Mão de Ferro

Charlie Fletcher · Capítulo 18 de 57

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Mão de Ferro

A conversa descuidada custa vidas

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APÓS ULTRAPASSAR UMA FAIXA de pedestres, Edie seguiu ladeira abaixo, virando à direita para passar debaixo de um viaduto escuro. Ela avistou o formato triangular do pub do Frade Preto ao longe, unindo-se ao Tâmisa como a proa de um navio atracado.

Ela parou quando um táxi diminuiu a velocidade e passou na frente dela, subindo a ladeira. Depois que o veículo se foi, ela permaneceu parada, olhando para a fachada do pub, porém, o que ela observava não era o que estava ali, mas o que não estava. O relógio abaixo da fachada ainda estava parado em cinco para as sete, mas acima dele, onde a estátua do Frade Preto normalmente ficava como figura decorativa, havia só um pedestal vazio.

O Frade não estava lá. O espaço vazio encarava Edie como uma ameaça.

No trajeto que percorrera até ali, Edie tinha pensado bem nas perguntas que faria a ele, tentou imaginar quais seriam as respostas e de que modo ela o convenceria a ajudá-la. Cogitou várias situações que poderia ter de lidar quando chegasse, mas a única que não imaginou foi a ausência do Frade. Sem ele ali qualquer pergunta seria inútil. Edie também não tinha pensado numa maneira de entrar no pub sem o Frade para dar-lhe permissão.

Outro carro passou na frente dela e espirrou água da chuva em seus tornozelos, tirando-a de seu estado de paralisia.

— Certo — ela disse, batendo a palma da mão na sola do sapato de George novamente. — Vamos lá!

Ela correu pela rua e passou debaixo da ponte da ferrovia, bem no momento em que o trem passou de forma ameaçadora sobre sua cabeça. Ela se aproximou do edifício e diminuiu o passo, hesitando de súbito.

A porta do pub estava aberta, mas as luzes estavam apagadas. Quando se aproximou, viu dois construtores carregando uma pilha de tábuas, levando-as para a traseira de um furgão branco estacionado na rua. Ela se escondeu na lateral do prédio e ficou parada, tentando ocultar-se. Não ser vista era uma habilidade em que sempre fora muito boa. Às vezes pensava que as pessoas a estavam ignorando apenas, porém mais tarde acabou percebendo que elas tinham dificuldade de vê-la na maior parte do tempo, e isso acontecia porque, ao se concentrar, Edie conseguia tornar-se imperceptível. Assim que entendeu essa habilidade, passou a repeti-la com frequência. Ela sabia que não era invisível de fato, mas que algo fazia com que o olhar das pessoas fosse desviado dela.

Esperou os homens voltarem para dentro do pub, tirou o círculo congelado de vidro do mar do bolso e o examinou. Estava inativo e não denotava nada ameaçador, sem fogo interno ardendo para avisá-la da proximidade do perigo. Colocou a pedra de volta no casaco e ao fazer isso sentiu o volume pesado da cabeça de dragão no bolso. Ela soube então que o que quer que tivesse acontecido para fazer George desaparecer, era algo ruim, pois não havia lógica em ele fugir, deixando-a com um objeto tão precioso.

Antes que pudesse pensar mais sobre isso, os construtores voltaram, os joelhos deles estavam curvados diante do peso de uma segunda pilha de tábuas maiores. Passaram direto por ela sem notá-la. Edie nem respirava. Assim que o segundo homem passou, ela girou e entrou pela porta, na escuridão.

Ela já estivera ali antes. Percebeu que o interior do bar continuava igual, ainda coberto com panos e cheio de lixo amontoado pelos cantos. Edie ouviu a porta dos fundos do furgão bater e pés voltando na direção dela. Ergueu a ponta de um dos panos e enfiou-se debaixo dele. Segurou o fôlego mais uma vez e ouviu quando um homem voltou para a sala, pegou algo que retinia como uma caixa de ferramentas, apagou as luzes e então saiu novamente. Ela ouviu o barulho de uma chave virando na fechadura e deu-se conta de que a porta fora fechada. Relaxou por uma fração de segundo e respirou de forma lenta e superficial. Escutou o golpe surdo na porta lateral do furgão e o barulho do carro saindo no meio do trânsito da rua.

