ouvir o velho sino no rádio, marcando as horas antes das transmissões de notícias, agora George pode ouvi-lo diretamente pelo ar da noite, como se fosse pela primeira vez.

Ele ouviu o carrilhão avisar uma, duas, três, quatro vezes e, depois de uma pausa significativa, ouviu as badaladas majestosas e solitárias do grande sino a contar as horas. E conforme as ouvia, pensava no que seu pai costumava dizer ao voltarem para casa depois de uma aventura ou de qualquer tipo de diversão. Ele olhava para o cabelo de George, deplorável e desgrenhado, e sem se importar com que hora do dia realmente fosse, dizia:

— Bem, nós fizemos isso, não foi? Ouvimos as badaladas da meia-noite.

E tal memória desapareceu quando ele tomou consciência de algo mais presente e cada vez mais insistente.

A cada badalada, sentia como se algo nele estivesse mudando. E não só ele, mas também os arredores de onde estava. Quando a cidade escura empalideceu sob a luz do inverno rigoroso, sentiu o corpo enrijecer e tornar-se mais denso. Por um momento, pensou estar se transformando em uma estátua. Seus pés ficaram pesados e cada vez mais volumosos. Suas roupas pareciam mais pesadas, e cada vez menos confortáveis, arranhando e coçando. Por um instante, esqueceu-se do próprio corpo e se concentrou no prédio de quatro andares diante dele. A cada badalada do sino, o prédio ia desaparecendo. Em seu lugar, começavam a surgir árvores cobertas de neve, sem folhas nos galhos finos. Acima das árvores, George podia ver um céu meio opaco. Ele sentiu uma brisa gelada massagear seu rosto, e quando instintivamente pôs-se a fechar os botões do casaco curto que vestia, suas mãos encontraram lona dura, botões de metal e tiras de couro.

Ao olhar para baixo, viu o pedestal de bronze escuro desaparecer; em seu lugar, marcas de ferraduras e rodas podiam ser vistas no chão lamacento.

Rapidamente deu-se conta de que as botas que usava não eram as suas, ou melhor, as que tinha pego no edifício em construção. Estava calçando botas iguais às do Artilheiro: a proteção de couro para a perna de um lado e o cordão apertado das polainas sobre a outra perna. A única diferença entre as que usava e as do Artilheiro era que as deste eram de bronze, enquanto as de George eram reais. Não só as botas. Estava usando polainas, calça do exército feita de lã, bolsa e coldre de lona e couro pendurados, tão reais quanto a lona dura que ele usava como capa. George olhou suas mãos e viu que eram de carne humana e que continham sangue. Mas não eram mãos de menino, e sim de um homem crescido; talvez fossem suas mãos no futuro — grandes e fortes, sujas e calejadas como que acostumadas ao trabalho duro.

Em algum lugar de sua mente, a noção de que era um menino de quase treze anos foi desaparecendo lentamente, fazendo com que George percebesse algumas mudanças bem significativas em si mesmo.

Colocou as mãos no rosto, e mesmo sem um espelho, podia jurar que aquele não era o George que conhecia: o queixo estava coberto de pelos duros e estranhos, o nariz era maior, tudo no rosto estava mais amplo, mais achatado e em mau estado; a pele parecia, de alguma forma, mais grossa e mais elástica à medida que ele a massageava contra os ossos da cabeça. Na verdade, todo o seu corpo parecia mais denso e rígido. Era como se o seu centro de gravidade estivesse mais abaixo, como se a força daquela gravidade tivesse dobrado. Ele não se sentia mais leve nos pés, e a causa disso era uma reconfiguração dos músculos e um espessamento dos ossos. Tornara-se mais volumoso e forte, mas também um tanto triste e curioso, como se tivesse perdido algo irrecuperável durante aquela metamorfose repentina, algo do tipo que não se percebe até que se tenha perdido. Ele já não se sentia capaz de correr a todo vapor desde St. Pancras até o Hyde Park. Seu corpo tinha avançado rapidamente uns quinze anos, perdendo toda a leveza durante o percurso. Parecia maciço e mais material. Não que tivesse engordado, apenas ficara mais forte, como uma tímida muda de planta que se tornara um tronco sólido.

