Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 30 de 57

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Mão de Ferro

Maunguefego

27

 

GEORGE VIU UM CAMPO DE futebol. Ouviu uma voz masculina gritar energicamente de algum lugar distante:

— Por aqui, filho!

Houve a batida inconfundível de uma chuteira contra uma bola de couro molhada. George abriu os olhos e viu uma bola branca e vermelha girar no ar, e então, lentamente, cair entre um grupo de jogadores aglomerados junto a um gol. Em seguida, iniciou-se uma briga pela bola na lama, com alguns empurrões, até que a bola foi parar dentro do gol, e um dos jogadores puxou a camisa sobre a cabeça e saiu comemorando a vitória. Podia ouvir o som de risos e vaias do público que assistia, mas a única coisa anormal nisso era que George estava vendo tudo do alto.

Como se arrancado de um sonho, ele sentiu a garra de pedra em seu peito. Lembrou-se da Bica, da menina dourada gritando no final da lança e do fato de que ele devia estar morto. O passado confuso o atingia como um saco de cimento molhado.

O espaço verde abaixo, iluminado artificialmente, era o Coram’s Fields, um oásis de grama e árvores ao sul da avenida Euston. A Bica estava voando mais rápido agora, como se estivesse perto de casa e não precisasse conservar energia. A chuva havia diminuído, mas ainda continuava caindo — uma leve garoa em vez da chuva torrencial que o havia ensopado mais cedo.

George estava todo molhado, tremendo muito e tentando descobrir exatamente por que não estava morto.

Ariel o havia segurado junto ao portão com tanta força que ele não tinha conseguido se mover. O Cavaleiro gritara ao arremessar a lança e George desviara o olhar no último minuto. Então tudo escureceu e ele sentiu um impacto colossal. Pelas leis da lógica, ele não deveria estar vivo.

Mas estava.

Repassou mentalmente o momento final outra vez e percebeu que alguma coisa parecia terrivelmente errada. O mais estranho fora o impacto, e não porque não esperasse por ele, mas é que o baque não viera pela frente, e sim pelo lado. George tinha enxergado muito bem a lança voando na direção de seu coração, não havia como errar o alvo. George forçou mais um pouco a memória e lembrou-se de ter ouvido as asas da Morte voando para encurralá-lo, e então entendeu que tinha sido a Bica, e não a Morte, que aparecera subitamente no ar e o arrancara do lugar onde estava, fazendo com que a lança do Cavaleiro perfurasse o espaço vazio onde George tinha estado um segundo antes, passasse pela abertura do portão e atingisse Ariel.

À medida que um galo começou a crescer atrás de sua orelha, George sentiu como se sua cabeça fosse explodir, e concluiu que a Bica devia tê-lo arrastado por algum tipo de telhado ao salvá-lo da morte certa. Foi assim que ele acabou sendo carregado mais uma vez pelos ares, sobrevoando a avenida Euston em direção ao telhado ricamente ornamentado da estação Saint Pancras.

A Bica havia resgatado George da mesma forma que Ariel o salvara da gárgula. Ele não sabia o que significava ser salvo por quem quisera matá-lo pouco tempo antes. Estava certo de que a Bica não tinha mudado subitamente de inimigo para amigo, aquele resgate só podia ter sido acidental. Mas não conseguiu seguir adiante com suas suposições. Tudo era muito complicado e ele estava com frio e confuso.

A lembrança de Ariel o invadiu: o sorriso dela, a alegria em voar e suas piruetas no topo do mundo. Pensar nisso lhe causou uma sensação ruim. Ela o traíra friamente, segurando-o para o Cavaleiro.

A Bica começou a voar mais devagar à medida que se aproximava da iluminada torre do relógio, no extremo leste do edifício. George identificou o telhado de ardósia verde apontando diretamente para o céu, bem como os pináculos que decoravam cada canto da confecção maciça e exuberante de alvenaria laranja.

O longo galpão da estação King’s Cross passou à direita e, em seguida, a Bica começou a voar próxima ao telhado de Saint Pancras, sobre uma ponta afiada com uma passagem estreita e plana no topo, em direção oeste entre as chaminés altas que povoavam os vertiginosos e inclinados telhados por ambos os lados. E antes que o edifício se curvasse abruptamente e terminasse em uma torre igualmente pontuda na extremidade, havia outra torre, e foi para lá que a Bica voou.

Assim que se aproximaram, a Bica esticou suas asas, usando-as como freios, e foi diminuindo a velocidade até chegar a uma parada total. Apenas quando ficou claro para George que o voo não era mais viável e que eles iriam começar a cair, a Bica estendeu uma garra e prendeu no canto da parede.

A Bica tossiu:

— Geer!

Não havia como George fugir dali. O ninho da Bica era uma pequena área onde três ângulos de telhado se encontravam. Havia uma calha de chumbo, uma espécie de bandeja com um furo e um pedaço de alvenaria quebrada presa em um canto.

