Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 19 de 57

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Mão de Ferro

A ascensão de ariel

17

 

GEORGE MERGULHOU EM DIREÇÃO ao chão, sustentado de forma firme pela garota dourada. Ele teve certeza de que iria morrer. Um segundo e sua cabeça se chocaria contra a calçada. Então o Artilheiro não teria mais qualquer chance, e Edie nunca saberia que ele não a abandonara por vontade própria, e sua mãe nunca viria a saber o quanto ele...

Esticou as mãos por reflexo, como se pudesse evitar o impacto, foi aí que duas coisas aconteceram de uma só vez: a garota deu um tapa nas mãos dele, para colocá-las para baixo, para isso usou o braço que não estava envolvendo o peito dele...

E desceu com tudo.

Não havia outra forma de descrever aquilo. No último instante antes de se esborracharem no chão, ela desafiou todas as leis da aerodinâmica e nivelou o mergulho, acrobaticamente descendo para a esquerda num ângulo de noventa graus em rotação para que, em vez de se chocarem contra as pedras da calçada, voassem sobre elas numa altitude de meio metro.

— Mantenha os braços fechados ou vai se machucar — ela disse com calma. George apenas encarava a calçada passando bem perto de seu nariz, acostumando-se com o fato de continuar vivo.

Ele concordou com a cabeça, e então cometeu o erro de olhar para frente. O que viu fez seu sangue congelar.

Estavam voando em direção a um trecho muito movimentado. Movimentado demais. Ônibus e caminhões apressavam-se nas duas direções da rua, e a garota parecia estar atrasada para atravessar — subitamente, parecia tarde demais, se é que ela tinha esperança de ganhar altitude e sobrevoar os veículos que passavam ali.

Um enorme caminhão lançou-se violentamente da esquerda, ameaçando uma colisão: perto demais para ser evitado ou desviado. George mais uma vez acreditou que ia morrer, nem fechou o olhos. E então ele desejou estar morto ao perceber a manobra que a garota começou a executar: em vez de bater no caminhão, ela passou por baixo dele, por entre as rodas em movimento.

O riso divertido dela chegou ao ouvido dele. Ela inclinou-se para esquerda e depois para cima. George parou de se sentir aterrorizado e percebeu que sua boca não estava tremendo, mas sorrindo.

E a razão era a seguinte: ela voava.

Como tinha dito que faria.

E quando ela voava, ela realmente voava.

A Bica, em comparação, não voava de verdade. A Bica o arrastava dolorosamente pelo céu, lutando contra o vento de forma desengonçada, espremendo George debaixo de suas asas enquanto ele esperava com desespero pela próxima turbulência. A Bica se lançava ao céu para uma constante batalha contra o ar e a força da gravidade. Aquela garota não brigava com o ar. Ela voava nele como se fizesse parte dele.

George percebeu que era por isso que ela ria. Porque adorava a simples liberdade e a alegria de voar.

Como se pudesse ler os pensamentos dele, ela voou em zigue-zague por três postes de luz e depois entrou em um túnel estreito, que rapidamente se abriu para uma pequena praça em frente a uma antiga igreja de pedra. Ela cortou um arco largo pelo lado direito do edifício na altura de uma gárgula, perto o suficiente para George ver, com alívio, que as únicas gárgulas daquela igreja eram cabeças medievais grotescas fazendo caretas.

Depois, ela iniciou um voo em círculos, descendo para a calçada de um saliente arranha-céu de design moderno, que contrastava com o aspecto velho da igreja perto dele.

A garota soltou George suavemente e deu um passo para trás, correndo os dedos pelos cabelos para arrumar a bagunça que o vento causara em seus cachos. Os dois estavam exaustos e foi preciso um tempo até que recuperassem o fôlego. Ao fazerem isso ele percebeu que os olhos dela brilhavam de alegria.

— Garanto que a gárgula nos perdeu de vista — ela disse.

Ele olhou para cima e ficou satisfeito por não ver sinal algum da Bica. Ele concordou com a cabeça e disse:

— Obrigado.

— O prazer foi meu, garoto — ela sorriu.

— Meu nome é George — ele disse. E estendeu uma das mãos, pois não sabia o que fazer, e dar a mão sempre parecia ser parte de uma boa apresentação. Ela olhou para ele com estranheza. Em vez de cumprimentá-lo, virou a mão dele e a examinou. George viu que ela olhava para a cicatriz, a ferida do dragão, a sua Marca de Fazedor.

— Ah — ele disse. — Isto é...

