Mão de Ferro
Carnaval no gelo
47
“NÃO SE PODE MUDAR o passado. Mesmo que ele ainda não tenha acontecido.”
Aquele era o pensamento recorrente na cabeça de Edie quando o Caminhante a levou da Casa dos Perdidos para o Tâmisa congelado. Ela não sentia quase nada, exceto a neve e a corda prendendo seus pulsos. Sua visão lateral estava restrita devido às pontas do gorro que o Caminhante tinha amarrado em volta de sua cabeça. As mãos atadas estavam escondidas por um agasalho.
Ela sabia como seria o Carnaval no Gelo quando eles escaparam do aglomerado estreito de ruas cobertas de neve que conduziam à margem do rio. Edie já o havia visto antes, quando reluziu e causou sua própria morte.
“Não se pode mudar o passado. Mesmo que ele ainda não tenha acontecido.”
Esse pensamento não lhe saía da cabeça.
Se tivesse conseguido escapar, então não teria visto a si mesma no buraco de gelo. E se não fosse capaz de impedir sua morte, por que tentar escapar? Mas se não tentasse escapar, como impediria sua morte?
Edie era uma guerreira. Ela sabia que uma das razões pelas quais estava perdendo o controle de sua mente era por não ter mais a sua pedra do coração. Mas o Caminhante também não a tinha. Isso já era alguma coisa. Provavelmente, a pedra, em si, não era suficiente para mantê-la viva, mas era uma centelha para mantê-la tentando achar uma saída.
— Anime-se, garota. Essa é uma beleza raramente vista...
O Caminhante a conduzia por sobre uma tábua entre um estreito canal aberto que se estendia até a superfície congelada do rio. Se ela já não tivesse reluzido, a beleza que se mostraria aos seus olhos certamente teria mexido com ela. Afinal, contemplar o cenário de seu próprio assassinato a privaria de suas forças.
A despeito de sua má sorte, aquela era uma visão extraordinária.
Abaixo da enorme envergadura da ponte Blackfriars, a largura inteira do rio Tâmisa estava congelada e coberta de neve. Nem se via o escuro da noite devido à luz de centenas de lanternas típicas e de tochas acesas, que iluminavam ruas cheias de tendas temporárias e de abrigos que iam até o centro do rio. Havia música, risadas e os sons da multidão que curtia o feriado. O barulho mesclava-se ao cheiro de carne assada e fumaça de lenha. Proprietários de tabernas e estalagens de Londres, e também vários cozinheiros, expunham seus produtos em locais improvisados, decorados com placas espalhafatosas e cartazes. E não havia só comida e bebida à venda.
Havia barraquinhas para a venda de souvenirs e retratistas, além de malabaristas e acrobatas, jogos e um enorme balanço em forma de barco, cheio de homens e mulheres de todas as idades. Havia até uma gráfica manual que funcionava com o uso de uma manivela, perto de um homem com um macaquinho e um realejo. Uma enorme faixa pintada estendia-se ao longo da rua. Lia-se o seguinte:
“CARNAVAL NO GELO — VENHA UM, VENHAM TODOS!”
E a julgar pela multidão presente, parecia que toda Londres havia respondido ao convite.
Novamente, se Edie já não tivesse visto tudo aquilo antes, teria ficado deslumbrada com a magia do lugar. Ver tudo novamente era algo que a aterrorizava. Lembrava-se de tudo, mas o macaco e o realejo formavam uma parte muito específica do que ela havia reluzido. Ela os tinha visto e ouvido e, em seguida, percebido como a música deles tinha sido afogada por um som de gaitas de foles, conforme um desfile que vinha da rua de gelo se aproximava, levando um elefante branco à frente, que tinha roubado a atenção de todos.
E conforme a banda de gaitas se afastava, Edie ouviu o som agitado de tambores.
O Caminhante estava empurrando-a à frente dele, segurando firme em seu ombro com uma das mãos.
A mente da menina tinha que parar com as memórias, pois precisava pensar rápido e se mexer antes que tudo se fechasse para ela e que suas opções diminuíssem tanto a ponto de zerarem, deixando-a sem nada. Precisava fazer algo, e tinha que ser logo. Mesmo que não funcionasse, ela morreria lutando.
O brilho da lâmina de uma faca chamou-lhe a atenção. Ela tinha no que focar agora. Um cozinheiro estava servindo fatias de carne bovina de um espeto na entrada de uma barraca próxima. Ele tinha espetado a lâmina no bloco de madeira enquanto pegava o dinheiro de um cliente.
Na ausência de outras opções, a lâmina de aço afiada era sua única chance de escapar.
Ela empurrou o agasalho de pele de qualquer jeito sobre um braço, compelindo-o contra a barriga. Começou a tossir discretamente para disfarçar seus movimentos. O Caminhante empurrou-a mais para frente, sem perceber que os pulsos da menina estavam expostos ao ar frio da noite e que a lâmina cruel acenava para ela a uns poucos passos de distância.
Ela prendeu a respiração e então, quando a faca estava perigosamente perto, ela se jogou para frente. As mãos cortaram o ar em cada lado da lâmina e bateram nos molhos que estavam sobre a superfície do pequeno balcão. A lâmina não era tão afiada quanto a navalha de obsidiana que ela tinha usado para machucar o Caminhante, mas estava afiada o suficiente para abrir o caminho de fuga que ela tanto queria.
A lâmina cortou a corda que prendia seus pulsos, e assim que ela se sentiu livre, agarrou o cabo da faca e puxou-a com toda a força.
Quando o Caminhante tentou segurá-la, ela se abaixou e girou. O braço dele passou perto da cabeça de Edie, mas ele, desajeitado, só conseguiu bater no gorro. Ela continuou girando até conseguir cravar a faca na perna dele, acertando-o atrás do joelho.
Ouviu-se um grito de dor e fúria e ela soltou o cabo da faca. Quando ele pendeu para frente, segurando a perna, Edie viu a chama radiante do coração de pedra da Mulher Cega no bolso junto ao peito do casaco dele. Sem pensar duas vezes, a menina pôs a mão no bolso, agarrou a pedra e disparou a correr, colidindo com as pessoas, dirigindo-se para o gelo aberto.
Enquanto corria, lembrou-se de quando reluzira a cena: o gorro tinha caído na frente do rosto durante sua tentativa de fuga; e foi o gorro que fez com que ela corresse sem poder ver e caísse no buraco de gelo, onde o Caminhante a alcançou. Agora, quando se pôs a correr, o primeiro pensamento que lhe veio à mente foi livrar-se daquele gorro ridículo antes que ele a matasse.
Com os dedos, conseguiu tatear o gorro e achar os laços. Foi uma boa ideia, mas um erro terrível: ao tentar removê-lo, o gorro acabou caindo na frente de seu rosto e bloqueou sua visão.
“Não se pode mudar o passado. Mesmo que ele ainda não tenha acontecido.”