Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 27 de 57

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Mão de Ferro

A última vítima do tyburn

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NO ESCURO, NO FRIO E NA ausência de esperança, o Artilheiro seguiu adiante.

À medida que cavava, o barulho da escavação e dispersão foi somado a um novo som — um respingo oco. Ele havia cavado tão fundo pelo cascalho que seu corpo estava abaixo do nível da água no tanque. Uma de suas pernas dobrava e esticava enquanto ele cavava, sua cintura afundada em um buraco rodeado de cascalho de sua própria escavação.

O cansaço que ele sentia era real — o cansaço do trabalho duro — não o sentimento errado que tinha sido cultivado dentro dele na ausência de uma distração. Ocorreu-lhe que se tivesse focado todo esse sentimento na tentativa de cavar para cima, já teria alcançado a superfície.

Ele disse em voz alta:

— A casa poderia ter vindo abaixo.

O som repentino da própria voz ecoando naquela câmara fez com que ele hesitasse. E sua hesitação aumentou ainda mais, quando sentiu algo se movendo em torno dos tornozelos. Era a água que se movia — o fantasma de uma corrente, suave, mas definitivamente presente.

O Artilheiro não sabia, mas a corrente que estava sentindo era do Tyburn — um dos rios perdidos da cidade, que dera o seu nome ao lugar em que os criminosos de Londres costumavam ser enforcados — e agora estava exercendo sua atração obscura sobre os tornozelos dele. O Artilheiro também não sabia que estava em águas medievais perdidas abaixo de Marylebone. Sua única certeza era que a água em movimento significava um fluxo, um canal que fluía para baixo; em outras palavras, uma oportunidade de escapar daquele buraco de rato.

Se ele fosse um soldado do tipo reflexivo, teria dito que a maneira ideal de morrer era em casa, na cama, cercado pelos bisnetos. Mas já que isso não era uma opção, pensou que lutar para viver era melhor do que morrer cercado por cascalhos.

Ele dobrou os esforços, e quando se inclinou, a velocidade dos movimentos derrubou seu capacete na água com grande violência. Ele levou um momento para perceber o que tinha acontecido e recuperar o capacete. E quando o fez, percebeu o óbvio.

— Devo estar ficando burro — murmurou, e começou a cavar com o capacete. Agora, ele estava realmente fazendo progresso. O buraco ficava cada vez mais fundo, e ele já era capaz de sentir o topo de um arco imerso. Enquanto cavava, se perguntou por que o buraco tinha ficado bloqueado.

Algo tinha bloqueado o tubo de saída do tanque, e quando seu capacete subitamente derrapou para o lado, ele descobriu o motivo. Inicialmente, acreditou que fosse uma raiz de árvore. Mas, ao sentir aquilo melhor, teve uma súbita e horrível sensação. Continuou tateando na água, e então sua mão ficou enroscada em cabelos.

O Artilheiro cuidadosamente recuou e sacudiu as mãos, até que ficassem secas, antes de acender um de seus fósforos preciosos.

Mesmo com a chama refletida na superfície da água, ele pôde ver com clareza dois olhos arregalados presos ao crânio de uma mulher. Ele sabia que era uma mulher porque havia uma mecha longa de cabelo, escura como berinjela, pendurada em um dos lados do crânio e também um anel de ouro brilhando em um dos dedos, próximo a um objeto pequeno. Sua certeza inicial deu lugar a uma constatação que o assombrou: aquele não era o esqueleto de uma mulher. O pequeno objeto era um rosto esculpido em algum tipo de madeira. Tratava-se de uma boneca.

O corpo não era de uma mulher, mas de uma menina.

E ele sabia, com toda certeza, que a menina era uma fagulha, uma das vítimas do Caminhante, possivelmente a primeira.

A visão daquela pequena mão junto à sua boneca, mexeu com o Artilheiro. Ele sentiu uma raiva assassina.

— Certo, seu maldito. Destino ou não, não vou morrer aqui hoje à noite. Você ainda me paga!

E então acendeu outro fósforo e olhou nos olhos do pequeno esqueleto. Não viu nada grudento nos ossos ou fragmentos de carne, nem mesmo restos das roupas. Viu apenas uma menininha que morrera segurando sua boneca, buscando um conforto que nunca chegara. Ele imaginou todos os soluços que tinham enchido aquela câmara de pedra antes que ela descansasse em paz.

Sua mandíbula fechou, trêmula.

É claro que uma estátua não pode chorar. Portanto, quando ele começou a mover o esqueleto gentilmente para o banco de cascalho, deve ter sido a água respingada pela escavação que desceu do seu rosto e caiu no Tyburn abaixo. Apesar da crescente falta de jeito em suas mãos cansadas, o Artilheiro conseguiu, na maior parte do tempo, ser tão delicado quanto um pai ao colocar o filho na cama.

— Perdão, meu amor. Preciso movê-la. Mas apenas para ir atrás dele. Aquele maldito vai ter que se ver comigo. Vou encontrá-lo onde quer que ele esteja.