Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 45 de 57

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Mão de Ferro

A morte do artilheiro

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O ARTILHEIRO AGUARDAVA PELA morte certa. Sua parte humana permanecia entorpecida com o horror iminente do afogamento. A claustrofobia do tubo castigava. A terrível impossibilidade de um último suspiro...

Sua parte estátua sabia que o dia estava terminando, e que sua morte como um cuspido estava por vir. Ele tinha passado toda a sua existência atento à meia-noite, e como qualquer hábito, o ritmo e a hora estavam impressos em seu relógio biológico.

Ele deixaria de andar e falar, tornando-se um pedaço inanimado de metal. De alguma forma, a madrugada o transformaria em pó e o reconstituiria em seu pedestal, do qual nunca mais sairia.

Muitas vezes ele pensara se os cuspidos mortos também morriam por dentro, ou simplesmente ficavam incapazes de se mover ou se expressar. No fundo, esperava que a primeira hipótese fosse a correta. Caso contrário, seria como ser enterrado vivo para sempre, com uma pequena janela para ver o mundo passar; mas sem uma maneira de se comunicar com ele, exceto por um grito interminável que só soaria dentro da própria cabeça.

Ele esperava que a morte fosse algo simples. Um imenso nada, um vazio onde a ausência de vida e esperança era compensada pela ausência de dor e desespero. Uma equação final onde nada se igualava a nada e todo cálculo cessava.

O Artilheiro espremeu os braços até que suas mãos caíram sobre o peito calmamente, depois fechou os olhos enquanto esperava pelo fim.

O problema era que ele não se sentia calmo por dentro, e com a passagem dos segundos, não conseguia deixar de pensar que o fim era a saída mais fácil. George e Edie continuariam em perigo, não faria diferença se ele estivesse ou não consciente, e sentiu-se mal por isso. Fez uma careta quando percebeu que nunca iria descansar tranquilo, pois ao permitir-se aquele fim, era como estar traindo seus amigos.

Seus olhos se abriram na escuridão.

Ele disse a si mesmo:

— Bem, esqueça essa bobagem de serenidade. Morra lutando.

Então impulsionou os calcanhares para trás e continuou rastejando pelo tubo. Seus lábios foram tomados por um sorriso selvagem. Estava sorrindo porque sabia que sua tentativa era duplamente fútil. Primeiro, porque logo estaria morto, e segundo, porque ninguém jamais saberia que tinha tentado. Estava sorrindo para satisfazer o próprio ego. Iria viver seu último suspiro sendo exatamente quem era, nem mais nem menos.

Era a coisa certa a fazer. Seria difícil, e como toda boa intenção, poderia estar fadada ao fracasso. Mas não importava. Ele iria morrer lutando.

Porém, ele não cumpriu sua última promessa.

Ele não morreu lutando.

Não morreu sendo quem estava destinado a ser.

Simplesmente não morreu.

Em meio à luta para atravessar o tubo estreito, e com o embrulho de pedras do coração à frente, ele percebeu que a virada do dia já tinha acontecido, a meia-noite passara e ele ainda estava, de forma inesperada e surpreendente, vivo.

Ele não tinha como saber que George tinha ocupado seu lugar no pedestal. Sabia apenas que além de não estar morto, sentia-se cada vez mais forte à medida que seguia pelo tubo.

O tubo era bem estreito, e foi ficando cada vez mais apertado por causa dos grossos detritos espalhados pelo chão. O nariz do Artilheiro começou a raspar no concreto.

Ele continuou avançando com o embrulho à frente, quando encontrou uma obstrução e parou.

O tubo tinha chegado a um fim.

O fato de seu vigor e força estarem retornando de forma inexplicável causou um efeito contrário ao esperado. Enquanto caminhava para o que pensava ser uma morte inevitável, sua fraqueza tinha lhe permitido ignorar a claustrofobia. Mas agora que estava se fortalecendo, o fato de toda a sua energia estar sendo canalizada dentro de um tubo debaixo da terra era algo insuportável. A pressão que aumentava na cabeça e no corpo fez com que ele quisesse gritar e chutar, mas não havia como gritar debaixo d’água e nem espaço para chutes. Então, em vez disso, ele ignorou o fato de ter rastejado tanto apenas para cavar a própria cova, e tentou pensar com clareza. Só tinha entrado naquele tubo porque ouvira uma pequena corrente passando por ele. E se havia uma corrente, o tubo não era um beco sem saída. Em seguida, levantou as mãos à frente do corpo e tocou no teto. A única coisa que sentiu foi pedra. Moveu o embrulho e suas mãos sentiram as paredes laterais. E lá estava — um vazio. Não era um beco sem saída, havia um buraco que talvez conduzisse a algum lugar. Contorceu o corpo até levar o braço para dentro do buraco, e ficou surpreso ao descobrir que lá não havia paredes laterais, apenas água.

Ele percebeu que o duto estreito em que se encontrava devia estar ligado a um fluxo subterrâneo maior, e nisso estava certo. O tanque d’água submerso era uma antiga ramificação do Tyburn, desviado com o propósito de fornecer um reservatório subterrâneo. A água que sentia mover por seus dedos era o fluxo do canal principal do próprio rio.

Ele empurrou o embrulho de discos de vidro do mar à frente e contorceu o corpo para o lado. Estava com dificuldade de contornar o corpo e enfiar-se no buraco, mas porque vinha ganhando força e vontade de viver, ele usou de todas as suas forças e seguiu aquele fluxo oculto e estreito.

Ele sentiu a força da água. Poderia ter facilmente ido com ela e visto para onde o levaria. Mas alguma coisa o puxou para o outro lado. Então segurou o embrulho com força, e seguiu contra a suave corrente. Não era a coisa certa a ser feita, mas se alguém pudesse ver seu sorriso no túnel escuro, veria que não era apenas uma coisa contrária, mas obstinada e feroz, e de certa forma exultante.

Já que não iria morrer, viveria da sua maneira — e não faria isso aceitando tudo calmamente.