Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 47 de 57

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Mão de Ferro

Como cair de um rio

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CONFORME O ARTILHEIRO ENGATINHAVA contra a corrente, sentia a vida voltar ao corpo. As mãos voltavam a ser mãos novamente, e não obstáculos pesados na parte final de seus braços. Conseguia pensar melhor também, como se camadas de tecido grosso tivessem sido removidas de seu cérebro.

Perguntou a si mesmo se aquele milagroso bem-estar significava o enfraquecimento do poder que o Caminhante exercia sobre ele, aumentando sua capacidade de cavar o caminho para o ar da atmosfera. Flexionou os músculos e tentou alcançar o teto do tubo. Mas de alguma forma, seus comandos estavam bloqueados entre a cabeça e os braços, que apenas ficavam onde estavam, e não atacavam a parte alta do tubo como ele queria.

Ignorou a decepção e continuou avançando.

O tubo cheio de água escura parecia continuar para sempre, e a ausência de pistas visuais tornou tudo ainda mais difícil de suportar. Em boa parte do tempo, o Artilheiro teve alucinações de que havia ficado sem peso e que estava engatinhando no teto do tubo; em outros momentos, sentia que o tubo se movia enquanto ele permanecia parado.

Então percebeu que era capaz de lutar contra esses sentimentos de desorientação. Precisava apenas se concentrar no que suas mãos estavam tocando conforme avançava, pois a textura das paredes do tubo era a única coisa que não se alterava. Parte do tempo era de tijolos, depois se transformava em curvas longas de pedra ou concreto. Em um certo estágio, a textura pareceu ser apenas de barro, e ele sentiu as pontas dos dedos deixando um sulco conforme seu corpo se contorcia para a frente. Imaginou a trilha que sua mão devia estar deixando na estrutura.

Durante muito tempo, sentiu que uma das paredes era de tijolos, e se perguntou se conseguiria calcular a distância percorrida pela contagem dos tijolos, já que seus dedos percebiam o espaço entre cada um, até que sentiu uma nova textura.

Essa nova textura era ininterrupta, sem nenhum tipo de relevo. Primeiro, ele pensou que fosse de concreto, mas rapidamente percebeu que era diferente. Era metálica.

O Artilheiro bateu as dobras dos dedos contra a parede, e a resposta em forma de vibração confirmou sua primeira impressão. Mas após avançar mais alguns passos, lembrou que o som de um tubo de metal, colocado na argila de Londres, seria abafado pela terra do entorno.

E foi então que concluiu que aquela resposta em forma de vibração seria apenas possível se não houvesse ar ou argila do lado externo do tubo. Seu primeiro instinto foi o de socar o teto, mas suas mãos não obedeciam aos seus comandos. Frustrado, chutou o chão do tubo.

Suas botas definitivamente desencadearam uma vibração bem maior. Ele repetiu, mais forte. E então sorriu.

— Ele não disse nada sobre cavar, disse?

Depois virou de costas e, usando os saltos com reforço metálico de suas botas militares, atacou o chão do tubo. Bateu os saltos repetidamente e com toda a força, sentindo nas pontas dos dedos, a resposta em forma de vibração. Cada pancada de suas botas causava o mesmo resultado, até que a vibração cessou. Houve um choque único e agudo, que fez a tubulação estremecer, mas ele não tinha ideia do que isso significava. Assim, pisou com toda a força de seu corpo uma última vez. Em vez do enorme impacto das botas, houve uma ligeira resistência e seus pés foram para baixo, talvez em direção ao fundo do tubo, e subitamente ele começou a cair...

Apesar de o Tyburn ser um dos rios escondidos de Londres, fica visível em um trecho. E era exatamente nesse trecho que o Artilheiro se encontrava: no lugar onde o rio cruza o Regent’s Canal em um aqueduto disfarçado de passarela, perto do Zoológico de Londres. E foi do fundo do aqueduto que o Artilheiro caiu, levado por sua cachoeira pessoal.

Ele experimentou um momento de euforia quando sentiu o ar, e depois foi surpreendido pela própria queda profunda dentro da água do canal. Diante das circunstâncias, a surpresa foi compreensível: não são muitas as pessoas que caem de um rio, e menos ainda as que caem de um rio para outro.

O Artilheiro emergiu do fundo lamacento do canal e respirou o ar da noite. Olhou de volta para a ponte da qual tinha acabado de cair e para o Tyburn, que derramava na água abaixo. Percebeu o que tinha acontecido, e sorriu. Então arremessou o pacote com as pedras do coração para fora do canal e saiu em seguida. Fez uma pausa apenas para colocar o capacete. Pegou o pacote, saltou por sobre uma cerca para dentro do Regent’s Park e começou a correr para sudeste.

O Artilheiro sabia que o dia já tinha virado e que ele já deveria ter morrido. Como isso não aconteceu, concluiu que alguém tinha ocupado seu lugar, e então decidiu que não perderia mais nem um minuto na volta para Hyde Park Corner.

Ele sorria enquanto corria.

Porque, é claro, seus instintos diziam-lhe exatamente que esse alguém era George, e onde ele estivesse também seria sua melhor chance de achar Edie antes que o Caminhante a alcançasse.

Os discos de vidro que tiniam no pacote serviam como um sinistro aviso: uma vez que uma fagulha ficasse no alcance do Caminhante, não havia escapatória.