Mão de Ferro
O desafio
46
— ELE ESTÁ ACORDANDO — disse a voz do Oficial.
George emergia lentamente da realidade como artilheiro para voltar a ser quem era. A volta era difícil e mesmo dolorosa. Ele usou de toda sua força para abrir os olhos.
Quando o fez, havia dois pares de botas de bronze bem na frente de seu nariz. Ele estava debaixo de um casaco pesado que, de alguma forma, era quente e suave como lã, ainda que feito do mesmo bronze que as botas.
Um par de botas de montaria pertencia ao Oficial. O outro par era mais pesado e mais artesanal, seus cadarços não combinavam com as polainas.
George conhecia aquelas botas.
Ele se arrastou até poder ficar sentado e olhou para cima.
O Artilheiro sorriu e disse:
— Olá!
George respondeu:
— Oi!
— Você está bem?
George pensou por um instante.
— Não muito.
— Bom o suficiente — resmungou o Artilheiro, agachando-se na frente do menino, olhos nos olhos. — Haveria algo de muito errado com você se estivesse se sentindo novo em folha depois de tudo o que fez.
Subitamente, George precisou soltar algo que crescia cada vez mais na garganta antes que morresse sufocado:
— Vi o meu pai.
O Artilheiro disse:
— É mesmo?
Depois de um momento, George apontou por cima do ombro para o corpo deitado na extremidade norte do monumento.
— É ele, não é? O Soldado Desconhecido. É por isso que seu rosto foi coberto, para que ele representasse o ser querido que cada pessoa perdeu. Então, você fez dele o seu pai...
George assentiu e forçou um sorriso. Não queria que os demais soubessem que a tristeza tinha tomado conta do seu coração. Ele não se sentia confortável para falar a respeito.
O Artilheiro continuou:
— Deve ter sido difícil.
Depois colocou a mão no ombro de George e desviou o olhar.
George respirou profundamente várias vezes, tentando banir a tristeza.
— Você precisa desabafar, filho. Ninguém aqui vai pensar mal de você.
Prestando muita atenção em George, o Oficial disse:
— O Artilheiro tem razão. Na verdade, nós aqui o respeitamos muito.
O Oficial tossiu envergonhado e baixou um pouco a voz:
— E por mais insignificante que pareça, chorei como um bebê o tempo todo durante o meu primeiro bombardeio...
Talvez porque lhe deram permissão, ou talvez porque o compreendiam, George não precisou desabafar. Engoliu o que tinha para falar. Não parecia mais ser algo tão terrível.
— Eu estou bem...
O Artilheiro virou-se e olhou para ele com uma sobrancelha levantada.
— Mas não inteiramente bem — George concluiu.
O Oficial disse:
— Olhe para o seu braço.
George tinha se esquecido do sulco que o mármore vinha abrindo em seu braço, em direção à axila e ao coração. Então rasgou sua camisa e olhou.
A deformação no braço tinha desaparecido, deixando apenas uma marca vermelha, bem fraca, como uma cicatriz a caminho da cura. Ele exclamou:
— Ela se foi!
O Oficial comentou sorrindo:
— Um duelo é um duelo, é o que sempre digo. Não importa quais sejam as armas: pistolas de duelo, floretes ou peças de artilharia grandes e pesadas como essa aqui...
Ele acenou para o enorme canhão de pedra no topo do monumento.
— E você foi muito bem, ficou firme e venceu. Agora restam dois.
George sorriu e sentiu as outras duas deformações ainda se retorcendo abaixo do antebraço: a pedra arenosa e o bronze liso.
— É isso aí — o Artilheiro sorriu e agarrou o ombro do menino. — Oh, e a propósito, obrigado!
Ele estendeu sua mão grande. E George estendeu a sua. O Artilheiro o cumprimentou com força.
— Salvou a minha pele, sem dúvida. E se você não se importa que eu diga, acho que o seu pai teria ficado orgulhoso de você.
— Com certeza — disse George.
E a verdade toda veio à tona, como se estivesse lá havia muito tempo. Nunca tinha sido notada provavelmente porque ele sempre tinha olhado na direção errada — por dar mais importância à tristeza. Talvez fosse da forma como o soldado que havia usado o rosto de seu pai dissera; talvez fosse como imaginar-se no centro de um palco, e em seguida perceber que, na verdade, estava à beira de algo muito maior. Fosse o que fosse, ele percebeu que uma dor muito grande tinha saído de seu coração, simplesmente porque ele tinha parado de se concentrar nela.
— Sim. Acho que teria ficado orgulhoso. Muito orgulhoso.
