Mão de Ferro
O substituto
37
GEORGE CORREU POR TRÁS DA estátua gigante de Aquiles. O gigante estava nu, com uma espada na mão direita e um escudo redondo voltado em direção ao céu, como se estivesse repelindo um ataque que vinha do alto.
George olhou para cima, com medo de avistar algo uivando no céu noturno, mas a sorte parecia estar do seu lado. Atravessou a passagem de nível em South Carriage Drive, passou pelo arco triplo ao lado de Apsley House, e finalmente parou, tomando fôlego, enquanto esperava o sinal abrir para cruzar o trecho final da avenida, e de lá seguir para o canteiro central de Hyde Park Corner.
Ele podia se dar a esse luxo porque, bem na frente, já podia ver o enorme canhão de pedra apontado para o céu, e dois dos quatro soldados de bronze. Na verdade, o monumento apresentava um soldado de cada lado da base, estando três em pé e um que jazia deitado, morto. Ele não conseguia ver o lado do Artilheiro, apenas o soldado deitado na maca e o de frente para o centro do gramado, um bombardeiro que carregava dois coldres gigantescos cheios de munições de artilharia pendurados um em cada perna.
O sinal de pedestres abriu e ele correu. Sentia o cascalho dançando sob seus pés enquanto corria até o pedestal na base do enorme memorial. Finalmente chegou ao local e correu até o lado do Artilheiro, certo de que iria ver Edie.
Mas não tinha ninguém lá.
O lugar do Artilheiro estava vazio. Havia apenas uma placa de bronze no pedestal e uma parede alva com palavras entalhadas na pedra desgastada pelo tempo: RÚSSIA — PALESTINA — ÁSIA CENTRAL.
George parou bruscamente e depois inclinou-se como se algo o tivesse atingido, posicionando suas mãos nos joelhos. A verdade era que agora que tinha chegado e sua corrida acabado, finalmente podia deixar-se tomar pelo cansaço. Também estava desapontado, sem dúvida, mas disse a si mesmo que isso não importava. Acharia Edie mais tarde. Agora sua tarefa era ficar de pé no pedestal do Artilheiro. Considerando o último relógio pelo qual tinha passado em Park Lane, tinha ainda uns bons cinco minutos de sobra.
Quando olhou para baixo, viu o capacete de bronze sobre o peito da figura a seus pés. O escultor tinha feito um corpo deitado de costas, com um casaco jogado sobre o rosto. E mesmo calçado com botas de cano longo, era possível ver suas pernas. O casaco tinha sido esculpido de forma tão natural, que um lado do rosto e um pouco de cabelo podiam ser vistos, mas não o suficiente para se conseguir uma boa olhada. As botas não tinham alguns dos cravos, demonstrando sinais de desgaste. Ele notou que os laços de uma das botas tinham se rompido, e que haviam sido amarrados com um nó malfeito. De alguma forma, esse detalhe pessoal tornou o anonimato do soldado desconhecido mais pungente.
Tendo voltado a respirar normalmente, George olhou para o bombardeiro com as munições nas pernas.
— Desculpe-me — disse, sem conhecer outra forma de iniciar uma conversa com uma estátua que poderia não saber que ele conseguia vê-la.
George repetiu:
— Desculpe-me. Eu posso ver você. Sei sobre cuspidos e estigmas e tudo mais. Sou amigo do Artilheiro.
O soldado não se moveu um milímetro. George decidiu não perder tempo. Sabendo o que tinha que fazer, disse:
— Certo, estou indo para o outro lado. Vou ficar no lugar do Artilheiro. Vou ocupar o pedestal dele. A Máfia de Euston me disse o que fazer.
Como não houve qualquer reação, ele deu de ombros e correu para o lugar vazio do Artilheiro. Porém, antes de chegar lá, notou cenas da guerra de trincheiras gravadas na pedra calcária branca do memorial: homens vestidos com coletes feitos de pele de carneiro — usando capacetes e portando armas e escudos — e corpos feridos junto a árvores e trincheiras destruídas. Viu também um soldado tentando acalmar um grupo de cavalos aterrorizados. Quando finalmente chegou ao local do Artilheiro, posicionou-se.
Do outro lado da rua, um homem sem-teto estava empurrando seus pertences em uma espécie de sacola de compras sobre rodas; o tecido da sacola era vermelho e enxadrezado, e estava todo esfarrapado. Os olhos dele não estavam na calçada à sua frente. Olhavam fixamente em meio ao tráfego. Eram olhos negros sem uma única nesga de branco.
Mesmo que George o tivesse notado, o barulho do tráfego não permitiria que tivesse ouvido suas palavras:
— Um fazedor. Hyde Park Corner. No Memorial de Guerra.