A Bica soltou George e ele se agachou em um canto, observando a gárgula se posicionar. Ao contrário de todas as outras gárgulas que George podia agora desconfortavelmente ver espalhadas por todo o edifício e que estavam viradas para a cidade, a Bica virou-se e ficou a encará-lo.

George não tinha a mínima ideia do que iria acontecer a seguir. A gárgula olhou para ele e, lentamente, estendeu suas asas, sacudiu-se como um cão, e depois as cruzou ordenadamente em torno das costas. Foi a primeira vez que George teve a chance real de olhar para a Bica adequadamente, em repouso. Até ali ele a tinha apenas visto em movimento — correndo, voando ou perseguindo. E como estava sempre ocupado tentando ficar o mais longe possível da criatura, nunca a observara detalhadamente.

Não que fosse muito glorioso. Parecia um gato selvagem com asas onde as patas da frente deveriam estar. Havia algo de tenso e tortuoso em sua estrutura, e a vida no telhado claramente não tinha sido gentil com ela. A gárgula estava toda suja, com algo verde vazando da boca, de onde George havia retirado um antigo tubo de cobre.

Além de deixá-la naquele estado abatido, o tempo chuvoso e frio também quebrara a ponta de uma de suas asas, tornando seus voos um verdadeiro martírio. George pensou se era a pequena ponta de asa ausente que fazia a Bica voar tão torta.

Ela mostrou suas presas e George viu a real profundidade da coloração verde que se enrolava nos dentes inferiores dela, como se fosse sangue.

A criatura disse:

— Gack.

George retrucou:

— Sim. A sua casa é muito agradável.

Ele estava agachado e com os braços em volta de si mesmo, tentando obter um pouco de calor do próprio corpo.

Ele disse:

— É uma pena que você não tenha aquecimento central.

“Devo estar ficando maluco”, George pensou.

— Gowk — disse a Bica, inclinando-se e tocando a própria boca. Depois espetou George contra os azulejos.

— Gowk!

Ele percebeu que ela estava tentando se comunicar. E parecia irritada por George ser incapaz de entender o que ela falava.

— GOWK!

George disse:

— Sim, gowk.

A Bica não ficou impressionada. Cerrou silenciosamente as presas em irritação e sua garganta soou como se estivesse tentando tossir uma bola felpuda ou uma espinha de peixe.

George pediu desculpas:

— Sinto muito. Não falo língua de gárgula.

A Bica balançou a cabeça e abriu a boca, depois levou as pontas das asas até os dentes arreganhados, fazendo um grande barulho.

Nesse momento, George subitamente entendeu o que ela estava dizendo.

— Gowk — bica. Você quer a bica! A bica que eu retirei da sua boca. Mas é claro. Sinto muito...

Tudo fez sentido. Aquele fora o motivo por que ela nunca parava de persegui-lo. Ele tinha arrancado uma parte importante da boca dela. Antes disso ela nunca tinha feito um barulho sequer. Era pela falta da bica que a pobre gárgula sofria ao tentar falar.

George vasculhou o bolso de trás da calça. Ao conseguir encontrar o tubo de metal corroído, segurou-o no ar como uma oferta de paz.

Mas subitamente teve uma ideia, e tirou a bica do alcance da criatura.

— Talvez... — ele disse devagar, pensando enquanto falava. — Talvez possamos fazer um trato. Você me leva até o chão e eu lhe devolvo a bica. Aceita?

E então fez mímicas como se estivesse voando baixo e depois entregando o objeto. A Bica assentiu com a cabeça. Depois sua garra saltou e voltou com uma velocidade surpreendente, e a mão de George ficou vazia. A gárgula olhou para o tubo de metal que agora segurava.

George disse:

— Sim. Toda sua! Agora você me leva até o chão, certo? Olha, eu estou feliz por você ter recuperado sua bica. Estou feliz, você está feliz, e...

A Bica parou de olhar para o tubo de cobre e encarou George novamente com uma intensidade petrificante que o fez parar de falar. A Bica rodou o tubo uma vez em sua garra, e depois o atirou por cima do ombro, sem demonstrar o menor interesse. George olhou para ela enquanto ouviam o barulho que o tubo fez ao rolar para fora do telhado e cair em cima do galpão logo abaixo. George engoliu em seco.

— Gowk!

A Bica bateu a asa contra o peito e depois cutucou George insistentemente.

— Gowk, maunguefego. Maunguefego, gowk.

Aquelas palavras deviam fazer algum sentido, mas não no planeta que George habitava.

— Sinto muito. Mas não sei o que “maunguefego” significa — ele disse.

A Bica avançou e, por um momento, George pensou que ela fosse atacar, mas então a gárgula pegou o pedaço quebrado de pedra que estava na calha junto aos pés dele. George tombou para trás e suas mãos se agarraram às telhas para impedir que caísse no vazio abaixo. Ao olhar para cima, viu que a Bica estava balançando a pedra em sua direção como um taco de beisebol.

