Mão de Ferro
Gravetos e pedras
2
EDIE E GEORGE SAÍRAM CORRENDO da rua Cannon, felizes por terem deixado a Pedra de Londres atrás deles. Ambos estavam chocados e com os pés doloridos. Os dois mantinham os olhos no caminho à sua frente, assim, não perceberam as nuvens pesadas no céu escuro, nem o que estava acontecendo ali.
Mas o que estava acima os observava.
Sobre o telhado, a gárgula de pedra não precisava olhar para cima para ver as nuvens de tempestade. Ela sentia a chuva mesmo antes de os pingos começarem a cair. Ela sentia como se fosse um tipo de premonição pinicando bem no meio das suas costas, mas, em um local onde não conseguia coçar mesmo se tivesse braços normais em vez do arranjo de garras e asas que o escultor lhe dera. Sentir a chuva vir era parte daquele ser. Quando o céu desabava, a gárgula tinha um serviço a desempenhar: fazer escoar para longe a água que caía sobre o telhado da estação Saint Pancras. Mas não era essa a função que estava a cumprir agora. Ela somente observava do telhado-esconderijo.
Pela primeira vez em sua existência, ela sabia que havia algo mais importante a fazer do que reagir às gotas de chuva. Sentia uma estranha curiosidade. Remexia as garras de forma selvagem e movimentava a cabeça em direção à rua lá embaixo. Seus olhos se fixavam no garoto e na garota apressados que corriam pela calçada. Eles seguiam na direção oeste da rua. A gárgula sentia suas asas em forma de morcego e os tendões de pedra tremerem de ansiedade, prontos para o ataque.
À primeira vista, George e Edie pareciam crianças depois de um dia na escola, voltando para a segurança de seus lares razoavelmente normais onde chás quentes esperavam e um dia longo se transformaria em uma noite feliz.
Mas um segundo olhar deixaria claro que aquelas crianças pertenciam a uma história bem diferente.
Olhe mais profundamente e você poderá ver as marcas dessa história por todo o corpo deles.
George aparentava ter uns treze anos. Os ombros começavam a se aprumar, os ossos, a se alargar devido à maturidade precoce e os músculos alongavam-se para acompanhar o estirão. O cabelo era despenteado e longo o suficiente para ficar desarrumado ao ser preso atrás das orelhas. A jaqueta gasta estava rasgada na altura do ombro, como se ele tivesse rolado no chão sujo. O joelho tinha um rasgo que deixava à mostra a pele branca conforme ele andava, e uma mancha de sujeira se espalhava pela curva da bochecha esquerda. Seu look bagunçado, contudo, estava em desacordo com a determinação e a estabilidade de seu olhar.
O olhar de Edie era diferente. Ela caminhava com a cabeça baixa. Uma longa faixa envolvia seus cabelos escuros como berinjela e os deixava na sombra, mas quando George a olhou de relance por um instante, pôde ver que estavam bagunçados, também notou que o que quer que os olhos dela estivessem vendo, não era apenas o que estava à frente dela. A pele normalmente pálida estava ainda mais clara, parecia esticada, como se o sangue tivesse sido drenado.
Exausta, ela tropeçou na calçada e somente a mão de George, que foi rápida como um chicote ao segurá-la, a impediu de cair no chão. Ele disse:
— Edie! Olhe por onde anda!
Ele se viu nadando nos olhos desfocados dela quando ela voltou de onde quer que sua cabeça estava.
— Alguma vez você pensou que era amaldiçoado, George? — ela perguntou abruptamente. George precisou de um segundo para absorver o que ela estava dizendo e entender o porquê.
Edie balançou a cabeça, irritada por ele não estar acompanhando o pensamento dela.
— Não por uma bruxa ou algo do gênero, não como se você tivesse sido transformado em um sapo, mas sabe, como se tivesse feito algo ruim um dia, tão ruim que coisas ruins acontecem com você por causa disso.
George revirou os olhos e disse:
— Hum. Como quebrar uma estátua por engano e acabar sendo perseguido em Londres durante um dia e meio por gárgulas e Minotauros e coisas do tipo? Hã ... Sim!
Ela balançou a cabeça novamente e comentou:
— Não, não estou falando de nada disso, quero dizer antes disso. A vida toda. Como se algo maior tivesse feito com que você quebrasse a estátua, para começo de conversa, algo que ferrou com a sua sorte, esse tipo de coisa...
Ele foi acometido por um brutal flash de memória: dizia algo desprezível para o pai. Gritava tão alto, que meleca de seu nariz e lágrimas saltavam de seu rosto. Viu as lágrimas no rosto do pai em resposta. Viu a porta da frente batida por ele na cara do pai. Mais tarde, naquela mesma noite, a mesma porta foi aberta, revelando o policial e a mulher que vieram contar à sua mãe o que tinha acontecido: seu pai sofrera um acidente de carro e jamais entraria por aquela porta novamente, nem por qualquer outra.
— Não — ele respondeu.
A faísca nos olhos dela iluminou-se um pouco quando ela inclinou a cabeça para ele.
— Sua vida tem sido formidável e perfeita, não é?
Foi a vez de George balançar a cabeça.
— Edie, agora não é hora pra isso. Precisamos bolar um plano. Temos que resgatar o Artilheiro. Se não o encontrarmos e o levarmos de volta ao pedestal dele na virada do dia, à meia-noite...
