Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 3 de 57

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Mão de Ferro

A queda na escuridão

1

 

O CAMINHANTE E O ARTILHEIRO foram arremessados em uma escuridão abismal. Mesmo não havendo a possibilidade de enxergar, o Artilheiro sentia que estavam atravessando sucessões de camadas, pois o escuro parecia mostrar uma escuridão ainda mais profunda à medida que eles desciam.

Então, o horrível movimento em direção ao vazio parou de forma abrupta, assim que atingiram algo sólido.

Os joelhos do Artilheiro se encolheram no cascalho molhado, a mão que estava livre instintivamente foi aberta para apoiar a queda, causando um choque em seu braço quando este bateu contra a parede de pedra à sua frente. Ele segurou-se, com a cabeça baixa, fazendo um ângulo entre a parede e o chão, ofegante. Sentia que algo estava errado, muito errado. Era como se alguma mão invisível tivesse atingido sua essência e arrancado a verdade de tudo, deixando-o naquela escuridão, deformado e quebrado.

Dava para ouvir o ruído do cascalho ao lado dele quando o Caminhante mexia os pés. Usando suas últimas forças, golpeou o ar escuro com a mão, mas seus dedos só alcançaram o nada.

Abriu a boca num grito de dor por causa do esforço, instantaneamente fechando-a para cortar o som que quase escapou. Não, não iria dar ao Caminhante o prazer de saber que ele estava sofrendo.

E então a luz voltou a brilhar.

A primeira coisa que viu foi o seu capacete de lata virado para cima, caído no meio das pedras, em frente às suas grossas botas militares. Depois, viu um protetor de panturrilha na forma de um pedaço de armadura antiga. Em um soldado de verdade a calça teria sido feita de couro, mas naquele caso, como obviamente tratava-se de uma estátua, era feita de bronze, como todo o resto. Sua panturrilha esquerda estava sem armadura, mas bem presa com bandagens de ataduras. Acima das ataduras estavam as mãos, seus dedos fortes e ásperos se apoiavam nos joelhos.

Pegou o capacete, ajeitou-se, alisou a frente do uniforme e ajustou a capa ao redor dos ombros. Não era uma capa de verdade, e sim a lona de uma tenda individual, dessas de acampamento militar, que ficava amarrada com um pedaço de corda pelos dois buracos das alças e servia para protegê-lo do mau tempo. Colocou o capacete sobre a cabeça e então se levantou, forçando cada centímetro do veterano cansado de batalhas da Primeira Guerra Mundial para o qual tinha sido esculpido.

E então a boca, apesar das melhores intenções, abriu-se novamente diante do choque.

Eles estavam dentro de um tanque aquático subterrâneo. Imenso e antigo. Os pés pisavam uma espécie de praia de cascalho em forma de meia-lua. O recinto formava um quadrilátero de água negra. Os blocos irregulares de pedra que revestiam as paredes do tanque estavam marcados com uma espécie de óleo pelo tempo e pelos fungos. Gotas do teto de pedra da câmara caíam em forma de círculos concêntricos na superfície escura abaixo.

Mas não eram as dimensões claustrofóbicas daquele lugar sem porta que faziam o Artilheiro ofegar surpreso.

Eram as luzes.

Luzes brilhavam vindas de pedaços de vidros que alguém tinha cuidadosamente arrumado em cada uma das paredes. Um disco de metal não muito grande girava de forma preguiçosa no final de uma corrente, esta que pendia no centro do espaço, fazendo a luz se espalhar devagar ao redor do cômodo.

— O que é isso?

A pergunta saiu como um resmungo da sua garganta antes que pudesse evitá-la. Ouviu uma respiração de desprezo e focou na figura esquelética de joelhos que estava sobre o cascalho. O Caminhante vestia um longo casaco verde de lã com um moletom de capuz por baixo. Ele tirou o capuz e correu os dedos pelos longos cabelos de mechas grisalhas. Ele usava um pequeno gorro bem atrás da cabeça e tinha um cavanhaque saliente emoldurando a boca retorcida num permanente sorriso de zombaria. Tinha em mãos dois pequenos espelhos circulares que ficavam juntos. O Artilheiro viu quando ele os guardou cuidadosamente no bolso do casaco. Depois, se inclinou e ergueu uma longa adaga da beira da praia de cascalho. Abriu um sorriso tímido e amargo enquanto se inclinava.

— Isso é o sonho dos quatro castelos — ele respondeu, indicando as formas de torres nas paredes que os cercavam. — É uma visão que tive, há muito tempo, quando era um homem livre. É uma visão que transformei em realidade. Não é nada que você possa entender.