George, ignorando os olhos do Contador do outro lado da avenida, não sabia ao certo o que fazer. Já que a meia-noite se aproximava, ele se inclinou para trás e abriu os braços da forma como tinha visto o Artilheiro fazer certa vez. Algo começou a se mover sob seus pés. Ele se abaixou para pegar. Era um chicote do tipo usado com cavalos. O Artilheiro havia abandonado o chicote quando acolhera George e começara a primeira etapa do desafio, que agora parecia não ter fim.
George largou o martelo e pegou o chicote, sentindo o peso do objeto na mão. Então notou que a parte de bronze acima do cabo cedeu ao toque e ficou flexível. Era como se o item esculpido estivesse ganhando vida em sua mão. George manteve os pés no pedestal e sacudiu o chicote. De alguma forma, ter na mão algo pertencente ao Artilheiro fez com que ele se sentisse mais seguro.
— Que diabos você pensa que está fazendo?
A voz cansada, culta e levemente irritada veio da esquerda. George olhou e viu a estátua do Oficial do outro lado do monumento, olhando para ele como se sua presença fosse algum tipo de insulto imperdoável. O Oficial usava um capacete metálico e tinha um binóculo em um estojo que trazia alto no peito. Abaixo, segurava as mãos, tendo um pesado sobretudo dobrado sobre elas.
— Hum... Estou aqui... — George respondeu, hesitante.
Houve um ligeiro ruído de estalo quando o Oficial, irritado, passou a língua nos dentes. Ele tinha um pequeno bigode bem aparado acima do lábio superior.
— Você é um menino.
— Meu nome é George.
— Sim — bafejou o Oficial, abrindo a tampa de um relógio de pulso e, em seguida, fechando-a novamente. — Sim, receio que seja. Foi você que tirou o Primeiro Artilheiro de sua posição, não foi? Sabe onde eu o encontrei na noite passada? Metade derretido pelo Dragão Sanguinário do Temple Bar, com o rosto virado para baixo em uma lagoa no parque Saint James. Tive vontade de deixá-lo lá, mas você sabe...
Passou a língua nos dentes e estalou os lábios novamente.
George explicou:
— É por isso que estou aqui! Exatamente por isso. Ele foi levado pelo Caminhante e não vai estar aqui quando o dia virar. Então eu vim para ocupar o lugar dele. Assim, ganharemos mais um dia para resgatá-lo!
O Oficial esbravejou:
— Conversa fiada!
George respondeu prontamente:
— Não é conversa fiada, não! Eu vou conseguir!
O Oficial inclinou a frente do capacete metálico para baixo e coçou a nuca de tanto espanto.
— Você vai mesmo ocupar o lugar dele?
— Sim — afirmou George.
E quando disse isso, sentiu algo se deslocar em seu braço. Era como se a pele estivesse se dividindo, rasgando. Ele segurou o braço dolorido com o bom. Ao fazer isso, o chicote caiu aos seus pés.
O Oficial pareceu deixar a frieza de lado ao fazer uma pergunta bem direta a George:
— O que há de errado, menino?
— Meu braço — George respondeu ofegante, com os dentes cerrados.
O Oficial viu as horas, fez o característico barulho horroroso ao passar a língua nos dentes e, preocupado, ajoelhou-se, dizendo:
— Depressa, rapaz. Quero ver.
George estendeu o braço. O Oficial, com surpreendente delicadeza, o virou, deixando escapar outra interjeição que denotava desaprovação ao ver a cicatriz da Marca do Fazedor e as três linhas serpeando até desaparecerem no punho.
— Certo. Tire a jaqueta e fique firme.
Ele ajudou George a tirar o braço da jaqueta dupla que estava usando e arregaçou totalmente a manga da camisa para ver o braço desde o ombro até o pulso.
— Não há muito de você sob essas camadas — disse irritado, puxando o braço de George para ver melhor. — Ainda assim, você é muito valente, sem dúvida! Você carrega a marca do Caminho Tortuoso.
George olhou com horror para o braço. Uma das deformações, a de mármore, tinha subitamente passado pelo cotovelo e alcançado o bíceps, de forma que a fissura estava agora perigosamente próxima à axila. As outras duas ainda estavam se enroscando abaixo do cotovelo.
O Oficial perguntou:
— O maior acabou de acontecer?
George assentiu, mordendo o lábio, não confiando em si mesmo para falar com serenidade.
O Oficial bateu na veia mais forte. O som do bronze batendo no mármore deixou George enjoado. Era como se alguém estivesse batendo diretamente em seus ossos. O Oficial puxou a manga de volta para baixo, escondendo o braço. Quando voltou a falar, foi direto ao assunto, e sua aparente irritação tinha desaparecido:
— Certo. Cubra-se e vista a jaqueta o mais rápido que puder. Você está certo, tem mesmo que ficar no pedestal agora, não há dúvida.
