Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 49 de 57

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Mão de Ferro

O desafio

46

 

— ELE ESTÁ ACORDANDO — disse a voz do Oficial.

George emergia lentamente da realidade como artilheiro para voltar a ser quem era. A volta era difícil e mesmo dolorosa. Ele usou de toda sua força para abrir os olhos.

Quando o fez, havia dois pares de botas de bronze bem na frente de seu nariz. Ele estava debaixo de um casaco pesado que, de alguma forma, era quente e suave como lã, ainda que feito do mesmo bronze que as botas.

Um par de botas de montaria pertencia ao Oficial. O outro par era mais pesado e mais artesanal, seus cadarços não combinavam com as polainas.

George conhecia aquelas botas.

Ele se arrastou até poder ficar sentado e olhou para cima.

O Artilheiro sorriu e disse:

— Olá!

George respondeu:

— Oi!

— Você está bem?

George pensou por um instante.

— Não muito.

— Bom o suficiente — resmungou o Artilheiro, agachando-se na frente do menino, olhos nos olhos. — Haveria algo de muito errado com você se estivesse se sentindo novo em folha depois de tudo o que fez.

Subitamente, George precisou soltar algo que crescia cada vez mais na garganta antes que morresse sufocado:

— Vi o meu pai.

O Artilheiro disse:

— É mesmo?

Depois de um momento, George apontou por cima do ombro para o corpo deitado na extremidade norte do monumento.

— É ele, não é? O Soldado Desconhecido. É por isso que seu rosto foi coberto, para que ele representasse o ser querido que cada pessoa perdeu. Então, você fez dele o seu pai...

George assentiu e forçou um sorriso. Não queria que os demais soubessem que a tristeza tinha tomado conta do seu coração. Ele não se sentia confortável para falar a respeito.

O Artilheiro continuou:

— Deve ter sido difícil.

Depois colocou a mão no ombro de George e desviou o olhar.

George respirou profundamente várias vezes, tentando banir a tristeza.

— Você precisa desabafar, filho. Ninguém aqui vai pensar mal de você.

Prestando muita atenção em George, o Oficial disse:

— O Artilheiro tem razão. Na verdade, nós aqui o respeitamos muito.

O Oficial tossiu envergonhado e baixou um pouco a voz:

— E por mais insignificante que pareça, chorei como um bebê o tempo todo durante o meu primeiro bombardeio...

Talvez porque lhe deram permissão, ou talvez porque o compreendiam, George não precisou desabafar. Engoliu o que tinha para falar. Não parecia mais ser algo tão terrível.

— Eu estou bem...

O Artilheiro virou-se e olhou para ele com uma sobrancelha levantada.

— Mas não inteiramente bem — George concluiu.

O Oficial disse:

— Olhe para o seu braço.

George tinha se esquecido do sulco que o mármore vinha abrindo em seu braço, em direção à axila e ao coração. Então rasgou sua camisa e olhou.

A deformação no braço tinha desaparecido, deixando apenas uma marca vermelha, bem fraca, como uma cicatriz a caminho da cura. Ele exclamou:

— Ela se foi!

O Oficial comentou sorrindo:

— Um duelo é um duelo, é o que sempre digo. Não importa quais sejam as armas: pistolas de duelo, floretes ou peças de artilharia grandes e pesadas como essa aqui...

Ele acenou para o enorme canhão de pedra no topo do monumento.

— E você foi muito bem, ficou firme e venceu. Agora restam dois.

George sorriu e sentiu as outras duas deformações ainda se retorcendo abaixo do antebraço: a pedra arenosa e o bronze liso.

— É isso aí — o Artilheiro sorriu e agarrou o ombro do menino. — Oh, e a propósito, obrigado!

Ele estendeu sua mão grande. E George estendeu a sua. O Artilheiro o cumprimentou com força.

— Salvou a minha pele, sem dúvida. E se você não se importa que eu diga, acho que o seu pai teria ficado orgulhoso de você.

— Com certeza — disse George.

E a verdade toda veio à tona, como se estivesse lá havia muito tempo. Nunca tinha sido notada provavelmente porque ele sempre tinha olhado na direção errada — por dar mais importância à tristeza. Talvez fosse da forma como o soldado que havia usado o rosto de seu pai dissera; talvez fosse como imaginar-se no centro de um palco, e em seguida perceber que, na verdade, estava à beira de algo muito maior. Fosse o que fosse, ele percebeu que uma dor muito grande tinha saído de seu coração, simplesmente porque ele tinha parado de se concentrar nela.

— Sim. Acho que teria ficado orgulhoso. Muito orgulhoso.