— Eu sei o que é, garoto — ela riu, interrompendo-o. — Sendo eu também “feita”, como não saberia? — e devolveu a mão dele.

— Quem é você? — ele perguntou.

— Sou Ariel.

George concordou com a cabeça, sorrindo, depois olhou para cima. Tinha que manter a cautela e não esquecer do céu escuro, pois a Bica podia aparecer de súbito novamente.

— Se ela se aproximar, eu vou saber — Ariel disse. — Aquela criatura faz grandes buracos no céu ao se arrastar de forma desequilibrada por ele. Posso captar as vibrações, afinal de contas sou um espírito do ar.

Ao ouvir aquilo, George se lembrou quem Ariel era, pois sua escola tinha ido ver uma peça no parque fazia dois anos.

— Er, sem ofensa, mas eu achava que Ariel fosse um garoto.

Ela olhou para cima e depois para ele, com uma expressão que parecia estar metade magoada e metade com o orgulho ferido. Ele engoliu em seco e se apressou em tentar reverter o que dissera, antes que o insulto se consolidasse.

— Não, quer dizer, quando vi na escola. A peça. Foi lá que achei que Ariel era um garoto. Na peça, certo?

Ele estava balbuciando. Sabia que estava balbuciando. Definitivamente não estava melhorando nada.

— Eu pareço um garoto para você, garoto? — a voz dela era um tanto baixa e aveludada.

Era uma pergunta embaraçosa e ela a fez de um jeito intimidador. Mas não era apenas o tom de desaprovação que perturbava George. Não era apenas a sensação de que ela estava sempre à beira de um ataque de risos, embora isso também fosse irritante. Na verdade o que o desconcertava eram as roupas dela. O que ela usava parecia pedaços flutuantes de um material mais fino que tecido normal e cobriam um corpo esculpido com curvas perfeitas e dotado de grande flexibilidade.

— Não. Você não se parece nada... Com um garoto.

Ela o encarou por um longo e, como esperado, desconcertante momento. Um sorriso surgiu no canto da boca dela, enquanto um leve giro no estômago de George o avisou de que aquele riso era mais desconcertante do que as roupas.

— Não, nada parecida com um garoto. Nenhum garoto consegue fazer isso. — Ela falou. Em seguida esticou a mão e pegou na mão dele novamente, erguendo-o. O estômago dele agitou-se e seu braço quase saiu do lugar. Ela o levou mais para o alto e pôs um dos braços debaixo da axila dele, segurando-o. As costas dele se apertaram firmes quando ela voou, espiralando-se ao redor do arranha-céu encurvado.

Ele viu os prédios comerciais, andar por andar, enquanto subiam em círculos. Viu as mesas vazias e as telas brilhantes dos computadores; uma sala de conferência com homens e mulheres sentados ao redor de uma longa mesa; um homem de terno de cabeça para baixo contra a parede enquanto algumas mulheres de negócio riam e aplaudiam; viu andares vazios com faxineiros solitários puxando seus carrinhos pelo labirintos anônimos de cabines e divisórias. Após esse vislumbre do edifício, Ariel o guiou até um ponto de onde podiam ver a cidade inteira.

Ele viu o brilho do rio e os arranha-céus mais próximos, e depois os mais distantes a leste do Embarcadouro Canary. Ariel voava com leveza e determinação, dando a George uma sensação de segurança, porém ele não conseguia evitar algum medo quando se aproximavam muito de um prédio ou do chão. Era algo instintivo.

Ariel aumentou a velocidade do voo e George passou a ver as coisas como borrões. Ao chegarem perto do topo de um imenso edifício, ela fez o movimento de uma pirueta para descer e ele sentiu-se como um daqueles patinadores de gelo rodopiando com um só pé de patins, e fazendo movimentos tão rápidos, que deixavam a silhueta humana de lado para se transformar num turbilhão giratório.

— Por favor — ele disse engasgado, meio rindo e meio em pânico. — Por favor, Ariel. Vou cair...

O giro foi diminuindo em velocidade até parar. O cérebro de George iniciou seu processo de organização, deixando de seguir o rodopio do corpo.

Ariel pousou delicadamente na beira da laje do edifício e o soltou. Ele se agarrou em uma barra de metal presa ao prédio e segurou sofregamente.

— Não, não... — ele começou a dizer, mas ela já tinha feito.

Ela o soltara sem dó nem piedade, deixando-o indefeso no topo do mundo, um mundo brilhante de vidro e metal, que se curvava para longe dele de forma tão radical que não havia nada a ser visto além de quedas para qualquer parte que olhasse.