Ela ficou sem se mexer por mais cinco minutos, permanecendo agachada na sala escura, embaixo do pano sujo, ouvindo barulhos feitos por alguém ou qualquer coisa ali trancada com ela. Quando a completa ausência de som ou movimento se instalou, ela saiu debaixo da mesa e caminhou deliberadamente em direção ao bar. A sala estava abafada e muito quente. Tinha cheiro de operários e gesso molhado.

Tirou a jaqueta de George e a colocou sobre o balcão ao subir nele, girando as pernas por cima e ficando do lado do barman. Abaixou-se e examinou as caixas de papelão empilhadas de forma organizada, depois esticou a mão para tocar uma na qual havia algo escrito em cor-de-rosa, de dentro dela pegou alguns embrulhos com comida.

Alvoroçada por causa da fome, abriu logo um dos pacotes e mastigou um punhado de batatas fritas temperadas.

Fechou os olhos e permitiu-se o prazer momentâneo de apreciar o gosto e a sensação de estar comendo. Depois, voltou à realidade da situação.

— Tudo bem — disse com a boca cheia. — Venha até aqui. Precisamos conversar...

Nada além do silêncio foi a resposta obtida.

Ela abriu os olhos e levou a outra metade do pacote direto à boca, mastigando feliz por um momento. Engoliu e falou:

— Sério. Não me faça ir até aí atrás de você...

Silêncio. Ela procurou debaixo do bar e pegou uma garrafa de refrigerante. Colocou-a no abridor da parede interna do balcão e abriu a tampa sem olhar. Deu umas boas goladas para tirar a batata mastigada que ficara presa entre os espaços dos dentes. Depois, pôs a pesada garrafa de volta no bar.

— Oi, Tragédia. Preciso de umas respostas diretas.

Procurou não olhar no cubículo atrás de três pequenos arcos à direita. Ao ouvido treinado ficava inteiramente claro que era dali que todo o silêncio vinha.

— Sei que está aí.

Mais silêncio. No momento em que ia abrir a boca para falar novamente, uma voz esquivou-se por debaixo dos arcos.

— Não. Não estou!

O sotaque era 1 cockney. Edie escondeu o sorriso abrindo o segundo saco de batatas e levando mais um punhado à boca.

— Onde está o Frade?

— Ele não está.

— Vocês dois não estão aqui?

— Não. Sim. Er. Sim... Só que eu estou mais aqui que ele. Entendeu?

Uma cabeleira bronze ficou visível no alto de um dos arcos, pendurada de cabeça para baixo, e então o rosto também ficou visível, era Pequena Tragédia, com suas feições de criança travessa. Trazia nas mãos uma máscara.

— Estou entendendo agora — Edie disse secamente.

— Você está encrencada.

— Estou?

— Uma encrenca das grandes foi o que ouvi.

— Ouviu de quem?

— Não sei — o pequeno ser desceu até o chão para olhar para ela. — Há todo tipo de gente em um pub. Basta manter os ouvidos abertos para ouvir muita coisa.

— Que tipo de coisa?

Pequena Tragédia se escondeu atrás da máscara, depois tirou somente metade dela, piscando com o único olho visível.

— A conversa descuidada custa vidas.

Edie não fazia ideia do que ela estava falando.

— O que você quer dizer com isso?

— A conversa descuidada custa vidas. Você sabe.

— Não. Se soubesse não perguntaria.

— É o que dizem. O que costumavam dizer.

— Quem?

— Não sei. Eles. Todo mundo. Havia cartazes. Tinha um bem ali.

— Quando?

— Na guerra. Quando estavam soltando bombas e coisas assim. Uns fulanos. A Blitz. Você se lembra.

Edie percebeu que ele estava falando sobre a Segunda Guerra Mundial.

— A Blitz?

Pequena Tragédia pareceu satisfeita. O pequeno peito inflou-se na frente e ele concordou com a cabeça entusiasticamente.

— Isso mesmo. Você se lembra. O cartaz ficava ali. Você gostava dele.

— Eu não era viva durante a guerra. Não durante aquela guerra.

Os olhos da criança giraram para a esquerda e para a direita, depois focaram em Edie, o rosto denotava espanto.

— Não estava?

Edie balançou a cabeça negativamente.

— Nem minha mãe estava viva naquela guerra.

— Pensei que você...

— Tenho doze anos.

— Então você é mais velha do que eu. Quer dizer, eu acho que ainda não tenho doze.

Ele parecia estar confuso.

