Mão de Ferro
O espelho negro
25
A BIBLIOTECA BRITÂNICA FICA do lado oeste do grande pátio circular de vidro do Museu Britânico. É uma sala longa e elegante, e sua coleção mista de curiosidades em exposição vem de todas as idades e regiões do mundo.
Ela abriga fósseis delicados e armas brutais, vasos de alabastro requintados e tão altos quanto um homem e lanças nativas americanas com lâminas de meteoritos. Há esculturas gregas e bustos dos grandes homens que reuniram as coleções. Há manuscritos antigos e joias de ouro puro, machados de pedra, mensageiros dos ventos romanos, e toda sorte de relíquias religiosas e obscuras, entre outras parafernálias.
Para a maioria das pessoas, tudo isso parece um charmoso acervo de objetos colecionáveis reunidos ao acaso. Uma herança do Iluminismo Europeu. O que quase ninguém sabe, no entanto, é que muitos artefatos estão ali propositalmente. Foram deixados lá porque têm algo incomum: poder. Esses objetos especiais podem ser aliados da luz ou da escuridão. Disfarçam-se sutilmente, tornando praticamente impossível para olhos leigos a percepção do que eles são de verdade.
As luzes da biblioteca se encontravam apagadas e o resto do museu dormia em silêncio.
De repente, houve um ruído quase inaudível e o Caminhante saiu de um dos seus espelhos. Logo depois, juntou os espelhos face a face e os guardou cuidadosamente no bolso do casaco. Ele ficou de frente a um expositor alto de vidro e fitou o conteúdo ali guardado. Empurrou para trás o capuz do moletom verde que usava por baixo do sobretudo e liberou o Corvo, que tinha viajado com ele. Inclinou-se para frente, com as duas mãos no vidro do móvel, enquanto conferia mais de perto os objetos que estavam lá dentro.
O Corvo estendeu as asas e atravessou toda a extensão da sala até pousar no corrimão de uma passarela, que ficava ao redor de uma estante. Depois, fixou seus enigmáticos olhos negros no Caminhante e no expositor de vidro.
Dentro do expositor lacrado, havia três discos de cera de tamanhos diferentes: dois pequenos e um grande, todos grossos como queijo, adornados com símbolos mágicos semelhantes a pentágonos e nomes com grafia incompreensível. O primeiro objeto era uma pequena bola de cristal, pouco maior que uma bola de golfe; o segundo, um disco de ouro fino, gravado com os mesmos círculos concêntricos e torres simples que tinham sido riscados na superfície da placa de estanho, aquela do tanque onde o Artilheiro tinha sido deixado; já a terceira peça era a mais estranha de todas: um espelho de pedra. Os outros objetos pareciam apenas do tipo de parafernálias ocultas que todos esperam ver no covil de um mágico, porém, a pedra espelhada era uma coisa completamente diferente. Suas linhas eram simples e sem adornos, fazendo com que ela parecesse eterna, austera, de aspecto moderno e antigo simultaneamente. Fora esculpida e polida de uma obsidiana preta impecável. Trazia perto de si uma breve descrição, onde dizia que era de origem asteca.
— Asteca! — o Caminhante bufou e cuspiu ironicamente. Sua saliva escorreu pela parede de vidro que o separava daquele rótulo ofensivo. — Colecionadores com cérebros de musaranhos pigmeus!
O Caminhante sabia que o espelho negro de pedra era muito mais antigo que aquela civilização; tinha sido construído muito antes que os astecas, na América Central, desenvolvessem seu gosto por sacrifícios humanos.
— Pássaros e borboletas. Imagine só...
Ele olhou para o Corvo enquanto levantava a manga direita do casaco.
— Os astecas faziam centenas de sacrifícios ao seu Deus Quetzalcóatl. Beija-flores em vez de corvos, então você, meu amigo, teria sido poupado. Mas eu teria gostado de ver isso. É preciso uma sensibilidade particularmente requintada para pensar em sacrificar uma borboleta...
