Mão de Ferro
O ícaro sozinho
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O Í CARO BATIA AS RÍGIDAS asas enquanto emitia gritos abafados e curtos de agonia ao sobrevoar os edifícios comerciais que formavam o Broadgate.
A gritaria era porque ele odiava as pessoas, e quanto mais as via nos lugares, pior se sentia. Ele preferia a segurança de seu pedestal. Ali, mesmo que significasse estar comprimido em sua própria câmara de tortura personalizada, ele podia ficar parado e fechar os ouvidos para o barulho que os humanos faziam quando passavam perto dele.
Além do ódio pelas pessoas, outro motivo desencadeava o desespero dele: seu voo era de tal forma desequilibrado e pesado que causava um desconforto quase insuportável. O Ícaro achava difícil voar efetivamente, pois as asas que recebera tinham algo de grosseiro que nem de longe se assemelhavam a qualquer coisa desenhada para um gracioso voo pelo ar. O dispositivo preso às suas costas só lhe permitia voar distâncias curtas sem ficar exausto. Outra limitação era que só podia ficar a seis metros do chão. Sempre que tentava ultrapassar essa altura, tinha que fazê-lo numa série de saltos desengonçados.
Era uma gritaria particularmente intensa porque a extensão que precisava voar naquele momento era ambiciosa demais, e ele teria que aterrissar no meio de uma multidão de pessoas animadas e prontas para curtir a noite. Seu ódio pelos seres humanos era tão carregado que ele havia se convencido, em algum lugar da sua mente, que quanto mais próximo ficava deles, mais doía.
Pousou na frente do único grupo de pessoas imóveis no meio do fluxo — seis figuras negras, congeladas no tempo, homens e mulheres cansados e desgastados pelo trabalho, mas que nunca chegariam em casa, pois haviam sido fundidos em bronze.
O Ícaro ficou parado na frente deles, protegido das pessoas de verdade que passavam ao lado do grupo imóvel.
Seis pares imóveis de olhos de bronze observavam aquele estigma ofegar e soluçar por medo de qualquer contato com as pessoas que passavam.
A verdadeira razão da loucura do Ícaro era que ele não sabia quem ou o que era: homem, máquina, animal ou pássaro. Por isso que não podia voar muito bem. Por isso andava como um touro nas patas traseiras. Devido a isso, ele passava a vida gritando.
A única outra criatura que nunca fora capaz de entender a si mesma nem de se consolar era o Minotauro, pois este tinha sido feito pelo mesmo Fazedor do Ícaro, e tinha a mesma loucura espalhada em sua essência.
O garoto e a fagulha tinham matado o Minotauro. E o Ícaro iria caçá-los, não importava se a caçada lhe causasse dor.
Respirou fundo, de forma entrecortada e lançou-se no céu.
Ele iria encontrá-los.