Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 39 de 57

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Mão de Ferro

Os fazedores e as pedras

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A MULHER CEGA DESCEU COM Edie dois lances de escada. A facilidade e a precisão com que ela realizava os movimentos eram impressionantes. Qualquer um que a visse duvidaria de que fosse cega.

O resto da casa não tinha tapetes, imagens, móveis — nem qualquer tipo de decoração. A poeira tinha coberto tudo e deixado apenas um fundo único e acinzentado. Edie ouviu os cães grandes seguindo atrás dela e novamente apertou com força a pedra do coração que estava em seu bolso.

A mulher parou na frente de uma porta e puxou da cintura um grande porta-chaves que estava pendurado em seu cinto. Uma vez mais, tirou a luva e sentiu as várias chaves, até encontrar a que precisava. Edie notou que ela colocou a luva de volta antes de enfiar a chave na fechadura e abrir a porta.

Então a mulher disse suavemente:

— Vá e se sente naquela cadeira. Espere lá. Se você se mover, os cães irão morder.

Edie percebeu que a Mulher Cega ficou parada do lado de fora, como se estivesse com medo de entrar na sala. Quando ouviu um rosnado baixo atrás dela, Edie achou melhor obedecer.

Havia uma cadeira no meio da sala. Era bem sólida e possuía pequenas rodas de ferro no final de cada perna.

A sala era iluminada por um único castiçal em cima de uma mesa. Parecia ter sido uma biblioteca no passado, mas agora não guardava livros. Não havia móveis, exceto a mesa alta e prateleiras que cobriam cada centímetro de parede. No entanto, as prateleiras não estavam vazias. Em vez de regulares fileiras de livros, havia blocos e pacotes ocupando seus lugares, de cima a baixo. Pilhas de papel cobriam a mesa e o chão.

Edie caminhou até a cadeira e sentou-se. Ao fazer isso, um calafrio a percorreu.

Ela observou que as janelas estavam fortemente lacradas. Não havia nenhuma maneira de abri-las, nenhuma chance de se atirar delas em uma tentativa desesperada de liberdade.

Os dois cães entraram logo em seguida e deitaram junto aos seus pés, os olhos fixos nela.

A Mulher Cega voltou para o corredor e se sentou em uma cadeira com encosto alto que estava junto à parede, de frente para a porta.

E por um longo tempo, os únicos sons que se podia ouvir eram o da respiração dos cães e o do coração de Edie. Ela contorceu-se na cadeira, e o pequeno ranger de madeira imediatamente fez com que os cães rosnassem em sua direção.

Edie olhou para a porta e para a figura rígida que a encarava de olhos fechados.

Ela perguntou:

— O que você foi?

— O que eu fui quando? — retrucou a Mulher Cega, com um tom de voz um pouco mais alto que um sussurro.

Edie disse:

— Antes que tudo isso acontecesse.

O silêncio foi sua única resposta. E então, quando Edie concluiu que a mulher não iria responder, ela respondeu:

— Fui professora.

— Imaginei que fosse.

— O que você quer dizer com isso?

Edie respondeu:

— Nunca gostei muito de professores. Nunca dizem as coisas que realmente precisamos saber.

A Mulher Cega murmurou:

— E o que você precisa saber, menina? O que poderia alguém tão jovem querer saber, sendo que qualquer conhecimento mais atrapalha do que ajuda?

Edie bufou:

— Isso é mentira! Quando correto, todo conhecimento é sadio. Na prática, todos são importantes, até mesmo os ruins, pois como poderíamos bolar planos ou nos mantermos seguros sem o conhecimento necessário?

— Não conseguimos nos manter seguros apenas com o conhecimento, menina.

— Bem, sinto muito, mas ainda não desisti de viver.

A Mulher Cega deixou escapar um breve sorriso amarelo.

— Mas você vai acabar desistindo. Todo mundo desiste.

Havia alguma coisa nas prateleiras que perturbava Edie, causando nela uma impacto emocional mais forte do que as paredes daquela casa. Ela olhou para as inúmeras e estranhas formas, agrupadas por toda a sala.

— O que há nas prateleiras?

— Pedras.

Mas por quê?

Edie queria manter a Mulher Cega falando. O silêncio deixava sua mente muito vazia, um alvo perfeito para o zumbido aterrorizante e maligno da casa.

— Porque ele as coleciona. Pelo mesmo motivo que coleciona nossas pedras do coração. Ele procura pelo poder escondido em um tipo específico de pedra. Uma pedra muito mais forte e escura.

Edie começou dizendo:

— O que...?

Então parou e reformulou a pergunta:

— Por que tudo diz respeito às pedras?

— Porque sim — disse a Mulher Cega prontamente.

Edie esperou, e quando ficou claro que ela não diria mais nada, resmungou de desgosto:

— Uma professora típica.

A Mulher Cega levantou a cabeça diante do tom de voz de Edie.

— O quê?

— É como eu disse, nunca explicam nada de útil. É só fazer uma pergunta difícil que dizem: “Você não precisa saber disso”, ou “Isso não vai cair na prova”, ou “É assim e pronto”. Você deve ter sido uma péssima professora.