— Você parece ter dez — Edie falou. — Mas, na verdade, você sempre terá dez, não é?

— Terei?

— Terá. Estátuas não envelhecem. Você tinha dez na época da Guerra como tem dez agora. Mas eu nem tinha nascido. Nem minha mãe tinha nascido. Acho que nem minha avó...

A sobrancelha tornou-se ainda mais cerrada.

— Mas você gostou do cartaz. Tenho certeza de me lembrar disso.

Edie balançou a cabeça negativamente. Aquilo estava ficando ridículo.

— Nunca vi cartaz nenhum.

Pequena Tragédia a encarou de uma forma um pouco mais longa.

— Achei que sim. Eu...

— Não fui eu — Edie a interrompeu de forma ríspida. Não tinha tempo a perder. O menino pareceu ofendido e subitamente desmotivado. Levou a máscara às mãos e examinou os pés.

— Tudo bem.

O dedo do pé traçou um caminho no tapete.

— É que tenho visto tantas coisas por tanto tempo e guardo tudo comigo, sabe? Pra mim parece que está tudo interligado. Às vezes, me lembro de coisas que eu talvez não tenha visto, e vejo o que nem deveria lembrar. Tem tanta coisa na minha cabeça... Não consigo separá-las. Fica tudo misturado. Eu me sinto como se tivesse sido feito da forma errada, entende?

Uma leve corrente de vento passou por ali e fez remexer um jornal esquecido em cima de um banquinho. A estátua-criança esticou a mão e pegou a folha principal que foi erguida da pilha, passando a segurar a folha com uma expressão de surpresa. Em seguida, franziu a testa e fez uma bola de papel com as mãos, segurando-a com um sorriso nervoso.

A última vez que Edie tinha encontrado Pequena Tragédia, ele queria que ela usasse o seu poder — de sugar o passado da pedra e do metal — para tocar nele e ver se havia algo errado. Edie não fizera isso, mas mesmo de longe podia entender que ali se tratava de uma estátua diferente. Não podia saber se ele tinha sido feito da forma errada, ou para ser errado, contudo, a vontade que ele sempre apresentava de ser tocado por uma fagulha enquanto as outras estátuas fugiam do toque revelador fez Edie ficar curiosa. Imaginava que Pequena Tragédia fosse um cuspido, mas ao mesmo tempo suspeitava que ele tivesse uma natureza dupla, sendo também um estigma, o que fazia dele uma espécie de esfinge: metade humana e metade fantástica. Talvez fosse um estigma quando colocava a máscara, e cuspido quando estava sem ela.

Por ter tantas dúvidas, Edie preferiu não entrar no assunto. Tentou voltar ao que a trouxera até ali.

— Veja bem. Não tenho tempo para conversar. Preciso achar o Artilheiro e George. Nem sei por onde começar, mas preciso saber de uma coisa: o que há nesses espelhos?

A estátua pareceu perplexa novamente.

— Que espelhos?

Edie apontou para um espelho de cada lado do arco em que ele estava. Ficava um de frente para o outro, do lado de dentro das pilastras do arco. Ficar no meio deles, olhando de canto de olho, dava a impressão de que os reflexos nos espelhos não apenas emolduravam um ao outro, mas repetiam-se de forma infinita.

— Esses espelhos. Preciso saber sobre eles.

Pequena Tragédia coçou a nuca com a mão que ainda segurava a bola de jornal e mudou o peso do corpo de um pé para outro, evitando encarar Edie.

— Nada. São apenas espelhos, certo?

Edie deu um passo na direção dele. Ergueu os olhos e sorriu de forma brilhante, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Pequena Tragédia pareceu perturbado com a aproximação, não conseguindo evitar uma careta de irritação. Acabou dando de ombros.

— Somente espelhos. De verdade. Sem confusão. É isso que são...

Edie limpou a garganta. A pergunta que estava prestes a fazer era tão bizarra, que precisou tomar coragem para lidar com o medo de não ser entendida.

— Eles são daquele tipo de espelho em que se pode pisar dentro, não é?

— Pode o quê?

A cabeça da estátua inclinou-se de súbito e balançou de um lado para o outro antes de apertar os olhos como uma ave desconfiada.

Edie insistiu:

— Há espelhos em que se pode pisar dentro, não há? Você disse que havia outros lugares, outros “aquis”. Você disse que poderia me mostrar como chegar lá...

