Mão de Ferro
A máfia de euston
33
GEORGE CORREU PARA O LADO oeste da avenida Euston, deixando a Biblioteca Britânica para trás. Tinha acabado de ouvir um apito urgente e ensurdecedor. E apesar de não ter visto quem apitou, teve a sensação de que, fosse o que fosse, deveria ficar o mais distante possível que conseguisse.
Agora que não estava lutando por sua vida, ele conseguia direcionar sua preocupação imediata para Edie e o Artilheiro. No que dizia respeito a Edie, ele tinha plena certeza que ela iria persistir com o Frade Preto, como tinham planejado. Ela não era do tipo que simplesmente paralisava quando as coisas ficavam difíceis. Se tivesse que agir, ela o faria. George torcia para que ela tivesse encontrado a cabeça quebrada do dragão e assim, tivesse como negociar com o Frade em caso de necessidade.
Ele pensou no tempo que ele e Edie tinham perdido desde que haviam sido separados. Sentia uma enorme frustração por lembrar onde tinha estado até chegar ali: sendo carregado pelos ares que nem sequer soubesse o motivo. Seus raptos sucessivos lhe soavam como inconveniências desesperadoras. Por causa deles, não pudera planejar um modo de salvar o Artilheiro. A raiva o atingia com a intensidade de golpes físicos.
Após um tempo caminhando e degustando a própria revolta, George resolveu parar e pensar direito.
Percebeu que estava andando sem noção de onde deveria ir.
A escolha óbvia era o pub do Frade Preto, onde Edie devia estar — isso se tivesse ido para lá em primeiro lugar — e mesmo que já tivesse saído, o Frade saberia para onde ela tinha seguido. Mas ir ao pub do Frade Preto significava atravessar a cidade novamente, ou seja, ter de encontrar uma maneira de passar por todos os Dragões da Cidade, que estavam de olho em cada via pública que conduzisse à antiga fronteira. Esse era um problema que ele teria de lidar quando chegasse a hora.
Não havia mais espaço para recuo. Nem opção de saída que não fosse aquela.
Agora ele estava no mesmo plano que a entrada para a estação Euston. Sua geografia de Londres era meio incompleta no que se referia à região onde o Frade ficava. Se o seu senso de direção estivesse correto, então precisava seguir na direção sudeste. Acreditava que indo naquela direção acabaria por chegar ao rio, e depois tudo que teria de fazer era seguir para o leste.
Ele se virou para começar a caminhada, mas quando suas botas rasparam nas pedras da calçada, ouviu-se o eco de outra raspagem nas pedras à sua frente.
George ouviu um assobio, e quando olhou para cima, viu duas enormes asas de morcego esculpidas em pedra bloqueando o caminho, enquanto a gárgula que ele tinha batido com a lata de tinta vermelha descia suavemente na calçada bem na frente dele. A tinta respingava da gárgula como se fosse sangue. A cabeça dela estava erguida, um dos olhos manchado de tinta estava fechado, enquanto que o outro, apesar de não ser nada mais do que pedra, parecia perfurar George.
Ele olhou em volta para tentar achar onde se esconder. À sua esquerda havia uma guarita feita de blocos maciços — uma de duas no caminho para a estação. Infelizmente a guarita estava longe demais para que ele a alcançasse antes de ser pego pela gárgula; e mesmo se conseguisse chegar até lá, não havia nenhuma porta visível na fachada, onde estavam gravados os nomes das batalhas travadas havia muito tempo, em lugares remotos.
Sem ter para onde correr, George sentiu que teria de lutar.
Ele percebeu isso ao olhar para o rosto da gárgula à medida que ela raspava uma garra na calçada de pedra, e depois a outra. Seu braço foi invadido por uma dor aguda. E ele sabia que aquilo era por causa da cicatriz do dragão e das três veias incomuns entrelaçando seu antebraço.
Então agarrou o martelo, pronto para morrer lutando. A dor começara a tomar conta de sua mão também.
Com a dor veio uma ideia que clareou a mente de George.
Ele tinha conseguido ganhar tempo com o Cavaleiro ao falar sobre sua cicatriz, e isso o tinha salvado. Se conseguisse a mesma façanha com a gárgula, talvez ganhasse mais tempo para pensar.
Estendeu a mão e disse:
— Ei! Para trás!