A Mulher Cega ajeitou-se tão ereta na cadeira, que Edie quase ouviu sua espinha ranger.

— Eu fui uma boa professora — sussurrou, suave como a poeira. — Fui uma professora muito boa.

Edie a encarou. A menos que estivesse enganada, pensou ter visto uma única lágrima deixar uma trilha cor-de-rosa na pele empoeirada da Mulher Cega.

— Então por que você não me conta sobre as pedras? — disse Edie, com a mesma delicadeza.

A mulher respondeu:

— Isso não vai ajudá-la.

— Talvez possa ajudar você — disse Edie com cuidado.

A mulher soltou um riso quase inaudível.

— Nada pode me ajudar, garota. Estou perdida, mergulhada em uma escuridão que não tem volta.

Edie disse:

— Então não volte. Fique onde está. Mas por que você não consegue ser uma boa professora novamente? Por que você não me conta tudo sobre as pedras?

No silêncio, um dos cães virou-se e olhou para a Mulher Cega. Ela contorcia a boca enquanto pensava. Sua mão se levantou à procura de cabelos soltos do apertado coque, e depois ela começou a falar:

— Em um passado distante, antes que a história do mundo começasse, antes que as coisas ganhassem nomes, a Escuridão dominou a Terra, alimentando-se do medo e espalhando o terror, o ódio e a ignorância.

Ela fez uma pausa e levantou a cabeça achando ter ouvido um barulho vindo da frente da casa. Depois de um breve momento, relaxou e continuou:

— E também houve a Luz que andou pela Terra, preservando e espalhando a Vida. A Luz, não suportando ver seus filhos viverem sob a dor do terror, do ódio e da violência, lutou contra a Escuridão com todas as suas forças. E depois de uma grande batalha, a Luz enviou para o fundo do coração rochoso do mundo toda a Escuridão, aprisionando-a e a impedindo que andasse sobre a terra novamente. O tempo passou, e a humanidade, os filhos e filhas da Vida, espalhou-se por toda a Terra, construindo e vivendo, amando e sorrindo...

A Mulher Cega fez outra pausa. Parecia presa às próprias palavras, como se tivesse acabado de lembrar-se que existiam coisas como o amor e o riso fora da Casa dos Perdidos. Edie esperou de forma paciente até que ela retomasse o fôlego e continuasse.

— A princípio, os fazedores — artistas e escultores — trabalhavam com madeira e barro, mas seus filhos sonhavam em fazer coisas que não apodrecessem ou perecessem com o tempo. Esses filhos começaram a lapidar pedras, e trabalhar o metal no fogo. Mas fazer esculturas de pedra e metal era muito mais difícil do que trabalhar com madeira e barro. E como eles sabiam que nada difícil poderia ser feito sem lágrimas e sacrifícios, começaram a acreditar que um sacrifício deveria ser feito para que pudessem tornar a lapidação da pedra mais fácil.

Seus olhos cegos encararam Edie como se estivesse incerta se deveria continuar.

— Apesar de muitas eras terem se passado desde que a Luz havia aprisionado a Escuridão na rocha, algumas pessoas ainda se lembravam do poder contido na pedra. E essas pessoas, mulheres cujo conhecimento recebiam da mãe e passavam para a filha, sentiam a essência do poder e das memórias que viviam na rocha.

Edie disse:

— Mulheres como nós.

— Mulheres como nós.

— Fagulhas.

— Fagulhas.

Edie queria gritar com a mulher. Como ela conseguia ficar tão calma, tão tranquila, diante de tudo aquilo? Por que ela estava fazendo o trabalho sujo do Caminhante naquela casa terrível? Mas, em vez disso, apertou a mandíbula e conteve o grito. Queria saber como a história terminava.

A Mulher Cega limpou a garganta e continuou:

— Mas o tempo fez com que elas esquecessem que o poder contido na pedra era maligno. E quando os fazedores encontraram as fagulhas, e confirmaram que o poder era uma coisa viva, ficaram felizes. Sabiam que para lidar com coisas vivas precisavam apenas realizar um sacrifício de sangue. Então fizeram uma espécie de sorteio e o filho do Fazedor-Chefe foi levado até uma pedra que as fagulhas tinham escolhido, e uma faca de pedra foi usada. Por serem filhos da Vida, o sacrifício de sangue era para ser apenas isso: não uma morte; apenas um corte no dedo com uma faca de pedra, a menor das feridas, e depois os Fazedores fariam um juramento à Pedra. A criança choraria por um momento, mas seria cercada de flores, risos e celebração logo depois; ganharia os melhores alimentos e o mel mais doce para compensar aquele breve momento de sofrimento...

Suas mãos se elevaram e acariciaram os pontos em seus olhos. Edie sabia que a Mulher Cega estava sentindo a dor de seu próprio sacrifício.

Ela perguntou:

— E funcionou?