O Corvo, para quem o mundo dos insetos era essencialmente um bufê diário, não achava que matar borboletas fosse algo especialmente incomum, mas manteve o bico fechado. A verdade era que o Caminhante gostava de falar e que ele estava condenado a ouvir.
O Caminhante estendeu as mãos contra o vidro em frente à bola de cristal circular. Fechou os olhos e moveu uma das mãos como se estivesse medindo e memorizando o tamanho da bola. Então, olhou para a superfície escura e vítrea do espelho novamente.
— O espelho não funciona sozinho. Sem seu irmão gêmeo é apenas uma pedra polida.
Ele sorriu misteriosamente para o Corvo.
— Um par comum de espelhos mágicos pode abrir um portal para qualquer lugar do mundo, neste mundo, qualquer lugar no tempo ou espaço, basta que você tenha o dom e saiba usá-lo. Mas acontece, meu amigo, que comparado com o que este espelho de pedra pode fazer, o prodígio dos outros espelhos não passa de truque barato para crianças. Um par de espelhos de pedra pode abrir um portal para outro mundo. E sabe o melhor disso? Um homem astuto pode viajar pra esse outro mundo e trazer dele poderes que este mundo aqui jamais viu.
Se o Corvo ficou impressionado, escolheu uma maneira estranha de demonstrar, e descarregou uma prodigiosa sujeira de pássaro na cabeça de mármore careca do século 18. O Caminhante nem percebeu, continuando seu discurso:
— Eles pensaram que poderiam cortar minhas asas ao separar os espelhos de pedra e esconder um deles onde eu nunca o encontraria. Só que nunca lhes ocorreu que, com a eternidade a meu favor, eu teria todo o tempo do mundo para encontrar uma fagulha e um Fazedor-chefe, capazes de escolher a pedra certa e esculpir um novo espelho. Tolos...
A bola de cristal estava começando a girar dentro do expositor, respondendo ao chamado de uma força oculta que emanava dos dedos esticados do Caminhante — e quanto mais rápido girava, mais parecia oscilar em seu eixo.
Uma gota de suor escorreu do nariz do Caminhante e caiu no chão, enquanto ele lutava para conter uma poderosa trepidação em sua mão. Depois, com um suspiro, sua mão aberta fechou-se bruscamente e ele a movimentou para trás e para frente, lançando o punho cerrado no ar em frente à vitrine. E enquanto fazia isso, a bola de cristal pulou e ricocheteou no interior do cubo de vidro, seguindo os movimentos do punho, saltando pelos lados cada vez mais rapidamente, até que os ruídos dos impactos percussivos soassem como os disparos de uma metralhadora e, em seguida, todo o vidro do expositor quebrou ao mesmo tempo e caiu no chão como uma cortina de cristal.
Uma campainha de alarme começou a tocar a distância, e as luzes se acenderam. Ignorando tudo isso, o Caminhante passou por cima dos cacos de vidro e, com agilidade, pegou a agora inerte bola de cristal, que descansava no centro do expositor, e colocou-a no bolso.
Suas mãos reapareceram carregando duas luvas amassadas e desiguais. Ele vestiu ambas e, com rapidez, pegou um lenço e colocou dois discos protetores de cera em cima. Em seguida, pegou o espelho de obsidiana e colocou-o sobre os discos, soltando-o logo, como se não quisesse tocá-lo por muito mais tempo, ainda que estivesse usando luvas. Então, protegeu o espelho com outro disco protetor de cera, e amarrou os cantos do lenço bem juntos, fazendo um pacote. Ao final, embolsou o círculo de ouro e recuou.
Ele disse:
— Venha.
O Corvo voou para o seu ombro. O Caminhante segurou com os dentes as pontas do lenço do pacote que continha o espelho de pedra, tirou as luvas e tateou os bolsos na busca de seu par de espelhos.
No momento em que o primeiro guarda do museu surgiu junto à porta, o Caminhante tinha acabado de desaparecer.