O grande estigma apontou a cabeça na direção oposta, e então, surpreendentemente, parou.
George viu seu pulso estender-se para fora da manga da jaqueta, e um brilho de metal refletindo as luzes da rua em uma parte de seu corpo onde deveria ter visto pele. Percebeu, abalado, que as veias de pedra e bronze que tinham brotado de sua mão já entrelaçavam seu braço, e agora avançavam em direção ao cotovelo. Concluiu que não havia tempo para se preocupar com elas naquele momento, pois tinha que manter sua vantagem sobre a gárgula.
Dissimulando a agitação na voz, falou:
— Sim! A Marca do Fazedor! A Mão de Ferro! Para trás, ou vou...
Ele não sabia o que dizer. Então, deu um passo à frente, balançando a mão como se tivesse um talismã mágico.
— Recue, ou eu vou... Vou...
— É mais provável que você sangre em cima dele.
George nunca tinha ouvido a voz que vinha por trás dele. Era a voz de alguém natural de Newcastle, com as vogais planas, duras e sem a poesia do nordeste da Inglaterra.
— Se fosse você, belo rapaz, abaixaria o martelo e daria um passo pra trás.
George queria olhar para trás, mas hesitava em tirar os olhos da gárgula.
— A Grandona Vermelha não está nem aí para a sua mão, filhote.
— Ela está preocupada é com as quatro armas Lee-Enfields apontadas bem para a cara feia dela — disse outra voz irritante, que parecia ter vindo do sul de Londres e que soava como se tivesse fumado vários cigarros no caminho.
George percebeu que a gárgula não estava mais olhando para ele. Tinha parado por causa da chegada daqueles homens.
— Agora, rapaz, dê uns passos para trás.
— Você vai se sentir mais seguro — disse uma terceira voz, cantarolando, fanhosa, com um sotaque do oeste do país, no qual todas as letras “s” soavam como “z”.
George virou-se.
Quatro soldados de bronze da Primeira Guerra Mundial estavam atrás dele: homens altos, vestindo longos casacos do exército. Três estavam em pé e um ajoelhado, apoiando o cotovelo em um joelho. Usavam chapéus levemente pontudos em vez de capacetes metálicos, e todos seguravam rifles apontados para a gárgula. A mandíbula de um dos atiradores em pé estava em constante movimento, como se ele estivesse mascando tabaco ou chiclete.
O soldado ajoelhado tirou a mão do gatilho do rifle e chamou George até ele, acenando lentamente com a cabeça, como que a dizer que tudo ia ficar bem.
George recuou rápido. Os soldados em pé, sem abaixar as armas apontadas, abriram um espaço para que ele passasse. E ao passar entre eles, George virou-se para ver o que iria acontecer a seguir. O soldado que mascava deu um passo em direção ao espaço vazio e cuspiu algo escuro na pedra da calçada junto aos pés da gárgula, molhando suas garras. George concluiu que devia ser tabaco. O mastigador apontou para o céu com sua arma.
— Vá embora, sua pescoçuda vermelha!
E como a gárgula não se moveu, ele deu mais um passo à frente e então bateu sua arma no peito dela, empurrando-a. A gárgula hesitou, assobiou, e depois se atirou para trás no ar, com suas grandes asas batendo para baixo, fazendo com que o sobretudo do soldado oscilasse. A gárgula subiu em direção ao céu até desaparecer atrás dos telhados próximos. Houve um alívio geral naquele clima tenso e os rifles foram abaixados.
O soldado ao lado de George virou-se e acenou para o mastigador.
— Está tudo bem. Nós também nunca entendemos exatamente o que ele está dizendo, não é mesmo, Oeste?
George olhou para os soldados que o cercavam, encarando-os com interesse.
O de nome Oeste disse:
— Você deve ser o menino sobre o qual ouvimos falar. Um passarinho nos disse para ficarmos bem de olho em você. Amigo do Artilheiro, certo?
George concordou. O mastigador olhou ao redor.
— Ele disse também que há uma menina envolvida, não é mesmo, garoto?
George respondeu:
— Sim, Edie. Fomos separados.
Os soldados fizeram um som de desaprovação.
George indagou:
— Quem são vocês?
O soldado mais próximo desistiu de acender o cigarro.
— Franco-atirador Sul — disse ele, com seu sotaque. Depois apresentou os demais por sobre o ombro, sem olhá-los.