— Já sei. Ele será uma estátua morta. Jamais irá se mover novamente. Sei disso, George. Não sou idiota.
— Não disse que você era id...
— Eu o quero de volta tanto quanto você. Quer dizer, não somente por ele ter salvado a gente e por devermos a ele...
— A gente deve mesmo a ele — George disse, interrompendo-a de forma enfática.
— Eu sei. Mas é mais do que isso — ela respirou fundo. — O Artilheiro também fez com que eu me sentisse segura.
— Aconteceu o mesmo comigo — George completou.
Os primeiros pingos fortes atingiram a calçada, seguidos de muitos outros. Logo a chuva estava caindo tão intensamente, que as gotas saltavam pelo cimento. George pisou de lado instintivamente, refugiando-se debaixo da cobertura de uma cafeteria. Ele puxou Edie para perto de si. Atrás deles havia uma parede, e acima, a pobre proteção de um pequeno toldo.
Sete andares acima deles, a gárgula no telhado resmungava frustrada, inclinando-se para tentar mantê-los à vista, mas tudo o que conseguia ver era a cobertura de plástico cheia de sujeira de pombo que estava acima de seus alvos. Urrou de raiva e arqueou-se para trás, tentando outro ângulo. Parou quando conseguiu ver os pés de Edie. Ficou feliz por eles não terem entrado no edifício. Isso complicaria as coisas, e ela já tinha problemas demais a resolver, não precisava de mais um.
— O que vamos fazer? — Edie perguntou.
— Tenho que pensar. E podemos nos manter secos enquanto pensamos.
— Tudo bem. Mas o tempo está passando. Já está escurecendo. Pense rápido.
Eles ficaram ali, observando o dilúvio. George tentava arquitetar um plano. Mas havia alguns problemas. Um medo doentio insistia em dizer-lhe que encontrar o Artilheiro era uma tarefa difícil demais para ele, afinal, o amigo havia sumido no meio do ar e agora poderia estar em qualquer lugar daquela vasta cidade, ou mesmo fora dela. Sabia que não tinha informações suficientes para elaborar um plano. Sua mente não parava de girar e retornar para a pergunta de Edie sobre se ele se sentia amaldiçoado.
Um jovem pai passou com seu bebê acomodado em uma bolsa canguru. Esta tinha uma proteção de plástico transparente para a chuva. O bebê ria e estendia as mãos para fora, batendo na cabeça do pai com uma série de risadas estridentes, enquanto o pai punha as mãos para trás e apertava as coxas do bebê, fazendo cócegas. Eles pareciam nem se importar com a chuva.
George os olhava até perceber que Edie também observava a cena.
— Você se lembra de quando era criança e tudo parecia seguro porque seu pai estava lá? — ele indagou.
Foi a vez de Edie balançar a cabeça negativamente.
— Na verdade, não.
Ele respirou fundo. A única maneira de se livrar da pergunta dela era respondendo-a de forma honesta. Talvez assim poderia fazer sua mente parar de escorregar no problema de como resgatar o Artilheiro.
— Então, tá. Sobre o que você perguntou. Bem, eu me lembro. Antes dele…
Percebeu que aquilo provavelmente seria difícil de ser dito.
— Antes dele morrer? — Edie perguntou.
— Não. Antes eu estraguei tudo. Entre mim e ele. Disse coisas.
— Todo mundo diz coisas.
Ele respirou fundo.
— Sim, mas nem todo mundo perde o pai antes de ter a chance de dizer que não teve intenção de falar palavras tão duras.
Ele ficou surpreso. Dizer aquilo não foi tão doloroso quanto temia. A chuva caía mais forte. Então Edie estragou o momento zombando dele.
— Essa é a coisa tão terrível que você fez? É por isso que você é amaldiçoado?
Ele não gostou do tom de voz dela.
— Como assim?
— Tá, você disse algo desagradável. Isso não é nada.
Ele sentiu-se ofendido.
— Tá, tudo bem, não parece ter sido nada.
— Tá, tudo bem — ela o imitou — é besteira.
Ele realmente odiou o tom dela. O modo como cuspiu o “eira”. Estava ali expondo um assunto tão íntimo e ela zombando daquele jeito. Resgatou sua dignidade, cobrindo-se com ela como se fosse uma capa protetora.
— Ah e eu suponho que você tenha um segredo mais profundo e mais sombrio, certo?
— Certo.
— Ótimo.
De forma alguma daria a ela a satisfação de perguntar o que era. Ela sempre ficava com a última palavra. Não, ele não iria perguntar nada. Mas ela disse:
— Gravetos e pedras.
Gravetos e pedras?
George ficou confuso. Não fazia sentido algum. Ele quase perguntou “Como assim?”, mas então se lembrou de que não iria dar a ela tal satisfação, não depois dela ter zombado dele e transformado o segredo dela em algo muito mais sombrio e mais importante do que o dele.
Contudo, ela olhou nos olhos dele de forma tão forte e brilhante quanto a rua coberta pela chuva.
— Não foram somente palavras entre meu pai e eu.
George entendia que ela estava lhe dizendo isso porque se sentia amaldiçoada, e embora soubesse que a resposta seria ruim, ele sabia que ela precisava falar. Então perguntou:
— O que isso quer dizer?
E ela disse:
— Eu o matei.