Mão de Ferro
Cavando fundo
19
A SENSAÇÃO QUE O ARTILHEIRO tinha de que algo estava errado parecia ficar pior. Sentia um nível de cansaço que ultrapassava a exaustão normal. Seus membros estavam começando a não fazer o que ele queria que fizessem, como se as instruções vindas do seu cérebro estivessem se transformando em sussurros chineses incompreensíveis para o corpo.
Sua agilidade natural desaparecera completamente, sentia as mãos como se elas estivessem envoltas por luvas de boxe que limitavam os movimentos. As costas doíam e ele lutava contra o desejo devastador de deixar-se escorregar para poder sentar um pouco. Seu corpo implorava por descanso. Mas ele sabia que esse seria um comportamento fatal, pois assim que se sentasse não iria querer se levantar novamente. Então deslizou as mãos pela pedra áspera da parede confirmando, para sua satisfação, que não havia mais pedras do coração sobrando.
Ele sorriu para si mesmo e avaliou o peso do saco de lona que sua capa tinha se tornado. O tilintar era satisfatório.
Restavam-lhe duas opções: podia jogar o saco embaixo da água, o que deixaria o Caminhante se debatendo no escuro, tentando encontrar as pedras do coração. O único problema era que o tanque tinha uma profundidade de cerca de dois metros debaixo da água nos pontos mais profundos, a maior parte da área era bem rasa. Debater-se por lá acabaria fazendo com que o Caminhante tropeçasse e, ao tatear, acabaria encontrando as pedras e resgatando sua fonte de luz.
— Vou enterrar — ele resmungou. — O espertalhão não disse que eu não podia cavar para baixo, falou?
Ele cambaleou pelo cascalho, orientando-se pelo toque somente. Encontrou a parede dos fundos e dobrou os joelhos. Colocou o saco no chão ao lado dele e permitiu-se a luxúria de um cigarro.
Riscou o fósforo, acendeu a ponta do cigarro e sugou a fumaça. Tirou o prato de estanho da jaqueta e olhou para a luz do fósforo que reinava por entre seus dedos.
— O sonho dos quatro castelos, uma ova — sabe o que você é, caro Caminhante? — ele perguntou conforme o fósforo se apagou e a escuridão voltou às margens do tanque. — Um maldito assassino!
Colocou o cigarro no canto da boca, e deixou o prato no cascalho, ao lado dos joelhos. Levantou uma das pedras e cavou novamente, satisfeito por ver que a determinação que o proibia de cavar para cima não o impedia de fazê-lo na direção oposta.
E como sempre acontecia assim que começava a trabalhar, sentiu-se menos cansado. Era como se o trabalho físico tirasse um pouco do estresse e o ato ritmado de cavar deixasse menos espaço para que ele se preocupasse com a sensação de algo estar errado em sua essência.
Seu tempo estava se esgotando. A virada do dia se aproximava na superfície. Ele não sabia o que resultaria de seu duplo azar: além de perdido, amaldiçoado. Talvez significasse que ele iria se tornar uma estátua morta-viva, um par de mãos mortas, da mesma forma que acontecia com os estigmas, estes que saíam de seus pedestais para obedecer ao Caminhante e à Pedra. Pensar em se tornar um estigma escravo com roupa de cuspido fazia seu estômago revirar. O que quer que fosse acontecer, mesmo se ele fosse bater as botas à meia-noite, ele iria executar um último ato de vingança contra o Caminhante.
Cavou tão fundo, que o prato de estanho dobrou ao meio e ele o jogou para o lado, passando a cavar com as próprias mãos.
E por muito tempo na escuridão os únicos sons eram as batidas e os chiados do cascalho sendo removido de um buraco e jogado em uma pilha ao lado, e o estalo das mãos de um homem trabalhando em silêncio com um cigarro no canto da boca.
Ele se perguntava o que George estaria fazendo naquele momento.