Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 46 de 57

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Mão de Ferro

Morte agitada em ghastly grim

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EDIE CAIU DE UM ANDAR baixo e foi salva por uma feliz combinação de neve espessa e um galinheiro.

Pelo menos imaginou que fosse um galinheiro, porque ouviu intermináveis cacarejos, altos e agudos, ao se levantar e sair correndo pela rua estreita.

Podia-se ainda ouvir os indignados cacarejos, mesmo quando ela ignorou o fato de que estava sem fôlego e que havia deslocado o ombro, e fugiu pela neve que continuava a cair. De algum lugar distante, conseguiu reconhecer os sons de um realejo tocando e do sino de uma igreja alegremente anunciando as horas. À medida que corria pela neve, tentando se distanciar o máximo possível da Casa dos Perdidos, a jaqueta de George tremulava atrás dela.

A rua estava iluminada por alguns lampiões, e Edie correu de luz em luz, olhando para trás a todo momento. As casas se debruçavam sobre as ruas com as calhas inclinadas e os pisos superiores.

Edie estava bem consciente de que seus passos eram os únicos na neve branquíssima. Não seria difícil encontrá-la. Então correu para uma rua mais larga, cuja superfície estava marcada pela passagem de carros e táxis, e seguiu pelo meio, esperando que suas pegadas fossem apagadas na confusão geral.

No entanto, ela não queria correr pelo meio da rua por muito tempo, pois ficaria em evidência. Também tinha um forte sentimento de que estava sendo observada, mas quando se virou para olhar para trás, não viu ninguém na avenida; havia apenas a escuridão pontilhada pela neve que caía. A sensação de estar sendo observada tornou-se algo semelhante a uma coceira insuportável que precisava ser arranhada com as unhas. Assim sendo, logo que viu uma chance, pulou para o outro lado da faixa de neve e correu para um beco estreito, na esperança de não ter deixado pistas.

Depois olhou para trás e notou, com satisfação, que realmente não tinha deixado vestígios. Correu ao longo de um dos lados do beco, mantendo-se nas sombras, mas quando virou em uma curva fechada, chegou a um impasse ainda maior.

Do outro lado da rua havia uma igreja e um cemitério, cujo muro alto era protegido por pontas de lança que furavam a neve. Havia um pórtico de pedra em forma de arco com um portão de ferro preto entreaberto, também protegido por pontas de lança.

Normalmente, Edie ficava bem longe de cemitérios, mas duas razões a obrigavam a atravessar a rua em direção ao portão. A primeira era que, naquela direção, havia uma verdadeira mistura de pegadas e sulcos abertos por rodas, e, portanto, ninguém conseguiria seguir suas pegadas. A segunda era que podia ouvir a aproximação de cães latindo atrás dela, chegando cada vez mais perto. Seu plano era passar os portões de ferro, fechá-los, e esperar escondida até que seus perseguidores passassem. Sabia, sem dúvida alguma, que o latido vinha dos mastins da Casa dos Perdidos.

Conforme se aproximou do portão, ela olhou para cima e viu que a decoração incluía crânios de pedra. Havia dois de cada lado, cobertos por neve e espetados nas lanças; e três no centro do arco, apoiados sobre alguns ossos. O crânio central tinha uma coroa de louros, como aqueles do Império Romano, o que lhe dava uma aparência ainda mais sinistra, parecia o Imperador da Morte.

Era tarde demais para retroceder. Os latidos estavam cada vez mais próximos e não havia nenhum outro lugar para se esconder. Então Edie se abaixou junto ao portão e o fechou. O ferrolho funcionou, porém não havia como trancá-lo. Assim, agarrou a lâmina de obsidiana e ficou pronta para lutar. Mas os cães silenciaram subitamente. E a esperança de Edie era a de que eles tivessem seguido pelo caminho errado.

Usando as sombras da parede como proteção, olhou para dentro do cemitério. Era um espaço apertado, cercado por paredes de casas em dois lados, e pela torre quadrada e a parede lateral da igreja em outro. No mínimo, era um lugar sinistro: as lápides ficavam muito próximas umas das outras, tornando o lugar um verdadeiro emaranhado.

Não havia luzes nos túmulos, mas ela pôde ver um lampejo turvo que vinha do interior da igreja. Edie viu uma porta estreita na base da torre. Sem pensar, escorregou pelo amontoado de lápides.

E então ouviu uma voz e congelou.

— Que noite!

— Uma noite realmente movimentada, Majestade!

As vozes tinham um tom vazio e nefasto. Soavam secas, e eram acompanhadas por um estalido ósseo.

— Um sai, um entra.