Ele mudou a adaga de mão, cortando reflexos angulares da luz pelo cômodo, revelando mais dos limites do tanque subterrâneo.

— Esse lugar era só um vazio, e a escuridão era tudo que ele continha, até que eu apareci. Agora é um lugar de poder. Do meu poder.

O Artilheiro sentiu-se pressionado pela enorme pressão da terra sobre ele. Era como se estivesse perdido, desaparecido entre as entranhas da terra, trancado debaixo de uma montanha. Mas não daria o braço a torcer, não deixaria que o Caminhante percebesse seu desconforto.

— Onde estamos? Onde é isso?

O Caminhante deu um lento rodopio, enviando os raios de luz da adaga que eram refletidos nos limites escuros da câmara. Respondeu:

— Estamos em Londres. Uma cidade que você só verá de novo em suas lembranças.

O Artilheiro teria erguido o punho em riste para o Caminhante, mas a sensação de que algo estava errado dentro dele parecia ter liquidado suas forças. Mesmo ficar de pé era algo que precisava de toda a sua energia. Ele tinha que entender aquela situação. Estava em um lugar onde ninguém mais havia estado, sentindo algo que nunca havia sentido. Mais tarde poderia tentar derrotar o Caminhante no momento em que este se tornasse um alvo fácil. Fugir ou sobreviver ao que estava acontecendo certamente exigiria mais do que cerrar os punhos.

— Fale de forma clara.

— É aqui que você vai ficar. Para sempre, receio. Quando eu sair, o lugar vai comigo.

O Caminhante olhou para o Artilheiro sentindo uma ponta de prazer.

— Você sente, não sente? Por dentro... O vazio, o horror crescente, a perda da força, a sensação de não ser senhor de si.

O Artilheiro forçou a postura ereta e respondeu:

— Não se preocupe comigo. Estou firme como um tripé.

— Ah, temo que não. Você quebrou o juramento que fez a mim. Você jurou pelo seu Criador. Você tem que fazer o que eu disser. Não pode fugir disso.

— Isso não vai acontecer — retrucou o Artilheiro de forma incisiva.

— Ah, vai sim. Você é um homem orgulhoso. Não vou ofendê-lo ameaçando-o como um lacaio. Afinal de contas, tudo o que exijo de você é que morra. E tudo que tenho que fazer para que esse final feliz aconteça é proibi-lo de sair daqui. E realmente ordeno que não tente escapar na direção da luz e do ar fresco. Simples, não? Uma instrução e você está condenado. À meia-noite, sua essência vai se esvair e aquilo que dá vida a você morrerá. No fim, não passarás de restos a serem fundidos.

Os olhos do Caminhante brilhavam com o excesso de malícia.

— Ainda se sente senhor de si?

O Artilheiro tentou erguer as mãos, mas seus braços não conseguiam se mover. Balançou a cabeça de forma negativa, sentindo-se frustrado.

— Sinto que eu devia fazer você engolir esses pedaços de espelho. É isso que eu sinto!

Moveu-se na direção do Caminhante, mas estava lento demais, ao que o outro desviou-se facilmente do seu alcance. O Artilheiro chocou-se de volta à parede, horrorizado ao ver como havia se tornado fraco, e ao recostar-se na parede para evitar a queda, acabou deslocando um pedaço de vidro brilhante.

A peça caiu aos seus pés e ele ficou a encará-la: sua superfície opaca, seus limites redondos e retorcidos. E, enquanto observava, sua memória disparou como num reflexo, e ele viu uma peça similar de vidro retorcido na mão de Edie. Lembrou-se da primeira vez que a viu sorrir, como se fosse a luz do sol penetrando de forma limpa no rosto dela, e ele reviveu a surpresa que sentiu ao perceber que tudo que tinha sido necessário para iluminar aquela lâmina foi sorrir para ela e chamá-la pelo nome verdadeiro. Ele lembrou com muita clareza de como aquela percepção fez com que ele subitamente se sentisse protetor em relação àquela garota estranha e aparentemente dura como pedra. O surgimento dessa proteção paternal colidiu com uma terrível revelação que lentamente se espalhou por sua mente como uma mancha negra e fez com que algo mudasse de forma desconfortável dentro dele.

Ele se inclinou e apertou o cristal marinho entre o polegar e o indicador.

— Essas são pedras do coração.

Ele ouviu uma risada seca e desanimada e olhou para ver o sorriso amargo do Caminhante.

O Artilheiro ouviu o horror em sua própria voz quando a pergunta saiu de forma espontânea de sua boca:

— O que você fez, Caminhante?

A figura esquelética acima dele continuou sorrindo como um lobo que mostra os dentes.

— As fagulhas, Caminhante. Que diabos você está fazendo com elas?