Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 29 de 57

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Mão de Ferro

A blitz

26

 

QUANDO EDIE CAIU NO ESPELHO, não imaginou o que a esperava do outro lado.

Ela bateu no chão com um estrondo ensurdecedor. Rolou para o lado e, ao erguer os olhos, viu suas pernas viradas para cima, ao mesmo tempo em que sentiu a ponta afiada de um tijolo quebrado em suas costas. Havia barulho de pessoas correndo e de fogo a consumir algum material. O céu estava escuro e nele uma lua brilhante se destacava.

Alguns instantes após a queda, Edie deu-se conta de onde estava: ela caíra num mundo em plena destruição. Podia escutar explosões altíssimas, estrondos e gritos. Além dos gritos, havia o gemido alucinado de uma sirene, bem como um pulsar rítmico de motor, vindo do céu. Ela podia sentir os enormes baques na terra que faziam tudo tremer em intervalos regulares. Aquele era um nítido ataque aéreo.

Recusando-se a olhar para o elemento causador de todo aquele som horrível até que fosse obrigada a isso, Edie olhou para seus pés e viu que eles estavam sobre o degrau de entrada de uma loja. Havia fragmentos de tijolos e de vidros espalhados pelo chão. Ela olhou para o lado e viu um espelho no batente. Contemplou seu reflexo na superfície manchada e então, antes que pudesse ver se havia um espelho correspondente ali perto, houve um baque enorme que a derrubou de joelhos quando o chão retrocedeu e se entortou debaixo dela. Quando olhou para cima, atordoada com a violência do golpe invisível, a meio caminho de se levantar, viu algo que a impediu de realizar qualquer movimento. Ficou lá, com os joelhos no chão, os olhos arregalados e a boca aberta, olhando fixamente para o cenário infernal que se elevava sobre o outro lado da rua.

Era uma tempestade de fogo. E fora dela, longe do centro das chamas, aparecia a cúpula da catedral de São Paulo, envolta por uma grande quantidade de fumaça preta — porém intacta.

Edie sentia o rosto queimar devido ao calor insuportável e uma dor aguda tomava conta de seu ombro, o que ela machucara ao rolar entre os tijolos.

Diante dela se materializava a visão do fim do mundo, mas a fagulha sabia que aquilo não se tratava das visões a que estava acostumada. Porque ela não estava reluzindo...

Aquilo era real.

Suas visões de fagulha vinham em porções irregulares, nem sempre de forma contínua e todas sempre chegavam ao fim rapidamente. Nenhuma delas lhe deixava com pó de tijolo na boca nem com tamanha sensação de perigo.

— Ei! Você, menina, saia dessa rua sangrenta e desça para o abrigo!

A voz gritava para ela do outro lado da avenida. Ao se virar, Edie viu um homem de meia-idade vestindo um terno; ele carregava uma sacola de lona sobre um ombro e usava um capacete metálico parecido com o do Artilheiro, a diferença era que o capacete do Artilheiro não tinha a letra “W” pintada em branco na parte da frente. O homem, que usava um bigode bastante eriçado, estava bravo e acenava para ela com insistência.

— Siga naquela direção, até o fim. Você está tentando se matar ou...

O antigo prédio de tijolos atrás dele sacudiu como se tivesse sido atingido pelo punho de um gigante. O pobre soldado nunca completou o que diria após o “ou”, porque a frente do edifício caiu sobre ele em uma avalanche rápida e violenta.

Edie colocou a mão sobre a boca instintivamente, devido à nuvem de poeira que se espalhou no ar. Quando a poeira baixou, ela viu o capacete vazio deslizar devagarinho em sua direção. Ao bater em seus pés ela viu, de relance, que havia algo molhado dentro dele. Edie desviou o olhar, horrorizada.

Ela viu filetes de água sendo inutilmente jogados na direção das enormes labaredas de fogo, estas que se aproximavam perigosamente da catedral. Na base da construção, formando um paredão de combate, pequenos grupos de homens impunham mangueiras de incêndio. Bem lá em cima, luzes varriam o céu para frente e para trás, verificando a vinda de novas bombas. A imagem dos céus escuros cortados pelas luzes era semelhante à da destruição em terra firme, cortada pelos jatos de água que tentavam pôr um fim ao fogo.