George encolheu os ombros para colocar o casaco, atrapalhando-se um pouco na hora de fechar os botões. Ao terminar de se vestir, sentiu-se feliz por não estar mais vendo seu braço desfigurado pelas veias de pedra e metal.
Ele perguntou:
— O que ...?
— O que o quê? — quis saber o Oficial, cujos olhos inspecionavam a rua na frente deles.
— O que o fez mudar de ideia? — indagou George, apressadamente.
O Oficial olhou em seus olhos. Em seguida, inclinou-se, pegou o chicote e o colocou na mão de George.
— Porque se você não ficar no pedestal do Artilheiro, essa rachadura vai se alastrar até espetar seu coração, e você vai morrer — o Oficial sorriu, como se estivesse tentando amenizar o que dissera. — Mas não se desespere. Nem tudo está perdido. Você toma o lugar do Artilheiro, como você disse que iria fazer, fica em pé até poder descer e pronto.
George entendeu o que o Oficial estava dizendo e, de repente, percebeu que sua boca tinha secado.
— Quer dizer que esta é uma das provas, um dos duelos? Mas como isso é possível, só por eu estar aqui à meia-noite?
Ele sentiu um súbito banho de alívio.
— Puxa, isso é brilhante! Quer dizer, isso é ótimo. Basta ficar aqui? Isso é fácil, certo?
— Não é como parece. Há um pouco mais do que isso, filho.
O Oficial deu um tapinha encorajador no ombro de George e o empurrou suavemente para o pedestal do Artilheiro. George não gostou do sorriso dele. Era o tipo de sorriso que seus pais mostravam quando o empurravam para o consultório do dentista, sabendo que algo doloroso, ou até pior, ia acontecer.
George perguntou:
— O que mais? Por favor, o que vai acontecer exatamente?
O Oficial gesticulou para os relevos que mostravam torturas em torno do monumento.
— Receio que tudo isso. Carnificina, massacre, medo gritante, perda de bons homens e de cavalos. É o que enfrentamos e revivemos todas as noites. É o que somos e o que nos lembra do motivo de estarmos aqui. É o propósito do Fazedor.
Ele limpou a garganta como se houvesse muito mais coisas que gostaria de dizer sobre o Fazedor e seu propósito, mas deteve-se.
George foi tomado pelo desespero.
— Mas não pode ser tão ruim assim... Você sabe que vai sobreviver, certo? Você passa por isso todas as noites, não é...?
— Não funciona bem assim, meu jovem — o Oficial sacudiu a cabeça. — Não é nada disso. Nós não revivemos a guerra como estátuas. Nós a revivemos como os homens que fomos feitos para representar. E enquanto estamos revivendo a guerra, tudo é real. Não sabemos o que acontece todas as noites. Nenhum de nós sabe. Nem mesmo ele, pobre coitado... — acenou para o soldado morto com o rosto coberto na parte de trás do monumento.
— Quem é ele? — George quis saber.
— Depende de quem pergunta — respondeu, consultando o relógio. — Ele é quem as pessoas querem que ele seja. Ele é o Soldado Desconhecido. É por isso que seu rosto está coberto, para que possa representar o ente querido de alguém. É realmente uma boa ideia. Jagger, o homem que nos criou, sabia uma coisa ou outra sobre perdas. Ele também foi um soldado, veja só! E agora, você está prestes a também se tornar um. Quer dizer, você está mesmo disposto a seguir adiante?
A maneira como o Oficial fez a pergunta parecia dar a George a oportunidade de escolher.
— Sim, estou decidido. Vou substituir o Artilheiro.
Ele estava fazendo isso por uma série de razões, mas, no final das contas, tudo se resumia a uma única coisa: se não cumprisse aquela tarefa de honra se sentiria um covarde para sempre.
O Oficial concordou.
— Bom homem. Seja forte. Enrijeça os músculos e tudo mais...
Deu um tapa mais firme no ombro de George.
— Faça isso por você mesmo. Pelo Artilheiro. Por quem mais quiser, mas faça. Não desça desse maldito pedestal. Você vai ser tentado a desistir. Se ainda acredita em alguma coisa, ore.
— Orar? — indagou George com a voz trêmula, apertando o chicote. — Por quê?
O Oficial consultou o relógio, pegou o sobretudo e tratou de voltar para o seu próprio pedestal. Endireitou o sobretudo sobre o braço e, em seguida, olhou para George e falou, antes de desaparecer na pedra:
— Porque na próxima hora, filho, você vai estar bem no meio do inferno.