Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 5 de 57

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Mão de Ferro

Pássaro preto

3

 

ALGO ESTAVA ERRADO. O Corvo sentia em seus ossos e penas enquanto sobrevoava o verde do Regent Park. Olhou para baixo e avistou a própria forma, duplicada pelo reflexo do lago abaixo.

Era uma visão ameaçadora, ele observou com um sorriso de satisfação a silhueta de um ser alado em meio à base de nuvens acima. No passado, as pessoas olhavam para cima de suas fogueiras ou arados e estremeciam diante do buraco negro no céu causado pelo pássaro preto. Aquela figura jogava um sombra maligna sobre suas vidas. Vê-lo significava um presságio, um mau presságio. Não que o Corvo desse muita atenção ao que as pessoas pensavam. Com relação à escala do tempo, elas sumiam muito rápido, então não valia muito a pena se importar com ofensas vindas de existências tão efêmeras.

Continuou voando. Ele sentia que algo estava errado por um motivo: não sabia onde o Caminhante estava. Na maior parte do tempo, a presença do Caminhante exercia uma força magnética no velho pássaro, que havia passado os últimos quatro séculos ou mais sob o seu controle.

Circulou sobre o teto abobadado da Biblioteca Britânica, voando mais devagar ao se aproximar da frente da construção, onde o desenho dos tijolos cor-de-rosa e brancos no chão tinha sido quebrado, formando uma área perfeitamente circular e afundada. Foi ali que o Corvo sentiu que tinha a melhor chance de encontrar o Caminhante, mas o círculo estava vazio.

Precisava achar seu mestre e as crianças que este o mandara caçar. Como o Corvo tinha um cérebro ótimo para memória, mas somente um par de olhos, decidiu que precisava de ajuda para procurá-los. Com isso em mente, ele voou para o sul, em direção à Praça Tavistock, um local repleto de árvores.

No centro da praça havia uma estátua de um homem magro, metade nu e com as pernas cruzadas, sentado no topo de um pedestal, este que tinha uma espécie de santuário arqueado no meio. Em cima do santuário havia algumas latas amassadas de cerveja e um frasco contendo cravos. A estátua tinha o colo cheio de flores. Na frente dela, sobre um dos bancos do parque, havia um mendigo sentado com sacolas plásticas cobrindo os sapatos e uma cabeleira no estilo rastafári. Ele se inclinou para tomar o que restava de uma lata de cerveja enquanto seus olhos azuis dominados pelo álcool encaravam o céu.

Ao se satisfazer tomando a última gota da lata, ele arrotou e se ajeitou confortavelmente no banco, entrando debaixo de uma jaqueta tão oleosa, que parecia ter sido mergulhada em óleo de motor em um passado distante.

O Corvo aterrissou atrás do banco em que o mendigo estava sentado. Esperou até que o homem terminasse um complicado espasmo de tosse ao cuspir um muco verde no chão, a gosma caía sobre seus pés cobertos por sacolas de compras.

O Corvo saltou no ombro do mendigo e segurou firme. Este ficou tenso, mas não demonstrou surpresa. Sua voz era indistinta e soava como um ruído parcialmente grave.

— O que você quer, pássaro? O que você quer com o Contador?

O Corvo aproximou-se mais da lateral da cabeça do mendigo, que começou a sacudir de forma imperceptível. Seus olhos se fecharam e o lábio superior desapareceu debaixo dos dentes superiores ao mordê-los, como uma criança concentrada. Ele parecia estar prestando atenção no barulho desarticulado que saía do bico do Corvo ao lado do seu ouvido. Ele concordava com a cabeça devagar. Por fim, disse:

— Veremos o que podemos ver.

O mendigo abriu os olhos e se levantou de forma abrupta, jogando a lata de cerveja vazia para debaixo da estátua da praça.

O Corvo saltou no ar e pairou por um instante, observando. O mendigo ainda tremia, mas agora seus olhos estavam diferentes. Se antes estavam pálidos e manchados pelo álcool, agora brilhavam pretos, completamente negros e sem partes brancas. Olhos de uma escuridão tão profunda quanto os do próprio Corvo.

E foi exatamente em um corvo que ele se transformou.

Por toda a cidade de Londres, debaixo das pontes e nos bancos dos parques, atrás de vielas e em albergues que cheiravam à sopa velha e desinfetante novo, olhos que antes estavam infeccionados e manchados de sangue, de bebida ou simplesmente de falta de esperança, mudaram subitamente. Homens que haviam fechado olhos normais ao irem dormir nos abrigos de portas de lojas acordavam com olhos de corvo e caminhavam pela rua, explorando a via. Mulheres solitárias, arrastando pés indecisos sob o peso de uma vida reduzida ao que podia ser carregado em velhas sacolas paravam, evitando o olhar das pessoas e endireitando os pescoços, também analisando a rua.

O Corvo havia falado, e por toda a cidade os olhos do Contador se abriram.