Mão de Ferro
Três desafios e uma traição
30
EDIE RECUPEROU O CONTROLE das pernas, mas continuou sentada no chão do pub, tentando assimilar o que tinha acontecido. Vivenciar a Blitz, o mais intenso bombardeio alemão contra Londres durante a Segunda Guerra Mundial, era bem diferente da dor aguda que sentia quando lembrava do passado.
Lembrar do passado não era tão doloroso como presenciá-lo. Quando os flashes de memória vinham, ela sentia uma mistura incontrolável de náusea e pavor, mas não passava disso. O que tinha vivenciado havia poucos minutos a fizera sentir coisas bem mais fortes. Ela tentou tirar da cabeça a imagem da mão surgindo debaixo de um veículo tombado, esta era só uma dentre várias lembranças desagradáveis que ficavam a ressurgir com insistência.
O Frade a observava do bar enquanto recuperava o fôlego. Ele empurrou o casaco de George para um dos lados e levantou o corpo imenso para cima do balcão, apoiando-se. As sandálias pendiam em suas mãos. Parecia estar nas margens de um rio, pronto para mergulhar.
Ele disse, quebrando o silêncio:
— E a segunda pergunta? — indagou com um tom de voz meloso e solícito.
— A segunda pergunta? — Edie parecia confusa.
— Além dos espelhos e da forma como funcionam, você disse ter uma segunda pergunta.
Sim, ela tinha perguntado aquilo havia alguns minutos, porém, devido à confusão recente, era como se ela tivesse feito a pergunta em outra vida.
Balançou a cabeça para tentar clarear as ideias.
— Sim. Certo. O Caminho Tortuoso. Você disse que se George não realizasse o sacrifício ao colocar a cabeça quebrada sobre a Pedra, teria de escolher o Caminho Tortuoso.
— De fato — ele esbravejou, tornando toda a sua presunção visível no rosto gordo.
Uma ponta de irritação percorreu o corpo de Edie. Ela continuou:
— O que seria exatamente o Caminho Tortuoso? Foi por causa disso que ele desapareceu sem deixar vestígio?
O Frade rodopiou o casaco de George sobre o balcão do bar. Em seguida, pendurou-o cuidadosamente em uma das torneiras da chopeira.
— Talvez.
Após sobreviver ao que parecia ser o fim do mundo, Edie não se mostrava inclinada a aceitar um mero “talvez”.
— Preciso que me conte um pouco mais. Por favor!
O “por favor” quase ficou preso em sua garganta, mas ela conseguiu dizê-lo com um sorriso forçado, na tentativa de fazer com que o clima entre eles melhorasse. E funcionou.
Inesperadamente, ele acabou contando a ela um pouco mais.
— O garoto precisa permanecer e lutar os três duelos, cada um num lugar diferente: acima ou abaixo da terra, no ar ou na água. Isso faz parte dos rituais esquecidos de Londres, mas que nem por isso deixam de ter um significado importante para a cidade — ele sorriu e continuou. — Afinal de contas, minha querida, quem se lembra da pedra angular? A primeira a ser assentada debaixo de uma catedral ou igreja? Não, ninguém lembra, mas elas estão lá. Mesmo que esquecidas, devemos lembrar que toda a estrutura dessas construções viria abaixo sem elas.
Edie disse:
— Então quer dizer que esse ritual é como uma tradição?
— Na verdade, não. Tradição é como votar no grupo mais obscuro de pessoas, ou seja, em seus ancestrais. Em outras palavras, a tradição é meramente a democracia dos mortos. O ritual do qual falei é algo diferente, ele é parte viva de toda a trama que cerca a cidade. Não há nada de morto nisso. George precisa vencer os três duelos para conquistar um lugar de respeito.
— E se ele não duelar?
As sobrancelhas dele se elevaram e baixaram lentamente refletindo uma onda de indignação.
— Ele não tem escolha. Recusar um duelo é fracassar. E fracassar significa tornar-se um servo da Pedra e escravo dos seus poderes por toda a eternidade.
Ela pensou cuidadosamente.
— Então isso é ruim.
— Exatamente. Isso, como você observou de modo perspicaz, é ruim. Muito ruim.
— Mas se ele não sabe disso, se ele não sabe que escolher o Caminho Tortuoso significa participar dos três duelos, alguém tem que falar pra ele e ajudá-lo.
— Então você precisa encontrá-lo e contar isso a ele.
— Mas como vou saber onde ele está?