Edie percebeu que apertava as mãos contra os ouvidos, na vã tentativa de não ouvir aquele ataque aéreo violento.

E então algo agarrou seu braço.

Ela se virou e viu o Frade. Seu rosto, normalmente alegre, estava tenso e preocupado.

— Venha — ele gritou no exato momento em que outro prédio desabava na próxima rua. — Temos que voltar aos espelhos. Você não quer morrer aqui, quer?

Pela primeira vez em sua vida, ela nem sequer pensou em discutir. Deixou que ele a arrastasse para a entrada da loja, onde, aliviada, viu dois espelhos frente a frente, cada um em um dos lados da vitrine de uma livraria. Era por ali que eles sairiam daquele pesadelo.

Tinham dado poucos passos quando o Frade parou bruscamente, como se tivesse pressentido algo. Edie questionou:

— Por que paramos?

Não precisou de resposta, ela ouviu, um instante antes do estrondo: um som sibilante vindo do céu caótico — incrivelmente perto, perto demais.

Outro puxão forte em seu braço. O Frade a segurou em posição protetora e, juntos, afastaram-se da livraria e da segurança contida em seus espelhos. Ele envolveu-a o mais que pôde.

E então a bomba explodiu.

Os pés de Edie perderam o contato com o chão. Ela só não caiu porque o Frade a abraçava muito forte. O próprio ar parecia socá-los com violência. Houve, de súbito, uma tempestade de granizo prateado que caía horizontalmente conforme as vitrines da loja explodiam uma atrás da outra. Não tivesse ela sido protegida pelas costas metálicas e muito curvadas do Frade, seu corpo teria se desfeito, restando apenas uma névoa vermelha que seria soprada ao longo da rua de paralelepípedos. Esfacelada a vitrine da livraria, seus produtos voaram para fora dela. Livros inteiros caíram na calçada e as páginas arrancadas dos volumes pela força da explosão pareciam formar uma tempestade de neve que girava como um redemoinho.

No segundo seguinte, o Frade se endireitou. Os dois puderam ver que estavam no meio de uma lenta nevasca de papel. Algumas páginas queimavam, outras não. As que escapavam das chamas subiam para o céu impulsionadas pelas ondas de calor.

O Frade atravessou a calçada em quatro passos ligeiros, golpeando o ar no meio da tempestade de páginas conforme caminhava. Ao ficarem de frente à livraria destruída, eles perceberam o pior.

Os espelhos não existiam mais; foram quebrados junto às pilastras pela mesma explosão que destruiu a vitrine da loja. Apesar do turbilhão de barulhos no entorno, Edie conseguiu ouvir o profundo lamento do Frade.

— Aqueles eram os espelhos — disse ela.

Ele continuou os resmungos.

— Eram a nossa única saída — ela prosseguiu, elevando a voz.

Ele olhou com curiosidade para o céu. Edie puxou seu manto para proteger-se. Cacos de vidro caíam do alto, atingindo o chão perto dos pés deles.

— O que vamos fazer agora?

O olhar do Frade parecia perdido. Ele ficou a observar a rua, em silêncio. Percebendo a insegurança dele, Edie ficou mais assustada do que já estava. Finalmente, ele olhou para baixo.

— Você consegue correr?

Ela observou a grande massa corporal dele e a barriga proeminente.

— Consegue?

Um sorriso fantasmagórico brilhou no rosto dele. Edie tentava decifrá-lo.

— Minha boa menina, quando minha sobrevivência depender disso, eu praticamente irei voar...

O Frade levantou seu manto acima do joelho com uma das mãos, e, com a outra, agarrou a mão da menina — e os dois correram. E mesmo que ela nunca admitisse o ocorrido mais tarde, o fato de ele ter segurado sua mão a retirou do estado atordoado em que ela se encontrava. E aí ela correu ao lado dele, tendo que se esforçar muito para conseguir acompanhá-lo. Afinal, cada passo dele equivalia a dois dos seus!

