Mão de Ferro
Ao alcance do caminhante
45
O Í CARO PERMANECIA NO meio da biblioteca empoeirada — com suas asas cortadas escovando o teto — emitindo gritos curtos e furiosos pela cobertura encurvada que escondia seu torço e cabeça.
Edie virou o rosto para o outro lado. Depois olhou para o rosto do Caminhante.
Não havia sangue onde ela o tinha cortado, apenas uma leve cicatriz abaixo de um dos olhos, que passava pela parte superior do nariz e terminava no outro olho. Agora, aquele olho estava morto, apresentando um branco rosado, sem íris ou pupila.
— Se você não queria sentir a sua fúria, nunca deveria ter matado seu irmão — ele disse apontando para o Ícaro.
Edie disse com calma:
— Mas não matei o irmão dele.
— O Minotauro era seu irmão. Não um irmão de verdade, mas no sentido de serem criações do mesmo Fazedor, do mesmo escultor. Como resultado, eles tinham muito em comum.
Edie nem precisou olhar para confirmar a verdade do que lhe foi dito. O Ícaro tinha as mesmas pernas e corpo poderosos, o mesmo senso de energia escura agrupada e pronta para entrar em erupção.
O Caminhante levantou-se e a encarou.
Edie conseguia ouvir os soluços desesperados da Mulher Cega que vinham de outra parte da casa. O Caminhante notou que ela escutava. Sorriu e estalou os dedos. O Corvo entrou voando pela janela e pousou em seu ombro.
— Você deve estar se perguntando por que ela está chorando de maneira tão sofrida.
Edie não disse nada. A mão do Caminhante traçou a cicatriz em seu rosto.
— E você também está se perguntando qual será o seu castigo por ter me machucado.
Ele estava certo. Mas Edie não lhe daria a satisfação de saber o que se passava em sua cabeça. Ela estava surpresa com a calma que ele estava apresentando desde que a encontrara no cemitério da igreja. Ele quase chegou a ser educado, quando o Ícaro a prendeu e eles a trouxeram de volta.
Ele sorriu, sem um pingo de humor, e começou a escrever em uma folha de papel. Sua voz era tranquila, quase cordial, e em tom de conversa.
— Estou condenado a andar pela cidade até que a Pedra me liberte, portanto, não posso morrer. Meu processo de cura, como você pode ver, é espantosamente bom. Mas, em 400 anos, ninguém nunca me feriu como você...
O Caminhante olhou por sobre o bilhete que escrevia e fixou o olho bom sobre ela. Depois apontou para o olho cego, que exibia um tom branco rosado, e reclamou:
— Agora, por sua causa, tenho que andar pelo mundo com um olho só. Pode ter certeza de que essa ferida é uma afronta que requer a mais elaborada das punições. Não vou me negar o prazer de planejar minuciosamente o seu fim; porém, não vou me precipitar, matando-a agora com raiva. Não acredito naquele ditado dos homens, de que a vingança é um prato que se come frio. Para o meu gosto, a vingança é um prato que se cozinha após um preparo primoroso e detalhado, para ser degustado na temperatura do sangue.
Ele terminou o bilhete que estava escrevendo. Edie descobriu que quanto mais ele tentava assustá-la, mais irritada ela ficava. E quanto mais irritada, mais forte se sentia. Infelizmente, também era verdade que quanto mais ele tentava assustá-la, mais ela ficava de fato assustada.
Ela tentou reprimir o medo na mente enquanto observava o Caminhante dobrar o bilhete que tinha escrito e tirar os dois espelhos circulares e unidos do bolso. Observou ainda quando ele separou ambos, segurou um em cada mão, e depois os dividiu novamente, revelando um segundo conjunto de espelhos dentro dos primeiros. Finalmente, o Caminhante pegou um dos jogos e cuidadosamente ajustou os minúsculos biséis de suas extremidades.
— Isso vai trazê-los direto para onde eu estiver — disse a si mesmo, só depois percebendo que ela o escutava. — Vamos nos confrontar em um espaço aberto. Dessa forma, se ele trouxer ajuda, vou vê-los e você vai sofrer as consequências...
Ele estendeu a mão em direção à mesa. Edie viu que ele tinha prensado o Espelho Negro entre os dois discos de cera e depois os amarrado, e que também tinha passado uma tira de couro pelo buraco da alça do espelho. Então ele colocou a tira em volta do pescoço, de forma que o pacote pesado ficasse pendurado como um medalhão gigante. Depois empurrou o pacote para dentro do casaco e o abotoou.
O Caminhante puxou a adaga de trás de si e se voltou para a menina. Ao mover-se, revelou um manto de mulher e um gorro na mesa atrás dele. Edie já havia visto aquele gorro. Ele tinha sido enrolado no rosto dela quando o Caminhante tentou afogá-la nos buracos de gelo do Tâmisa, durante o Carnaval do Gelo.
Edie se encolheu na cadeira. Ele acenou com a faca, imaginando que fosse ela a responsável pela reação da menina.
— Agora. Grite se quiser. O Ícaro vai se divertir. Mas eu preciso de uma única coisa de você antes de irmos.