— Estes são os meus colegas. O cabo Norte, que não dá pra entender quase nada do que ele fala. Este aqui é o Oeste, que é meio chato, e tem um sotaque horrível, mas você logo se acostuma. E, por último, o soldado Leste, que, apesar de ser um idiota, prefere lutar em vez de falar, portanto, não se preocupe com ele. Somos todos bons homens, nenhum melhor, nenhum pior. Somos conhecidos como a Máfia de Euston.
Com o polegar, indicou um obelisco com quatro pedestais vazios na base.
— É lá que ficamos. Sabe, fomos ferroviários antes da guerra, então eles nos colocaram na frente da estação. Esse é o nosso alojamento. Pedestais de acordo com os pontos cardeais, daí os nomes. Venha, vamos sair da rua!
Ele levou George até o obelisco.
George olhou para o céu da noite, no qual a gárgula vermelha tinha desaparecido.
— Você acha que ela realmente se foi?
Sul agachou-se contra a pedra, com o rifle sobre os joelhos, apreciando a fumaça.
— Ela não vai se aproximar. Qualquer coisa, este aqui, o Oeste, entra em ação. Ele consegue alvejar o olho de um esquilo em plena corrida com a maior facilidade. Bem, ao menos é o que sempre nos conta, não é mesmo, Oeste?
Os outros soldados juntaram-se a eles e sentaram junto à base do monumento, com exceção do Leste, que parecia mais irascível do que os outros, preocupado em manter os olhos no céu na direção de Saint Pancras.
— Ela não vai voltar. Não volta porque sabe o que é bom para ela — concordou Oeste, acendendo o cigarro na bituca do cigarro do Sul.
George disse:
— O Artilheiro está em apuros. Preciso de ajuda.
Sul concordou:
— Todo mundo precisa de ajuda. Muito bem, filhote, por que você não começa nos contando o que está acontecendo?
E foi o que George fez, consciente dos três rostos interessados no que falava. Em poucas palavras, conseguiu descrever tudo o que tinha acontecido desde que seu pesadelo começara. Não o interromperam, mas ele notou que eles se entreolhavam em certos pontos da história. E quando contou sobre como o Artilheiro não tinha honrado sua palavra, e, em seguida, fora capturado pelo Caminhante, até o Leste desviou o olhar do céu noturno e olhou para George atentamente. Quando ele terminou, ficou com a sensação de, ao narrar toda aquela história, ter perdido mais tempo, algo que já não tinha.
Ele concluiu:
— E foi assim. Comecei a ajudar o Artilheiro, e agora tenho esses três duelos ou desafios para lutar também!
Sul disse:
— Oh, sim, você vai ter que lutar. Você não pode fugir disso. Se fugir, você já era. Essas listras no braço são as marcas da sua tarefa. Cada listra é diferente, assim como os desafios. E elas ficam se movimentando, certo?
George olhou para as deformações que subiam em direção ao cotovelo. Duas lentamente moviam-se para cima do braço, mas a de metal estava apenas formando um círculo apertado, como se não pudesse ir mais longe. Ele acenou que sim com a cabeça.
Oeste disse:
— Veja, pode ficar pior... Vai ser uma enorme poça de sangue se você deixar essas coisas chegarem ao coração.
— O que você quer dizer? — George perguntou, sabendo que iria odiar a resposta.
— Oras, provavelmente você vai morrer... Ou pior, rapazinho — Oeste falou sem rodeios, olhando para o menino pela fumaça do cigarro.
— O que é pior do que morrer? — perguntou George, em pânico.
Houve uma pausa. Sul e Oeste entreolharam-se por um momento.
— Você conheceu o Caminhante, certo? — Sul bufou, e arregalou os olhos como se nenhuma outra explicação fosse necessária.
Oeste explicou:
— Você só precisa enfrentar os três desafios e, uma a uma, essas três coisas vão desaparecer. E é por isso que você tem que resistir. Se não o fizer, vai perder de qualquer jeito, porque não vai conseguir impedir que essas coisas atinjam o seu coração. Entendeu?
George estava horrorizado. Suas tentativas de manter a cabeça tranquila não estavam funcionando.
Olhando para o rosto dos soldados, disse:
— Esperem, mas eu não terminei a luta com o Cavaleiro. Isso quer dizer que já estou condenado? Será que vou morrer?