O que George sentia era o peso inevitável do envelhecimento.

Uma coceira insistente o tirou de suas observações. Nisso ele olhou para o céu de brigadeiro do inverno, para os galhos das árvores e ficou maravilhado com o esplendor. Até que ouviu uma voz grave dizendo:

— Pensei que fosse meia-noite.

Com assombro, percebeu que a voz tinha saído de sua própria boca. Nessa hora, todos os sons daquele ambiente se fizeram notar.

Ouviu-se um ruído e um disparo a distância, e um chiado de motor mais fraco por detrás. Ele escutou o barulho de chicote e de rodas, de homens em movimento, de metal batendo contra o metal, dentre muitos outros que não conseguia identificar direito.

Alguém perto dele deu uma tossida. George virou-se e deu de cara com o Oficial.

— Pensou que fosse meia-noite, Artilheiro?

George então lembrou-se das últimas horas: os voos, a correria e os duelos. Olhou atentamente ao redor até que sua ficha caiu. Como anunciado pelo Oficial, ele estava bem no meio do inferno.

Um cavalo estava pendurado de cabeça para baixo em uma árvore, tinha sido arremessado contra um tronco afiado que lhe transpassara o corpo. As patas apontavam para o céu, em uma imitação obscena dos ramos que o peso do seu corpo tinha quebrado. O animal estava congelado e imóvel. As outras árvores ao redor pareciam ter sido picadas e rachadas por algum gigante perverso; seus troncos, despedaçados e destruídos, abriam rachaduras na terra em ângulos absurdos. Abaixo, o próprio chão estava rasgado em sulcos grosseiros e buracos feitos por bombas. Acima do solo só havia arames farpados, detritos de guerra e homens correndo.

O Oficial estava de pé na frente de George, ainda carregando seu sobretudo. Ele também se transformara em um homem de carne e osso.

— Não, senhor. Desculpe, senhor. Estava sonhando acordado.

As palavras saíram da boca de George como se ele estivesse ligado no piloto automático. Certamente, em plena consciência, não chamaria aquele homem de “senhor”.

— Bem, então acorde e cubra aqueles cavalos de pau antes que o avião de reconhecimento volte.

George olhou para o horizonte e viu um pequeno biplano que se movia lentamente contra a luz. E percebeu que ele era a fonte do zumbido distante.

— Sim, senhor — ouviu a si mesmo dizer, e viu sua mão em continência junto ao capacete metálico. Mais uma vez, ele não tinha pensado em fazer isso, mas sua parte consciente parecia não ter mais controle sobre aquele corpo. Não se sentia dividido, apenas um pouco deslocado, e aquele deslocamento tornava suas ações meio confusas.

Ele viu, por cima do ombro, sua mão acariciar o focinho de um cavalo. Sua parte chamada “George” não entendeu nada. Nem sequer sabia que havia um animal atrás dele.

Então ouviu a si mesmo dizer:

— Vamos encontrar um esconderijo melhor.

Virou-se e pegou duas rédeas. À sua frente havia dois cavalos marrons. Logo atrás era possível ver um par de canhões sendo preparados por equipes de artilheiros, que trabalhavam rapidamente para movê-los até a beira de uma cadeia de montanhas baixas. Alguns vestiam sobretudos e cachecóis, enquanto outros usavam coletes ásperos de pele de carneiro, contudo, todos tinham capacetes metálicos e olhares destemidos, como se estivessem trabalhando contra o relógio.

George podia sentir seu coração batendo forte por causa da adrenalina.

