Mão de Ferro
O demônio do gelo
52
O OFICIAL NÃO ENCONTROU George na borda do gelo. Achou apenas o seu martelo, preso em um galho. E quando foi pegá-lo, percebeu que havia uma mão presa a ele pelo pedaço de corda. Então puxou a mão e encontrou George, e foi puxando até arrastá-lo para fora do rio e colocá-lo sobre o gelo.
— O-onde está Edie? — foi a primeira coisa que George disse. Ele tinha visto o Artilheiro arrastando algo inerte para fora do rio, e doeu-lhe muito, mais do que o frio, pensar que tinha sido ela.
O Oficial disse:
— Sinto muito, mas ela morreu, meu amigo. Eles a levaram embora pelos espelhos. Você consegue correr?
George parecia acabado. O corpo tremia, os dentes batiam, mas o punho continuava cerrado no martelo.
Olhando para o outro lado do gelo, disse:
— Sim.
Na verdade, ele estava sedento por vingança. Olhou diretamente para a figura curvada do Caminhante, que se encontrava inclinado sobre algo no gelo, arranhando o próprio corpo na neve.
Colocando a mão no ombro de George, o Oficial disse:
— Bem, o verdadeiro desafio vai ser chegar até aquelas meninas do outro lado, aquelas com os espelhos, sem que ele nos veja.
Levantando o martelo, George tirou a mão do Oficial do ombro e disse:
— Não. Não será um maldito desafio.
E começou a andar confiante em direção ao Caminhante.
O Caminhante estava distraído. Tão empolgado, que mal podia respirar, e a razão disso eram os dois discos sobre a neve à sua frente.
Quando George o atingira no peito, o golpe não parou seu coração. Ele foi protegido pelos dois discos de cera que cercavam o Espelho. Os discos estavam lá para protegê-lo de um contato involuntário com o Espelho, mas falharam em proteger o próprio artefato precioso.
George tinha quebrado o Espelho Negro em dois.
O Caminhante estava animado porque tinha encontrado a solução de como usar apenas um Espelho Negro. Nunca lhe havia ocorrido, em todos os séculos de busca pelo segundo espelho perdido, que ele poderia simplesmente dividir o primeiro em dois.
As marcas que ele estava arranhando na neve eram um pentagrama de proteção.
George tinha apenas começado a correr, com o Oficial em seus calcanhares, quando houve um estouro atrás dele e uma carruagem apareceu.
A Rainha gritou:
— Garoto! Venha aqui!
Mas George continuou correndo em direção ao Caminhante, e gritou:
— Eu vou acabar com ele.
Ela o repreendeu:
— Não, George. A menina está viva!
George parou bruscamente.
— O quê?
Ela freou ao lado dele.
— Suba. Ela está muito abalada e triste, mas vai ficar bem, e está chamando por você. Venha, rápido, vamos sair logo daqui.
O Oficial agarrou George e o jogou na carruagem, seguindo-o logo em seguida.
Ele sorriu:
— Direto para casa, James. E não poupe os cavalos.
George e a Rainha estavam olhando para o Caminhante e para a intensidade de sua atividade na neve. Depois, olharam um para o outro.
O Oficial disse:
— O quê?
— Por outro lado, por que não? — disse a Rainha, e George sorriu por entre os dentes que tremiam à medida que ela estalava a língua e investia os cavalos para frente em galope.
O Oficial desabotoou o coldre e disse:
— Com todos os diabos! Vocês sabem que ele não vai ficar morto por muito tempo...
— O pouco que for já estará bom — disse a Rainha, forçando as rédeas e sorrindo como louca enquanto o cabelo voava para trás com o vento.
O Caminhante estava tão empenhado em alinhar as duas metades quebradas do Espelho Negro na neve, que só percebeu o que estava acontecendo quando o primeiro tiro levou gelo ao seu rosto.
O que ele viu foram cavalos galopando ferroados em sua direção, com a Rainha levantando sua lança, o Oficial disparando contra ele e George inclinando seu corpo para fora da carruagem com um martelo pronto para o a ataque, acima das lâminas da roda.
O Caminhante gritou:
— Tolos!
Eles iriam atropelá-lo. Não havia como desviar. Então, em vez de ficar de pé, ele se agachou com o nariz na neve, fazendo com que as duas superfícies dos Espelhos escuros ficassem exatamente alinhadas, uma de frente para outra.
Ele sabia que estavam alinhados corretamente por causa do calor e do vapor que derretiam a neve sob a extremidade de cada Espelho.
Sem nenhum microssegundo a perder, ele murmurou algo e chegou bem perto do Espelho escuro.
Assim que as lâminas se aproximaram, o espelho puxou-o para dentro.
E o Caminhante desapareceu.
A Rainha inclinou o corpo para fora e arremessou a lança no gelo no lugar onde o Caminhante deveria estar. A carruagem atravessou o vazio e o pentagrama de proteção, apagando as marcações que o Caminhante tinha arranhado na neve.
Assim que a Rainha retornou à carruagem bruscamente, eles viram outra coisa.
As metades do Espelho Negro começaram a afundar no gelo derretido. E antes de desaparecerem por completo, algo escapou pela porta que o Caminhante tinha aberto.
E porque aquele algo era feito de nada, precisava de substância se quisesse existir nesse mundo, e a primeira coisa que encontrou no ar vazio foram os cristais de gelo levantados pelas lâminas giratórias da carruagem, ao passarem pelo pentagrama. A Rainha inclinou o corpo para fora e pegou a lança do gelo, e eles seguiram para junto das filhas da Rainha e para segurança dos espelhos de prata.
Ao olhar para trás, George viu os cristais de gelo no ar tomar a forma de um corpo e correr atrás deles.
Ele gritou:
— Mais rápido! Mais rápido!
O demônio de gelo foi crescendo e correndo cada vez mais rápido. A Rainha puxou as rédeas e o cavalo de chumbo atingiu o espelho. Logo depois se ouviu um estalo e todos caíram por camadas de preto.
Enquanto caíam, tiveram a sensação de que alguma coisa passou voando por eles, algo muito frio e estranho, como uma geada de outro mundo.