E os detalhes daquela corrida impetuosa em meio à tempestade de fogo e as bombas que caíam deixaram tudo turvo; e aconteceram com tal rapidez que, mais tarde, ela não conseguia lembrar-se exatamente do ocorrido. Momentos únicos pareciam ter lugar, sem relação um com o outro — um instante de visão e depois esta desaparecia.

Um táxi antigo com rodas raiadas explodiu na avenida bem na frente deles, ficando de cabeça para baixo entre as pilastras de uma janela do segundo andar de um prédio. Eles continuaram correndo. Em determinado momento, uma labareda de fogo reluziu de um beco, bloqueando a passagem. O Frade simplesmente a segurou pela mão e venceu mais esse obstáculo. Houve um ponto em que ela teve um flash do passado, em que viu a si mesma passando correndo por um ônibus de Londres, emparelhando-se com ele, e observou a escada helicoidal que levava ao andar superior que não tinha teto algum. Ela virou a cabeça antes que seu cérebro pudesse dar algum sentido ao casaco torcido e à mão que saía debaixo do lado do ônibus, entre o próprio ônibus e o asfalto.

Eles se abaixaram nas pistas estreitas entre paredes vertiginosamente altas, e em um ponto entraram num antigo cemitério de uma igreja que apareceu do nada no aglomerado de ruas. A menina registrou o barulho surdo de uma bomba explodindo nesse cemitério logo que eles saíram de lá. O Frade e ela viraram-se para ver algo semelhante a uma caixa longa a levantar-se para o céu e imediatamente voltar e bater na parede externa da igreja. Edie desviou o olhar antes que pudesse ver o que estava no caixão. E lembrou-se do Frade dizendo:

— Vão ter que enterrar essas pobres almas novamente pela manhã.

Continuaram correndo, cada vez mais, por ruas estranhamente vazias e tranquilas em um minuto, para, depois, se transformarem em ruínas em chamas. E foi somente quando viu o nome “Poça da Doca” pendurado na esquina de um prédio que ela percebeu aonde estavam indo.

E embora cansada, ela redobrou seu esforço. Eles acabaram por derrapar na esquina final e viram, acima deles, o Frade Preto na sacada de seu prédio. Ele não olhou para baixo para ver a si mesmo correndo — ou, se olhou, Edie não notou.

O Frade abriu a porta e eles caíram. Ela teve tempo de perceber que as janelas estavam fechadas com fita, antes que ele a puxasse para frente entre os dois arcos espelhados. Com a respiração ofegante, ele disse:

— Certo. Em casa, James, eu acho.

— James quem? — perguntou uma voz familiar vinda do quarto.

Ela tentou olhar, mas não conseguiu vê-lo. O que ela viu foi um cartaz que mostrava dois homens encostados no balcão de um bar, conversando. As garrafas de cerveja e inclusive as torneiras da cervejeira atrás deles apresentavam o rosto familiar de um homem — o cabelo com um corte quadrado, o bigode do tipo usado por Hitler. Na parte baixa, havia a inscrição “A Conversa Descuidada Custa Vidas”. Era um cartaz colorido e engraçado.

— Você está certo — Edie disse na escuridão, dirigindo a voz na direção para onde ela sabia que Pequena Tragédia estaria ouvindo:

— Eu gostei do cartaz.

O Frade bufou, puxou o braço da menina e eles foram caindo de volta para o espelho. Foi então que ela cambaleou e descobriu que o tapete sob seus pés era diferente, e que o mundo exterior não estava indo para o inferno; o mundo estava apenas se misturando silenciosamente ao tráfego para além das janelas — janelas que não estavam mais fechadas com fitas, pois não havia mais explosões. O Frade ponderou:

— Acho que isso explica os espelhos.

— Sim — Edie concordou, tentando fazer com que sua voz e pernas parassem de tremer. — Definitivamente não é para qualquer um. É bastante real.

Ela sentou-se, repentinamente, ali mesmo no chão.