Mão de Ferro
Caçada no tate
11
TODO O SANGUE NO CORPO de George estava obedecendo ao chamado da gravidade por estar pendurado de cabeça para baixo, o nariz preso aos tijolos da chaminé alta. Ele conseguia sentir o coração bater forte ao lutar uma batalha sem esperança, tentando manter o bombeamento normal dentro de seu corpo. Os ouvidos martelavam um chiado de percussão que foi ficando cada vez mais alto até ele ter certeza de que sua cabeça ia explodir com a pressão. Não ficava de ponta-cabeça desde pequeno. Tinha uma forte lembrança da mãe rindo e impedindo o pai de balançá-lo sobre uma pilha de folhas, e lembrou-se do alívio sentido quando o pai o virou de volta ao normal, e de como os dois caíram por cima da pilha e fizeram uma luta de folhas. Ele devia ter uns seis anos, e aqueles foram dias felizes, quando o riso de sua mãe era apenas riso, não uma forma de esconder algo.
Pensar na mãe era como lembrar-se de outra vida. Ele se perguntava se ela já estaria de volta ao país, se sabia que ele estava desaparecido. Devia saber. Em algum lugar lá fora ela estava procurando por ele. Ela tinha que estar.
Tentou pensar no que podia fazer para se safar, mas era difícil. Pequenos pontos negros começavam a dançar em sua visão, dali a pouco ficaria inconsciente. Foi então que a outra garra da perna da gárgula prendeu-se ao redor do pescoço dele, não com força, e então George sentiu ser virado para cima, ficando frente a frente com a enorme cabeça de gato da fera.
Os olhos de pedra da Bica pareciam penetrar nele conforme a pressão na sua cabeça diminuía e as manchas negras sumiam de sua vista. O coração ainda batia descompassado no peito, mas o barulho em seus ouvidos se aquietou, tornando-se um som grave e abafado ao fundo.
Uma sobrancelha felina elevou-se mais que a outra, sinalizando uma pergunta. A boca de pedra funcionou, tentando fazer uma palavra sair por detrás dos enormes dentes. A criatura conseguiu emitir um som, porém de um modo tão desajeitado quanto alguém tentando tirar uma espinha de peixe sem usar as mãos.
— Gack? — a gárgula pronunciou, e fez uma pausa, como se esperasse por uma resposta. Como George não disse nada, ela sorriu e pareceu tentar de novo, dizendo:
— Gowk?
Mais estranho do que ficar pendurado no topo de uma alta chaminé industrial nas garras de uma gárgula voadora era o fato de que a gárgula parecia estar tentando falar com ele.
George sabia que havia algo errado com aquilo. Ele sabia lá no íntimo.
— Por que você não está morta? — ele perguntou, a voz rude e decidida. Ao dizê-lo, percebeu que também queria saber por que não estava morto, por que aquele monstro não tinha estripado seus membros nem o derrubado para que se espatifasse no chão lá embaixo.
A Bica olhou para ele, e embora não tenha respondido, George ficou chocado ao ver que a fera dava de ombros. E quando algo de sete metros e asas abertas dá de ombros, tem-se o maior encolhimento de ombros que se pode imaginar.
De acordo com tudo que aprendera sobre cuspidos e estigmas desde que caíra naquela camada oculta de Londres, onde as estátuas andavam, falavam, voavam e lutavam, a Bica devia estar morta, de volta ao seu pedestal, para nunca mais se mover novamente. George vira o Artilheiro transformá-la em pedacinhos com algumas das últimas balas da sua arma. A gárgula era um estigma. Isso significava que ela não podia estar voando por aí, pois quando os estigmas eram danificados, não havia possibilidade de que voltassem à vida. Por outro lado, os cuspidos — como o Artilheiro — tinham um forte espírito reconstrutor que, em certos casos, podia trazê-los de volta da morte. Mesmo quando eram extremamente danificados, se conseguissem encontrar o caminho de volta ao seus pedestais originais até a meia-noite — período que o Artilheiro denominou “virada do dia” — podiam ser reanimados. Os estigmas não tinham o mesmo espírito forte dos cuspidos. Eles tinham um vazio em sua essência, essência esta marcada por inveja e malícia.
A Bica tinha sido estilhaçada bem na frente dos olhos de George. Isso queria dizer que ela não deveria mais ser uma ameaça.
Mas algo aconteceu e ela estava ali. O capturara com sucesso e agora o olhava cheia de expectativa. George não fazia ideia do motivo. A menos que...
Seu raciocínio foi clareando e ele se deu conta de que talvez soubesse o que a Bica queria. E era o que o Caminhante também desejava: a cabeça de dragão quebrada que estava no bolso dele.
Esse pensamento o animou. Um momento atrás ele não tinha esperança de sobreviver, achava que seu destino seria uma longa queda em direção ao chão. Mas agora ele tinha algo para trocar por sua vida. Não se importava de dar à gárgula o pedaço de estátua quebrada, não se a troca lhe permitisse viver para resgatar o Artilheiro e reencontrar Edie.
— Veja — ele disse de uma vez por todas. — Eu sei o que você quer. Eu tenho o que você quer. Ponha-me no chão e darei a você.
Levou as mãos até o bolso do casaco e rapidamente se deu conta de que não estava usando casaco algum. Lembrou-se de que o havia emprestado para Edie quando a chuva aumentara. Sua moeda de troca evaporara. Pensou com um aperto no peito que, sem a cabeça quebrada, lá se fora sua chance de chegar ao chão inteiro.
— Ah — ele esbravejou. — Droga!
— Goga? — ecoou a Bica de forma grosseira, com a cabeça ainda inclinada.
— Exatamente — a voz de George soava tão derrotada quanto ele se sentia.
— Gatamente?
— Sim — disse George. — Gatamente.
Sentiu que estava ficando histérico. Havia um enorme som crescendo dentro dele como uma maré, e não era um grito nem um berro. Era riso. Mas onde estava a graça em sua própria desgraça?
Explodiu numa gargalhada incontrolável. Não parou nem mesmo quando a Bica o agarrou com mais força, lançando-o do topo da chaminé para o vazio da noite. Lágrimas de alegria caíam de seus olhos enquanto ele voava pelos ares. Então ele viu uma lâmina de metal branco da Passarela Millenium abaixo dele, como se fosse um borrão conforme a gárgula passou voando baixo sobre o rio, em direção ao norte.
— Gatamente — ele engasgou e um pouco do riso saiu pela narina num ronco convulsivo, e a enorme cúpula branca da catedral de São Paulo aproximou-se à frente.
— Estou fegado...