— Procurando.
Ela engasgou de frustração pela enormidade da tarefa que ele estava propondo.
— Nesta cidade? É como procurar uma agulha num palheiro!
— Então, não perca tempo...
Ele dobrou o polegar e depois o lançou em direção à porta atrás dele.
— Vá. O primeiro passo para se encontrar uma agulha num palheiro é começar imediatamente.
Ela não se moveu.
— Você vai me ajudar?
— Foi o que eu acabei de fazer.
Ela pediu novamente:
— Ajude-me a encontrar George.
— Por que deveria?
— Porque você é um cuspido.
A expressão dele permaneceu a mesma.
Ela continuou:
— Certo, então por que você não é um estigma?
Parece que a pele moveu-se sob seus olhos, e ela teve certeza que foi pura irritação. Ele soltou um breve suspiro.
— A ausência de hostilidade não significa presença de benevolência, minha querida. Também pode significar indiferença.
— Mas por quê?
Ele olhou por cima do ombro dela.
— Por que, ela pergunta, por quê?
Houve um breve e agudo “não” de descrença por trás dela. Pequena Tragédia insinuava que Edie devia ser burra por não compreender a mudança de tática repentina e inexplicável do Frade.
— Não entendo — ela disse, odiando o tom melancólico que surgiu espontaneamente em sua voz. — Não entendo essa atitude. Por que vocês não querem me ajudar?
O Frade deliberadamente puxou o casaco de George da chopeira, e depois deixou que caísse sobre o balcão produzindo um som distinto e chamativo.
Pequena Tragédia saiu rapidamente das sombras e colocou a mão no bolso. Em um instante, puxou a cabeça do dragão, como se fosse um mágico retirando um coelho da cartola, os olhos arregalados como os faróis acesos de um carro.
— Ooooh! — disse. — Vejam! É o dragão do pequeno George. Caramba!
— Vou lhe cegar, seu patife, se você não ficar no seu canto — ralhou o Frade, arrancando a escultura das mãos dele. — Lhe cegaria nesse instante se o meu coração não estivesse deploravelmente amolecido.
“Deploravelmente amolecido” seriam as últimas palavras que Edie usaria para descrever a expressão no rosto da estátua à medida que os olhos dele se prenderam aos dela.
— Por quê? Porque que o menino não confiou em mim, e nem você. E a confiança, minha cara, é uma via de mão dupla. Agora não tem volta. Eu não tolero mentiras.
Ele a encarou com tanta intensidade, que a fez desviar o olhar. Edie desejou que ele voltasse a ser o Frade que a salvara da morte certa e que a protegera durante a Blitz. Mas aquele Frade já não existia. Ela percebeu tarde demais que nem sequer tinha agradecido por ele ter salvo sua vida.
— Sinto muito, eu deveria ter...
Houve uma batida na janela que interrompeu a conversa. Os dois se viraram para olhar. Três figuras apareceram delineadas na noite. Duas delas tinham os narizes pressionados contra o vidro congelado, tão perto que era possível ver que seus olhos eram semelhantes aos de um corvo. A outra figura estava mais atrás, era alta e parecia estar vestindo um capuz.
— O Contador! — gritou Pequena Tragédia. Num segundo, o Frade deslizou para fora do bar, pousando no chão com um baque sinistro. Ele colocou a cabeça do dragão no bolso do casaco de George, e em seguida, caminhou até a porta.
— Mantenha a cabeça escondida — sussurrou para Edie.
Edie sentiu que Pequena Tragédia queria dizer alguma coisa.
— Vamos, fagulhinha. Hora de irmos para outro lugar.
Ela permitiu que Pequena Tragédia a puxasse de volta para as sombras atrás do arco. De lá, eles podiam ver claramente o enorme corpo do Frade bloqueando a porta à medida que a abriu. Ele permaneceu lá, como um obstáculo, sussurrando fervorosamente com alguém do lado de fora.
O sangue de Edie gelou, de uma maneira que ela já tinha ouvido falar, mas nunca sentido.
Se a figura do lado de fora era de quem ela temia ser: o homem que tinha enviado o Minotauro atrás dela, o homem que tinha friamente ameaçado cortar sua barriga e derramar suas entranhas pelo chão como um saco de ervilhas — pior ainda, se era quem ela viu afogar a menina no buraco gélido no Carnaval no Gelo — então seu sangue tinha todos os motivos para ficar gelado nas veias.
Porque se fosse o Caminhante, a morte era iminente.