Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 12 de 57

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Mão de Ferro

Edie sozinha

10

 

NUM MINUTO ELE ESTAVA LÁ . Em seguida, desaparecera. Simples assim, horrível assim.

Edie tinha olhado para a esquerda e para a direita, certificando-se da direção certa. Virara-se para dizer que seria melhor se corressem, caso ele estivesse a fim — e ele simplesmente não estava mais lá. Fora tão repentino e tão chocante, que a mente de Edie não a permitia ver a verdade por detrás do fato. Sua primeira reação foi ficar irritada com George, achando que estivesse brincando com ela. Ela estava cansada, fisicamente cansada, e tentando esconder ao máximo dele que sentia estar perto do fundo do poço. E agora ele estava brincando de esconde-esconde ou algo assim.

— Para com isso, George! — ela disse com firmeza. — Não estou a fim de...

Foi então que teve um pensamento horrível. Talvez ele estivesse escondido por ter visto um estigma ou o Caminhante vindo na direção deles. Em seguida, ela se virou e examinou a vista atrás dela novamente. Só o que viu foi uma velha mendiga que empurrava um carrinho barulhento cheio de sacolas e jornal do outro lado da rua. Edie estava longe demais para perceber que os olhos da mulher estavam inteiramente pretos e olhavam fixos em sua direção. E o que quer que a mendiga estivesse resmungando para si mesma foi sufocado pelo som do trânsito. Edie, não vendo nada ameaçador, deu um suspiro de alívio e voltou para o beco, procurando o amigo que sumira.

— George!

Ele não estava lá. Ela olhou na soleira e na lateral de um carro. Não havia equívoco algum. Ele tinha desaparecido de forma tão clara e brutal como se nem tivesse estado ali para começo de conversa. Ela sentiu o pânico revirar seu estômago e subir pelo peito, sufocando-a, fazendo seu coração bater mais forte. Virou-se mais uma vez, procurando pelo esconderijo que não estava encontrando, já de punhos cerrados para que pudesse golpear o garoto quando ele pulasse na frente dela às gargalhadas.

Contudo, após uma boa inspeção, ela percebeu que não havia esconderijo algum. Se ele tinha se escondido, o local escolhido não era ali por perto.

Tudo o que havia por ali era a cidade, a rua e as pessoas correndo da chuva. Num flash, apenas por um instante, ela teve a certeza de ter ouvido a voz de George chamando seu nome; o tom da voz era de desespero e o som parecia vir de longe. Mas quando ela se virou na direção em que pensou tê-lo ouvido, não havia nada lá. Ela então concluiu que sua mente a havia traído, fazendo com que ouvisse coisas que não existiam, só porque queria que fossem reais.

Foi aí que ela finalmente se permitiu acreditar que George desaparecera de verdade, que aquilo não era nenhuma brincadeira de mau gosto. O punho cerrado começou a se abrir, os ossos das articulações e os tendões tensos foram suavizando.

Ao virar-se lentamente, ela tropeçou em algo e olhou para baixo. Seus joelhos se dobraram e logo após se esticaram enquanto os dedos sem energia se flexionavam e voltavam à vida para pegar o objeto sobre o qual havia tropeçado.

Um sapato. O sapato de George.

Estava molhado e gasto, mas quando colocou a mão dentro dele, sentiu que ainda estava quente. Uma parcela da normalidade se reafirmou e ela percebeu que tinha voluntariamente pegado o sapato de um garoto que havia passado as últimas vinte e quatro horas ou mais não fazendo outra coisa que não fosse correr. Ela rapidamente tirou a mão do interior pegajoso para sentir o ar fresco. Retorceu o nariz sentindo uma repulsa momentânea que logo se transformou num sorriso tenso conforme a mão segurava firme o sapato: ali estava a prova concreta de que George tinha estado ali, que era real, e que ela não estava ficando louca.

Segurar o sapato fez com que ela parasse o movimento de girar que tinha iniciado, giro este que mais parecia uma espécie de transe. De volta à realidade, percebeu que quase perdera o equilíbrio, e se isso tivesse acontecido, teria caído feio na calçada,

Para ela já era o suficiente.

Afugentou o medo para as sombras ao bater na sola do sapato de George com a palma da mão, insistentemente trazendo a obstinação de volta para si. O sapato, com o cadarço desamarrado, a fez se lembrar das botas de exército apertadas do Artilheiro e do ruído reconfortante de pregos batidos que elas faziam quando ele caminhava ou corria. Pensar no Artilheiro parecia ajudar também. Ela sabia instintivamente o que ele diria se estivesse ali agora, se ele pudesse ouvir as dúvidas que se agitavam na mente dela.

Ele teria afastado esses pensamentos e os mandado embora. Edie fez o mesmo.

— Certo. Chega disso. Trabalho a fazer. Vamos! — disse, cerrando os dentes. — Enlouqueço depois.

Pensar no Artilheiro a fez sentir-se revigorada. Como se pudesse senti-lo ali com ela. Talvez essa sensação de conforto foi o que colocou um cabresto em volta de seus olhos e a fez caminhar em linha reta pela rua, em direção ao rio.