Mão de Ferro
O artilheiro no escuro
14
“NÃO IMPORTA QUE ESTEJA MARCADO para ser caçado... Eu sei onde a presa está.”
As palavras do Caminhante pareciam pairar no ar úmido do tanque. Fazia um tempo considerável que ele tinha ido embora. O Artilheiro estava se sentindo mal diante da certeza de que o Caminhante iria caçar Edie e pegá-la. Uma enorme quantidade de pedras do coração pertencentes a outras fagulhas ornamentavam as paredes como troféus, acabando com todas as dúvidas. Cada um daqueles vidros do mar tinha sido posse preciosa de uma mulher ou garota, o tipo de posse que nenhuma delas teria aberto mão sem antes lutar com todas as forças. O Artilheiro perguntava-se quantas pedras do coração teriam sido retiradas de dedos frios, mortos.
Sentiu-se fraco ao pensar nisso.
— Certo — disse a si mesmo. — Pausa para fumar.
Recostou-se na parede e escorregou lentamente até ficar sentado. Pegou a capa impermeável que usava ao redor dos ombros e tirou algo do bolso. Houve um arranhão e então um fósforo encheu-se de luz. A ponta vermelha do cigarro se acendeu.
Ele segurou o fósforo com uma das mãos, sem querer desperdiçar aquele momento de iluminação ao sugar de forma faminta o cigarro nos lábios. Viu o contorno em forma de castelo dos fragmentos de vidro do mar, e ele percebeu o disco pendurado no centro do cômodo, refletindo a pequena chama em sua mão. Poucos segundos e a luz se apagou, deixando-o novamente no escuro.
O único som era o da sua respiração, entremeada com a fumaça do cigarro que era inalada e exalada. Cada vez que ele inalava, o pequeno ponto vermelho na ponta do cigarro brilhava um pouco, como um minúsculo coração pulsando.
Tentou colocar os pensamentos em ordem. Que opções lhes restavam? Sentia-se errado por dentro, ainda retorcido e pendurado por uma corda, o que percebeu ser o resultado por ter quebrado o juramento para tentar salvar Edie. Provavelmente aquela sensação só pioraria. O enfraqueceria progressivamente, e aniquilaria qualquer lucidez que lhe restasse. A coisa que mais o preocupava, depois do que iria acontecer com Edie e George, sem ele por perto para ajudar, era o que iria acontecer após a meia-noite.
À meia-noite, ou virada do dia, era o momento em que as estátuas baseadas em pessoas reais — os cuspidos — tinham que estar em seus pedestais. Não era opcional, mas parte de quem eram e como eram. Um pedestal vazio na virada do dia significava a morte de um cuspido. Quando ele retornasse ou fosse retornado ao seu pedestal após o prazo, jamais andaria novamente, não passaria de um pedaço de pedra ou metal com formato humano. O Artilheiro estava pagando a pena por ter quebrado um juramento feito à Pedra e à mão que o fizera, então imaginou que a meia-noite poderia significar, se não fosse o fim, o começo de uma eternidade andarilha como a do Caminhante, escravo dos poderes sombrios contidos na Pedra.
Ele não parecia ter muita chance de sair daquela cela subterrânea antes da meia-noite, a menos que o Caminhante o tirasse dali, e isso parecia totalmente improvável. Mesmo se ele tivesse sua força normal, não sabia a profundidade daquele buraco, e com certeza não pensava que poderia escalar até a superfície, já que da última vez que tentara erguer os braços para fazer isso, fracassou. O poder do Caminhante sobre ele parecia estar funcionando. Ele se perguntava se seu inimigo voltaria antes da virada do dia, antes que a meia-noite viesse para levá-lo à morte.
Sentiu a ironia da sua situação: sua vida dependia do retorno do Caminhante. Alguém portador de uma arrogância difícil de tolerar. Imaginar a presença daquele ser era pior do que todas as coisas ruins que tinham acontecido até ali.
Após um momento de confusão, o Artilheiro tentou parar de pensar no Caminhante, e isso fez com que bolasse um plano que não dependia de seu inimigo.
— Venha, seu maldito! — ele disse a si mesmo ao fazer força para ficar em pé novamente.
Se os vidros roubados das fagulhas brilhavam por causa do poder que possuíam de avisar quando um estigma ou um Servo da Pedra como o Caminhante se aproximava, e essa fora a forma perversa de o Caminhante conseguir luz para si mesmo naquele covil subterrâneo, então havia algo que o Artilheiro podia fazer. E o fato daquilo envolver desmontar o castelo cuidadosamente feito pelo Caminhante somente aumentava seu desejo de levar a ideia adiante.
Ao tragar o cigarro com força, viu um pálido reflexo em alguns dos vidros na parede. Colocou sua capa impermeável com cuidado no cascalho embaixo e esticou ambas as mãos o máximo que conseguiu para tirar os pedaços de vidro da parede e colocá-los sobre a capa.
— Abracadabra para você também, parceiro — ele resmungou com um sorriso de satisfação.
Assim que se convenceu de ter tirado todas as pedras do coração da primeira parede, ele dobrou a capa e foi andando em linha reta para fora do cascalho, mas ainda dentro da água. Ao passar pelo ponto central do espaço, ele parou e levou as mãos ao ar até que elas batessem no disco giratório da corrente. Bateu com força e ouviu um ruído “preciso” quando a corrente se partiu e o disco foi libertado. Levou a mão ao bolso e tirou os fósforos. Acendeu um e ficou ali, no fundo da água, olhando para o disco sob a luz da pequena chama.
Era um velho prato de estanho: nele, alguém havia desenhado uma série de círculos concêntricos com castelos de grandes torres nas pontas. Do arco na base de cada castelo saíam linhas, estas formavam uma cruz no centro do prato. Havia também uma série de círculos e desenhos que pareciam a frente de um escudo. O Artilheiro pôde ver também algo escrito por toda a extensão do objeto. Ele conseguiu ler O Reis e seus Príncipes antes de o fósforo se apagar. Ele cuidadosamente guardou o prato dentro da jaqueta e foi em direção ao castelo de vidro na parede de frente para ele.
— Rei uma ova! — resmungou. Você não vai precisar de toda essa vaidade, porque quando você voltar aqui com as luzes apagadas, eu irei coroar você com a decepção.
E embora não houvesse ninguém ali para ver, ele sorriu ao pegar o primeiro pedaço de vidro do mar na parede à sua frente.