Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 43 de 57

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Mão de Ferro

A última gargalhada do artilheiro

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O ARTILHEIRO ESTAVA AFUNDADO até o pescoço. O buraco que começara a fazer tinha alcançado uma profundidade considerável. Removido o esqueleto que estava a bloquear o escoamento na base do tanque, o Artilheiro agora podia sentir uma pequena correnteza na altura dos tornozelos.

Ele prendeu a respiração e mergulhou. Com certeza, a água estava passando por um arco baixo que vinha até um pouco abaixo de seus joelhos. Ele tentou remover com as mãos as barras descamadas que bloqueavam a entrada, mas sem muito sucesso. Então se levantou e começou a chutar o metal antigo com as botas. Conforme fazia isso, visualizou a cara sarcástica do Caminhante sendo castigada por seus chutes. E isso permitiu que ele superasse a exaustão que tomava conta do seu corpo e abrisse um espaço pelo qual pudesse rastejar.

Com muito cuidado, alcançou a beira do buraco e puxou o pacote de pedras do coração que estava escondido em sua capa, depois acendeu o último fósforo. O esqueleto da menina emanava uma luz branca e brilhante. Ele havia distribuído os pedaços de vestido sobre ela da forma mais decente possível, e também coberto seu rosto. Ao olhar para aquele cabelo comprido, pensou em Edie. Lembrou-se da forma pálida e trêmula que ela tinha ficado ao ser separada de sua pedra do coração, de como a vida parecia ter saído dela e sido substituída por um enorme e penetrante medo. Quando o fósforo caiu na sarjeta e a escuridão voltou, ele imaginou como Edie ficaria assustada se fosse deixada em um lugar como aquele, sem o conforto de sua pedra de aviso.

Ele parou por um momento. Pegou um dos discos de vidro do mar e um pequeno pedaço do vestido que cobria o esqueleto caído. Em seguida, embrulhou a pedra do coração com o pano, para que nenhuma luz brilhasse caso o Caminhante aparecesse.

Ele se aproximou do esqueleto da menina e colocou o bem enrolado pacote de pano junto ao pequeno coraçãozinho que um dia tinha batido. Ele disse:

— Durma bem, anjinha. Ele não pode mais lhe machucar.

Feito isso, agarrou o pacote de pedras do coração e o soltou de volta ao buraco. Splash! Mesmo sabendo que podia mover-se debaixo d’água sem a necessidade de respirar, não sentia, lá no íntimo, que seria capaz de fazê-lo. O motivo era simples: havia uma diferença entre quem ele era — uma estátua de bronze, e quem fora feito para representar — um homem. O “lado homem”, que havia sido incutido pelo fazedor, ia passar por todas as agonias de afogamento, mesmo que o “lado estátua” não fosse morrer.

Mesmo sem ter um relógio para consultar, ele sabia que já era quase meia-noite e que estava prestes a morrer como uma estátua.

Mesmo assim, decidiu continuar, pois o objetivo principal era esconder para sempre das garras do Caminhante as pedras do coração que ele tanto valorizava.

Ele proclamou na escuridão:

— Quem ri por último, companheiro... Ri muito melhor...

Ele pegou o capacete em uma das mãos, e o pacote de pedras do coração ficou na outra. Então respirou fundo, mergulhou por baixo da onda e forçou o corpo para dentro do estreito duto.

Manteve os olhos abertos, mas também poderia tê-los fechado. Os fragmentos irregulares de metal raspavam contra o cascalho no tubo. Mas à medida que avançava o corpo pela passagem, o cascalho ia diluindo e ele se viu rastejando sobre uma camada de lodo e água, em cima de algo que cedia conforme seus movimentos.

Ao avançar, sentiu a agonia pela falta de oxigênio atingindo os pulmões e apertando sua garganta e esôfago. Seus olhos se arregalaram e a boca começou a exercer uma força contra si mesma — o reflexo automático da respiração.

Enquanto lutava contra aquele reflexo, seus dentes rangeram e ele continuou avançando cegamente. A parte do seu cérebro que ainda resistia ao horror da falta de ar sabia que ele estava rastejando para a morte. O fato de estar escondendo os preciosos discos de vidro do Caminhante o motivou em sua tentativa inútil de sobrevivência, e fez com que ele se mantivesse fiel a esse objetivo mesmo quando sua força de vontade finalmente entregou os pontos ao inevitável, permitindo que a boca se abrisse e a água entrasse.

Em seguida, contorceu o corpo até ficar virado de frente para o céu invisível acima do solo, para que não morresse de bruços. Afinal de contas, já que talvez fosse sua última escolha, desejava olhar para um lugar onde talvez existissem finais mais felizes do que a morte solitária que viria buscá-lo à meia-noite.