— Você sabe que sim. O acordo entre fazedor e Pedra postulava que a pedra não resistiria aos fazedores, e os fazedores usariam o poder para lapidar as pedras — para criar, não para destruir. Mas a adaga usada no ritual os traiu. Talvez por ser uma lâmina de pedra, tinha um pouco do mal oculto em seu interior. E virando-se na mão do pai, acabou fazendo um corte no pulso do filho; e antes que pudessem selar a ferida, a criança morreu. Mesmo tendo sido um acidente, o sangue escorreu para a Pedra, e o pacto entre fazedor e Pedra foi selado...

Edie interrompeu:

— Ele matou seu próprio filho?

A Mulher Cega respondeu que sim com a cabeça.

— Ele matou seu próprio filho. Sem querer, enganado pela Pedra. E depois da tristeza que recaiu sobre a casa do Fazedor-Chefe, o tempo passou. Os fazedores passaram a lapidar as pedras e estas não ofereciam resistência. Esculpiram ídolos, deuses, demônios e gárgulas para seus templos e igrejas; e suas criações, embora não soubessem disso, foram os primeiros Servos da Pedra, feitos para intimidar e aterrorizar. Ficaram conhecidos como “estigmas”, porque onde quer que sua sombra caísse, os filhos da Luz ficavam marcados pelo medo.

Edie disse prontamente:

— Mas eles também fizeram os cuspidos.

— Sim. Semelhantes às coisas vivas, mas com a intenção de representar pessoas amadas e admiradas, ou mesmo pela alegria pura de registrar tudo o que os fazedores achassem bonito e agradável.

— Então é por isso que os cuspidos não são Servos da Pedra?

— Correto, menina. E receberam o nome de cuspidos porque foram criados de acordo com a imagem e o espírito dos homens livres da Escuridão e do medo contido na Pedra.

— É por isso que os estigmas, os Servos da Pedra, odeiam os cuspidos? Por que eles são livres?

— É muito mais do que isso. É porque os cuspidos são os instrumentos da vingança dos fazedores contra a Pedra, por ela ter tirado a vida de uma criança inocente. Foi a melhor maneira que encontraram de devolver uma centelha de Vida ao mundo com cada cuspido criado. E...

Ela parou. As orelhas dos cães se levantaram. E então Edie ouviu o rangido das tábuas do assoalho, e uma voz fina e arrogante, que esperava nunca mais ouvir, terminou a história:

— ... E dessa forma, a batalha entre a Luz e a Escuridão, entre o Medo e a Alegria, continua. E a Escuridão contida na Pedra sempre espera que os fazedores cometam algum tipo de erro, para que possam regressar à Terra e governar novamente.

O Caminhante apareceu junto à porta, sorrindo alegre para Edie.

— E sabe do que mais? O Medo sempre triunfa sobre a Alegria, e a Escuridão é muito mais confiável do que a Luz...

Ele bateu a longa e brilhante lâmina de sua adaga adornada no batente da porta.

Ouviu-se um ruído de choro. Era a Mulher Cega. Ela estava inclinada para frente e sobre os joelhos, chorando baixinho. O Caminhante a encarou.

E mesmo sem olhar para cima, ela estendeu a mão em súplica. Ela havia tirado a luva. Edie ouviu uma única palavra entre os soluços.

— Por favor...

O caminhante puxou do bolso do seu longo casaco um disco de vidro do mar que irradiava uma luz laranja brilhante e formava sombras grotescas ao redor da sala. Estava preso a uma corrente. Ele o colocou na mão da Mulher Cega.

A mão fechou-se rapidamente. A mulher tremeu e suspirou de alívio.

Edie tinha sobrevivido sozinha nas ruas, e conhecia aquele tremor. Conhecia o suspiro típico dos viciados. Ela entendeu como o Caminhante conseguiu manter a Mulher Cega viva e dependente, e sob o seu domínio. Ele estava usando a pedra do coração dela como uma droga.

A mão de Edie fechou-se sobre a sua própria pedra, escondida no bolso.

O Caminhante olhou para ela como se pudesse ler seus pensamentos. Então cerrou os dentes e desferiu um sorriso de desprezo.

— Você acha que nunca seria como ela?

Edie manteve o rosto inexpressivo.

Ele arrancou o vidro da mão da Mulher Cega, que gritou. Edie tentou aproximar-se, mas os cães entraram em ação, latindo e rosnando, fazendo com que ela voltasse para a cadeira.

O Caminhante estalou os dedos. E os cães ficaram em silêncio, mas continuaram olhando para Edie.

Ele foi direto:

— Fique calma. Não se mexa. Não quero machucá-la. Nem lhe fazer mal. Na verdade, nem quero sua pedra de aviso. A única coisa que preciso é de uma pequena ajuda. Você terá que usar seu dom para mim.

Edie disse:

— Como?

— Quero que teste algumas pedras. Você irá tocar nelas e dizer o que tem dentro. Se fizer isso, poderá seguir livre, ilesa e segura.

— Que tipo de pedras? — perguntou Edie com cuidado, não acreditando em uma única palavra que ele dissera sobre deixá-la ir.

— Ah — ele sorriu. — Você já vai saber...

— Que tipo de pedras? — ela repetiu, sua voz emperrando na garganta subitamente seca.

O sorriso dele aumentou.

— Pedras escuras. Pedras muito escuras...