Ariel ficou na frente dele, rodopiou com um pé só e fez uma reverência, como se tivesse acabado de terminar uma apresentação excepcional. Olhou para ele cheia de expectativa: a bailarina principal esperando pelos aplausos.

— Eu não vou soltar essa barra para aplaudir você. Isso não vai acontecer mesmo! — ele explicou, decidindo que devido à precária posição em que estava, qualquer coisa diferente da completa franqueza seria suicídio. — Mas você tem razão. Garoto nenhum consegue voar assim. Foi impressionante.

— Impressionante? — ela perguntou.

Uma das sobrancelhas douradas elevou-se mais do que a outra.

Obviamente, impressionante não era a palavra certa.

— Brilhante. Maluco. Excelente.

As sobrancelhas dela voltaram à simetria original.

— Sim — ela disse. — Foi excelente.

— Sim — ele concordou, esperando que ela aceitasse o elogio e o colocasse de volta ao chão. A ideia de ser abandonado ali o deixava aterrorizado. Imaginou-se preso àquela barra, sozinho e condenado quando a noite caísse e a escuridão cobrisse a cidade. Ele sabia que, se aquilo acontecesse, era só uma questão de tempo até ele pegar no sono e se soltar do prédio.

Viu com grande alívio que Ariel estava sorrindo de forma triunfante. Ela olhou na direção oeste e apontou.

— Há um garoto que vive lá, um garoto infantil em um parque infantil que pensa que pode voar. Se algum dia você se encontrar com ele, ficarei eternamente grata se você puder repetir o que disse de tão bom grado agora. Especialmente a parte “excelente”. Ele é detestável, não passa de um arrogante e faladeiro. E ele voa com a graça de um rabanete arrancado.

— Rabanete arrancado. Entendi — ele disse, segurando-se na barra como se quisesse ficar colado a ela. — Você poderia, por favor, me colocar no chão agora?

— Por que quer descer tão depressa? — ela se alongou de forma lânguida, com uma das mãos de frente para a outra, entrelaçando os dedos num gesto de quem vai se espreguiçar. Os dedos do pé também se alongaram e ela disse: — Você pode ver tudo daqui.

— Eu sei — ele disse. — Só que não posso ver Edie, e nem o Artilheiro, e francamente...

Nessa hora ele deixou fluir toda a frustração de ser arrastado para cima e para baixo mais de uma vez, voando pela cidade toda que fervilhava e o sufocava.

— ... Francamente, estou cansado de tudo isso! Meus amigos estão com problemas, eles precisam de ajuda e eu preciso da ajuda deles, pois eles são minha responsabilidade, certo? Em vez de procurá-los, estou sendo carregado cada vez mais para longe de qualquer lugar em que possa encontrá-los. Então, por favor, Ariel, tenho que agir antes que seja tarde demais. O seu voo é o máximo, está bem? Mas o que eu realmente preciso saber é o seguinte: você pode me ajudar ou não?

Ele não sabia mais o que dizer e ficou olhando para ela. Ela observou os próprios dedos formarem uma borboleta enquanto se ajeitavam na lateral do corpo e então sorriu para ele.

— Claro — ela disse. — Ajudar a fazer o que é preciso. É por isso que vim para você.

Ele não sabia do que ela estava falando.

— Como?

— Nada de como. Eu já expliquei a você o que eu sou — disse, sorrindo.

— Um espírito do ar? — ele palpitou.

— Uma sacerdotisa do destino — disse, ofegante de alegria. Ela bateu no tornozelo dele, que se soltou da barra e toda aquela coisa de cair aconteceu de novo, só que dessa vez ele estava pronto para que ela o pegasse, o que, felizmente, ela fez.

— Há uma forma mais fácil de fazer isso — ele engasgou quando foram em direção ao ar num mergulho raso.

— Ah, mas você não pega o caminho fácil, não é, garoto? — ela riu quando eles voavam para baixo, cruzando uma rua em direção ao norte. — Você pega o Caminho Tortuoso.

A forma como Ariel disse aquilo fez George perceber que ela sabia de tudo. Seu estômago revirou mais do que na ocasião dos voos, e então ele ouviu um som que fez tudo ficar ainda pior.

Na frente dele, em algum lugar na escuridão, um sino tocou como se estivesse anunciando um funeral solene. George soube com absoluta certeza que aquilo era um sinal de aviso, e que o aviso era para ele.