Percebeu que havia um enorme sentimento de apreensão no ar, como se algo muito ruim estivesse para acontecer. Conseguia ver, nos rostos tensos ao redor dele, que todos sentiam o mesmo. Era como se alguém estivesse tocando uma interminável nota aguda em uma só corda de um violino. Uma nota sutil, quase imperceptível, porém audível e persistente o bastante para ser dolorosa.

Sua boca estava seca e ele sentiu que poderia matar alguém só para conseguir uma xícara de chá, o que era estranho, pois o George normal não gostava de chá.

Dois observadores de artilharia estavam recebendo ordens do Oficial. Um deles carregava um periscópio de trincheira amarrado às costas. Os dois concordaram com algo que o Oficial disse e seguiram para a cadeia de montanhas, mantendo-se abaixados. Levavam um rolo de cabo telefônico, que se desenrolava enquanto corriam.

Quando já tinham percorrido uma boa distância, um deles tropeçou e caiu imóvel. O outro homem continuou correndo com o rolo até desaparecer nas montanhas.

O Oficial disse um palavrão e mirou o binóculo em direção ao soldado caído.

George sentiu os cavalos puxarem contra as rédeas e se viu correndo para longe das armas, levando-os até as ruínas de uma casa ao final de um declive. Abaixou as cabeças dos animais para que passassem sob um arco baixo, e não ficou surpreso ao encontrar mais dois cavalos já mancando e esperando; os focinhos dos animais se confundiam com os embornais, cujos conteúdos eles mordiscavam com satisfação. Exceto pela falta de um teto, as paredes protetoras da ruína davam-lhes boa cobertura. Bem acima deles, George ouviu o motor distante ficando mais alto.

Havia outro soldado agachado junto a uma parede, tentando acender o fogo sob uma chaleira grande e enegrecida. Seu capacete estava no chão, ao seu lado, e ele usava um dos coletes ásperos de pele de carneiro.

Ele disse:

— O carvão já vai acender. Diga-lhes que se acalmem.

George descobriu-se amarrando os cavalos como se tivesse feito isso a vida toda. A outra parte dele, a que não correspondia ao artilheiro experiente, observava os ombros e cabelos do outro soldado, que agachado junto à pequena fogueira, fumava sem usar as mãos. George conseguiu ouvir o sugar de suas tragadas à medida que ele se abaixava diante do fogo fraco, olhando para algo que estava em sua frente.

George focou no que estava vendo, tentando não pensar no motivo pelo qual o homem que carregava uma das pontas do rolo de cabo telefônico não levantou mais depois que tinha tropeçado.

O cabelo do soldado era escuro como o de George, e curto atrás e nos lados. Quando ele passou a mão pelo cabelo, George sentiu um tranco na boca do estômago, tamanha a familiaridade do gesto. Subitamente, desejou congelar aquele momento. Sentiu um inesperado temor pelo que aconteceria a seguir.

O homem tirou o toco de cigarro do canto da boca e o jogou no fogo. Depois ficou em pé, alongou os braços e se virou.

O coração de George parou.

Qualquer coração pararia se visse o impossível acontecer.

Qualquer um se esqueceria de respirar.

Qualquer garganta engasgaria a ponto de deixar escapar uma pequena e única palavra.

Uma palavra tão pequena como:

— Pai?

E os olhos que ele conhecia tão bem, os olhos enrugados que nunca mais tinha visto, encararam os seus. Uma sobrancelha levantou mais alto do que a outra, em uma expressão que George não apenas se lembrava, mas que também havia praticado exaustivamente na frente do espelho nas semanas após o funeral, para que nunca se esquecesse. As portas do seu coração se abriram e ele sentiu o corpo leve novamente. Sem pensar, correu em direção ao soldado.

Mas este lhe deu um riso desconcertante ao ouvi-lo chamar daquele jeito.

— Quem você está chamando de pai, companheiro? Acho que sou mais novo do que você...

E George parou de repente ao perceber que, embora os olhos do soldado estivessem sorrindo, bem-humorados, não havia qualquer reconhecimento neles.

Então o chão pulou sob suas botas quando a primeira bomba explodiu.