— Nada de descanso para os maus, Majestade.

— Nem para os bons. Não com os homens da ressurreição andando à vontade durante a noite.

Edie percebeu, com assustadora certeza, que estava ouvindo os crânios conversando entre si, aqueles que tinha avistado na entrada. Os três crânios centrais, sobre a face externa da pedra, estavam naturalmente invisíveis, mas os dois em cima do muro se encontravam delineados contra o céu noturno.

Edie sabia o que significava “homens da ressurreição”. Ela sempre tinha ouvido a respeito na escola, mesmo quando fingia não prestar atenção. Os homens da ressurreição costumavam desenterrar corpos e vendê-los aos cirurgiões.

Ela olhou para baixo e percebeu que as pegadas lamacentas e os sulcos abertos pelas rodas na neve tinham sido feitas por escavações e transporte de algo em um carrinho de mão. Isso explicava por que havia tantas pegadas e marcas de rodas no caminho do cemitério.

Um dos crânios laterais girou na ponta da lança onde estava espetado e olhou para Edie.

— Ela está ouvindo, Majestade.

— Impossível. A menos que...

— Exatamente.

— Pergunte a ela.

— Você é uma fagulha, menina? — indagou o crânio que ela conseguia ver.

Edie assentiu com a cabeça.

— Ela diz que sim, Majestade.

— Eu não a ouvi.

— Ela só balançou a cabeça. Está se escondendo.

— Diga-lhe que há muitas coisas escondidas em Ghastly Grim, tanto na igreja como no cemitério, mas que nenhuma delas está viva. Diga-lhe que vá embora.

E o crânio disse:

— Você tem que ir.

— Por favor, parem de falar! — ela disse com veemência, esticando as orelhas para tentar ouvir se ainda havia o barulho dos cães ou de passos além da tagarelice dos crânios.

— O que ela disse?

— Ela está discutindo, Majestade.

— Ela não pode discutir comigo.

— Você não pode discutir com sua Majestade.

— Não estou discutindo. Estou pedindo.

Aquele era o mais barulhento de todos os cemitérios de igreja que Edie já tinha conhecido. Ela recuou até a porta estreita e tentou abri-la, mas estava trancada.

— Ela está tentando entrar na igreja.

— Por favor, façam silêncio! — ela sussurrou novamente, caminhando em volta de uma sepultura recém-aberta. Agachou-se atrás de uma lápide e observou o nome nela esculpido: Aemilia Bowles. — Por favor, parem de falar.

— Não. Temos sempre a última palavra.

Edie estava realmente arrependida por ter ido buscar refúgio naquele cemitério inquieto.

Ela disse:

— Tudo bem. Compreendo vocês. Só peço que façam silêncio.

— Ela diz que nos compreende, Majestade.

— Diga-lhe que não precisamos de sua compreensão. Estamos aqui por direito, pois somos a Morte!

O sangue de Edie ferveu, e ela disse:

— Vocês não são a Morte. Vocês não passam de um monte de crânios de pedra que não conseguem calar a boca!

— Ela diz...

— CHEGA! CALEM A BOCA! Vocês não são a Morte...

Houve um silêncio momentâneo. Em seguida, outra voz disse baixinho:

— Eles não são a Morte, mas eu sou.

Era o Caminhante.

Edie conseguiu ver os dois cães silenciosamente arranhando, com as patas, o lado externo do portão.

Só agora ela se lembrou de olhar para a mão que segurava a pedra do coração. Tinha segurado a pedra com tanta força, que nem percebera a luz de aviso que ela estava a emitir.

Os cães estavam parados e ofegantes. E então algo grande pulou para o topo do muro e se agachou ali. A coisa bateu suas asas curtas em agitação sobre a massa arqueada de seu corpo atormentado e enclausurado.

Era o Ícaro.

Toda a energia de Edie pareceu ser drenada de seu corpo.

Ela deslizou para trás de uma lápide e percebeu que agora o Caminhante a tinha, que não ele não demoraria a capturar George, e que o Artilheiro estava provavelmente morto.

Tudo estava acabado.

E apesar de saber que o fim estava próximo, usou seu último sopro de energia para raspar a neve e a lama em frente da lápide de pedra na qual se escondia, e lá enterrou sua pedra do coração.

Em seguida, ela se levantou e usou os pés para empurrar terra sobre o local onde tinha colocado a pedra, torcendo para que suas pernas permanecessem escondidas.

Ela viu o Caminhante atravessar o portão, carregando uma faca em uma das mãos, e cobrindo um de seus olhos com a outra.

Edie abaixou a cabeça e fechou os olhos.