— Oooh, eu nunca! Que mentira!

Edie virou-se para ele, com o punho cerrado.

— Quem está mentido aqui é você. Pior do que mentindo, você está me escondendo o que sabe. Conte a verdade! Preciso saber sobre os espelhos, eu sei que eles não são comuns. Quando saímos daqui naquele dia, eu olhei e tudo estava desse jeito, com centenas de reflexos da mesma coisa distanciando-se, todos cópias uns dos outros — exceto por uma coisa.

Edie bateu com o dedo no espelho. Pequena Tragédia recuou um pouco quando a mão dela passou pelo seu ombro. Mas seus olhos seguiram a direção que Edie estava indicando.

— Agora não está lá. Esperava que estivesse, mas não está. Estava. Havia um que era diferente de todos os outros, e sabe por quê? — perguntou Edie.

— Não. Não quero saber, e tudo...

Ele começou a voltar para as sombras novamente. Dava para notar a forma nervosa como amassava a bola de papel com o punho. A voz de Edie estalou como um chicote, paralisando o menino:

— Tragédia! Fique aqui!

Edie o seguiu até o canto sombrio.

— Todos os espelhos eram idênticos uns aos outros, mas havia um jogado no chão, e do lado dele tinha uma faca e uma tigela. Eu achava que era só uma faca e uma tigela até vê-los novamente.

O peito de Pequena Tragédia subiu e desceu duas vezes. Os olhos dele giraram pela sala toda, procurando uma saída. Ou uma ajuda.

— Você os viu mais tarde? Essa tal tigela e faca?

O peito da estátua subiu pela terceira vez, como se ela estivesse se afogando.

Edie balançou a cabeça, como quem acaba de ter certeza de alguma coisa que desconfiava. O comportamento estranho de Pequena Tragédia só confirmava suas suspeitas. Ela sabia que estava prestes a saber de algo novo, algo poderoso.

Ele concordou com a cabeça de forma inflexível. Ela sabia pela estranheza bem perceptível da linguagem corporal dele que estava no limiar de algo novo, algo poderoso.

— Eu os vi de novo logo depois que aquele cara maligno, o Caminhante, tirou dois espelhos redondos do bolso e pisou em um deles. Eu os vi assim que ele desapareceu no espelho, levando nosso amigo com ele. Só que não eram uma tigela e uma faca comuns. Era a adaga do Caminhante e o capacete de lata do Artilheiro. Eles estavam no chão, e os dois espelhos mágicos pairavam no ar, um de frente para o outro por um momento, como um truque de magia, sem que ninguém os segurasse. Depois, houve um estalo e os espelhos, o capacete e a adaga desapareceram.

“Então, o que eu quero saber, o que preciso saber é: esses espelhos aqui são do tipo em que se pode pisar dentro? E, se são, por que eu vi o capacete e a adaga no chão antes de acontecer?”

— Er... — disse Pequena Tragédia. — Bem... Oh...

Os olhos dele procuravam pela sala toda.

— Você devia perguntar para ele. Ele tem as palavras. Eu só vejo as coisas mesmo. Pergunte ao velho Preto.

— Estou perguntando a você.

— Pergunte a ele.

— Ele não está aqui.

Pequena Tragédia olhou para o jornal e o apertou nas mãos. Depois, colocou-o de forma delicada no balcão. Edie então teve um lampejo de memória: o momento em que o viu pegar o jornal que se ergueu da pilha durante a rajada de vento, e só então se lembrou de que a porta lá fora estava fechada. Fechada. Trancada. De forma firme o suficiente para impedir a entrada de correntes de ar.

Pequena Tragédia fez uma careta novamente como se soubesse da percepção tardia de Edie.

— Er...

Edie sentiu os pelos de sua nuca eriçarem e sua mão instintivamente procurar a pedra de aviso em seu bolso. Uma voz estrondosa a fez congelar dos pés à cabeça.

— O pestinha está tentando dizer “Sim, ele está.”

Edie se virou, já sabendo o que iria ver.

Seu nariz ficou de frente para a barriga do Frade, esta imponente como um penhasco escuro. Conforme elevava os olhos para para vê-lo, ela não pôde deixar de notar que o rosto dele, que antes era feliz, agora parecia um trovão negro em um céu escuro e sombrio.

 

1 Cockney — sotaque típico dos habitantes da parte leste da cidade de Londres. (N.T.)