Ele ergueu as mãos para se proteger e a Bica rosnou em frustração, afastando-se e indo sentar-se sobre as patas traseiras. Ela acenou para George com a peça quebrada de pedra. Em seguida, a criatura lançou-se para frente novamente, colocou o fragmento de pedra no chão e agarrou a mão de George. George sentiu sua cicatriz com a Marca do Fazedor doer ao ser puxado para frente. A Bica levou a mão dele até a borda de sua asa, no lugar onde as condições climáticas tinham causado a quebra de um grande pedaço.

— Ai! — gritou George, cuja mão estava sendo lixada pela superfície áspera. A Bica assobiou com raiva e deu um passo para trás. George ficou subitamente sozinho e sem apoio; pior que isso, estava na ponta dos pés, e muito consciente de uma possível queda. Ele cambaleou e começou a cair. O pedaço quebrado de pedra caiu primeiro, e ele conseguiu arquear as costas e puxar o objeto para fora do caminho antes que ele rolasse telhado abaixo. Quando a pedra acabou pressionada contra a carne macia de sua mão, tudo fez sentido.

George entendeu que estava segurando o pedaço quebrado da asa da Bica. Suas mãos sentiram a textura áspera, e seus dedos sabiam que era aquilo que faltava na gárgula. Ele percebeu que eram feitos da mesma rocha e que se encaixavam perfeitamente. Entendeu também que os dois pedaços não só combinavam, mas que, de forma inexplicável, queriam estar juntos novamente.

Ele disse:

— Oh! — E sentou-se. Ele olhou para o pedaço de asa na mão, e depois para a Bica.

Ela agachou-se de costas para George e inclinou sua asa quebrada. Embora estivesse mais assustado com aquele monstro de pedra do que com qualquer outra coisa que pudesse imaginar, ele acabou colocando a mão e sentindo a ferida de pedra.

— Você quer que eu conserte sua asa?

Ele sentiu a superfície da pedra e colocou o pedaço quebrado na asa. Como supunha, encaixou perfeitamente.

— Maunguefego — disse a Bica, balançando a cabeça.

— Se maunguefego quer dizer consertar, não tem como. Sinto muito, mas não dá para simplesmente encaixar a pedra de volta. Precisa ser consertada.

George subitamente lembrou-se de um episódio na oficina de seu pai. Ele ouviu a respiração deste, sugando o ar pelo lado da boca enquanto fumava, as mãos estavam ocupadas. Ele viu o pai usando as duas mãos para juntar os pedaços quebrados de uma escultura. Era uma bailarina e George a tinha quebrado. A peça era de sua mãe. Pai e filho estavam tentando consertar antes que ela percebesse. Tinha sido um momento de cooperação entre os dois — ambos trabalhando contra o relógio. Ele lembrou-se do pai dizendo que não era apenas uma questão de cola. Que não se podia apenas confiar nela. Para que o reparo desse certo, além da cola, era necessário fazer uma junta mecânica especialmente se o local remendado fosse sofrer pressão.

George pensou na imensa pressão que a Bica exercia sobre as asas quando voava, tentando manter sua grande massa no ar.

— É complicado. Primeiro, a pedra precisa ser colada, cimentada, ou algo parecido. Depois, tem que ser parafusada ou presa com alguma coisa.

Sua mão apertou a asa da Bica como se estivesse se desculpando. De repente, um calor vindo da pedra o paralisou.

A Bica encarou George e disse:

— Maunguefego.

George apertou a asa novamente. O calor aumentou. À medida que ele movia a mão ao longo da fenda entre os dois pedaços de pedra, ficava cada vez mais difícil saber de onde vinha o calor. Mas logo percebeu que o calor não vinha da pedra, mas da sua mão.

George não entendeu por que seus olhos se fecharam. Sentiu algo estranho tomar conta de todo seu corpo. O único foco de atenção era a asa da Bica. Sua audição também começou a entorpecer conforme ele ia sentindo a superfície áspera da pedra. Houve um leve estalo assim que os dois grânulos de pedra se encontraram e foram emendados sob o calor que emanava da mão de George.

Terminado o trabalho, ele tombou para trás, estranhamente exausto e ofegante, uma sensação de vazio sob seu esterno. O que tinha feito consumira todas as suas forças. Estava encharcado de suor. De sua boca saía uma fumaça que se misturava ao ar frio da noite.

A Bica sacudiu a asa, como se estivesse testando. A peça quebrada fazia parte dela novamente. Ela acenou com a cabeça entusiasmada.

— Maunguefego!

E depois se sentou novamente.

George fez o mesmo e disse:

Uau! Isso foi... Intenso.

Ele olhou para o céu escuro, tentando concentrar-se no formigamento da mão, e esquecer o vazio no peito.

— Parou de chover — disse, por fim.

A Bica levantou a cabeça rapidamente, os olhos arregalados, as orelhas para trás, todas as espinhas nas costas levantadas.

Alguma coisa estava vindo.