Era como se, por não chorar para fora, todas as lágrimas tivessem caído para dentro, lavando-o e limpando-o por completo. Sentia-se tranquilo.
Ágil, levantou-se em um único movimento.
Ele disse, resoluto:
— Edie. Precisamos encontrá-la.
O Artilheiro disse:
— Sem dúvida. O Caminhante está atrás dela e de você.
Então ele contou a George o que o Caminhante havia dito a ele sobre o Espelho Negro. George retribuiu contando tudo o que tinha acontecido com ele. E quando começou a falar sobre a Máfia de Euston, o Oficial bateu no ombro do Artilheiro e apontou para uma forma escura que deslizava a leste.
Os dois soldados pegaram suas armas e miraram o Corvo que se aproximava. George pegou seu martelo.
O Oficial disse:
— Tem algo no bico dele.
Calmo, o Corvo pousou na pedra branca bem à frente deles e gentilmente colocou os dois espelhos no chão. Em seguida, recuou. Não ousaria fazer movimentos rápidos, com dois revólveres apontados para ele.
O Oficial alertou:
— Há um bilhete amarrado nele.
O Artilheiro disse:
— O último par de espelhos como este que eu vi foi nas mãos do Caminhante.
George correu para pegar a mensagem. Era algo simples. Dizia:
“Entre nos espelhos e venha ao meu encontro. Sob a bandeira principal durante o
Carnaval no Gelo. Venha agora, ou a menina morre.”
O Artilheiro e o Oficial também leram a mensagem por sobre o ombro de George.
— Ele pode estar blefando.
O Oficial disse:
— Ele mente da mesma forma como nós respiramos.
George retrucou:
— Não. Ele não está mentindo.
Cuidadosamente, levantou o cordão que tinha sido usado para anexar a mensagem aos espelhos. O cordão não chegava a ser preto. Era uma cor escura, quase berinjela.
— É o cabelo de Edie.
O Artilheiro falou um palavrão em voz baixa. E depois apontou a arma para o Corvo.
O Corvo não se surpreendeu. Já sabia o que ia acontecer — as pessoas sempre atiravam nos mensageiros que lhes traziam más notícias.
O que o surpreendeu, no entanto, é que não foi uma bala no peito que o enviou para o inferno novamente. E sim uma lança, atirada com muita força e precisão em sua direção.
George, o Artilheiro e o Oficial viram a súbita explosão de penas pretas, e depois se viraram para a grama de onde a lança tinha vindo.
Havia uma carruagem estacionada, e uma Rainha impetuosa caminhando pelo gramado para resgatar sua arma.
Ela indagou:
— O que vocês estão olhando? Parece que temos uma garota para resgatar.
— Acho que damos conta dessa missão. Obrigado, senhora — disse o Oficial com firmeza.
George disse prontamente:
— Não, talvez não. Vamos levar toda a ajuda possível.
Ele retirou a lança da pilha de penas, que já estavam sendo espalhadas pelo ar da noite, e entregou-a para a Rainha.
— Obrigada, rapazinho. Agora, o que sugiro é que...
George a interrompeu sem hesitar:
— Você não sugere nada. Se quiser ajudar, escute bem, porque Edie me contou tudo o que precisamos saber. Ela reluziu uma mensagem antes que tudo terminasse mal...
A inconfundível autoridade de sua voz fez os cuspidos olharem para ele com espanto. A Rainha ficou inchada de tanta indignação.
— Ora, eu não vou...
— Oh, sim, você vai — interrompeu o Artilheiro. — Se você quer mesmo ajudar a menina, somente ouça. O menino sabe o que está falando.
A Rainha mordeu o lábio e ficou quieta. George rapidamente explicou a todos como Edie tinha feito o Carnaval no Gelo reluzir e visto a si mesma perseguida pelo Caminhante e afogada em um buraco no gelo. Ele contou-lhes todos os detalhes que se lembrava sobre o que Edie contara.
— E eu não tenho certeza se quem ela viu se afogando era ela mesma, e se era, não sei se conseguiremos mudar o passado. Tudo o que sei é o que ela viu. Vou entrar nesses espelhos e fazer tudo o que puder para impedir que aquele maluco faça algum mal a ela.
Houve um momento de silêncio.
— Qualquer ajuda é bem-vinda. Mas irei sozinho, se for preciso.
Virou-se e pegou o martelo de onde tinha deixado.
Os cuspidos olharam um para o outro. A rainha virou-se e estalou os dedos para as suas filhas, que estavam atrás dela.
Ela disse:
— Meninas, venham e segurem os espelhos. Teremos que tomar muito cuidado para fazer com que a carruagem passe ilesa.