Era como se, por não chorar para fora, todas as lágrimas tivessem caído para dentro, lavando-o e limpando-o por completo. Sentia-se tranquilo.

Ágil, levantou-se em um único movimento.

Ele disse, resoluto:

— Edie. Precisamos encontrá-la.

O Artilheiro disse:

— Sem dúvida. O Caminhante está atrás dela e de você.

Então ele contou a George o que o Caminhante havia dito a ele sobre o Espelho Negro. George retribuiu contando tudo o que tinha acontecido com ele. E quando começou a falar sobre a Máfia de Euston, o Oficial bateu no ombro do Artilheiro e apontou para uma forma escura que deslizava a leste.

Os dois soldados pegaram suas armas e miraram o Corvo que se aproximava. George pegou seu martelo.

O Oficial disse:

— Tem algo no bico dele.

Calmo, o Corvo pousou na pedra branca bem à frente deles e gentilmente colocou os dois espelhos no chão. Em seguida, recuou. Não ousaria fazer movimentos rápidos, com dois revólveres apontados para ele.

O Oficial alertou:

— Há um bilhete amarrado nele.

O Artilheiro disse:

— O último par de espelhos como este que eu vi foi nas mãos do Caminhante.

George correu para pegar a mensagem. Era algo simples. Dizia:

“Entre nos espelhos e venha ao meu encontro. Sob a bandeira principal durante o

Carnaval no Gelo. Venha agora, ou a menina morre.”

O Artilheiro e o Oficial também leram a mensagem por sobre o ombro de George.

— Ele pode estar blefando.

O Oficial disse:

— Ele mente da mesma forma como nós respiramos.

George retrucou:

— Não. Ele não está mentindo.

Cuidadosamente, levantou o cordão que tinha sido usado para anexar a mensagem aos espelhos. O cordão não chegava a ser preto. Era uma cor escura, quase berinjela.

— É o cabelo de Edie.

O Artilheiro falou um palavrão em voz baixa. E depois apontou a arma para o Corvo.

O Corvo não se surpreendeu. Já sabia o que ia acontecer — as pessoas sempre atiravam nos mensageiros que lhes traziam más notícias.

O que o surpreendeu, no entanto, é que não foi uma bala no peito que o enviou para o inferno novamente. E sim uma lança, atirada com muita força e precisão em sua direção.

George, o Artilheiro e o Oficial viram a súbita explosão de penas pretas, e depois se viraram para a grama de onde a lança tinha vindo.

Havia uma carruagem estacionada, e uma Rainha impetuosa caminhando pelo gramado para resgatar sua arma.

Ela indagou:

— O que vocês estão olhando? Parece que temos uma garota para resgatar.

— Acho que damos conta dessa missão. Obrigado, senhora — disse o Oficial com firmeza.

George disse prontamente:

— Não, talvez não. Vamos levar toda a ajuda possível.

Ele retirou a lança da pilha de penas, que já estavam sendo espalhadas pelo ar da noite, e entregou-a para a Rainha.

— Obrigada, rapazinho. Agora, o que sugiro é que...

George a interrompeu sem hesitar:

— Você não sugere nada. Se quiser ajudar, escute bem, porque Edie me contou tudo o que precisamos saber. Ela reluziu uma mensagem antes que tudo terminasse mal...

A inconfundível autoridade de sua voz fez os cuspidos olharem para ele com espanto. A Rainha ficou inchada de tanta indignação.

— Ora, eu não vou...

— Oh, sim, você vai — interrompeu o Artilheiro. — Se você quer mesmo ajudar a menina, somente ouça. O menino sabe o que está falando.

A Rainha mordeu o lábio e ficou quieta. George rapidamente explicou a todos como Edie tinha feito o Carnaval no Gelo reluzir e visto a si mesma perseguida pelo Caminhante e afogada em um buraco no gelo. Ele contou-lhes todos os detalhes que se lembrava sobre o que Edie contara.

— E eu não tenho certeza se quem ela viu se afogando era ela mesma, e se era, não sei se conseguiremos mudar o passado. Tudo o que sei é o que ela viu. Vou entrar nesses espelhos e fazer tudo o que puder para impedir que aquele maluco faça algum mal a ela.

Houve um momento de silêncio.

— Qualquer ajuda é bem-vinda. Mas irei sozinho, se for preciso.

Virou-se e pegou o martelo de onde tinha deixado.

Os cuspidos olharam um para o outro. A rainha virou-se e estalou os dedos para as suas filhas, que estavam atrás dela.

Ela disse:

— Meninas, venham e segurem os espelhos. Teremos que tomar muito cuidado para fazer com que a carruagem passe ilesa.