Norte aproximou-se e pegou o braço de George. Empurrou a manga e fitou as marcas. Olhou para Sul, que deixou escapar:
— Bem, isso é uma questão de opinião. Ao que parece, você estava a ponto de perder a luta, mas não a abandonou. Foi a gárgula, aquela que você chama de Bica, que voou e tirou você de lá, não foi?
George concordou com a cabeça.
— Ótimo. Isso não é fugir. Foi uma “dádiva de Deus”...
Norte estalou os dedos, tentando achar a expressão que estava na ponta da língua.
— Uma salvação inesperada! — Sul limpou a garganta e olhou para um relógio que tirou do bolso. — Você não correu, é o que estou dizendo. Pior seria se você dissesse que foi por causa da chuva.
— Não entendi.
— Talvez você não entenda, mas o Último Cavaleiro vai entender. Acho que ele vai seguir você até que a luta termine de verdade. É o seu destino, companheiro. Seu primeiro duelo não acabou, apenas foi interrompido. Adiado, por assim dizer. Eu diria que você está no meio de uma batalha e que há mais duas pela frente. Olhe como a veia de metal começou a se mover, mas depois parou. Se você tivesse escolhido fugir, ela teria continuado a crescer até furar e dividir o seu coração, e aí você não estaria aqui nos contando a respeito. A veia principal está apenas dando voltas e mais voltas, marcando o tempo até que você reencontre o Cavaleiro e termine o duelo que vocês começaram. Mas esse não é o problema agora.
Ele bateu no visor do relógio.
— Esse é o problema.
George olhou para o relógio. Um frio lhe subiu pela espinha.
— Você está dizendo que não tenho mais tempo? Que o tempo do Artilheiro acabou? Estamos quase na virada do dia...
Norte disse:
— Sim, rapaz, é isso. Se o pedestal que ele ocupa estiver vazio perto da meia-noite...
Sul concluiu:
— O Artilheiro já era...
George sentiu a noite chegando à medida que um crescente desespero começava a dominá-lo.
— Mas o meu tempo acabou, nunca poderei...
Uma voz desconhecida o interrompeu:
— Você devia falar menos e ouvir mais, camarada.
Era Leste, que apontando para Oeste, perguntou:
— O que ele disse?
George reproduziu a conversa na cabeça, e lembrou-se da suave pronúncia do Oeste dizendo “se” na frase “se o pedestal que ele ocupa estiver vazio perto da meia-noite”...
Mas isso não fazia sentido...
Depois de um segundo ele entendeu.
— Se o pedestal dele estiver vazio quer dizer que...?
Norte sinalizou que sim com a cabeça e disse:
— Rapaz esperto!
George ficou imediatamente de pé. A urgência tomou o lugar do desespero.
— Quer dizer que se alguém tomar o lugar dele no pedestal, ele não vai morrer?
As quatro faces de bronze solenemente concordaram com ele.
— Bem, por que não...? É fácil... Vou fazer isso! — George disse, eufórico.
Sul balançou a cabeça.
— Ficar lá de pé, parado, não é fácil, filhote. Não é só ficar lá, de pé. Veja, há outras coisas, e...
— Tudo bem, seja o que for, vou fazer! — George ficou quase tonto, tal o alívio.
— Ninguém aqui duvida disso. É só que, ao chegar lá... Preciso avisá-lo sobre uma coisa. — Sul parou de repente e olhou para o relógio: — Oh, céus!!! Esqueça o que eu disse. A questão agora é outra.
— Qual?
O franco-atirador Sul mostrou-lhe o relógio. George começou a fazer um cálculo horrível na cabeça.
— Você é rápido na corrida?
Como não tinha mais tempo, George nem elaborou uma resposta. Apenas acenou com a cabeça e disparou em direção ao oeste. Lembrou-se, no entanto, de parar na esquina, por causa do trânsito, e aproveitou a pausa forçada de segundos para se virar e gritar um apressado “obrigado” por cima do ombro. E então, um espaço se abriu entre os carros e ele atravessou a avenida, pulou a grade de proteção central e continuou a corrida alucinada.
Estava correndo tão rápido, que nem viu o morador de rua perto de um portal acompanhá-lo com os olhos negros do Corvo.
George estava tão atento ao caminho até Hyde Park Corner, que não ouviu o mendigo dizer:
— Menino Fazedor correndo na avenida Euston na direção oeste.